Sermão para a Festa do Santíssimo Corpo de Cristo
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 04 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Quando o povo de Israel, recém-liberto da servidão do Egito, se viu lançado na imensidão árida do deserto, faltou-lhe o pão, e murmurou contra Moisés. Então o Senhor fez chover do céu um alimento que os israelitas não conheciam, e que recolhiam cada manhã sobre a face da terra. Vendo-o, perguntavam uns aos outros: Manhu? O que quer dizer: Que é isto?(Ex. XVI, 15). Daí lhe veio o nome de maná. Por quarenta anos esse pão misterioso sustentou o povo na travessia, até que chegasse à terra prometida, à terra que mana leite e mel.
Mas aquele maná, meus caros, por mais prodigioso que fosse, era apenas sombra e figura; pois os hebreus o comeram no deserto, e morreram. Hoje, na festa do Santíssimo Corpo de Cristo, nossa santa Romana Igreja nos convida a contemplar o verdadeiro Maná, aquele de quem o profético alimento do deserto era somente o anúncio: o Pão vivo que desceu do céu, o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, realmente presentes sob as espécies sacramentais. E sobre este Pão dos Anjos um dos hinos dessa festa, composto por São Tomás de Aquino, expressa um verdade que deve nos consolar e nos alegrar: O sacrum convivium… et futurae gloriae nobis pignus datur: Ó sagrado banquete… e nos é dado o penhor da glória futura.
Penhor, meus caros, é uma palavra de peso. Na linguagem dos homens, o penhor é a garantia que se entrega antecipadamente para assegurar uma promessa; o sinal já depositado de um bem que ainda há de vir por inteiro. Ora, dizer que a Eucaristia é o penhor da glória futura é afirmar que, ao recebermos o Corpo do Senhor, recebemos já, em nossa carne mortal, a garantia e o gérmen da vida eterna. Não é apenas um símbolo distante daquela glória: é a própria substância dela, mas antecipada. Afinal, caríssimos, quem comungamos? Comungamos o mesmo Cristo glorioso que reina nos céus, o mesmo corpo que ressuscitou ao terceiro dia e que jamais tornará a morrer.
Por isso ensinava Santo Inácio de Antioquia, discípulo dos Apóstolos, que a Eucaristia é medicina immortalitatis, o remédio da imortalidade, o antídoto para não morrermos, mas vivermos eternamente em Jesus Cristo. O próprio Senhor o prometeu claramente: qui manducat hunc panem, vivet in aeternum, quem come deste pão viverá eternamente (Jo. VI, 59). Eis a diferença abissal entre as duas mesas. Do maná antigo disse o Senhor: patres vestri manducaverunt manna in deserto, et mortui sunt, vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram (Jo. VI, 49); mas deste novo Pão proclama: Ego sum panis vivus qui de caelo descendi, Eu sou o pão vivo que desceu do céu (Jo. VI, 51). O maná sustentava a vida do corpo por um dia; a Eucaristia sustenta a vida da alma para a eternidade. Aquele alimentava peregrinos que ainda haveriam de morrer às portas da terra prometida; este nos conduz, se O recebermos dignamente, à verdadeira Pátria, à Jerusalém celeste, à terra em que verdadeiramente mana leite e mel.
E como nos alimenta este Pão na travessia do deserto desta vida? Alimenta-nos, meus caros, com os próprios méritos infinitos da Paixão do Senhor. Pois a Eucaristia não é outra coisa senão o fruto do sacrifício do Calvário, perpetuado incruentamente sobre os nossos altares e aplicado à alma de cada fiel. Quando recebemos a Sagrada Comunhão, é o sangue derramado na Cruz que se nos comunica, é o preço de nossa redenção que se nos entrega, é toda a riqueza da obra redentora que se deposita em nosso peito. O Lauda Sion, sequência que nossa Santa Madre Igreja canta hoje, o proclama com clareza: Ecce panis Angelorum, factus cibus viatorum, eis o pão dos Anjos, feito alimento dos viajantes. Alimento dos viajantes, isto é, dos que ainda peregrinam; viático para a travessia.
Diante de tão alta dádiva, que outra resposta nos cabe senão a adoração? Se este Pão é o próprio Deus vivo, escondido sob o véu dos acidentes eucarísticos, então toda a nossa alma deve prostrar-se diante d’Ele. É isto que fizemos solenemente na procissão desta manhã: acompanhamos pelas ruas, em triunfo público, o nosso Rei e nosso Deus, levado no ostensório como num trono. Não nos envergonhemos desta fé diante do mundo. Adoramos com as palavras benditas São Tomás: Adoro te devote, latens Deitas, adoro-Te devotamente, ó Divindade escondida; e cremos firmemente naquilo que os sentidos não alcançam: visus, tactus, gustus in te fallitur, sed auditu solo tuto creditur, a vista, o tato e o gosto enganam-se a Teu respeito, mas crê-se com segurança só pelo ouvido, isto é, pela palavra de Cristo, que não pode mentir.
Mas eis, meus caros, que nessa alegria eucarística não podemos ignorar o tom da advertência, sobretudo nas palavras do Apóstolo que ouvimos na epístola. Pois aquele mesmo povo que foi alimentado milagrosamente pelo maná cometeu contra Deus o pecado horrendo da ingratidão. Cansados do alimento celeste, os israelitas começaram a murmurar e a suspirar pelas comidas da escravidão: recordamur piscium quos comedebamus in Aegypto gratis: in mentem nobis veniunt cucumeres et pepones, porrique et cepe; lembramo-nos dos peixes que comíamos de graça no Egito; vêm-nos à mente os pepinos, os melões, os alhos-porós e as cebolas (Núm. XI, 5). E, enojado do maná, dizia o povo que a sua alma estava ressequida e que nada mais viam os seus olhos senão o maná. Que monstruosa ingratidão! Tendo nas mãos o pão dos Anjos, suspiravam pelas cebolas dos escravos.
Examinemos, pois, se não há entre nós algo desta mesma ingratidão. Quantas vezes, meus caros, nos aproximamos da Sagrada Mesa com a alma enojada do maná, isto é, com o coração entediado das coisas de Deus e secretamente voltado para as cebolas do Egito, para os prazeres e as vaidades do mundo do qual deveríamos ter saído? Há quem comungue por hábito, maquinalmente, como quem cumpre uma formalidade vazia; quem se aproxime do altar com o pensamento disperso, sem um instante de recolhimento, sem fervor, sem amor, sem considerar advertir Quem vai receber. Há a comunhão protocolar, por respeito humano, temendo-se mais o olhar do próximo do que o juízo severo de Deus. Há a comunhão automática, fria, irreverente, na qual o corpo se move e a alma dorme. Digamo-lo com toda a firmeza: tais comunhões, ainda quando não cheguem a ser sacrílegas, são verdadeiramente indignas da majestade d’Aquele que recebemos, e atraem, em vez de um aumento da graça, a tibieza e o castigo de tão grande dom desprezado.
Mas há um mal incomparavelmente mais grave, diante do qual toda alma cristã deveria conceber santo horror: a comunhão sacrílega. Sacrílega é a comunhão daquele que recebe o Corpo do Senhor em estado de pecado mortal, sem se ter primeiro reconciliado pela confissão. E sobre esse crime o Apóstolo São Paulo pronuncia palavras terríveis, que jamais devemos esquecer: quicumque manducaverit panem vel biberit calicem Domini indigne, reus erit corporis et sanguinis Domini; todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor (I Cor. XI, 27); qui enim manducat et bibit indigne, iudicium sibi manducat et bibit; pois quem come e bebe indignamente, come e bebe a própria condenação (I Cor. XI, 29). Réu do corpo e do sangue do Senhor! O comungante sacrílego coloca-se na fileira dos que crucificaram o Senhor; renova, quanto está nele, a traição de Judas, que mergulhou a mão no mesmo prato que o Mestre e logo saiu para a noite a vendê-Lo.
Imaginemos, meus caros conspícuos, a enormidade desse crime. Receber sacrilegamente a Jesus é ofendê-Lo frente a frente, na própria hora em que Ele vem a nós com infinito amor na renovação incruenta de seu sacrifício. É como desferir-Lhe uma bofetada no rosto no instante mesmo do abraço; é insultá-Lo na cara enquanto Ele se entrega; é dizer-Lhe, com o gesto mais ímpio que existe: recebo-Te no corpo e expulso-Te da alma. Que diríamos de um homem que, convidado à mesa de um rei, lhe cuspisse no rosto à frente de toda a corte? Pois muito pior faz quem comunga em pecado mortal, porque não a um rei da terra, mas ao Rei do céu, ao próprio Deus, é que assim ultraja. Por isto nossa Santa Madre Igreja sempre lembra e adverte a seus filhos que não ousem aproximar-se da Sagrada Mesa sem antes purificar a consciência de toda culpa grave no tribunal da Penitência.
Compreendamos, pois, de uma vez por todas: não se pode servir a dois senhores. Nemo potest duobus dominis servire; ninguém pode servir a dois senhores (Mt. VI, 24). Não se pode comer ao mesmo tempo à mesa de Cristo e à mesa do mundo, do pão dos Anjos e das cebolas do Egito. Quem deseja comungar dignamente o Senhor deve primeiro repudiar o Egito, romper com o pecado, expulsar do coração os ídolos da carne, da vaidade e da soberba.
Vejamos, pois, meus caros, quão necessária se torna a devida preparação para a Sagrada Comunhão. A primeira de todas, a indispensável, é a do estado de graça: que ninguém que tenha sobre a consciência um pecado mortal se aproxime do altar sem ter passado primeiro pelo confessionário. Esta é lei gravíssima, da qual ninguém se dispensa. Mas não basta a pureza da alma; convém também a pureza do corpo, pela observância do jejum eucarístico, e, sobretudo, a pureza da intenção e o fervor do coração, como bem ensina o Catecismo Romano.
Antes de recebermos o Senhor, recolhamo-nos uns instantes. Despertemos a fé, dizendo à nossa alma: vou receber o meu Deus, o mesmo que nasceu de Maria, que padeceu por mim, que reina nos céus. Despertemos a esperança, certos de que neste Pão recebemos o penhor da glória. Despertemos sobretudo a caridade, o amor ardente Àquele que vem a nós, e a humildade do centurião, repetindo triplamente com nossa Santa Romana Igreja: Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbo, et sanabitur anima mea; Senhor, não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e a minha alma será salva.
E não pensemos que tudo termina no instante em que recebemos a Hóstia santa. Pelo contrário: depois da comunhão começa o momento mais precioso, o da ação de graças. Pois enquanto perduram em nós as espécies sacramentais, Nosso Senhor está corporalmente presente em nosso peito como num sacrário vivo. Não há na terra momento mais sublime nem audiência mais íntima com Deus. Que pena, então, ver almas que, mal receberam o Senhor, já se distraem, olham em redor, e ao deixar a igreja parece que nada de extraordinário houvesse sucedido!
Imitemos antes os santos, que prolongavam longamente a sua ação de graças, conversando com o Hóspede divino. Adoremo-Lo; agradeçamos-Lhe o imenso dom; ofereçamo-Lhe as nossas misérias e os nossos propósitos; peçamos-Lhe as graças de que necessitamos para nós e para os que nos são confiados. Pois de nada serviria recolher o maná para logo o lançar fora; assim, de pouco aproveita comungar se não deixarmos que o fruto da comunhão frutifique na alma pelo recolhimento e pela gratidão.
Concluamos, caríssimos. Hoje toda a Santa Igreja se prostra diante do seu Deus oculto no sacrário e O leva em triunfo pelas ruas, proclamando ao mundo a sua fé no verdadeiro Maná descido do céu. Façamos nossa esta fé e este amor. Repudiemos para sempre as cebolas do Egito, isto é, o pecado, as seduções do mundo e o príncipe deste Mundo; aproximemo-nos da Sagrada Mesa com a alma limpa, o coração fervoroso e a adoração devida; e prolonguemos em piedosa ação de graças o nosso encontro com o Senhor.Assim, alimentados na travessia deste deserto pelo Pão dos fortes, pelos méritos da Paixão que ele nos comunica, havemos de chegar um dia, sãos e salvos, à verdadeira terra prometida, à Jerusalém celeste, terram fluentem lacte et melle, à terra que mana leite e mel, onde já não pela fé, mas face a face e por toda a eternidade, contemplaremos e amaremos Aquele que aqui recebemos sob o véu do sacramento.


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