Sermão para o VI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 05 de julho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Eis que hoje nossa Santa Romana nos coloca diante de uma cena no deserto. Uma grande multidão segue Nosso Senhor há três dias, e nada tem para comer. Não são horas, meus caros, mas dias inteiros de fadiga, de fome e de sede, sob o sol que abrasa aquelas paragens desoladas; e, contudo, ninguém se retira. Todos permanecem. É então que o coração do Salvador se comove, e a compaixão irrompe de seu divino Coração: Misereor super turbam, quia ecce jam tríduo sústinent me, et non habent quod mandúcent (“Tenho compaixão desta multidão, porque eis que há três dias permanecem comigo e não têm o que comer”). Reparemos bem, caríssimos: aquela gente tinha fome de Deus, e por isso aceitou a fome do corpo; aceitou o deserto para não abandonar a Cristo. Não pediram nada; nem sequer se queixaram. Foi Nosso Senhor quem, sem que lho rogassem, se antecipou à sua necessidade, porque tal é o modo de Deus: amar primeiro, e prover antes que peçamos. Eis precisamente o que o homem moderno já não mais compreende, e é sobre esta cegueira que hoje devemos meditar. Pois o homem moderno tem horror ao sacrifício: quer o pão, mas recusa o deserto; quer a consolação, mas foge da cruz que a precede; quer os frutos do Calvário, mas sem subir ao Calvário. E, todavia, meus caros, não há outro caminho para a mesa da comunhão senão o que passa pelo altar.
Consideremos, em primeiro lugar, o gesto do Senhor. Tomando os sete pães, grátias agens fregit (“dando graças, partiu-os”) e entregou-os aos discípulos, para que os distribuíssem. Não passemos por cima destas palavras como quem apenas narra um prodígio antigo. Dar graças, partir, repartir: são os mesmos gestos que Nosso Senhor repetirá no Cenáculo e consumará no Calvário. O pão que sustenta o viajante é, desde já, a figura de um pão maior, o pão partido, o pão do Sacrifício, a Sagrada Eucaristia, que só existe porque houve uma Vítima imolada. Não há, meus caros, mesa sem altar; não há banquete sem imolação. E é este o bem supremo que nossa Santa Madre Igreja hoje nos faz pedir na coleta, quando invoca ao Deus virtútum, cuius est totum quod est óptimum (“Deus dos exércitos, a quem pertence tudo o que é ótimo”). O ótimo, o melhor de todos os bens, não é uma coisa entre as coisas: é o próprio Cristo, entregue por nós sob as espécies do pão. E porque nos ama, não nos despede famintos; não nos deixa desfalecer na estrada, ne defíciant in via(“para que não desfaleçam pelo caminho”). Toda a nossa peregrinação terrena é este deserto; e Deus, que conhece a nossa fraqueza, providenciou o alimento que nos há de sustentar até à pátria celeste. Ademais, é nesse sentido que os Padres notam o número dos dias de aridez desértica com Nosso Senhor: são três dias permaneceram com Ele aqueles famintos, três dias em que o Senhor havia de repousar no sepulcro antes de ressurgir. Quem persevera com Cristo na provação de seus três dias, isto é, quem não O abandona na hora escura do sofrimento, esse mesmo há de ser saciado à mesa da vida. A fome sofrida ao lado do Senhor não é castigo, meus caros: é o preço bendito de um alimento que os fartos deste mundo jamais provarão.
Mas advirtamos, em segundo lugar, que este Pão não se recebe impunemente. São Paulo, na epístola de hoje, recorda-nos a condição para dele nos alimentarmos: vetus homo noster simul crucifíxus est (“o nosso homem velho foi crucificado juntamente com Ele”), para que sejamos, conclui o Apóstolo, mortui quidem peccáto, vivéntes autem Deo (“mortos, sim, para o pecado, mas vivos para Deus”). Eis a lei da vida cristã: o alimento supõe uma morte prévia. Para que o novo homem seja nutrido, é necessário que o velho homem seja crucificado. Ora, aqui reconheçamos, com dor, o mal de tantos que se dizem católicos e todavia permanecem atrelados ao mundo, dependentes do mundo, escravos do mundo. Chamemo-los pelo seu nome: são os católicos mundanos. Não querem morrer a si mesmos; recusam o jejum, a mortificação, a penitência; e, porque não morrem, também não vivem. Ou já não se deixam alimentar por Cristo, e do altar se afastam com o coração vazio; ou, o que é pior, aproximam-se dele sem temor e sem reverência, tratando o Santíssimo Sacramento como coisa comum, comungando o Corpo do Senhor com a mesma leviandade com que se toma o pão à mesa. Querem, numa palavra, a comunhão sem a cruz, o banquete sem o altar. Mas quem despreza o deserto não merecerá a maná. E não pensemos, meus caros, que este mal é dos outros e não nosso. Interroguemos cada um a própria consciência: com que disposição me aproximo da Sagrada Mesa? Preparo-me pela confissão, pelo recolhimento, pela ação de graças, ou venho por hábito, distraído, sem que morra em mim, ao menos um pouco, o homem velho? Porque a mesma multidão que hoje segue o Senhor famélica somos nós, se com ela quisermos perseverar; mas somos também aqueles que, ao primeiro cansaço, se dispersam pelas cidades do mundo, em busca de um pão que não sacia.
E chegamos, meus caros, ao ponto que mais sério. Ensinava Santo Agostinho que duas cidades foram edificadas por dois amores: amor sui usque ad contémptum Dei, amor Dei usque ad contémptum sui (“o amor de si até ao desprezo de Deus, e o amor de Deus até ao desprezo de si”). A coleta pede-nos hoje exatamente o segundo destes amores, e o oposto do primeiro: ínsere pectóribus nostris amórem tui nóminis (“insira em nossos corações o amor de teu nome”). Notemos o verbo: inserir, enxertar. O amor de Deus não brota espontaneamente do velho tronco do homem velho; é preciso que a mão divina o insira, cortando primeiro o ramo estéril do amor-próprio. Pois bem: quando o homem, em vez de se deixar enxertar, se coloca a si mesmo no centro, o que sucede? Sucede que ele fabrica um culto à sua própria medida. E não é este, acaso, o drama que temos visto desde a reforma litúrgica? Fabricou-se artificialmente uma liturgia voltada para o homem, para a assembleia que a si mesma se contempla, se festeja e se aplaude, para substituir a liturgia católica, do culto a Deus, dos fiéis que se prostram diante do Sacrifício. É culto da religião do homem que se fez deus que tentou tomar o lugar do culto da religião de Deus que se fez homem. O culto deixou de ser a adoração devida a Deus, para tornar-se celebração da comunidade reunida. Já se não olha o altar, mas os rostos uns dos outros; já se não teme o mistério, mas se aprecia o espetáculo; já se não busca a Deus, mas o conforto de uma reunião calorosa. E, sob o pretexto de aproximar a Liturgia do homem, dessacralizou-se o que era santíssimo, silenciou-se o que era sagrado, e apagou-se aquele temor reverente sem o qual não há verdadeira adoração. Não nos enganemos quanto à gravidade disto: tal culto do homem é, na sua raiz, blasfemo, porque rouba a Deus a glória que só a Ele pertence e a transfere para a criatura. O Papa Pio XII, na Mediator Dei, já nos advertira de que toda a Liturgia se ordena, antes de mais, à glória de Deus, e não ao aplauso dos homens. Voltemos, pois, os olhos ao Evangelho: os discípulos apenas distribuem o pão que de Cristo receberam. O ministro não é dono nem protagonista; é servo que reparte um dom que não é seu. Quando o servo se faz senhor, e a mesa se faz palco, a fome verdadeira fica por saciar; a fome se tonar insuportável até o desfalecimento do famélico.
Concluamos, meus caros, com a escolha que se nos impõe, a mesma do antigo Israel. Podemos permanecer no deserto com Cristo, aceitando a fome e a fadiga, para sermos por Ele alimentados; ou podemos voltar às cebolas do Egito, isto é, aos gozos fáceis do mundo, e perecer de fome espiritual em meio à abundância aparente de prazeres. Recordemos que, saciada a multidão fiel, sústulérunt quod superáverat de fragméntis, septem sportas (“recolheram das sobras dos fragmentos, sete cestos”). Sete cestos que transbordam: eis a abundância que Deus reserva aos que não temem o sacrifício. Notemos a divina economia: Nosso Senhor não multiplica os pães antes que a multidão tenha perseverado, mas depois; primeiro os três dias de fome, e só então a fartura sem medida. Assim é sempre na vida da graça, meus caros: a consolação não precede o sacrifício, mas o segue; é seu fruto, e não seu preço. A Ele, portanto, peçamos que reavive em nós a fome reta, isto é, a fome de Deus, e não a fome de nós mesmos. Alimentemos essa fome pela adoração diante do Santíssimo, pela comunhão devotamente preparada e pela reparação diante de tanto desprezo que hoje se comete contra a Eucaristia. E façamos nossa, enfim, aquela súplica de nossa Santa Romana Igreja que deve ser nossa também: que o Deus dos exércitos enxerte em nós o amor de seu nome, nutra o que há de bom em nossas almas e, pelo zelo da piedade, guarde até ao fim aquilo que houver nutrido.


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