[Sermão] Quem somos e quem Deus quer que sejamos: a verdadeira santidade

Giovanni Serodine Christ Among the Doctors

Sermão para o V Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 28 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Há no Evangelho de hoje uma firme admoestação que devemos meditar. Diz o Senhor: Nisi abundáverit justítia vestra plus quam scribárum et pharisæórum, non intrábitis in regnum cælórum (“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”). Detenhamo-nos, meus caros, diante do peso destas palavras. Os escribas e fariseus não eram homens negligentes na religião. Pelo contrário: jejuavam, pagavam o dízimo até das mais miúdas ervas da horta, conheciam a Lei palavra por palavra e cercavam-na de mil preceitos para que nem por descuido fosse ela violada. Eram, aos olhos do povo, os observantes por excelência. E todavia o Senhor declara que essa justiça não basta, que é preciso uma justiça que a exceda, sob pena de sermos barrados à porta do Reino. Como pode ser isto? Como exceder quem aparentemente já cumpria tudo?

A resposta, meus caros, não está em acrescentar mais um preceito à longa lista que eles já observavam. Não se trata de fazer mais do mesmo. Trata-se de algo que lhes faltava por dentro, e sem o qual toda a observância exterior se torna, como dirá Nosso Senhor noutro lugar, semelhante aos sepulcros caiados: brancos e formosos por fora, mas podres por dentro. Eis a pergunta que há de guiar toda a nossa meditação: em que consiste essa justiça superabundante que abre as portas do Céu?

Reparemos, caríssimos, antes de tudo, no modo como o Senhor prossegue. Tomando o quinto mandamento, non occídes(“não matarás”), Ele não o abranda, mas o aprofunda: quem se irar contra o seu irmão já é réu de juízo. Vejamos, meus caros, o que aqui se passa. A Lei ia outrora até à mão que feria; o Senhor a faz descer até ao coração que odeia. O homicídio não começa no golpe: começa na ira que se alimenta em segredo, no rancor que se acaricia, no desprezo que se nutre pelo irmão. A justiça da nova aliança não se contenta com as mãos limpas: quer um coração limpo.

E aqui, meus caros conspícuos, descobrimos a primeira deformação da qual devemos guardar-nos. É a tentação de reduzir toda a vida cristã a uma fachada, a um conjunto de preceitos cumpridos e proibições respeitadas, como quem veste por fora uma roupa que não corresponde ao que vai por dentro. O fariseu era exatamente isto: um homem cuja religião lhe ficava na pele e não lhe chegava à alma. E não pensemos, meus caros, que este perigo morreu com os fariseus. Há quem imagine que ser católico se resume a um certo modo de vestir (que não se resume à virtude da modéstia mas muitas vezes numa excentricidade que beira o cosplay), à manifestação externa certas opiniões corretas, à defesa acalorada de pautas (por mais justas que estas sejam), e nada mais. Ora, pode-se ter tudo isto e ser, ainda assim, um sepulcro caiado. Pode-se ostentar todos os sinais exteriores da fé e estar por dentro vazio de caridade. Não é a aparência que nos santifica, mas o que se passa no santuário escondido da alma.

Que é, então, esse “mais” que o Senhor nos pede? Que justiça é esta que excede a dos fariseus? Meus caros, é a caridade. É o amor de Deus derramado na alma, que ordena toda a nossa vida ao seu verdadeiro fim. E é precisamente isto o que nossa Santa Romana Igreja nos faz pedir na coleta deste domingo: infúnde córdibus nostris tui amóris afféctum (“infunde em nossos corações o afeto do Teu amor”). Notai bem o verbo: infúnde, derrama. Não pedimos a Deus que nos ajude a fabricar o amor com as nossas próprias forças, como quem ergue um edifício à custa de suor; pedimos que Ele o infunda, que o derrame do alto, porque a caridade é dom seu antes de ser obra nossa. Foi o que disse São Paulo: cáritas Dei diffúsa est in córdibus nostris per Spíritum Sanctum, qui datus est nobis (“o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”).

A caridade, ensina-nos Santo Tomas, é a virtude que nos une a Deus como ao nosso último fim, e por isso é a forma e a raiz de todas as outras virtudes. Quem a possui não obedece como o escravo obedece ao senhor, por temor do castigo, mas como o filho ama o pai e o amigo busca o amigo. Eis, meus caros, toda a diferença entre a justiça do fariseu e a justiça do santo. A prática da nossa fé não é a adoção de preceitos e proibições arbitrárias, como se Deus fosse um legislador caprichoso a impor-nos cargas sem sentido. A prática da fé é a busca do bem supremo, que é o próprio Deus, e da felicidade eterna, que é a nossa união com Ele. Os mandamentos não são muros que nos aprisionam: são o caminho que nos conduz à pátria. E quem ama não pergunta quão pouco lhe é lícito fazer, mas quão muito ele pode dar.

E o Senhor leva esta exigência até ao próprio altar. Si ergo offers munus tuum ad altáre, et ibi recordátus fúeris quia frater tuus habet áliquid advérsum te, relínque ibi munus tuum ante altáre, et vade prius reconciliári fratri tuo (“Se, pois, fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”). Pesemos bem, meus caros, a gravidade destas palavras. Deus prefere, por assim dizer, esperar pela nossa oferta a recebê-la de mãos que guardam rancor. Não há culto que substitua a caridade; não há liturgia, por mais perfeita nos seus ritos, que agrade a Deus se o coração que a oferece está podre pelo ódio em seu interior. Eis novamente a justiça que excede: ela não separa o amor de Deus do amor do próximo, porque ambos são um só amor.

Por isso a epístola de hoje, tirada do Príncipe dos Apóstolos, descreve-nos os frutos concretos deste coração transformado: refrear a língua do mal, não devolver injúria por injúria mas antes bendizer, buscar a paz e segui-la, inquírat pacem et sequátur eam (“busque a paz e siga-a”). Vejamos que não são imposições vindas de fora: são o transbordamento natural de uma alma que ama. Quem tem caridade no coração não precisa que lhe ordenem bendizer o inimigo; ele o bendiz porque assim lho pede o amor que inflama sua alma; porque assim faz Deus que habita seu interior pela graça santificante.

E agora, meus caros, cheguemos ao ponto que mais importa entender, porque dele depende a paz das nossas almas. Esta transformação interior, esta justiça que excede, não consiste em deixar de ser quem somos para vestir um personagem que não somos. Há um princípio luminoso na doutrina de São Tomás que devemos guardar como um tesouro: gratia non tollit naturam, sed perficit (“a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa”). A graça não nos arranca a nós mesmos; ela toma a pessoa concreta que cada um é, com os seus gostos, a sua história, as suas habilidades e até as suas limitações, e a transfigura por dentro.

A conversão, portanto, não é assumir um personagem nem anular a própria personalidade. Quantas vezes, meus caros, imaginamos que tornar-nos santos seria tornar-nos uma outra pessoa, diferente daquela que somos, mais conforme a um certo ideal abstrato que trazemos na cabeça! É um engano. A santidade não nos faz outros: faz-nos plenamente nós mesmos, ela nos faz ser quem Deus quer que sejamos. Olhai para os santos do Céu: que diversidade admirável! O temperamento ardente de São Jerônimo, a alegria transbordante de São Francisco, a serenidade vasta e ordenada de São Tomás, o ímpeto missionário de São Francisco Xavier. Em cada um deles a graça transfigurou um indivíduo distinto, e nenhum deixou de ser quem era. A graça não apaga a individualidade própria de cada alma; antes a faz resplandecer.

Daí se segue uma verdade que muito nos pode consolar: a verdadeira felicidade não está em imaginar que deveríamos estar noutro lugar, fazendo outra coisa, sendo outra pessoa. Não está na fuga perpétua de si mesmo. Está em deixar a graça trabalhar precisamente aqui, no homem ou na mulher concreta que cada um é, e não num ideal de nós mesmos que jamais existiu senão na nossa imaginação. Longe de nós, padres, nos erigirmos em santos e modelos de santidade, mas os senhores podem muito bem ver como cada um dos padres da capela tem seu temperamento, seus gostos, suas habilidades, suas limitações, e todos nós professamos e ensinamos a mesma fé, a mesma moral, buscamos a mesma santidade, e buscamos guiar os senhores à mesma santidade. Sem fachada, sem cosplay de catolicismo. Sem programação de robôs.

E qual é o fruto desta transformação, meus caros? É a paz. Não uma paz qualquer, mas aquela que o Senhor prometeu na véspera da sua Paixão: pacem meam do vobis; non quómodo mundus dat, ego do vobis (“a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”). O mundo promete uma paz que depende de tudo correr bem, de termos a aprovação dos outros, de evitarmos o cancelamento, da uniformidade no jeito de ser, de estarmos sempre satisfeitos com a nossa sorte. É uma paz frágil, que se desfaz à primeira contrariedade. A paz de Cristo é outra: nasce de aceitarmos, com serenidade, a realidade que Deus nos deu.

Acautelemo-nos, meus caros conspícuos, de uma ilusão sutil. O mundo, e por vezes também os homens que nos cercam, querem fazer-nos crer que a paz nos virá da sua aprovação, que seremos enfim felizes no dia em que formos reconhecidos, aplaudidos, tidos por dignos aos olhos alheios. É uma promessa enganosa. Quem assenta a sua paz no juízo dos outros constrói sobre a areia, pois o aplauso de hoje é o esquecimento de amanhã, e nenhum homem foi jamais saciado pela estima de outro homem. A paz que Cristo dá não depende de aprovação alguma: brota de dentro, do encontro da alma com Deus, e por isso nem o mundo a pode conceder nem o mundo a pode arrebatar.

Que realidade é esta? É estarmos exatamente onde Ele nos colocou, fazendo o que Ele nos pede, e sendo quem realmente somos; não um ideal abstrato de perfeição, nem aquilo que os outros esperam de nós, mas a pessoa concreta, com a nossa personalidade, a nossa história e até as nossas limitações. A alegria cristã nasce deste consentimento amoroso. Quando deixamos de fugir de nós mesmos e do momento presente, quando abraçamos a vontade de Deus aqui e agora, recebemos uma paz que o mundo não pode dar nem nos pode tirar. E recebemo-la não porque tudo seja perfeito ao nosso redor (não o é, nem será, e provavelmente irá piorar), mas porque Deus está presente, e nós estamos presentes diante d’Ele, e somos quem Ele quer que sejamos. E isto basta. Isto basta, meus caros.

Recolhamos, pois, o que nossa Santa Madre Igreja hoje nos ensina. A justiça que excede a dos escribas e fariseus é a caridade: o amor de Deus infundido na alma, que ordena toda a nossa vida ao seu último fim, que nos transfigura por dentro sem nos arrancar a nós mesmos, e que desemboca numa paz que o mundo desconhece. Não basta a fachada; é preciso o coração. Não basta cumprir; é preciso amar.

Lembremo-nos, para terminar, daquela palavra ardente de Santo Agostinho, que resume toda a vida cristã numa só frase: fecísti nos ad te, et inquiétum est cor nostrum, donec requiéscat in te (“fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”). Eis a raiz de toda a nossa inquietude: buscamos a felicidade fora do único lugar onde ela habita. Deixemos, pois, que a graça faça a sua obra silenciosa em nós. Não fujamos de nós mesmos nem do presente. Não nos percamos. E quando, daqui a pouco, nos aproximarmos do altar, não tragamos um personagem, nem a máscara daquilo que gostaríamos de parecer, mas a oferta humilde e verdadeira da pessoa concreta que somos:  reconciliada com o irmão, reconciliada consigo mesma, como hoje nos pede o Senhor, e em paz com Deus. Porque é a esta pessoa, e não a outra, que Deus chama à santidade e à felicidade eterna.

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O Antoniano