Sermão para o IV Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 21 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Consideremos a oração que nossa Santa Romana Igreja coloca hoje em nossos lábios. Pede ela ao Senhor que et mundi cursus pacífice nobis tuo órdine dirigátur; et Ecclésia tua tranquílla devotióne lætétur (“que o curso do mundo seja pacificamente dirigido para nós segundo a Vossa ordem, e que a Vossa Igreja se alegre numa devoção tranquila”). São duas petições numa só petição: que o mundo seja governado pela ordem de Deus, e que a Igreja repouse numa tranquila devoção. E logo se levanta, meus caros, uma pergunta que não podemos contornar: como há de alegrar-se a Igreja em devoção tranquila, se o curso do mundo é tão turbulento e se essas mesmas turbulências penetram, em nossos dias, no interior do próprio corpo eclesial? Para bem responder, importa primeiro compreender que paz é esta que suplicamos.
Há uma paz que o mundo conhece e outra que somente Deus pode dar. O próprio Senhor as distinguiu na véspera da sua Paixão: Pacem relínquo vobis, pacem meam do vobis: non quómodo mundus dat, ego do vobis (“A paz vos deixo, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”; Jo. XIV, 27). A paz do mundo é a ausência de conflito, a calmaria exterior, o sossego dos negócios humanos enquanto nada os perturba: frágil paz, que a primeira tempestade desfaz. A paz de Cristo é uma coisa inteiramente diversa: é um bem interior e sobrenatural, que pode habitar a alma ainda em meio à mais áspera das provações. Foi essa a paz que repousava no coração do Senhor, adormecido na barca enquanto a tempestade rugia sobre o mar (cf. Mc. IV, 38): paz que não ignora a tormenta, mas que a domina por dentro.
Ora, caríssimos, a tranquilidade que a coleta implora não é um repouso qualquer, mas a tranquilidade da devoção. E devoção, ensina Santo Tomás na sua Suma de Teologia, nihil áliud esse vidétur quam volúntas quædam prompte tradéndi se ad ea quæ pértinent ad Dei famulátum (“não parece ser senão uma certa vontade de entregar-se prontamente àquilo que pertence ao serviço de Deus”; Summa Theologiæ IIa-IIæ, q. LXXXII, a. 1, corpus). Observemos, meus caros: a devoção não é um sentimento que vem e vai ao sabor das consolações, mas um ato firme da vontade prontamente entregue a servir a Deus. A tranquilidade que dela nasce é, pois, o repouso de uma vontade que já se decidiu; uma vontade que não se debate nem hesita, porque encontrou no querer divino o seu centro de gravidade. É a serenidade de quem pode dizer com Santo Agostinho: fecísti nos ad te, et inquiétum est cor nostrum, donec requiéscat in te (“Fizeste-nos para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós”; Confissões I, 1). Tal paz não exclui o combate; exclui tão somente a inquietação do coração dividido.
E é justamente aqui que esta verdade se constitui em uma importantíssima luz para os nossos dias. Pois o curso deste mundo (o mundi cursus da coleta) não é hoje apenas o fluxo das estações e o suceder dos impérios: é também a torrente das ideias modernas que, infiltrando-se até no recinto sagrado, buscam destronar a Deus do governo das almas e das nações. Contra esse liberalismo que recusa a realeza social de Cristo, a fé não cessa de proclamar: opórtet autem illum regnáre (“é necessário que Ele reine”; I Cor. XV, 25). Vivemos, sim, meus caros, num tempo de combate, em que os adversários da fé não se acham somente fora dos muros, mas por vezes se assentam dentro deles.
E, contudo, caríssimos, (eis o consolo escondido na coleta) pedimos que esse mesmo curso seja tuo órdine dirigátur, dirigido segundo a Vossa ordem. Nada, absolutamente nada, escapa ao governo da divina Providência. Aquilo que aos nossos olhos parece desordem e ruína, a sabedoria eterna o ordena em segredo a um fim glorioso; pois, como ensina ainda Santo Agostinho, julgou Deus mélius esse de malis benefácere quam mala nulla esse permíttere (“melhor fazer o bem a partir dos males do que não permitir mal algum”; Enchiridion, XXVII). Foi o que nos anunciou o Apóstolo na epístola de hoje: exspectátio enim creatúræ revelatiónem filiórum Dei exspéctat (“a expectação da criatura aguarda a revelação dos filhos de Deus”; Rom. VIII, 19); toda a criação geme e está em dores de parto, mas geme na esperança, porque há de ser libertada da servidão da corrupção. E nós, que já possuímos primítias Spíritus (“as primícias do Espírito”; Rom. VIII, 23), gememos igualmente, aguardando a redenção do nosso corpo. Tal foi também, meus caros, a serenidade de São Pedro no Evangelho: depois de uma noite inteira de trabalho aparentemente inútil, ele não se deixou vencer pelo desânimo, mas respondeu ao Senhor in verbo autem tuo laxábo rete (“em vossa palavra, porém, lançarei a rede”; Lc. V, 5); e a barca que parecera trabalhar em vão encheu-se até quase submergir. Assim é a alma que confia: não funda a sua paz no êxito visível da batalha, mas na fidelidade de Deus que dirige o curso de todas as coisas, e pode por isso enfrentar os combates contra os inimigos externos e internos de nossa Santa Igreja sem perder a sua tranquilidade, porque sabe em quem depositou a sua confiança.
Guardemo-nos, porém, de um perigoso equívoco. A paz que Deus promete à sua Santa Romana Igreja não é a paz da rendição, nem o sossego comprado ao preço da fidelidade. Há uma falsa paz, contra a qual já clamava o profeta Jeremias, quando os falsos guias do povo a apregoavam: pax, pax; et non erat pax (“paz, paz; e não havia paz”; Jer. IV, 14). É a paz dos que, para não desagradar aos homens, pactuam com o erro e silenciam a verdade: paz de sepulcro, que é antes a imobilidade da morte do que o repouso dos vivos. A respeito dela proferiu o Senhor uma palavra que jamais devemos esquecer: non veni pacem míttere, sed gládium (“não vim trazer a paz, mas a espada”; Mt. X, 34). E isso não porque deseje a discórdia, mas porque a fidelidade à verdade separa necessariamente a luz das trevas, e quem a professa haverá por vezes de deparar com a contradição e a perseguição.
Vejamos, então, meus caros, que defender a fé e possuir a paz não são coisas que entre si se oponham. Os mártires confessaram a Cristo diante dos tribunais e subiram ao suplício com uma serenidade que assombrava os próprios algozes; e a antiguidade cristã reconheceu nesse mesmo sangue, não a derrota, mas a própria a fecundidade da Igreja: sanguis martyrum, semen christianorum (“o sangue dos mártires é semente de cristãos”; Tertuliano, Apologeticum). Os confessores, por sua vez, resistiram ao erro e ao poder iníquo com a alma inabalável: Santo Atanásio, quase sozinho contra um mundo ariano que invadira até os tronos episcopais, guardou inteira a fé e inteira a sua paz. Onde residia a sua tranquilidade? Não na ausência de combate, que era ferocíssima, mas em uma vontade pronta de servir a Deus até ao fim. Foi precisamente no combate firme e feroz que a sua devoção achou o seu repouso. Pois a paz verdadeira não brota da resignação pusilânime nem da conivência com os inimigos da Igreja, mas da obediência inteira à vontade de Deus e da corajosa defesa da fé, ainda que isso desagrade aos homens e nos custe o seu favor. É o que afirmava Santa Joana d’Arc:la paix ne s’obtient qu’au bout de la lance (“não se alcança a paz senão pela ponta da lança”). E quem assim peleja já recebe, nesta vida mesma, as primícias da consolação eterna; porque, como ensina o mesmo Apóstolo, non sunt condígnæ passiónes huius témporis ad futúram glóriam, quæ revelábitur in nobis (“não são proporcionados os sofrimentos do tempo presente à glória futura que se manifestará em nós”; Rom. VIII, 18).
Recolhamos, pois, meus caros, num só afeto, aquilo que nossa Santa Madre Igreja nos faz suplicar. Peçamos ao Senhor que dirija o curso deste mundo conturbado segundo a sua ordem soberana, e que conceda à sua Santa Igreja, hoje provada por inimigos de fora e de dentro, aquela tranquila devoção que é a vontade pronta e alegre de O servir. Não busquemos a paz falsa do compromisso, que é traição disfarçada de prudência, mas a paz verdadeira da fidelidade, que floresce ainda sob a espada. E então, peregrinos embora neste vale de combate, havemos de saborear desde já as primícias daquela glória que há de manifestar-se em nós, quando, findo todo combate, a Igreja triunfante se alegre para sempre na visão do seu Senhor. Esta é, enfim, a alegria que a Santa Igreja hoje nos manda pedir: não a euforia passageira de um mundo apaziguado, mas o júbilo profundo de uma vontade submetida a Deus, que nem a espada nem a contradição lhe podem arrancar.


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