Sermão para a Festa de Santo Antônio de Lisboa
Confessor e Doutor da Igreja
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 13 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Guarda o antigo Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em seus registros, uma frase breve e luminosa a respeito de um jovem cônego regular que ali, sob a Regra de Santo Agostinho, consumia os dias entre o coro e a biblioteca. Chamava-se então, no século, Fernando de Bulhões; e dele escreveram os seus que era profundissime in universis scientiis litteratus, magnus in legibus, grammatica, logica, mathematica, medicina, philosophia et teologia. Isto é, profundissimamente versado em todas as ciências, grande nas leis, na gramática, na lógica, na matemática, na medicina, na filosofia e na teologia. Eis o homem que o mundo conheceria depois como Santo Antônio de Lisboa: um dos mais doutos de seu tempo, senhor de quase toda a sabedoria que então se podia adquirir.
E, todavia, meus caros, notemos uma coisa singular. Quando a piedade cristã quis fixar a imagem deste sábio para a contemplação dos séculos, não lhe pôs nas mãos a balança das leis, nem um códice e chicote da gramática, ou um códice com silogismos, nem um icosaedro, nem o bastão de Asclépio, nem uma pena ou uma coruja de Minerva. Pôs-lhe nos braços um Menino. O homem que tudo aprendeu é lembrado não por aquilo que soube, mas por Aquele a quem abraçou. Há nisto uma lição que vale toda a sua vida, e que hoje proponho a nossa contemplação: como a verdadeira ciência, longe de afastar de Deus, conduz a abraçá-Lo; e como o saber, no seu mais alto cume, se converte em adoração.
Comecemos, pois, por reconhecer sem falso pudor o valor da ciência. A inteligência é um dom altíssimo do Criador, e o homem foi feito para contemplar a verdade. Estudar as leis, perscrutar a natureza, dominar as letras e penetrar os mistérios da teologia são ocupações nobres, e nossa Santa Romana Igreja sempre honrou os seus doutores. Não foi, portanto, por desprezo do saber que Frei Antônio se fez santo; foi por ter sabido, e bem sabido, onde o saber deve repousar. Porque há um perigo que se esconde precisamente na grandeza da ciência, e o Apóstolo o denunciou com firmeza: Scientia inflat, caritas vero aedificat, “a ciência incha, mas a caridade edifica” (I Cor VIII, 1).
Eis a tentação constante do homem douto: fazer da sua inteligência um pedestal de si mesmo. O conhecimento que não se ordena ao amor de Deus dilata o orgulho como o ar dilata um odre vazio; cresce em volume e perde em peso. É a doença da nossa época, meus caros, que ergueu altares à ciência e fez dela uma senhora justo onde ela deveria ser serva: a ciência que se julga capaz de medir todas as coisas e ignora Aquele que as criou. Contra esta vertigem, o primeiro gesto de Frei Antônio, então Cônego Fernando, foi de uma eloquência espantosa: deixou o prestígio de Santa Cruz, abandonou a carreira luminosa que se abria diante dele e vestiu o hábito pobre de São Francisco de Assis. A ciência que renunciou à própria glória mundana já estava, então, a caminho de tornar-se santa.
Aos olhos do mundo, foi uma loucura. Que diria a prudência humana de um jovem que troca as cátedras e as honras por um hábito remendado e por estradas poeirentas aos pés descalços? Mas é precisamente aqui que Frei Antônio começa a ser verdadeiramente sábio, porque escutou outra palavra do Apóstolo: Sapientia huius mundi stultitia est apud Deum, “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (I Cor III, 19). O sábio de Coimbra tornou-se sábio diante do Céu no dia em que aceitou parecer louco diante da terra. E não percamos de vista a grande delicadeza da Providência: aquela ciência toda não foi desperdiçada, mas guardada, como o lavrador guarda a semente para a hora da sementeira. Deus não pede que renunciemos aos dons que nos deu; pede que os entreguemos, para que os multiplique.
Se milagres desejais,
Recorrei a Santo Antônio;
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.
Não que tenha lançado fora o que aprendera: antes o subordinou. Toda aquela imensa doutrina, em vez de servir à vaidade, pôs-se ao serviço da caridade: a pregação incansável, a salvação das almas, o combate firme contra os hereges albigenses que então corrompiam o sul da França e o norte da Itália. Por isso o canta a liturgia, no Intróito que nossa Santa Madre Igreja reserva aos seus Doutores: In medio Ecclesiae aperuit os eius, et implevit eum Dominus spiritu sapientiae et intellectus, “no meio da Igreja abriu a sua boca, e o Senhor o encheu do espírito de sabedoria e de inteligência”. Notemos bem, caríssimos: o Senhor o encheu. A ciência que Frei Antônio adquirira pelo estudo foi coroada por aquela sabedoria que não se adquire, mas se recebe: o dom do Espírito Santo.
E aqui se desvenda o segredo de tudo. Ensina o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, que a sabedoria se chama assim por ser como que sapida scientia, uma ciência que se saboreia. Saber, no seu ápice, não é apenas conhecer com a mente: é degustar com o coração. O teólogo que apenas demonstra a Deus e não o ama assemelha-se ao que descreve um banquete sem dele provar. Mas Frei Antônio provou. A sua doutrina não inchava: edificava, edificava a Igreja, derrubava o erro, reerguia o pecador. A caridade fizera da sua ciência uma luz que aquece, e não apenas um facho que ilumina de longe.
Foi assim que nossa Santa Romana Igreja o proclamou Doutor Evangélico: porque a sua pregação não era simplesmente uma flor de retórica nem jogo de palavras, frases de efeito feitas para simplesmente chamar atenção, mas pão tirado da Escritura e dos Padres, repartido com mão segura às almas famintas. E nisto reconhecemos a marca própria da sabedoria, que Santo Tomás define numa simples máxima: sapientis est ordinare, é próprio do sábio ordenar. Ordenar todas as coisas ao seu fim último, que é Deus; pôr cada saber, cada talento, cada hora no seu devido lugar dentro do grande desígnio da salvação. Os hereges dispersavam, confundiam, semeavam joio; Frei Antônio ordenava, esclarecia, reconduzia ao único centro. A sua ciência, banhada em caridade, tornara-se força da unidade católica diante da divisão da peste da heresia. Exatamente como hoje, meus caros, num mundo despedaçado pelo erro, a Igreja precisa de doutores que saibam de novo ordenar tudo a Cristo, recapitular tudo em Cristo, como foi o lema de São Pio X.
Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.
Chegamos, assim, ao cume, àquele Menino nos braços do sábio. Conta a tradição que, numa noite de oração, apareceu a Frei Antônio o próprio Jesus em forma de criança, e que o santo o tomou em seus braços, banhado em lágrimas de doçura. Meditemos no que isto significa, meus caros. O homem mais douto de seu tempo, que percorrera todas as ciências, encontra enfim o termo de todo o seu saber não numa página da biblioteca de Coimbra, mas no abraço do Verbo feito carne. Porque o Verbo eterno, a Sabedoria substancial do Pai, não se deixa aprisionar pelos silogismos e textos: deixa-se abraçar pelo amor. Todo o estudo da filosofia e da teologia conduzia a este instante, e neste instante o saber humano se cala e adora.
E há, nesta cena, uma inversão que manifesta todo o Evangelho. O Senhor advertira: Nisi conversi fueritis et efficiamini sicut parvuli, non intrabitis in regnum caelorum, “se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus” (Mt. XVIII, 3). Para abraçar o Menino, foi preciso que o sábio se fizesse, ele próprio, criança; que toda a sua ciência se inclinasse, humilde, diante de uma simplicidade que a ultrapassava. O maior dos doutores fez-se pequeno para sustentar nos braços Aquele que sustenta o mundo. Quem soube tudo soube, enfim, a única ciência necessária: a de amar a Deus feito homem.
Há, com efeito, caríssimos, um modo de conhecer que não passa pelos livros, e que os santos chamaram conhecimento por conaturalidade: conhecer pela semelhança do amor. Quem ama torna-se de algum modo aquilo que ama, e por essa íntima afinidade penetra mistérios que escapam ao mais aguçado raciocínio. Por isso ensinava São Gregório Magno que o amor é, ele mesmo, uma forma de conhecimento, amor ipse notitia est, “o próprio amor é conhecimento”. Frei Antônio, abraçando o Menino, conheceu de Deus muito mais numa só noite do que em todos os anos de estudo em Coimbra; e conheceu-O não pela ciência que se demonstra, mas pela doçura que se prova. A Humanidade Sagrada de Cristo, pequenina e indefesa entre os seus braços, era a porta por onde a divindade inteira se lhe dava a contemplar.
Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os paduanos.
Eis, caríssimos, o arco inteiro de uma vida santa: da biblioteca de Santa Cruz de Coimbra aos braços que sustentam o Divino Menino; do estudo que ilumina à adoração que arde; da ciência que poderia inchar à caridade que edifica. E os prodígios sem conta que a piedade cristã conhece de nosso glorioso Taumaturgo Santo Antônio — esses que o povo de Pádua testemunhou, e que o mundo inteiro depois invocou — não são senão o transbordamento desta mesma caridade. O homem que teve Deus nos braços estende agora a mão a quantos o chamam; aquele que provou a sabedoria reparte agora os seus frutos. Por isso nossa Santa Madre Igreja não cessa de cantar a sua intercessão:
Recupera-se o perdido,
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.
Aprendamos, pois, desta festa, a verdadeira ordem das coisas, meus caros conspícuos. Não desprezemos a ciência, mas não a adoremos: que ela seja serva, e não senhora. Ponhamos todo o nosso saber, e todo o nosso trabalho, e toda a nossa vida, ao serviço daquela caridade que edifica; e, no termo de tudo, façamo-nos pequenos para abraçar, como Frei Antônio, o Menino Deus. Porque no fim não nos há de salvar o muito que soubermos, mas o quanto tivermos amado a Cristo. Que o glorioso Santo Antônio de Lisboa, sábio de Coimbra, Taumaturgo de Pádua e adorador amoroso do Verbo Encarnado, nos alcance a graça de ordenar toda a nossa inteligência a este único fim, ao único necessário, e de, um dia, no abraço eterno, possuir Aquele que ele soube abraçar no tempo. Amém.


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