Sermão para o II Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 07 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Nossa santa Romana Igreja, na oração que hoje pôs nos nossos lábios, faz-nos pedir algo que, a um ouvido apressado, pareceria contradição. Suplicamos a Deus que nos conceda temer e, ao mesmo tempo, amar, e não por um instante, mas perpetuamente, um só e mesmo Nome: Sancti nóminis tui, Dómine, timórem páriter et amórem fac nos habére perpétuum(“Fazei, Senhor, que tenhamos perpetuamente o temor e juntamente o amor do vosso santo Nome”). Como pode a alma temer aquilo que ama, e amar aquilo que teme? Meus caros, é que o temor e o amor são, na vida espiritual, como as duas asas da ave: ela não se eleva ao céu com uma só. Quem apenas teme, rasteja na servidão; quem julga amar sem temer, ilude-se com uma ternura que não passa de presunção. Detenhamo-nos, pois, nesta breve oração, e aprendamos porque a união destas duas asas é toda a nossa firmeza no caminho do céu.
Há que desfazer, antes de tudo, um equívoco. Quando ouvimos o Apóstolo São João dizer que perfécta cáritas foras mittit timórem (“a caridade perfeita lança fora o temor”), poderíamos crer que o amor, ao crescer, suprime todo e qualquer temor. Mas Santo Tomás nos ensina a distinguir com cuidado. Há um temor servil, próprio do escravo, que receia somente o castigo; e há um temor filial, próprio do filho, que receia ofender o pai a quem ama. A caridade expulsa o primeiro, o temor servil, porque o filho não serve somente por medo da pena; mas o segundo, o temor filial, longe de diminuir, cresce na exata medida do amor. Pois quanto mais amamos alguém, mais tememos magoá-lo. Por isso não hesitou o salmista em proclamar: Inítium sapiéntiæ timor Dómini (“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”). Não se trata, meus caros, do temor diante de um tirano, mas do temor de um filho diante do Pai cujo amor por nada quer perder. Tal é o temor que se entrelaça ao amor e o guarda, como a muralha guarda a cidade. Quem perde o temor filial, logo perderá também o amor; e quem se gaba de amar sem temer edifica a sua devoção sobre a vaidade.
E reparemos a razão que pela qual Coleta apresenta para possuirmos uma tão grande confiança: quia numquam tua gubernatióne destítuis, quos in soliditáte tuæ dilectiónis instítuis (“porque nunca privais do vosso governo aqueles que estabeleceis na solidez do vosso amor”). Meus caros, que arranjo admirável de palavras! Deus, que nos institui, que nos estabelece, nos planta, nos edifica, jamais nos destitui, jamais nos abandona ao desgoverno. A nossa perseverança não é obra das nossas pobres forças, mas dom da sua paterna gubernatio. Ele é a rocha firme sobre a qual a casa não desaba; as criaturas, consideradas em si mesmas, são a areia movediça sobre a qual tudo rui.
Ora, meus caros, é precisamente aqui que devemos erguer a voz, com toda a firmeza, contra o grande erro do nosso tempo. Pois a sociedade em que vivemos edificou-se sobre um princípio diametralmente oposto àquele apresentado pela nossa Santa Madre Igreja na Coleta: a recusa formal do governo de Deus. Esta sociedade liberal, fundada na apostasia e no abandono do Senhor, ousou destronar o Criador para entronizar em seu lugar a criatura. O homem arrogou-se o trono que só a Deus pertence; quis fazer-se legislador da verdade e árbitro último do bem, como se a sua vontade fosse a medida de todas as coisas. É a antiquíssima sedução, repetida sem cessar desde o paraíso: éritis sicut dii (“sereis como deuses”). E o fruto amargo dessa usurpação está diante dos nossos olhos: leis que contrariam abertamente a lei divina, costumes que escarnecem do pudor e da família, nações inteiras que apagam o santo Nome das suas praças e dos seus corações.
Por isso, meus caros, peçamos hoje um temor muito concreto e fundamental para qualquer católico: o temor de usurpar os direitos de Deus. Temamos imitar, ainda que em escala pequena e doméstica, esse orgulho soberbo que pretende sentar o homem no trono do Criador. Não há liberdade verdadeira na revolta contra Aquele que nos sustenta; há somente a triste ilusão de uma autonomia que principia na soberba e termina na morte. Reconheçamos, ao contrário, caríssimos, que toda autoridade legítima, toda verdade e todo bem descem d’Aquele que reina nos céus, e a Ele devolvamos, com temor filial e amor de filhos, aquilo que é seu por direito. Que o Senhor reine em nós primeiro, depois na nossa casa, nas nossas obras, para que enfim, por consequência, reina na sociedade e no Estado: eis o único remédio para um mundo que adoeceu por tê-Lo deposto.
E eis que o santo Evangelho deste dia vem confirmar tudo quanto dissemos. Um homem preparou uma grande Ceia e convidou a muitos; mas, chegada a hora do banquete, cœpérunt simul omnes excusáre (“começaram todos, a uma só voz, a escusar-se”). Um comprara um campo, outro cinco juntas de bois, outro tomara esposa — e nenhum quis vir. Que lhes faltou, meus caros? Faltaram-lhes precisamente as duas asas. Não temeram suficientemente a afronta de recusar o convite do Rei, nem o amaram o suficiente para deixar por Ele os seus bens. Preferiram o campo, os bois e a volúpia — coisas instáveis e passageiras — à solidez do amor que os convidava. E nisso retrataram, ponto por ponto, o homem do nosso tempo, que à mesa de Deus prefere os pequenos reinos da sua posse, do seu trabalho e do seu prazer.
Vejamos, então, meus caros conspícuos, para onde conduz semelhante recusa. Adverte-nos São João na Epístola de hoje: qui non díligit, manet in morte (“quem não ama permanece na morte”). Recusar o Amor é permanecer na morte; e o sinal de que passamos da morte para a vida é amarmos verdadeiramente aos irmãos. Mas, atenção, caríssimos, não um amor de mera aparência. O Apóstolo é de uma severidade salutar: non diligámus verbo neque lingua, sed ópere et veritáte (“não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e em verdade”). Assim como as escusas dos convidados eram corteses na boca, mas ainda assim eram uma recusa cabal nas obras, também a nossa fé seria vã se professasse o santo Nome com os lábios enquanto as mãos se fechassem diante do irmão necessitado. O temor e o amor de Deus, se forem verdadeiros, hão de provar-se na obra: na justiça que devolve a Deus os seus direitos, e na caridade com a qual socorre prontamente o próximo. Bem o resumiu Santo Agostinho numa fórmula que parece ousada e é exatíssima: Dílige, et fac quod vis (“Ama, e faze o que quiseres”), pois quem deveras ama a Deus nada mais quererá senão o que a Deus agrada, e da raiz viva do amor brotará sempre, por si, o fruto da boa obra.
Acolhamos, pois, meus caros, com generosidade o pedido da santa Igreja e façamo-lo nosso. Supliquemos a graça de possuir, perpetuamente, estas duas asas: o temor que nos guarda de ofender o Senhor e de usurpar o que é seu, e o amor que nos impulsiona pronta e velozmente à sua Ceia e ao serviço dos irmãos. Não sejamos dos que se escusam, presos a campos e a bois; sejamos antes dos que, firmados na solidez do seu amor, acodem sem demora ao chamado. E lembremo-nos de que essa Ceia da parábola não está longe de nós: está aqui, sobre este altar, onde dentro de poucos instantes o mesmo Senhor renovará o seu Santo Sacrifício da cruz e se fará realmente presente. Aproximemo-nos dela com temor e com amor: temor que adora, amor que se entrega; e então havemos de experimentar, na própria alma, que Deus na verdade nunca abandona ao desgoverno aqueles que estabelece na solidez do seu amor.


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