[Sermão] Nosso combate: a vocação militar do católico à luz de Pentecostes

Screenshot

Sermão para o Domingo de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 24 de maio de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Quando o Evangelho do dia nos transporta uma vez mais ao Cenáculo de Jerusalém, devemos ver com os olhos da fé duas cenas justapostas, dois quadros vivos que se sucedem em poucas semanas e que, postos lado a lado, nos revelam tudo aquilo que somos chamados a ser. No primeiro quadro, vemos os Apóstolos congregati propter metum Iudaeorum(“reunidos por temor dos judeus”, Jo. XX, 19): as portas fechadas, os olhos baixos, o coração apertado pelo medo. No segundo quadro, vemos esses mesmos homens irrompendo nas praças, falando a multidões assombradas, anunciando sem rodeios a Cristo crucificado e ressuscitado, e dispondo-se de coração leve a sofrer açoites, prisões, exílios e finalmente o martírio. Que aconteceu, no breve intervalo de cinquenta dias, para tão radical transformação? Aconteceu Pentecostes, meus caros. Aconteceu o vento impetuoso e as línguas de fogo. Aconteceu a vinda do Espírito Santo, que faz de homens tímidos, fortes soldados, de hesitantes diante das multidões, confessores da fé, daqueles que fugiam, gloriosos mártires. Eis o mistério que nossa Santa Romana Igreja celebra hoje, e que não é apenas uma memória de tempos remotos, mas uma promessa atual feita a cada um de nós, batizados e confirmados, postos no meio de uma sociedade que recusa Cristo e ainda zomba da sua Cruz.

A Sagrada Escritura abre-se hoje com aquele versículo da Sabedoria que o Intróito canta com solenidade: Spiritus Domini replevit orbem terrarum (“O Espírito do Senhor encheu todo o orbe da terra”, Sab. I, 7). Ora, o Espírito que enche o orbe é o mesmo que, de modo singular e privilegiado, enche a Santa Igreja, dela sendo, segundo a doutrina constante dos Padres e dos Doutores, a anima Ecclesiae, a alma do Corpo Místico. Como a alma humana dá vida, unidade e movimento aos múltiplos membros do corpo, assim o Espírito Santo vivifica, congrega e move os fiéis dispersos pelos quatro cantos do mundo, fazendo deles uma só Igreja, una, santa, católica e apostólica.

E porque esta Igreja peregrina caminha ainda entre os perigos do mundo, dos inimigos visíveis e invisíveis, ela é chamada com toda propriedade, não em sentido metafórico nem hiperbólico, mas em sentido próprio e rigoroso, Igreja Militante. Devemos reaprender hoje, meus caros, o que esta palavra significa. Significa que o cristão sobre a terra está em estado de guerra. Não há dispensa, não há armistício, não há lugar reservado nos quartéis para os que preferem a vida pacífica. Militia est vita hominis super terram (“A vida do homem sobre a terra é uma milícia”, Jó VII, 1). E o que faz desta milícia coisa diversa de uma multidão desordenada de homens valentes é precisamente isto: que ela tem por alma o próprio Espírito de Deus, que a ordena como exército em ordem de batalha, terribilis ut castrorum acies ordinata(“terrível como exército em ordem de batalha”, Cant. VI, 3). Sem este Espírito, a Igreja seria um cadáver bem maquiado; com Ele, é exército invencível mesmo quando aparentemente vencido — como o foram, aparentemente vencidos e na verdade constituíram-se vencedores, os mártires de todos os séculos.

Mas esta tropa não é coisa que se imponha de fora ao cristão como obrigação penosa: ela brota do íntimo, porque o próprio Espírito que anima a Igreja é também aquele que cada um de nós recebeu em plenitude no sacramento da Confirmação. A festa de hoje, meus caros, não nos é estranha. Não a celebramos apenas como espectadores que assistem de longe à descida de chamas sobre cabeças alheias. Aquele mesmo fogo já desceu sobre cada um de nós — não com fragor de vento nem em línguas visíveis, mas com a eficácia oculta e infinitamente real do sacramento.

O Catecismo Romano e o Doutor Angélico ensinam-nos que a Confirmação é o sacramento pelo qual recebemos a plenitude do Espírito Santo para a perfeição do cristão adulto, e pela qual somos configurados, com caráter indelével, como milites Christi — soldados de Cristo. Lembremo-nos da própria forma do rito: signo te signo crucis et confirmo te chrismate salutis, assinalo-te com o sinal da cruz e confirmo-te com o crisma da salvação; a santa unção do crisma na fronte, com o sinal da Cruz, óleo perfumado que é simultaneamente óleo do atleta — para o combate — e bom odor de Cristo — para o testemunho; a leve bofetada que o bispo aplica ao confirmando, recordando que o soldado deve suportar adversidades por amor da fé; a inscrição mesma do sinal na fronte, lugar do rosto que não se esconde, para que a fé seja confessada publicamente e sem vergonha, in fronte signati (“marcados na fronte”). Tudo, no rito da confirmação, fala desta verdade central: o confirmado é soldado, e este caráter não se apaga nunca, ainda que muitos, infelizmente, desertem. Para os que combatem, porém, a graça correspondente está sempre disponível, esperando apenas o sim livre da nossa vontade.

E é coisa que devemos meditar seriamente, meus caros: numa hora em que a sociedade que nos cerca abandona publicamente a Cristo, ridiculariza os mandamentos, escarnece da castidade, persegue a verdade católica nos meios de comunicação, nas escolas, nas leis civis, e mesmo, dentro das fileiras eclesiásticas onde a confusão doutrinal se difunde sob aparências de pastoralidade — nesta hora, o caráter da Confirmação não é ornamento devocional, não é lembrança bonita de um dia da nossa infância: é título de combatente, obrigação séria e graça operante que reclama de cada um de nós a resposta inteira da vida. Resposta tão necessária quanto nossa vontade de permanecermos vivos.

E aqui, meus caros, devemos parar e perguntar: em que consiste, concretamente, esse combate ao qual o Espírito nos arma? O Evangelho do dia nos responde. Si quis diligit me, sermonem meum servabit, et Pater meus diliget eum, et ad eum veniemus, et mansionem apud eum faciemus (“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e a ele viremos, e nele faremos morada”, Jo. XIV, 23). Notemos a estrutura desta promessa, porque ela nos dá simultaneamente a regra do combate e a recompensa do combatente. O combate começa pelo amor a Cristo, que se traduz na guarda da sua palavra; e a recompensa é a vinda do Pai e do Filho, com o Espírito Santo, que estabelecem a sua morada permanente na alma fiel.

Vejamos primeiro como o Espírito nos arma. Ele nos ilumina, em primeiro lugar, pelos seus dons intelectuais — sabedoria, entendimento, ciência, conselho — fazendo-nos reconhecer com firmeza o caminho a seguir e os erros a combater. Porque o combate cristão não é luta cega, não é zelo confuso, não é briga de torcida, militância de bandeira contra bandeira: é defesa lúcida da verdade revelada contra a contrafação. Hoje em particular precisamos desta luz, meus caros, porque vivemos numa hora em que o erro não vem com vestes próprias de inimigo: vem disfarçado em linguagem religiosa, em proposta humanitária, em sentimentalismo piedoso, chamado coercitivo a uma obedicência irracional, em apelos a uma misericórdia desfigurada que nada tem da misericórdia evangélica. O Espírito Santo, prometido pelo Senhor como Mestre interior — ille vos docebit omnia (“ele vos ensinará todas as coisas”, Jo. XIV, 26) — é precisamente Aquele que nos faz distinguir o trigo do joio, a doutrina autêntica da sua imitação envenenada, a piedade verdadeira da sua paródia sentimental.

Em segundo lugar, o Espírito nos aquece e purifica. Aquece-nos pela caridade diffusa in cordibus nostris per Spiritum Sanctum (“derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo”, Rom. V, 5), fazendo arder em nós o amor de Deus e do próximo; e purifica-nos das escórias do pecado, porque o combate exterior é estéril em quem não combate primeiro o inimigo interior. Não nos iludamos, meus caros: ninguém pode confessar com firmeza a fé católica diante de uma sociedade apóstata, se em casa, no segredo da alma, capitulou diante das paixões desordenadas, diante da preguiça espiritual, diante das complacências secretas que nos roem por dentro. A primeira batalha é a que se trava entre o homem velho e o homem novo, e dela depende a vitória de todas as outras.

Em terceiro lugar, o Espírito nos fortifica. Pelo dom de fortaleza, comunica-nos aquela coragem firme que fez dos Apóstolos pregadores intrépidos diante dos tribunais romanos, e dos mártires testemunhas alegres diante das feras do circo. Confirma hoc, Deus, quod operatus es in nobis (“Confirmai, ó Deus, o que operastes em nós”, Sl. LXVII, 29 — Ofertório do dia). Esta é a hora de pedir esta confirmação interior. Porque é tempo, meus caros, de não ter mais vergonha de ser católico. Tempo de não dissimular a fé entre colegas de trabalho, parentes mundanizados, vizinhos que nos olham como extraterrestres ou figurantes de outra era. Tempo de fazer publicamente o sinal da Cruz antes da refeição em lugar público, de não calar a verdade quando o aborto é defendido na nossa presença, de não consentir com o sorriso amável quando a santidade do matrimônio é zombada, de não dobrar o joelho diante dos ídolos modernos da tolerância falsa e do respeito humano. Qui me confessus fuerit coram hominibus, confitebor et ego eum coram Patre meo, qui in caelis est(“Aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus”, Mt. X, 32). E o contrário, meus caros, vale com a mesma severidade: o que cala por respeito humano, o que se envergonha de Cristo diante de uma geração apóstata, esse será também esquecido e confundido diante do Pai celeste no dia do juízo.

Mas atenção, meus caros, e aqui está o ponto que não devemos perder de vista: este combate, ainda que grandioso na sua envergadura, começa por algo aparentemente pequeno. Começa pela guarda dos mandamentos, na fidelidade quotidiana e oculta. Si quis diligit me, sermonem meum servabit: aqui está a porta de entrada de tudo o mais. Não há intrepidez de mártir em quem é negligente nas orações da manhã; não há firmeza diante das perseguições públicas em quem é vencido pelos pequenos respeitos humanos da vida quotidiana; não há voz profética contra a apostasia da sociedade em quem não combateu primeiro a apostasia silenciosa do próprio coração, que se permite cumplicidades secretas com o mundo. O combate começa, pois, no jejum mantido sem ostentação, na palavra cortante refreada, no olhar guardado, no estado de graça preservado pela confissão frequente, na Santa Missa dominical jamais omitida, na recitação fiel do terço do Santo Rosário, na obediência humilde à autoridade legítima dentro de casa, no exame de consciência feito antes de dormir. Aí, em pontos tão escondidos que ao mundo parecem irrelevantes, se forja a fibra dos confessores e a têmpera dos mártires.

E quando esta fidelidade está estabelecida, então — e somente então — cumpre-se a promessa que sustenta o combatente em meio à batalha: ad eum veniemus, et mansionem apud eum faciemus (“a ele viremos, e nele faremos morada”). A Santíssima Trindade vem habitar pessoalmente na alma em estado de graça. Não em sentido figurado, meus caros, mas em verdade rigorosa: o Pai, o Filho e o Espírito Santo fazem da alma justa o seu templo vivo. Nescitis quia templum Dei estis, et Spiritus Dei habitat in vobis? (“Não sabeis que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?”, I Cor. III, 16). Aqui está o segredo da paz do combatente: enquanto o mundo se agita, enquanto a apostasia avança, enquanto a confusão doutrinal espalha trevas, o cristão fiel traz dentro de si o santuário inviolável onde habita o seu Deus. Esta é, com efeito, a fonte oculta da alegria dos santos em meio às perseguições; este é o antegosto antecipado da pátria celeste; esta é a Jerusalém eterna já presente, em mistério, no íntimo da alma militante.

Concluamos, meus caros. Vivemos tempos de grave crise, na sociedade, na igreja, nas famílias. Não nos percamos pretendendo paz onde não há paz; não consintamos em viver como se nada de extraordinário se exigisse de nós. A sociedade que nos cerca afastou-se de Deus, derrubou ostensivamente os mandamentos, escarneceu da Cruz que os nossos antepassados ergueram nas praças, nas escolas, nos próprios lares. As autoridades que deveriam nos confirmar na fé do Deus que se fez homem, promovem o culto blasfemos do homem que quer se fazer Deus. A situação é séria seria grade estupidez ou conivência maliciosa negá-lo. E, no entanto, não temos motivo algum para desânimo, porque temos no íntimo, se estamos em graça, a presença real das três Pessoas divinas; temos selada na alma a inscrição da Confirmação que nos consagrou soldados de Cristo; temos nossa Santa Madre Igreja, mãe e mestra, que nos transmite ainda hoje, pela liturgia tradicional, pela doutrina perene, pelos sacramentos, todas as armas necessárias ao combate.

Comecemos, pois, hoje mesmo, sem demora e sem entusiasmos passageiros, pelo combate pequeno e quotidiano. Recebamos com docilidade a moção do Espírito Santo, peçamos com fervor os seus sete dons na recitação atenta da Sequência do dia, e disponhamo-nos sem reserva à confissão pública da fé católica, certos de que dessa fidelidade aparentemente microscópica se faz a fibra invencível dos mártires e dos confessores de todos os tempos. E enquanto se aproxima a estação dos combates maiores, repitamos com a Santa Romana Igreja, com confiança e amor enquanto marchamos à frente de batalha: Veni, Sancte Spiritus, reple tuorum corda fidelium, et tui amoris in eis ignem accende — “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis, e acendei neles o fogo do vosso amor”.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Antoniano