[Sermão] A Providência que não falha: confiança e vigilância na mão do Pai

Fra Angelico Christ the Judge WGA00679

Sermão para o VII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 12 de julho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Há na oração de nossa Santa Romana Igreja hoje uma ordem que não devemos deixar passar despercebida. Antes de suplicar algo antes de abrir os lábios para pedir, a Coleta obriga-nos a confessar quem é Aquele a quem pedimos: Deus, cuius providentia in sui dispositione non fallitur (Ó Deus, cuja providência não falha nas suas disposições). Só depois de reconhecer isto, que a Providência divina não erra, não titubeia, não falha jamais nas suas disposições, é que nossa mãe a Igreja ousa formular o seu duplo pedido: que Deus afaste de nós tudo o que é nocivo e que nos conceda tudo o que nos é proveitoso.

Esta ordem não é acidental, meus caros. Ela ensina-nos como se reza e, mais ainda, como se vive. A criança que estende a mão ao pai e pede sem medo não o faz porque ignore os perigos do caminho, mas porque conhece o coração daquele que a conduz. Pede com ousadia porque confia primeiro. Assim também nós: antes de rogar que o Senhor remova o mal e conceda o bem, reconhecemos quem Ele é. E este reconhecimento é já o princípio de toda a paz. Detenhamo-nos, pois, nesta certeza que funda a nossa oração, para dela extrair não apenas a boa doutrina católica, mas consolação: porque podemos confiar, como devemos velar, e que doçura nos aguarda já nesta vida quando confiamos e vigiamos ao mesmo tempo.

Reconheçamos, em primeiro lugar, caríssimos, porque a nossa confiança é razoável e não ingênua. Ela repousa sobre dois atributos de Deus que a Coleta pressupõe e que a Escritura proclama sem cessar: a sua onipotência e a sua bondade. Se Deus fosse todo-poderoso mas não fosse bom, temê-lo-íamos como se teme um senhor arbitrário. Se fosse somente bom mas não fosse todo-poderoso, amá-lo-íamos com pena, como a um amigo impotente diante da nossa desgraça. Mas o nosso Deus é ao mesmo tempo onipotente e bom, e por isso a confiança nele não é fraqueza, mas a mais alta sabedoria.

Deus não nos arma ciladas, meus caros. Não há na sua Providência nenhuma armadilha escondida, nenhuma malícia dissimulada sob a aparência do bem. Ao contrário: diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum (todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus), assegura-nos o Apóstolo. Todas as coisas: não apenas as agradáveis, não apenas as que compreendemos, mas também as amargas, as obscuras, aquelas que na hora nos parecem pura perda. Tudo, na mão de quem ama a Deus, é reconduzido ao bem por uma Providência que sabe tecer, com os fios tortos da nossa vida, um desenho reto que só no fim contemplaremos inteiro. Como diz a sabedoria popular: Deus escreve certo por linhas tortas.

E esta Providência é ao mesmo tempo poderosa e delicada. O Espírito Santo descreve-a numa palavra admirável: attingit a fine usque ad finem fortiter, et disponit omnia suaviter (atinge com força de uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade). Força e suavidade juntas: eis o governo de Deus. Com a mesma mão com que sustenta o universo inteiro verbo virtutis suae (pela palavra do seu poder), Ele inclina-se sobre a mais ínfima das criaturas. A mesma sabedoria que ordena o curso dos astros conta os cabelos da nossa cabeça: capilli capitis vestri omnes numerati sunt (os cabelos da vossa cabeça estão todos contados). Desde o tremor imperceptível da partícula subatômica, passando pelo fio de cabelo que hoje cai, até à imensidão dos céus que não desabam, nada escapa a este cuidado; e se nada escapa à sua força, nada tampouco escapa à sua ternura. Que consolação, meus caros, saber-nos governados por tal Pai!

A história sagrada oferece-nos a prova mais luminosa deste governo. Recordemos José, vendido pelos próprios irmãos, arrastado ao Egito como escravo, caluniado por uma mulher sem pudor, esquecido no fundo de um cárcere. Que sucessão de males, e todos imerecidos! E contudo, ao cabo de tantos anos, pôde ele dizer aos irmãos aterrados diante dele: vos cogitastis de me malum: sed Deus vertit illud in bonum (vós pensastes fazer-me mal, mas Deus converteu-o em bem). Aquilo mesmo que a malícia humana tecera para a sua ruína, a Providência reteceu para a salvação de todo um povo. Assim vela Deus hoje sobre cada um de nós, meus caros; e as tramas que no presente nos parecem obscuras, um dia as veremos convertidas em degraus por onde, sem o sabermos, subíamos para o bem que Ele de antemão já nos preparava.

Seria, porém, erro grave concluir daqui que ao homem nada resta senão cruzar os braços. A confiança na Providência não é passividade, e aqui o Evangelho de hoje vem corrigir-nos com firmeza. Pois o mesmo Deus cujo ordenamento não falha quis servir-se da nossa prudência como de um instrumento seu. Ele não nos dispensa do discernimento; reclama-o. Por isso Nosso Senhor nos adverte: Attendite a falsis prophetis, qui veniunt ad vos in vestimentis ovium, intrinsecus autem sunt lupi rapaces (Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestes de ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores).

Notemos, caríssimos, como a confiança e a vigilância não se opõem. Manter-se vigilante não é desconfiar da Providência; é justamente o modo pelo qual cooperamos com ela. Deus permitiu que houvesse lobos em pele de ovelha, mas dispôs igualmente que tivéssemos olhos para os reconhecer a fructibus eorum (pelos seus frutos). Entregar-se à Providência, portanto, não é fechar os olhos, mas abri-los com a serenidade de quem sabe que o devido auxílio e o desfecho estão garantidos por nosso bom Pai que está nos céus. Aquele que confia vigia melhor, porque vigia sem angústia; e aquele que vigia mostra que confia de verdade, pois não brinca com os dons que recebeu.

E Nosso Senhor leva o discernimento até à sua raiz mais profunda, que não está no dizer, mas no fazer: Non omnis qui dicit mihi, Domine, Domine, intrabit in regnum caelorum: sed qui facit voluntatem Patris mei, qui in caelis est (Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus). Confiar na Providência é, no fundo, isto mesmo: fazer, dia após dia, a vontade daquele bom Pai cuja providência não falha. A confiança que não se traduz em obediência a Deus é palavra vazia; a obediência filial, ao contrário, é a confiança tornada obra.

E vejamos, meus caros, que Nosso Senhor, ao dar-nos o critério dos frutos, não o dirige apenas para fora, contra os falsos mestres, mas também para dentro, contra o falso profeta que cada um pode trazer em si. Omnis arbor bona fructus bonos facit (toda a árvore boa produz bons frutos), diz Ele; e a árvore não se conhece pela folhagem que ostenta, mas pelo fruto que oferece. Examinemos, pois, também a nós mesmos: não as belas palavras que dizemos, nem os sentimentos piedosos que por vezes nos comovem sem nos converterem, mas as obras humildes e concretas por meio das quais se prova o amor verdadeiro. Pois é possível ter a linguagem das ovelhas e o coração dos lobos; e a mesma Providência que nos deu olhos para discernir os outros deu-nos, antes de tudo, uma consciência para nos julgarmos a nós próprios.

E aqui, meus caros, é preciso desfazer um mal-entendido que amargura tantas almas piedosas. Alguns imaginam a vida cristã como um masoquismo mudo, uma resignação sombria, um carregar sozinho e sem consolo o peso das cruzes. Nada há de mais distante do coração do nosso Senhor. Ele não nos manda arrastar a sós o nosso fardo; convida-nos a deixá-lo carregá-lo conosco. Iugum enim meum suave est, et onus meum leve (Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve), diz Aquele que é manso e humilde de coração. O jugo do Senhor é feito para ser portado a dois: quando o tomamos sobre nós, não sentimos que carregamos mais, mas que carregamos melhor, porque é Ele quem leva conosco a parte mais pesada.

Por isso São Pedro pode falar-nos com tanta ternura: omnem sollicitudinem vestram proiicientes in eum, quoniam ipsi cura est de vobis (lançando sobre Ele toda a vossa inquietação, porque Ele tem cuidado de vós). Lançar sobre Deus a inquietação não é fingir que ela não existe, mas depositá-la nas mãos de quem verdadeiramente se importa. Quem assim faz não adia toda a consolação para depois da morte; recebe já nesta vida um alívio verdadeiro, uma paz que o mundo não pode dar nem tirar, um antegosto da alegria eterna. São estes, precisamente, os proveitosos bens que a Coleta pede, os profutura que Deus concede, e cujo termo último a Epístola de hoje nomeia como um dom inteiramente gratuito, eterno e infinitamente bem-aventurado: gratia autem Dei, vita aeterna (mas a graça de Deus é a vida eterna).

A essência da vida cristã, caríssimos, portanto, não é tristeza resignada, mas alegria confiante. Não caminhamos para a alegria atravessando um vale de pura amargura; já em meio às cruzes, quando as carregamos com Cristo e não contra Ele, provamos as primícias daquela doçura que nos espera por inteiro. O santo não é o homem que sofreu mais calado; é aquele que confiou mais, e por isso amou mais, e por isso se alegrou mais, ainda no meio da provação. A alegria não é a recompensa reservada apenas aos que já não têm cruz; é a companheira secreta dos que carregam a sua cruz apoiados no ombro do Senhor.

Recolhamos, pois, meus caros, o fruto desta meditação. A vida do cristão assemelha-se à da criança que segura a mão do pai com as suas duas mãos. Com uma, ela confia, abandonando-se sem medo; com a outra, vela e obedece, atenta aos passos que o pai lhe indica. Não são duas atitudes opostas, mas dois gestos de uma mesma alma filial; e ambas as mãos seguram a mesma mão — a mão de um Pai onipotente, cuja força sustenta os mundos, e delicado, cujo cuidado conta os nossos cabelos.

Alegremo-nos, pois, meus caros conspícuos, e confiemos. Alegremo-nos e confiemos. Não confiemos em nós, que somos frágeis e falíveis, mas naquele cuja Providência não falha jamais nas suas disposições. Velemos contra os lobos, façamos a vontade do Pai e, por sobre tudo isso, lancemos nele a nossa inquietação, certos de que Ele se coloca ao nosso alcance para nos guiar, para nos fortalecer e para nos consolar. E que a oração que hoje fazemos se torne a lei de toda a nossa vida: que Ele afaste de nós tudo o que nos é nocivo e nos conceda tudo o que nos é proveitoso; e isto até àquele dia em que, cessada toda a vigília, restará somente a alegria de o contemplarmos face a face.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Antoniano