Sermão para a Festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
Por ocasião do 9º aniversário de ordenação sacerdotal
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 1º de julho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Antes de tudo, meus caros, permitam-me elevar a Deus, consigo, uma palavra de ação de graças. Faz hoje nove anos que Ele Se dignou chamar-me e ungir-me sacerdote da sua Santa Romana Igreja; e aos senhores devo o afeto das felicitações e, mais ainda, o tesouro das orações, que de todo o coração agradeço. Nada poderia ser mais próprio do que render essas graças justamente na festa do Preciosíssimo Sangue: pois foi para servir a este Sangue, para o oferecer sobre o altar e o dar às almas, que estas mãos indignas foram consagradas. Bendito seja, pois, o Sangue de Cristo, que fez de mim, sem mérito algum, seu ministro.
Há neste dia um paradoxo que o mundo não consegue entender e assimilar. Nossa Santa Madre Igreja regozija-se com uma festa, dia de júbilo, de cânticos, de vestes rubras e de altares floridos, e o motivo dessa festa é o Sangue: isto é, a dor, a chaga aberta, a imolação na cruz de Deus. O mundo, que persegue a felicidade dia e noite, fá-lo sempre fugindo da cruz, contornando o sacrifício, adiando a renúncia como quem adia uma sentença. E eis que nossa Santa Igreja faz precisamente o contrário: coloca no centro do altar aquilo que o mundo mais teme, o Sangue derramado, e sobre ele entoa o seu aleluia.
Meus caros, não há aqui contradição alguma. Há, ao invés, a mais alta e a mais escondida lei da vida, aquela que São Paulo condensou numa bela sentença: Christo confixus sum cruci; vivo autem, iam non ego, vivit vero in me Christus(“Estou pregado à cruz com Cristo; e vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim”). Nesta só frase estão unidas a cruz e a consolação, a imolação e a alegria. É esta lei que hoje desejamos contemplar: a de que a verdadeira felicidade só se alcança pelo sacrifício.
Comecemos de baixo, para subirmos então ao alto. Reparemos primeiro que esta lei já governa a própria natureza, antes ainda de tocarmos a graça. Nada de grande se colhe neste mundo sem que algo primeiro se perca. O próprio Senhor no-lo ensinou com a imagem do campo: Nisi granum frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum manet; si autem mortuum fuerit, multum fructum affert (“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto”). O trigo que se recusa a morrer permanece sozinho e estéril; só aquele que aceita ser sepultado e desfeito na terra escura conhece a alegria da espiga frutificada.
Assim é em toda a vida humana. A mãe que gera e cria os seus filhos dá-lhes a vida com noites perdidas e forças gastas, e nisso mesmo encontra a sua maior alegria. O estudante que se debruça sobre os livros renuncia ao ócio e ao prazer fácil, e só assim prova a doçura de saber. O desportista só alcança o pódio pelo duro treino e competição acirrada. O soldado que ama a sua pátria expõe-se à ferida para lhe merecer a paz. Em toda a parte, meus caros, a mesma lei: não há colheita sem semeadura, não há coroa sem combate, não há gozo verdadeiro que não tenha por raiz alguma renúncia.
Ora, se isto é verdade na ordem da natureza, quanto mais o será na ordem da graça, que é incomparavelmente mais alta. A própria Redenção do gênero humano seguiu esta lei sagrada: o Filho de Deus não nos salvou por um decreto cômodo pronunciado do alto do céu, mas descendo à terra, sofrendo a paixão, carregando a cruz até o calvário e derramando até à última gota o Sangue que hoje comemoramos. E aquilo que Ele fez por nós, quis que fosse também a condição de quem O quisesse seguir: Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam, et sequatur me (“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”). Não há discípulo sem cruz, porque não houve Mestre sem cruz. Por isso o caminho que Ele nos abriu, o caminho das bem-aventuranças, começa pela pobreza, pela lágrima e pela perseguição, e só ao fim promete a posse do Reino. A felicidade cristã não é a ausência da cruz; é a cruz transfigurada.
A própria liturgia de hoje traduz esta verdade em festa. Não foi por acaso que nossa Santa Romana Igreja quis dedicar um dia de seu calendário ao Sangue de Cristo: o Papa Pio IX estendeu esta festa a toda a Igreja em ação de graças, e Pio XI elevou-a à primeira classe no ano em que se recordavam dezanove séculos da Redenção. Santos houve, como São Gaspar del Bufalo, que dedicaram a vida inteira a pregar este só mistério. E todos eles nos repetem, com São Leão Magno, que a Cruz de Cristo, aos olhos da fé, não é sinal de derrota, mas fonte e origem de toda a bênção. Não a toa a benção se dá com o sinal da Cruz.
E se esta lei vale para todo o cristão, meus caros, apliquemo-la hoje àquele que, por vocação, é constituído homem do sacrifício por excelência: o sacerdote. Pois o padre não é apenas alguém que, como todo o fiel, deve seguir a lei do sacrifício; ele é ordenado precisamente para oferecer o Sacrifício. As suas mãos foram ungidas para tocar cada dia este Sangue que hoje celebramos, para o elevar sobre o altar, para o dar às almas como alimento na santa Comunhão.
A Epístola de hoje descreve-nos o Sumo Sacerdote de que todo o sacerdote da terra é imagem e instrumento: Christus autem assistens pontifex futurorum bonorum… per proprium sanguinem introivit semel in Sancta, aeterna redemptione inventa (“Cristo, porém, tendo vindo como pontífice dos bens futuros… entrou uma vez por todas no santuário pelo seu próprio sangue, tendo obtido uma redenção eterna”). Notemos bem, meus caros: pelo seu próprio sangue. O Sacerdote eterno não ofereceu algo exterior a Si; ofereceu-Se a Si mesmo. E é nisto que o padre da terra é chamado a ser, segundo a expressão alter Christus, outro Cristo: não apenas o que oferece a Vítima, mas o que se deixa, com Ela, imolar. O altar é ao mesmo tempo o lugar onde ele oferece e o lugar onde ele próprio é oferecido.
Não pensemos que isto se cumpriu uma só vez, num Calvário distante. O que se deu no Gólgota renova-se incruentamente sobre cada altar, todas os dias, pelas mãos trémulas de homens de barro. Por isso ensinavam os antigos Padres que a dignidade do sacerdote excede quanto na terra se possa imaginar, pois lhe é dado fazer descer aos seus dedos Aquele diante de quem tremem os anjos. Mas, e aqui está o peso da cruz sacerdotal, quem toca coisas tão santas há de querer, ele mesmo, tornar-se hóstia; e o altar, que é honra, é também a imolação de cada dia.
Permitam-me que, neste dia, uma palavra mais pessoal inclua-se à pregação. Celebro hoje nove anos de sacerdócio, nove anos a tocar o Corpo e o Sangue de Deus, a subir a o altar que é simultaneamente cruz e trono. E se algo aprendi nestes anos, meus caros, foi exatamente a verdade que hoje vos exponho: que a cruz do sacerdócio é pesada, sim, mas que não há felicidade na terra comparável à de ser configurado ao Cristo que se oferece. E digo isso não como um conhecimento aprendido na leitura, mas na experiência sacerdotal, como testemunho vivido no altar.
Chegamos assim, meus caros, ao coração do mistério, àquilo que desfaz o paradoxo com que abrimos. Porque alguém poderia dizer-me: se a lei da felicidade é a lei da cruz, então a vida cristã não passa de um longo e triste peso. E aqui está o segredo que o mundo ignora: quem toma a cruz não a carrega sozinho. No mesmo instante em que a levanta aos ombros, recebe Aquele que a leva com ele: vivit vero in me Christus, “é Cristo que vive em mim”. A cruz cristã nunca é um fardo solitário; é sempre carregada a dois. E por isso mesmo ela não esmaga. O que esmaga é o peso do mundo, e não o jugo de Cristo que é doce e suave.
Foi o próprio Senhor quem o prometeu: Iugum enim meum suave est, et onus meum leve (“O meu jugo é suave e o meu peso é leve”). Como pode um jugo ser suave, um peso ser leve? Só há uma resposta: quando não somos nós sozinhos a suportá-lo, mas Ele em nós. E há mais, meus caros, muito mais. Porque o Senhor não reservou toda a recompensa para a outra vida; quis dar-nos já nesta, como penhor e primícia, uma alegria que antecipa a glória. Ouçamos a promessa divina em toda a sua ousadia: centuplum accipiet, et vitam aeternam possidebit (“receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”). O cêntuplo não é adiado para depois da morte: é nesta vida que se recebe cem vezes mais. Quem deixa por Cristo recebe já, aqui, uma consolação que vale cem vezes o que renunciou.
Como exemplo, meus caros, recordemos São Paulo e Silas, lançados no fundo do cárcere de Filipos, com os pés no tronco e as costas laceradas pelos açoites. Que fazem eles durante a noite? Media autem nocte Paulus et Silas orantes laudabant Deum (“Lá pela meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus”). Cantavam na prisão! E não foi doutro modo que São Lourenço, deitado sobre as brasas, teve ainda ânimo para a piada e a santa zoeira dos mártires. De onde lhes vinha tamanha alegria em meio a um tormento tão real? De que a cruz que carregavam não era só deles: era d’Aquele que a carregava com eles.
Não é esta a vida dos santos? Aqueles que mais se despojaram foram sempre os mais alegres; os que abraçaram a cruz mais nua foram os que mais cantaram. Por isso pôde São Paulo descrever a vida do apóstolo com aquela fórmula que parece impossível e é a mais exata das verdades: quasi tristes, semper autem gaudentes (“como que tristes, mas sempre alegres”). Tristes aos olhos do mundo, que só vê a cruz; sempre alegres na verdade, porque veem Quem a carrega com eles. Esta é, meus caros, a felicidade que hoje o Sangue de Cristo nos anuncia. Não uma felicidade barata, que foge da dor, mas a felicidade profunda e inabalável de quem, tendo a consolação da graça, possui já nesta vida o próprio germe da bem-aventurança eterna. O Sangue de Cristo é, ao mesmo tempo, o preço dessa consolação e a semente dessa glória.
Repassemos, pois, caríssimos, o fio de tudo quanto consideramos. A festa do Preciosíssimo Sangue é verdadeiramente uma festa de júbilo, e de grande júbilo, e não apesar do Sangue, mas justamente por causa dele: porque esse Sangue é o preço da nossa consolação e a semente da nossa glória. Voltemos os olhos para o altar, onde dentro de instantes o mesmo Sangue se tornará presente. Ele não está aqui como memória de uma dor passada, mas real e substancialmente como fonte viva de uma alegria presente.
E façamos, cada um segundo o seu estado de vida, o único propósito digno deste dia: abraçar a cruz que nos é dada. Não como um fardo, mas como consolação e fonte de alegria profunda. Deus não nos dá as cruzes como fardos mas como consolação, força e alegria. Abracemos a cruz, meus caros! Os senhores, fiéis, na vida de família, no trabalho, nas doenças e provações; jamais fujam da cruz, porque é nela, e só nela, que encontrarão a consolação, a força e a felicidade prometida. E permitam que, ao sacerdote que hoje faz memória de nove anos de altar, seja dado dar-lhes este testemunho: quem toma a cruz com Cristo não a carrega sozinho, e prova já, nesta vida, uma felicidade que não passa. Peçamos, pela intercessão da Virgem das Dores, cujo Coração recolheu ao pé da cruz até à última gota este Sangue, como Corredentora e Medianeira de Todas as Graças, a graça de não recusarmos a nossa parte no sacrifício, para que também tenhamos a nossa parte da consolação. E Aquele cujo Sangue hoje comemoramos e adoramos, que, como reza nossa Santa Madre Igreja na Coleta da liturgia, eius sanguine placari voluisti, quis ser aplacado por esse Sangue, nos conceda que a alegria começada na cruz se consume na visão eterna.
E, por fim, permitam os senhores que a esta festa e a este aniversário, este pobre sacerdote que lhes fala, junte a oração que a própria Igreja põe em seus lábios quando reza por si mesmo. Omnípotens et miséricors Deus, humilitátis meae preces benígnus inténde: et me fámulum tuum, quem, nullis suffragántibus méritis, sed imménsa cleméntiae tuae largitáte, caeléstibus mystériis servíre tribuísti, dignum sacris altáribus fac minístrum; ut, quod mea voce deprómitur, tua sanctificatióne firmétur (“Deus onipotente e misericordioso, atendei benignamente às preces da minha humildade; e a mim, vosso servo, a quem, sem mérito algum que me valha, mas pela imensa largueza da vossa clemência, concedestes servir aos celestes mistérios, fazei-me ministro digno dos sagrados altares, para que aquilo que a minha voz profere seja confirmado pela vossa santificação”). Amém.


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