Sermão para o III Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 14 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
A oração que nossa Santa Romana Igreja hoje põe em nossos lábios, a coleta deste terceiro domingo depois de Pentecostes, encerra num só verbo toda a sabedoria da vida cristã. Pede ela que de tal modo passemos pelos bens temporais que não percamos os eternos: sic transeámus per bona temporália, ut non amittámus ætérna. Notemos, meus caros, o verbo utilizado: transíre, passar, atravessar. Não fomos feitos para nos instalar, mas tão somente para passar. Esta vida não é a nossa casa, é a estrada; não é a pátria, é a viagem. Somos, todos nós, viadores: viajantes, peregrinos que atravessam um país que não é o seu, rumo à verdadeira pátria.
Santo Agostinho gostava de comparar o cristão ao viajante que, fatigado da jornada, entra numa hospedaria. Serve-se da cama, da mesa, do abrigo; mas seria insensato o homem que, encantado com a estalagem, ali quisesse fixar morada e esquecesse a casa paterna que o aguarda. Os bens desta vida são a hospedaria; o céu é a casa. E toda a arte de bem viver está em usar da hospedaria sem a confundir com o seu lar.
Ora, caríssimos, esta travessia tem dois perigos, e a liturgia deste Domingo no-los sinaliza a ambos. O primeiro é deixarmo-nos reter pelas próprias coisas pelas quais devíamos apenas passar. O segundo é o inimigo que ronda a estrada, espreitando o viajante distraído. Contra um e outro nossa Santa Madre Igreja nos arma hoje com dois preceitos: o reto uso dos bens temporais, que a coleta nos ensina, e a sobriedade vigilante que o Apóstolo nos ordena: Sóbrii estóte et vigiláte(“sede sóbrios e vigiai”). Detenhamo-nos em cada um, e vejamos depois como, no fundo, são um só preceito.
Comecemos por desfazer um equívoco. Quando a Santa Igreja nos adverte contra o apego aos bens temporais, não os declara maus. São bona, bens, e dons de Deus. A saúde, o pão, a casa, a família, o trabalho honesto, a justa alegria das criaturas: tudo isto saiu das mãos do Criador e foi por Ele declarado bom. Não é cristão desprezar o que Deus fez; é cristão pô-lo em seu devido lugar. E o lugar dos bens temporais é serem bens da estrada, não bens do destino.
Os antigos doutores, com Santo Agostinho à frente deles, distinguiam por isso duas atitudes da alma diante das coisas: utie frui, usar e fruir. Usamos aquilo de que nos servimos para chegar a outra coisa; fruímos aquilo em que descansamos como se fosse o fim último. Ora, ensina o Bispo de Hipona, das criaturas havemos de usar, e só de Deus havemos de fruir, porque só Ele é o nosso fim e o nosso repouso. Quem inverte esta ordem e quer fruir o temporal, repousar nele como num termo, esse já se perdeu, ainda que nada lhe falte; porque fez da hospedaria o seu lar.
E a coleta nos dá a razão última deste perigo. Sine quo nihil est válidum, nihil sanctum, sem Deus, diz ela, nada há de forte, nada há de santo. Separado de sua ordenação a Deus, o próprio bem se esvazia e se torna laço, cilada. A riqueza que devia servir, escraviza; o prazer que devia refazer as forças, dissipa; o afeto desordenado que devia elevar, prende ao chão. Só te rectóre, te duce, “sendo Vós o governante, sendo Vós o guia”, a estrada conduz à casa; sem este Guia, os mesmos bens que pareciam levar-nos adiante nos detêm e nos extraviam.
Aqui, meus caros, podemos lançar um olhar sobre o nosso tempo. A sociedade em que vivemos fez precisamente do frui a sua filosofia. Ensina ao homem, desde criança, a buscar na criatura o seu descanso último; promete-lhe a felicidade no ter, no gozar, no possuir; e cala-se sobre a pátria de destino. É o materialismo prático, que não necessariamente nega Deus com palavras, mas o nega com a vida, instalando-se na hospedaria como se fosse a casa. É contra esta apostasia silenciosa nos adverte e defende a oração de hoje: não somos donos, somos transeuntes.
Mas como saber, perguntará alguém, se uso ou se fruo, se sou senhor dos meus bens ou seu escravo? Há um sinal seguro, meus caros, e a própria vida no-lo dá: vê-se de que somos donos pela serenidade com que sabemos perder. O que apenas usa, quando o bem lhe é tirado, entristece-se como quem larga um instrumento; o que frui, quando o perde, desespera como quem perdesse a alma, como se perdesse parte de si. Provemo-nos, pois, não no dia da abundância, mas no dia da privação: na doença que tira a saúde, no revés que tira a fortuna, na contrariedade que tira o conforto. Se aí o coração permanece em paz, porque tinha o seu tesouro mais alto, é sinal de que apenas usava; se aí desaba, é sinal de que ali havia posto a sua casa. Pôr o coração no que se pode perder é edificar sobre a areia da estrada.
E aqui, meus caros, os dois perigos da estrada, que pareciam dois, mostram-se um só. Porque o apego que nos retém é precisamente o que nos entrega ao inimigo que nos espreita. Vejamos a ovelha do Evangelho de hoje. Como ela se perdeu? Não foi por malícia calculada, mas por se afastar do pastor indo atrás da pastagem que lhe parecia melhor um pouco mais adiante, e depois mais adiante ainda, até dar por si longe do redil e da voz que a guardava. Eis a imagem do frui: a alma que, de bem em bem, de gozo em gozo, se vai distanciando do Pastor sem o perceber.
E que sucede à ovelha desgarrada? Longe do aprisco, é ela exatamente a presa perfeita para o leão. O Apóstolo no-lo dirá num instante: o demônio anda tamquam leo rúgiens, como leão a rugir. Ora o leão não ataca o rebanho unido junto ao pastor; ataca sim a ovelha que se afastou. O apego aos bens temporais não é, pois, um pecado inofensivo de gente distraída: é o que nos arranca da guarda do Pastor e nos põe ao alcance das garras do inimigo.
E há mais, caríssimos. O apego não só nos afasta; ele também nos adormece. A alma presa às coisas do mundo torna-se pesada, e a alma pesada não vigia. Por isso o Senhor unira num só preceito as duas coisas: Atténdite vobis, ne forte gravéntur corda vestra… et curis huius vitæ: “Olhai por vós, para que não suceda que os vossos corações se carreguem… com os cuidados desta vida”. O coração carregado dorme; e o que dorme não vê o leão senão quando já sente suas garras. Por isso a sobriedade que o Apóstolo nos pede é, antes de tudo, o desapego: ser sóbrio é não estar embriagado pelas criaturas, é trazer a alma leve, livre e desperta. Quem aprendeu a usar sem fruir já está meio acordado; agora quem frui, já adormeceu.
Cheguemos, pois, ao segundo preceito, que é o cerne da epístola de hoje. Sóbrii estóte et vigiláte: quia adversárius vester diábolus tamquam leo rúgiens círcuit, quærens quem dévoret: “Sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, como leão a rugir, anda em redor buscando a quem devorar”. O Apóstolo não fala por figura literária; fala da realidade séria e concreta do combate cristão. Há um inimigo, pessoal, inteligente, incansável, e a sua hostilidade não é metáfora.
E aqui, meus caros, façamos um segundo inciso sobre o nosso tempo. Uma das obras-primas do demônio, no tempo em que vivemos, foi persuadir os homens de que ele não existe. Enquanto a Escritura o anuncia como leão a rugir, o mundo moderno o reduz a símbolo, a superstição de outras eras, a uma figura de linguagem. Mas quanta estupidez! Quem se crê sem inimigo não levanta a guarda; e o inimigo que nos encontra desarmados é justamente o inimigo vitorioso. Nós, porém, que cremos na palavra de São Pedro, sabemos que a estrada tem feras, e por isso não caminhamos como quem passeia, mas como quem vigia e se mantém pronto para o combate. Marchamos como combatentes em território hostil.
Que armas nos dá então o Apóstolo? Não a autossuficiência, não a confiança nas próprias forças, essa é justamente a presunção que nos coloca à mercê do leão. Dá-nos primeiro a humildade: Humiliámini sub poténti manu Dei, ut vos exáltet in témpore visitatiónis, “Humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo da visitação”. O soberbo, que se julga forte, é precisamente o estúpido desarmado; o humilde, que se sabe fraco e se abriga sob a mão de Deus, esse é o sábio e invencível, porque combate não com a sua força, mas com a de Deus. Cui resístite fortes in fide:“resisti-lhe fortes na fé”: fortes, sim, mas na fé, não em nós mesmos.
E dá-nos, em segundo lugar, a confiança filial na Providência: omnem sollicitúdinem vestram proiiciéntes in eum, quóniam ipsi cura est de vobis, “lançando sobre Ele toda a vossa inquietação, porque Ele tem cuidado de vós”. Eis o segredo de andar com leveza na estrada: não que não haja cuidados, mas que todos eles são colocados n’Aquele que nos guarda. Este é o mesmo Deus que a coleta invoca no princípio: Protéctor in te sperántium: “Protetor dos que em Vós esperam”. A vigilância cristã não é a tensão angustiada daquele que se considera sozinho; é a sobriedade serena do que vela sob a guarda de um Pai.
E não nos contentemos, meus caros, com a vigilância em palavra: ela tem armas concretas, que nossa Santa Madre Igreja sempre pôs nas mãos dos seus filhos. A primeira é a oração, que é a respiração da alma desperta, e de modo eminente a oração da manhã com a meditação diária e a da noite com o exame de consciência diário, as quais montam a guarda às duas portas do dia. A segunda é a frequência dos sacramentos: a confissão, que reconduz a ovelha ao redil antes que o leão a alcance, e a sagrada Comunhão, que é o pão dos fortes para a estrada. A terceira é o exame da consciência diário, em que o viajante conta os passos andados e endireita o rumo para o dia seguinte. Quem assim caminha, rezando, comungando, examinando-se, esse vela verdadeiramente; e a alma que vela traz consigo, por toda a estrada, a presença do seu Pastor.
E qual o termo deste combate? Não a derrota, mas a vitória breve e certa. Módicum passos ipse perfíciet, confirmábit solidabítque, “depois de terdes padecido um pouco, Ele mesmo vos aperfeiçoará, vos confirmará e vos consolidará”. Um pouco: módicum. Eis a medida de todos os nossos trabalhos vistos da perspectiva da pátria celeste. A travessia é breve; a casa é eterna. Diante da eternidade nossa vida é um piscar de olhos.
Recolhamos, pois, meus caros, o que a liturgia de hoje nos ensinou. Somos viajantes; passamos rapidamente por esse mundo. Não nos é pedido que desprezemos os bens da estrada, que são dons de Deus, nem que a eles nos colemos, pois que não são a nossacasa. É-nos pedido que os possuamos de mãos abertas, isto é, usando sem fruir, servindo-nos deles para a viagem sem fazer deles o termo definitivo. E porque a estrada tem feras, é-nos pedido que caminhemos sóbrios e despertos, humildes sob a poderosa mão de Deus, lançando n’Ele todo o nosso cuidado.
Façamos assim, e duas coisas sucederão. O leão, rondando, não encontrará presa adormecida, porque velamos; e o Pastor, em vez de ter de sair a buscar-nos perdidos pelos montes, conduzir-nos-á na segurança do seu rebanho até ao aprisco, ut non amittámus ætérna, para que não percamos os bens eternos. E lembremo-nos que o mesmo Evangelho de hoje promete que há mais alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos. Que alegria, então, não haverá da parte do viajante que, de mãos abertas e alma desperta, completa a travessia e chega à casa do Pai?
E não é por acaso, meus caros, que esta lição nos é dada junto do altar. Pois aqui, neste santo sacrifício da Missa, o mesmo Bom Pastor que hoje ouvimos sair em busca da ovelha vem Ele próprio ao nosso encontro e Se faz nosso alimento para a travessia. Quem comunga dignamente leva consigo o próprio Pastor pela estrada; e a ovelha que caminha junto do Pastor já não tem que temer o leão, porque anda sob a sua guarda até o aprisco eterno.
Peçamos, pois, meus caros conspícuos, a graça desta oração, e façamos nossa a prece litúrgica deste dia: ó Deus, protetor dos que em Vós esperam, sem o qual nada é forte e nada é santo, multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, tendo-Vos por reitor e por guia, de tal modo passemos pelos bens temporais que não percamos os eternos. Assim seja.


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