[Sermão] Sagrado Coração de Jesus: fornalha ardente de caridade em um mundo gélido

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Sermão para a Festa do Sacratíssimo Coração de Jesus
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 12 de junho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Há na Ladainha do Sagrado Coração uma invocação que repetimos talvez sem lhe pesar a força, e que, no entanto, resume toda a festa de hoje: Cor Iesu, fornax ardens Caritatis, “Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade”. Reparemos que nossa Santa Romana Igreja não diz braseiro, nem fogueira, nem simplesmente chama; diz fornalha, isto é, o fogo levado ao seu grau mais alto, aquele que funde os metais, não se deixa apagar pelo vento e espalha seu calor com toda sua incandescência. É diante dessa fornalha que nos colocamos neste dia. E colocamo-nos diante dela, meus caros, num tempo em que, por toda a parte, o mundo esfria.

O Intróito desta Missa abre-se com palavras que convém guardemos em nosso coração: Cogitationes Cordis eius, “Os pensamentos do seu Coração permanecem de geração em geração” (Sl. XXXII, 11). Permanecem. Enquanto o coração do homem é volúvel, esquece num dia o que jurou na véspera e arrefece como uma brasa abandonada nas cinzas, os pensamentos daquele Coração Divino não mudam, não cansam, não recuam. Eis o contraste que há de percorrer toda esta nossa pregação: de um lado, um fogo que não se apaga; do outro, um mundo, e, não nos iludamos, muitas vezes também o nosso próprio peito, que, se já não é gélido, pouco a pouco se torna frio.

Proponho, pois, meus caros, que juntos consideremos três coisas. Primeiro, que contemplemos o que é este Coração e de que fogo arde. Depois, que tenhamos a coragem de medir, à luz dele, o frio do nosso tempo e o frio de nossos corações. E, por fim, que aprendamos para onde correr quando o frio nos alcança: não a acender um fogo nosso, sempre pequeno e logo extinto, mas a irmos àquela fornalha que jamais se apaga.

E o que é, então, este Coração? Aqui precisamos de ser exatos, meus caros, porque a devoção ao Sagrado Coração tem sofrido, no nosso tempo, uma deformação silenciosa. Reduziram-na muitos a um sentimentalismo brando, a uma imagem adocicada pendurada na parede, a um afeto morno que nada pede e nada transforma. Ora, não foi isto que nossa Santa Madre Igreja nos transmitiu. Quando o Papa Pio XII, na encíclica Haurietis Aquas, fixou a doutrina desta festa, ensinou-nos que o objeto do nosso culto é o coração de carne do Senhor, verdadeiro órgão vivo, unido sem separação possível à Pessoa do Verbo divino. Não veneramos uma alegoria vaga, mas aquele coração concreto que bate no peito de Cristo, que se comoveu diante da viúva de Naim, que estremeceu de tristeza no Horto das Oliveiras, e que foi por fim aberto pela lança no alto da Cruz.

E através desse coração de carne, ensina ainda o mesmo Pontífice, adoramos um tríplice amor. Há nele, em primeiro lugar, o amor divino e infinito, que o Filho possui e partilha desde toda a eternidade com o Pai e com o Espírito Santo. Há, em segundo lugar, o amor da sua alma humana, o amor santíssimo da sua vontade criada, com que Cristo, enquanto homem, livremente nos quer bem. E há, enfim, o amor sensível, o afeto do seu próprio coração de carne, que verdadeiramente sentiu por nós ternura, compaixão e terrível dor. Três amores, e um só Cristo que, sendo Deus, ama por todos eles: tal é a fornalha que hoje adoramos.

E perguntará talvez alguém: mas padre, por que o coração, e não outro membro qualquer? Porque o coração é, desde sempre e em todas as culturas, o símbolo natural do amor. Quando amamos, é o coração que sentimos bater apressado; quando sofremos, é nele que pesa a dor; dele falam os salmos, dele falam os profetas, dele fala o uso comum de todos os povos. Não foi, pois, por capricho que a Providência quis que adorássemos o amor do Redentor sob o sinal do seu Coração, mas porque nesse órgão de carne o próprio Deus uniu o sinal sensível à realidade invisível que por ele se significa. Adorando o Coração, adoramos a Pessoa inteira; e na batida daquele coração lemos, como num livro aberto, todo o amor que ele nos trouxe do céu à terra, e da terra até à Cruz.

Compreendamos agora por que São Paulo, na Epístola que há pouco se cantou, fala de uma caritas Christi quae supereminet scientiae, “a caridade de Cristo que excede toda a ciência” (Ef. III, 19). Excede a ciência porque nenhum cálculo a alcança e nenhuma medida a contém. Não é, portanto, um sentimento que possamos adaptar à comodidade dos nossos gostos; é um abismo de fogo, diante do qual só cabe ajoelhar e se entregar a si mesmo para não morrer congelado nas trevas do mundo. E é justamente este fogo, caríssimos, que o mundo de hoje despreza e do qual se afasta.

Pois ouçamos a palavra grave que o próprio Senhor pronunciou, anunciando os tempos que haviam de vir: et quoniam abundavit iniquitas, refrigescet caritas multorum, “e, porque a iniquidade abundou, esfriará a caridade de muitos” (Mt. XXIV, 12). Reparemos a imagem que Nosso Senhor escolheu. Não disse que a caridade morreria de um só golpe, nem que seria arrancada à força; disse que esfriaria. E o frio não chega com estrondo. Chega devagar, pelo esfriamento gradual, como o calor que abandona um corpo sem que ele o perceba, até que um dia se descobre já gelado sem o ter sabido.

E não é este, meus caros, o retrato exato da nossa hora? Vejamos como, ao nosso redor, a própria palavra “amor” foi esvaziada do seu fogo divino e rebaixada a uma filantropia sem Deus, a uma solidariedade puramente horizontal que cuida do corpo e esquece a alma, que fala muito do homem e cala obstinadamente o nome de Cristo. Isso quando o termo amor não traduz uma paixão carnal, que foca somente no prazer efêmero e baixo. Vejamos com que facilidade os mundanos no dia de hoje se referiram ao Dia dos Namorados, deixando de lado o Amor Crucificado para nossa vida. O homem moderno não somente rebaixou o amor à sua mediocridade, lançando-se ele mesmo à bestialidade animalesca, ele rebaixou o amor ao nível dos porcos. Enfim, levantou-se uma religião do homem que dispensa o Coração do Redentor, e que oferece ao mundo uma caridade já fria à nascença, porque cortada da fornalha de onde toda a verdadeira caridade procede. Tiram Deus do meio dos homens, e admiram-se depois de que o amor entre os homens se tenha gelado e bestializado.

Mas seria covardia da nossa parte, caríssimos, apontar somente o frio do mundo lá fora. Porque o mesmo frio se insinua, sorrateiro, dentro de casa, e até dentro do próprio peito que se diz católico. Isto tem um nome antigo: chama-se tibieza. É a brasa que ainda não se apagou de todo, mas que já não aquece; é a oração que se vai encurtando, a genuflexão feita à pressa, o pecado que se desculpa facilmente como que por hábito, a devoção a este mesmo Coração que em tantos lugares se deixou esfriar e cair no esquecimento, como se fosse coisa antiquada de outro século. Foi precisamente deste esfriamento que o Senhor Se queixou, quando mostrou o seu Coração a Santa Margarida Maria: eis o Coração que tanto amou os homens e que, em troca de tanto amor, de tantos só recebe ingratidão, esquecimento e desprezo. O Amor não amado: tal é a ferida que hoje somos impelidos a desagravar.

E que havemos de fazer, então, caríssimos, nós que sentimos o frio rondar-nos de perto? Não caiamos na ilusão de acender, com as nossas próprias mãos débeis, um fogo que seria sempre pequeno e que à primeira rajada se apagaria. Resta-nos algo infinitamente melhor, e a Ladainha do Sagrado Coração hoje no-lo aponta em outra das suas invocações: Cor Iesu, patiens et multae misericordiae, “Coração de Jesus, paciente e cheio de misericórdia”. Aquele Coração, ainda que tão atrozmente ultrajado e ofendido, não se fechou sobre a sua mágoa; ele permaneceu aberto. E permaneceu aberto não apenas em sentido figurado, mas na verdade da sua própria carne: pois o Evangelho desta festa mostra-nos o soldado a rasgar com a lança o lado do Senhor, donde logo jorraram “sangue e água” (Jo. XIX, 34); o sangue que nos remiu e a água que nos lava, a fonte dos sacramentos que desde então nunca mais cessou de correr.

Os Padres da Igreja contemplaram longamente a chaga aberta, e nela enxergaram um refúgio. Aplicaram-lhe a palavra do Cântico dos Cânticos, quando o esposo chama sua pomba para se esconder in foraminibus petrae, “nas fendas da rocha” (Ct. II, 14). A rocha é Cristo; a fenda é a ferida do seu lado trespassado; e a pomba assustada somos nós, que do frio cortante do mundo voamos para abrigar-nos no calor daquele peito. Não há, meus caros, abrigo mais seguro sob o céu. Quando o pecado nos gela, quando o desânimo nos faz desfalecer, quando o mundo inteiro parece em redor um campo coberto de neve, há sempre aberto um refúgio caloroso: o Coração trespassado de nosso Deus.

E não receemos, meus caros, que a nossa miséria nos feche essa porta. Pelo contrário: é precisamente o frio que ali tem entrada, e é o pobre que ali é esperado. Aquele Coração não exige que cheguemos já aquecidos; pede apenas que cheguemos. O filho pródigo não levou ao pai senão os seus farrapos e a sua fome, e foi assim, e não de outro modo, que o pai correu ao seu encontro e o cobriu de beijos e abraços. Aproximemo-nos, pois, com a santa ousadia dos que nada têm a oferecer senão a própria indigência, certos de que foi para tais hóspedes que este peito se deixou abrir.

Por isso a devoção que hoje celebramos não pode terminar em mero sentimento; há de florir em obra. O Senhor pediu reparação, e deu-nos para isso um caminho concreto e que se encontra ao alcance de todos: a comunhão das primeiras sextas-feiras, oferecida em desagravo por tanto frio e por tanto esquecimento. Não desprezemos este tesouro nem o tratemos como uma devoção menor e opcional. Pois quem quiser de verdade aquecer um mundo gelado há de começar por se deixar aquecer a si mesmo, ajoelhado diante do altar, achegando-se junto da fornalha até que o seu próprio coração, de brasa quase morta, torne a arder e incendiar outros corações, para incendiar, enfim, a família, a sociedade e o mundo. Eis, caríssimos, a única reforma que verdadeiramente importa: não a das aparências exteriores, mas a dos corações reacendidos no Coração de Cristo.

Voltemos, pois, meus caros conspícuos, ao fio que nos conduziu por esta nossa pregação. Vimos o fogo: o tríplice amor daquele Coração que arde como fornalha e cuja caridade excede toda a ciência. Vimos então o frio: a iniquidade que abundou e a caridade de muitos que por isso esfriou, no mundo e também em nós. E vimos enfim a fornalha ao nosso alcance: o lado aberto donde o sangue e a água ainda hoje correm, e onde a pomba acossada encontra abrigo certo.Resta-nos agora escolher de que lado queremos ficar. Haverá sempre, até ao fim, os muitos cuja caridade esfria; supliquemos com humildade a graça de não sermos contados entre eles. Consagremo-nos hoje, de novo e de coração inteiro, àquele Divino Coração; abandonemo-nos sem reservas à sua paciência e à sua misericórdia, que são, sem comparação, maiores do que todas as nossas friezas juntas. E levemos conosco, ao transpor a porta desta nossa capela, a mesma palavra com que começamos e que nem o mundo nem o inferno poderão jamais apagar: Cogitationes Cordis eius in generatione et generationem, “os pensamentos do seu Coração permanecem de geração em geração” (Sl. XXXII, 11). O nosso amor vacila; o d’Ele, nunca. Edifiquemos, pois, nossa vida sobre a firmeza desse coração e não sobre a nossa frieza.

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