[Sermão] Prestar contas a Deus: a Prudência à luz da eternidade

Parable of the Unjust Steward. A. Mironov

Sermão para o VIII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 19 de julho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja nos coloca diante de uma cena surpreendente hoje: Nosso Senhor louva um trapaceiro. Aquele administrador dissipara os bens de seu amo, falsificara contas, comprara para si o favor dos devedores à custa alheia e, contudo, ouvimos que “laudávit dóminus víllicum iniquitátis, quia prudénter fecísset” (“o senhor louvou o administrador iníquo por ter agido com prudência”). Não é a fraude que merece louvor, entendamo-lo bem; é uma só qualidade que se salva naquele homem: a previdência. Ele previu o machado suspenso sobre a sua cabeça e agiu. E é justamente aqui, meus caros, que a parábola se volta contra nós: aquele homem moveu-se por uma simples ameaça de demissão; nós, que temos diante dos olhos uma certeza infinitamente mais grave, a da morte e a do juízo, permanecemos imóveis. Toda a nossa meditação de hoje cabe numa frase: olhar a própria vida do ponto de vista de Deus é o princípio da prudência; recusar esse olhar é, em rigor de termos, uma insanidade.

Comecemos por onde começa a parábola, com a intimação que ali ouvimos: “Redde ratiónem villicatiónis tuæ” (“Presta contas da tua administração”). Não nos iludamos julgando que essa palavra foi dita apenas ao ecônomo infiel. É uma intimação para cada homem que vive. A diferença, que deveria nos preocupar, está toda a nosso desfavor: o administrador da parábola recebeu um aviso e teve prazo para se preparar; a nós foi dada uma certeza maior e um prazo oculto. Sabemos que havemos de prestar contas; ignoramos apenas a hora. “Statútum est homínibus semel mori, post hoc autem iudícium”(“Está estabelecido aos homens morrer uma só vez, e depois disto o juízo”), diz o Apóstolo. E o Senhor, que não quis deixar-nos margem para o descuido, repete: “Vigiláte… quia nescítis diem neque horam” (“Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora”). Pode a intimação soar hoje, neste instante; e, uma vez soada, “iam non póteris villicáre” (“já não poderás administrar”). Fechada a porta da vida, não há mais gestão possível, nem correção, nem segunda diligência. Todos os outros compromissos se podem adiar, renegociar, transferir a outro dia; este, não. É o único encontro a que nenhum homem falta e para o qual ninguém obtém prazo. E o mais temível, meus caros, não é que a morte venha, isso nós bem o sabemos, mas que venha sem aviso: ao meio de um projeto, no meio de uma frase, quando menos esperarmos. Nunca será demais lembrar que sequer sabemos se sairemos vivos dessa capela.

Que faremos, então, com o tempo que ainda nos resta? A coleta deste domingo põe-nos nos lábios exatamente aquilo de que precisamos: pedimos a Deus “spíritum cogitándi quæ recta sunt et agéndi” (“o espírito de pensar o que é reto e de o fazer”). Ora, isto é a própria definição da prudência. Ensina-nos Santo Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, que a prudência é a recta ratio agibílium, a reta razão aplicada ao agir. Mas a prudência do cristão, meus caros, não é a mera esperteza de quem sabe conduzir os seus negócios: é a arte de pesar cada ato presente pela sua consequência eterna. O momento presente é a única moeda de que dispomos, e é uma moeda que só se cunha uma vez. Bem advertia Santo Agostinho que o tempo, uma vez ido, já não está em nosso poder: não temos senão o hoje, e nem sequer o dia inteiro, mas somente o presente, esse mesmo instante, o instante que corre enquanto lhes dirijo essas palavras. Só temos o presente, nós realmente não sabemos se teremos até o fim desse dia. Pensemos nas pessoas que morrer nas mais variadas situações todos os dias: elas se levantaram como nós nos levantamos esta manhã, se vestiram, tomaram café-da-manhã, como se fosse só mais um dia; ao invés de retornar para sua cama para mais uma noite de sono, mas se depararam com o Juízo Divino. Pensemos como os vários anos nossos passaram em um piscar de olhos, e eis-nos aqui com nossos 20, 30, 50, 70. 80 anos: mais cedo ou mais tarde nossos anos vão ter fim. O tempo foge, tempus fugit. O tempo passa, memento mori. Lembremo-nos da morte, eis uma realidade absolutamente certa que está vindo ao encontro de cada um de nós. O que temos assegurado é o presente para preparar nossa eternidade. Gastá-lo como se nada valesse para sempre, esbanjá-lo em ninharias enquanto se adia o essencial, eis aí a raiz de toda a insensatez. Eis o cúmulo da loucura, eis a maior das burrices. Por isso ensinava já o Espírito Santo, pela boca do Sábio: “In ómnibus opéribus tuis memoráre novíssima tua, et in ætérnum non peccábis” (“Em todas as tuas obras lembra-te dos teus fins últimos, e não pecarás jamais”). Quem traz os olhos fixos no termo não se perde no caminho.

E aqui chegamos, meus caros conspícuos, ao ponto em que a queixa do Senhor se dirige a nós. “Fílii huius sǽculi prudentióres fíliis lucis in generatióne sua sunt” (“Os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da luz na sua geração”). Que ele nos diz? O homem do mundo calcula, prevê, poupa, prepara-se; estuda longamente onde há de investir, examina os riscos, não deixa ao acaso o futuro dos seus filhos nem seu sustento. E faz tudo isto por bens que hão de escapar-lhe entre os dedos, por um futuro que dura o que dura uma vida. Nós, porém, que dizemos crer na eternidade, que a confessamos em voz alta todos os domingos, como nos comportamos diante dela? Improvisamos. Adiamos. Presumimos da misericórdia como quem presume um crédito sem fundo. Temos plano de saúde, seguro veicular e imobiliário, e deixamos a alma sem resguardo algum contra a morte eterna. Meus caros, chamemos as coisas pelo seu nome: saber-se mortal e viver como imortal, crer no juízo e agir como quem jamais dará contas: isto não é fraqueza apenas, é loucura. É a insanidade de quem, tendo olhos, escolhe não ver. Imaginemos um homem que gastasse todas suas riquezas a adornar uma hospedaria onde passará uma só noite, e não levasse nada consigo para a casa onde há de morar para sempre: não o chamaríamos de louco? Pois é esse o nosso retrato cada vez que cuidamos dos bens materiais, que se hão de desfazer, e abandonamos a alma, que não há de morrer, arriscando um sofrimento eterno.

Que remédio, então, caríssimos, para esta cegueira voluntária? Um só, e está inteiro no dom que hoje pedimos: que Deus nos conceda o espírito de pensar o que é reto e de o fazer. Não basta ver a verdade de longe; é preciso vivê-la de perto. Comecemos, pois, neste mesmo dia, a exercer a única prudência que verdadeiramente importa. Antes de cada escolha, por menor que pareça, façamos a pergunta que tudo ordena: isto, diante da eternidade, que peso terá? Assim se converte a prudência carnal em prudência dos santos. E não temamos, caríssimos, que esta lembrança dos fins últimos nos torne a vida triste ou o coração sombrio. O memento mori, o “lembra-te de que hás de morrer”, não é o medo mórbido do escravo, mas a lucidez serena do filho que deseja, acima de tudo, ser achado fiel quando o Pai o chamar. Vivamos, portanto, de tal sorte que, ao soar sobre nós o “Redde ratiónem”, ele não nos encontre desprevenidos, mas de contas em ordem e preparados; e que então se nos abram, largamente, aqueles tabernáculos eternos” para os quais fomos criados, e onde nos espera já não a intimação do juízo, mas o abraço sem fim daquele que é o nosso bom e terno Pai.

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O Antoniano