[Sermão] A onipotência e a verdadeira misericórdia de Deus

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Sermão para o X Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 02 de agosto de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja abre a missa deste domingo com o clamor de um aflito: Cum clamarem ad Dominum, exaudivit vocem meam (“Quando clamei ao Senhor, ele ouviu a minha voz”). E do clamor do salmista logo passamos ao átrio do templo, para onde o Evangelho nos conduz; e convém notarmos, desde já, que nossa Santa Igreja não nos manda contemplar hoje os grandes gestos da virtude de religião, mas para dois homens que se colocam em oração e para o que se passa no interior deles.

Quando pensamos na onipotência de Deus, imaginamos naturalmente a criação do universo, os astros dispostos em suas órbitas, o mar aberto diante de Moisés, os trovões do Sinai. A oração que nossa Santa Madre Igreja profere por nós na coleta hoje afirma, no entanto, coisa diversa: Deus, qui omnipoténtiam tuam parcéndo máxime et miserándo maniféstas(“Ó Deus, que manifestais sobretudo perdoando e usando de misericórdia a vossa onipotência”). Maxime: sobretudo, ao máximo. Naquele dia, em Jerusalém, a maior obra de Deus não se deu no altar dos holocaustos nem no Santo dos Santos, mas num canto do pátio, imperceptivelmente, num homem que não ousava levantar os olhos.

Comparemos, meus caros, as duas obras. Ao criar, Deus dá o ser ao que não era, e o nada não lhe resiste. Ao justificar o pecador ele reordenada quem estava contra ele, ele dá a justiça a quem agia contra a justiça; ou seja, aqui há resistência, porque o pecador não é apenas nada: é vontade colocada contra Deus. Por isso escreve Santo Agostinho: Maius est enim ut ex impio iustus fiat, quam creare cœlum et terram (“Maior coisa é que de ímpio se faça justo, do que criar o céu e a terra”). Santo Tomás retoma-o e dá a razão: o céu e a terra são bens que passam, ao passo que a justificação ordena o homem a um bem eterno.

Guardemo-nos, porém, caríssimos, de um equívoco sentimental. A misericórdia, em Deus, não é enternecimento nem afeto de paixão, como se ele padecesse conosco à maneira de um companheiro impotente; é efeito, é ação, é remoção real da nossa miséria. Assim o ensina Santo Tomás. E é precisamente por isso que ela é exercício da sua onipotência, e não brandura. Entre o médico que chora à cabeceira do doente e o médico que o cura, sabemos qual dos dois é o forte.

Daqui se segue, meus caros, uma consequência que o homem moderno não quer admitir. Fala-se muito da misericórdia divina, mas entendendo-a como declaração de que o pecado, afinal, não importava. Ora, isso não seria onipotência: seria resignação de um fraco. Um poder que apenas tolera é um poder fraco, e um perdão que deixasse o homem exatamente como estava nada teria feito por ele.

Retomemos o Evangelho: descéndit hic iustificátus in domum suam ab illo (“Este desceu justificado para sua casa, e não o outro”). Alguma coisa se passou dentro daquele publicano. Ele não desce apenas desculpado por fora, nem coberto por uma sentença que lhe seja exterior: desce justo, com a justiça infundida na alma. É obra divina verdadeira, e não uma ficção jurídica.

E o outro? O fariseu também subiu ao templo, também orou, e dizia coisas verdadeiras: não era ladrão, jejuava, pagava o dízimo de tudo quanto possuía. Desceu, contudo, tal como havia subido. É que a misericórdia, para operar, precisa de matéria, e a sua matéria é a miséria confessada. Aquele homem não apresentou nenhuma, e por isso a onipotência divina nada teve o que fazer nele; não por falta de poder, mas porque nada lhe fora pedido. Reparemos que São Lucas diz que ele orava apud se (“consigo mesmo”). Falava, e não havia ninguém do outro lado. Deste perigo, meus caros, não está livre quem frequenta os sacramentos e guarda a lei: está livre apenas quem se sabe pecador.

Nem se pense que a misericórdia venha contradizer a justiça. Ensina Santo Tomás que a obra da justiça divina sempre pressupõe a obra da misericórdia e nela se funda. E há um preço, meus caros, que devemos ter sempre presente quando falamos de perdão. A coleta diz parcéndo, poupando; e São Paulo escreve: Qui étiam próprio Fílio suo non pepércit, sed pro nobis ómnibus trádidit illum (“Aquele que nem ao próprio Filho poupou, mas por todos nós o entregou”). Deus poupa-nos justamente porque ele mesmo não se poupou. Eis por que o seu perdão não é indulgência: custou o mais alto preço possível, o sangue derramado de um Deus crucificado.

Resta perguntar onde essa onipotência nos alcança. O Evangelho responde com três gestos. O publicano estava a longe stans (“de pé, ao longe”); nolébat nec óculos ad cœlum leváre (“não ousava sequer levantar os olhos ao céu”); e percutiébat pectus suum (“batia no peito”). Reparemos que nossa Santa Romana Igreja guardou os três na sua liturgia: a distância reverente diante do santuário, os olhos baixos, o mea culpa do Confiteor e o Dómine, non sum dignus antes da comunhão. A oração daquele homem tornou-se a nossa, palavra por palavra.

E que oração é essa? Deus, propítius esto mihi peccatóri (“Ó Deus, sede propício a mim, pecador”). É justamente a linguagem de sacrifício. Aquele homem está no templo à hora da oblação e pede que o sacrifício ali oferecido desça sobre a sua miséria. Não por acaso a antífona que cantaremos na comunhão diz: Acceptábis sacrifícium iustítiæ, oblatiónes et holocáusta super altáre tuum, Dómine (“Aceitareis o sacrifício de justiça, oblações e holocaustos sobre o vosso altar, Senhor”); versículo tomado do Miserere, o salmo do arrependimento, no qual pouco antes se lê que Deus não despreza um coração contrito e humilhado.

Há ainda, meus caros conspícuos, o lugar onde essa onipotência se exerce sobre cada um de nós pelo nome. Quando o sacerdote levanta a mão no confessionário e pronuncia ego te abólvo (“eu te absolvo”), uma pobre criatura diz palavras que só o poder infinito realiza; e o pecado, que nenhuma força humana consegue desfazer, é desfeito. Temos essa porta aberta a poucos passos daqui no confessionário, ao nosso alcance, e eis que pode acontecer de a ignorarmos em uma atitude que é pura loucura. Ter a misericórdia de Deus ao seu alcance e ignorá-la outra coisa não é senão loucura.

Retornemos, para terminar, à segunda metade da coleta: multíplica super nos misericórdiam tuam; ut, ad tua promíssa curréntes, cœléstium bonórum fácias esse consórtes (“multiplicai sobre nós a vossa misericórdia, para que, correndo às vossas promessas, nos torneis participantes dos bens celestes”). Curréntes: correndo. A misericórdia recebida não é um lugar onde paramos nos sentamos; é um impulso. O publicano desceu justificado para sua casa, o que quer dizer que teve de ir viver como justo, no mesmo ofício desprezado e entre a mesma gente. Também nós sairemos daqui devendo a Deus um passo concreto, responsáveis por colocar em prática a graça recebida, e cada um sabe qual é o seu. Notemos, enfim, a última palavra: consórtes, participantes, consócios. A misericórdia não termina no perdão, termina na glória. Deus não perdoa para simplesmente nos deixar quites; ele nos perdoa para nos fazer seus amigos.

Dois homens subiram hoje ao templo, meus caros, e os dois desceram. A diferença entre eles é a única que contará no fim. Dentro de instantes, o sacrifício que o publicano invocava de longe será oferecido no altar, e a onipotência divina fará outra vez a sua obra maior: não a de criar mundos, mas a de tornar justos os que se reconhecem pecadores. Peçamos, pois, que nenhum de nós saia desta capela como o fariseu saiu do templo.

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O Antoniano