Exortação para o dia dos pais
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Brasília-DF, 09 de agosto de 2026 A.D.
Caríssimos pais,
Comemora-se hoje, no calendário civil, o Dia dos Pais; e não seria justo que, atentos também às realidades mais humanas, deixássemos passar em silêncio uma data que toca tão de perto o coração da família. Saúdo, pois, com afeto paterno, todos os pais, os que aqui estão e os que já partiram para a eternidade, por quem igualmente rezamos, e desejo-lhes que sejam, à imagem de São José, varões justos.
O Evangelho reserva a São José um único elogio, mas que os contém todos: “Ioseph autem vir eius, cum esset iustus” (“José, seu esposo, sendo justo”). Na linguagem da Escritura, justo não é apenas o homem que não faz mal a ninguém: é aquele que dá a cada um o que lhe é devido: a Deus, o culto e a obediência; à esposa, a fidelidade e a honra; aos filhos, o sustento, a correção e o exemplo. A justiça de São José não foi uma virtude decorativa, foi ela o eixo silencioso sobre o qual repousou a salvação do mundo.
Que o pai seja imagem viva da paternidade divina. Escreve São Paulo que dobra os joelhos diante do Pai “ex quo omnis paternitas in caelis et in terra nominatur” (“de quem toda paternidade, nos céus e na terra, recebe o nome”). Toda paternidade humana é participação e reflexo daquela paternidade divina. Daí a gravidade do ofício: o pai não manda em nome próprio, mas exerce, dentro dos limites do lar, uma autoridade recebida, e por isso mesmo prestará contas do modo como a exerceu. A autoridade que se esquece de quem é delegada degenera em tirania; a autoridade que se envergonha de si mesma degenera em abdicação. Uma e outra são deserções.
Costuma-se resumir os deveres do pai de família em três: governar, sustentar e defender. São verdadeiros, e ninguém os cumpre sem sacrifício. Mas seria mutilar o ofício paterno detê-lo aí, como se bastasse dar aos filhos pão, teto e proteção. Faltaria o principal: santificar. Deus não confiou ao pai apenas corpos que crescem, mas almas que se salvam ou se perdem. Por isso fala a nossa santa fé de um verdadeiro sacerdócio natural do pai de família, não sacramental, evidentemente, mas real: ele preside a oração doméstica, abençoa os filhos, conduz o Rosário em comum, ensina as primeiras verdades da fé, vela para que a casa seja um recinto onde a graça possa respirar e crescer.
E aqui está, meus caros, o ponto que lhes relembro hoje: ninguém dá o que não tem. Nemo dat quod non habet. O pai que pretende santificar os seus sem cuidar da própria santificação empreende uma obra impossível. Cuidar da própria formação católica, conhecer a doutrina que se transmite, frequentar os sacramentos com regularidade, confessar-se, comungar, ter vida de oração e não apenas boas intenções, nada disso é luxo de almas devotas, é uma obrigação de estado. A generosidade na vida da graça deve ser o normal, para não dizer o mínimo, de um pai de família católico. Um pai que não se mantém na graça é um pai que abandona o seu posto e capitula diante do inimigo; e o inimigo, quando encontra a porta desguarnecida, não hesita em entrar e servir-se.
O Antigo Testamento nos deixou modelos que precederam São José nesse ofício. Noé ouviu de Deus: “Ingredere tu et omnis domus tua in arcam” (“Entra na arca, tu e toda a tua casa”), e salvou a família porque foi justo numa geração inteira que se corrompera. De Abraão disse o Senhor que o havia escolhido porque ordenaria aos filhos que guardassem o caminho do Senhor: eis a paternidade que não se limita a gerar, mas educa. Jó levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos pelos filhos, dizendo consigo: “Ne forte peccaverint filii mei” (“Talvez os meus filhos tenham pecado”), e expiava por eles antes mesmo de saber se haviam pecado. Josué, diante de um povo vacilante, proclamou a decisão que todo chefe de família deveria repetir: “Ego autem et domus mea serviemus Domino” (“Eu, porém, e a minha casa serviremos ao Senhor”). Tobias, cego e pobre, teve por única herança a instrução que deu ao filho: ter Deus na mente todos os dias da vida. E Matatias, moribundo, não legou aos seus herdeiros bens ou terras, mas o zelo pela lei de Deus.
Deixou-nos também a Escritura um contraexemplo, e convém não esquecê-lo. Heli era sacerdote e homem sem malícia; seus filhos profanavam as coisas santas, e ele repreendeu-os com brandura, mas não os corrigiu de fato. Eis que perdeu os filhos, perdeu a arca, perdeu a vida e perdeu a casa. A omissão do pai medíocre que se achava correto por simplesmente fazer o mínimo, mas sem generosidade não queria se comprometer, e “não queria criar caso” custa caro. E a história de Heli está no Livro Sagrado precisamente para que os pais a leiam.
Sejam, pois, justos e fortes como São José: firmes sem dureza, mansos sem fraqueza, calados quanto ele foi calado e prontos quanto ele foi pronto, na noite em que Deus lhe mandou partir para o Egito. A ele se confiem cada um dos senhores e cada uma de suas famílias.
Ite ad Ioseph, “Ide a José”: ele saberá o que fazer.
Dues lhes abençoe e feliz Dia dos Pais!


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