[Sermão] Como ser ouvido por Deus?

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Sermão para o IX Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 26 de julho de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Há uma queixa que raramente se confessa em voz alta, mas que atravessa a vida interior de quase todos nós. Rezamos. Insistimos. Voltamos ao mesmo pedido durante meses, talvez durante anos, com lágrimas muitas vezes. E nada. O céu parece permanecer calado. E então, sem que o formulemos com todas as letras, instala-se na alma uma suspeita amarga: os ouvidos de Deus estarão fechados para mim.

Nossa Santa Madre Igreja, que conhece os seus filhos melhor do que eles se conhecem, põe hoje nos nossos lábios uma oração que responde a essa suspeita antes mesmo de a deixarmos crescer. Ouvimo-la na Coleta desta Missa: Páteant aures misericórdiæ tuæ, Dómine, précibus supplicántium (“Estejam abertos, Senhor, os ouvidos da vossa misericórdia às preces dos suplicantes”). Até aqui, nada nos surpreende: é exatamente o que queríamos dizer. Mas nossa Santa Romana Igreja não se detém aí. Acrescenta: et, ut peténtibus desideráta concédas, fac eos quæ tibi sunt plácita, postuláre (“e, para que concedais aos que pedem aquilo que desejam, fazei que eles peçam o que vos é agradável”).

Consideremos essa segunda metade, meus caros, porque nela está toda a lição deste Domingo. A Santa Igreja não pede apenas que Deus escute; pede que Deus corrija aquilo que pedimos. E dá a razão para tal correção: justamente para que possamos ser ouvidos. É como se dissesse a Nosso Senhor: já não podeis dar-nos o que pedimos enquanto pedirmos assim, mudai nosso pedido, e então dai-nos o que pedimos. O obstáculo, portanto, não está no ouvido de Deus. Está na nossa boca, e, mais fundo ainda, no coração do qual a boca fala.

É precisamente isto que São Paulo nos vem recordar na Epístola. Fá-lo por um caminho indireto, quase brusco: volta ao deserto do Sinai. Fala-nos daquela geração israelita que teve tudo: a nuvem que a guiava, o mar que se abriu diante dela, o maná que caía do céu, a água que brotou da rocha. Geração que, apesar de tudo isso, ficou prostrada pelo caminho. E fixa a causa numa palavra só: a cobiça. Ut non simus concupiscéntes malórum, sicut et illi concupiérunt(“para que não cobicemos o mal, como eles cobiçaram”).

Notemos a ordem em que o Apóstolo dispõe as coisas. Enumera depois a idolatria, a fornicação, a tentação a Deus, a murmuração. Mas põe antes de todas a concupiscência. Os pecados que vêm depois são frutos; a raiz é o desejo torto. Primeiro o coração quis mal, e só então as mãos fizeram mal. Toda a catequese sobre o pecado que possamos ouvir ao longo da vida cabe nesta ordem simples: nada se faz que não se tenha primeiro desejado.

E o deserto guarda uma cena que devíamos meditar com temor. O povo cansou-se do maná e pediu carne. Pediu com veemência, com choro, com toda a força da alma. E Deus deu-lhe carne, e deu-lha em abundância, deu-lha até à náusea. O Salmo comenta o episódio com uma concisão terrível: Dedit eis petitiónem eórum, et misit saturitátem in ánimas eórum (“Deu-lhes o que pediam, e enviou a saciedade às suas almas”). Ao fim, ser atendido foi o castigo para eles. A oração foi ouvida, e a resposta ouvida foi a ruína.

Tiremos daqui a consequência, meus caros, com toda a serenidade de que formos capazes: é possível que algumas das orações que não nos foram concedidas tenham sido a maior misericórdia da nossa vida. O emprego que não veio. O namoro desfeito. A porta que se fechou justamente quando empurrávamos com toda a força. Não digo isto com leviandade, como quem tivesse acesso aos desígnios de Deus, de fato não temos. Digo que a hipótese é real, que a fé deve contar com ela, e que quem nunca a considerou ainda não rezou como cristão. Porque, conclui o Apóstolo, hæc autem ómnia in figúra contingébant illis (“ora, tudo isto lhes acontecia em figura”): não é história antiga de um povo distante, é o nosso próprio retrato.

Voltemos então à Coleta, agora com outros olhos. A sua estrutura, quando a examinamos de perto, é surpreendente. Nós teríamos escrito o contrário: ensinai-nos, Senhor, a pedir bem, e depois atendei-nos. A Igreja diz: para que possais conceder, fazei que peçamos bem. A concessão é o fim que Deus quer; a retificação do nosso desejo é apenas o caminho para lá chegar. Deus está, por assim dizer, impaciente por dar-nos as mais diversas graças. Ele quer nos atender; e tanto quer que para isso enviou o seu Filho Unigênito para morrer por nós na cruz em sofrimentos atrozes. Ele quer justamente nos atender e é por isso mesmo que tem de mudar primeiro o nosso pedido.

O fundamento desta oração está no próprio São Paulo: Nam quid orémus, sicut opórtet, nescímus (“Pois não sabemos o que devemos pedir como convém”). Reparemos que o Apóstolo não diz que alguns não sabem, os principiantes, os pouco instruídos, os distraídos. Diz que nós não sabemos, ao que ele próprio, o Vaso de Eleição, o Doutor das Gentes, Coluna da Igreja, inclui-se nessa ignorância. A ignorância de que fala não se cura com um manual de orações; é uma das feridas da nossa natureza decaída. Vemos o próximo, não o fim; vemos o alívio, não a salvação. Pedimos a supressão da cruz quando havíamos de pedir a força para a carregar.

Santo Agostinho, escrevendo à viúva Proba precisamente sobre a oração, dava-lhe a chave da demora divina. Deus adia, dizia ele, não porque recuse, mas porque nos quer alargar: ut desiderándo ampliémur (“para que, desejando, sejamos dilatados”). O vaso é pequeno e o dom é grande; e Deus, antes de derramar, escava, molda, alarga, aumenta o vaso. Aquele tempo em que julgamos rezar em vão é justamente o tempo em que a alma está a ser escavada por dentro para poder receber a graça na medida da generosidade de Deus, e não na medida da mediocridade nossa. Quem desiste ao segundo ano não sabe que estava justamente a chegar à medida.

E Santo Tomás define a oração de modo que ilumina tudo o resto: ela é interpretatíva desidérii, a intérprete do desejo. A oração diz para fora aquilo que o coração quer por dentro. Daqui se segue, com rigor absoluto, uma consequência prática: quem não sabe desejar não sabe rezar; e não há reforma da oração que não passe por uma reforma do querer. Não se conserta a linguagem sem consertar o pensamento.

Eis, então, que alguém pode perguntar: “mas, padre, como havemos de aprender? Não fomos deixados sem mestre. Nosso Senhor não nos deu apenas palavras quando lhe pediram que nos ensinasse a orar; deu-nos a ordem das palavras, que é a ordem dos desejos. No Pai-Nosso, antes de pedirmos o pão de cada dia, há três petições que nada pedem para nós: que seu Nome seja santificado, que seu Reino venha, que sua Vontade se faça. Só depois de o coração ter sido voltado três vezes para Deus é que a oração se atreve a falar do pão. Eis a escola, e está ao alcance de todos Acaso já meditamos o Pai-Nosso, acaso já o rezamos detendo-nos em cada petição? Quem o fizer honesta e devotamente verá mudar não as respostas de Deus, mas os seus próprios pedidos.

O Evangelho de hoje mostra-nos, em duas cenas, o que acontece quando esta escola é desprezada. Na primeira, o Senhor chora. Chora sobre uma cidade que teve tudo, o Templo, os profetas, as promessas, e que, no dia da sua visitação, não soube reconhecer o que lhe convinha: Si cognovísses et tu, et quidem in hac die tua, quæ ad pacem tibi (“Se também tu conhecesses, e ainda neste teu dia, o que te traria a paz”). Jerusalém desejava a paz; desejou-a ardentemente, mas ao seu jeito, por caminhos que ela mesma escolheu. E o que lhe traria a paz estava ali, diante das suas portas, e ela não o reconheceu porque não era aquilo que tinha pedido. Eis o desejo torto levado até às suas últimas consequências: não já a ruína de um indivíduo no deserto, mas a de uma nação inteira.

Na segunda cena, o Senhor entra no Templo e expulsa os que ali vendiam, dizendo: Domus mea domus oratiónis est: vos autem fecístis illam spelúncam latrónum (“A minha casa é casa de oração; vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões”). Há aqui um pormenor que não devemos perder. Aqueles homens não vendiam ídolos nem coisas imundas. Vendiam o que era necessário ao culto: os animais para o sacrifício, as moedas próprias para o tributo do Templo. O comércio, em si mesmo, nada tinha de ímpio. O mal esteve no lugar e na ordem: o meio ocupou o centro, o acessório instalou-se no santuário, e a casa da oração tornou-se ocasião de fazer dinheiro.

É assim, exatamente assim, que a nossa oração se corrompe. Raramente caímos na blasfêmia; caímos na barganha. Apresentamo-nos diante de Deus como quem apresenta uma fatura. Medimos a nossa fidelidade pelos resultados obtidos. E quando o resultado tarda, a devoção esfria; e esse arrefecimento é o sinal mais claro de que buscávamos o dom e não o Doador. Aquele que ama o Doador não esfria: espera.

E se a alma é templo, como ensina o Apóstolo, então os vendilhões nela instalados são os nossos apetites legítimos que subiram ao santuário: o desejo de segurança, de estima, de descanso, de afeto; coisas boas, todas elas, que se tornaram más ao ocuparem o lugar de Deus. A purificação é dolorosa; o Senhor usa o açoite, e não pede licença, ele permite a desolação e as adversidades para nos mortificarmos. Mas leiamos o versículo seguinte, que é toda a nossa esperança: et erat docens quotídie in templo (“e ensinava todos os dias no templo”). Expulsos os mercadores, o Mestre não se retira: fica e ensina. É precisamente isto que a Coleta lhe pede: que Ele mesmo nos ensine a pedir.

Que ninguém saia desta Capela esmagado. O Apóstolo, que foi severo, termina com a mais doce das consolações: Fidélis autem Deus, qui non patiétur vos tentári supra id quod potéstis, sed fáciet étiam cum tentatióne provéntum (“Mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas com a tentação vos dará também o meio de a suportar”). E o aviso que o precede, qui se éxistimat stare, vídeat ne cadat (“quem julga estar de pé, veja que não caia”), longe de ser sentença de condenação, é convite à humildade; e a humildade é a porta por onde a oração verdadeira entra.

Por isso, meus caros, nesta Missa não apresentemos a Deus apenas a lista dos nossos pedidos. Peçamos primeiro a graça de pedir bem. É a única petição de que temos certeza absoluta de ser agradável a Deus, porque é Ele mesmo que hoje a põe na nossa boca pela voz de sua Santa Romana Igreja. “Estejam abertos, Senhor, os ouvidos da vossa misericórdia às preces dos suplicantes; e, para que concedais aos que pedem aquilo que desejam, fazei que peçam o que vos é agradável.” Assim seja.

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O Antoniano