Sermão para o XI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 09 de agosto de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Há no Evangelho de hoje um homem que não podia pedir. Era surdo e mudo: não ouvia a palavra que lhe dirigiam nem sabia formular aquela que porventura quisesse dizer. Foi preciso que outros o tomassem e o conduzissem até Nosso Senhor. E esses outros, que ao menos falavam, pediram bem pouco: deprecabántur eum, ut impónat illi manum(“rogavam-lhe que lhe impusesse a mão”). Um gesto, um toque de passagem, o mínimo que se pode pedir a quem tudo pode. Era, provavelmente, tudo quanto a fé deles conseguia imaginar.
Vejamos agora o que Nosso Senhor fez. Não estendeu a mão de longe, como quem despacha um pedido pequeno com um favor pequeno. Ele tomou o homem à parte, longe da multidão, apprehéndens eum de turba seórsum, tocou-lhe os ouvidos com os dedos, tocou-lhe a língua, ergueu os olhos ao céu, gemeu e disse uma só palavra: Éphphetha, quod est adaperíre (“Ephphetha, isto é: abre-te”). E aquele que era surdo ouviu, e que era mudo falou; e não falou de qualquer maneira, mas loquebátur recte (“falava corretamente”). Um aspecto ainda mais admirável do milagre, já que ele não sabia falar por nunca ter ouvido na vida. Pediram-lhe uma imposição de mãos, e Ele devolveu àquele homem o mundo inteiro: o som, a palavra, o convívio dos homens e a possibilidade de louvar a Deus.
Meus caros, o que acabamos de ver não é uma exceção na história da salvação; é a regra. Nossa Santa Romana Igreja no-lo diz na coleta desta manhã, com uma audácia que talvez escape nossa atenção: Deus, pela abundância de sua piedade, et mérita súpplicum excédis et vota (“excedeis tanto os méritos quanto os desejos dos que suplicam”). Que Ele exceda os nossos méritos, isso já sabemos, e é a nossa esperança. Mas a coleta acrescenta algo mais surpreendente: Ele excede também os nossos vota, isto é, os nossos próprios pedidos. Não somos apenas indignos daquilo que recebemos; somos demasiado pequenos até mesmo para supor o que Ele nos quer dar. São Paulo dirá o mesmo aos Efésios: Deus é poderoso para fazer superabundánter quam pétimus aut intellégimus (“muito além do que pedimos ou entendemos”).
Perguntemo-nos, então, por que pedimos tão pouco, caríssimos. A mesma coleta responde antes de suplicar a cura: ut dimíttas quæ consciéntia métuit (“que perdoeis o que a consciência teme”). Há em nós um medo antigo e sub-reptício. A alma que se sabe culpada encolhe-se diante de Deus e mede os pedidos como quem pede favor a um credor: pede o indispensável, em voz baixa, já esperando ser recusada. É o pecado que nos torna avaros na oração. Santo Agostinho, escrevendo à viúva Proba sobre o modo de orar, ensinava que Deus por vezes tarda em atender-nos não porque hesite em dar, mas porque a oração prolongada alarga a alma e a torna capaz de receber aquilo que Ele preparou: rezamos menos para informar a Deus do que para nos dilatarmos diante dele. E há uma segunda razão, mais quotidiana: pedimos pouco porque pedimos mal. Pedimos a saúde, o emprego, a paz em casa, pedidos legítimos, que Deus quer ouvir e de que não devemos ter vergonha, mas raramente subimos daí até aquilo que Ele verdadeiramente deseja conceder-nos, que é Ele mesmo.
A epístola de hoje coloca diante de nós um homem que jamais pediu aquilo que recebeu. São Paulo perseguia a Igreja de Deus; não pedia o apostolado, pedia cartas para prender cristãos. E confessa: grátia Dei sum id quod sum (“pela graça de Deus sou o que sou”). Eis, em carne e osso, a segunda metade da nossa coleta: et adiícias quod orátio non præsúmit (“e acrescenteis o que a oração não presume”). Aquilo que ele não teve a ousadia de pedir (e nem mesmo a ideia de pedir) foi-lhe dado por acréscimo, e com ele o dever de transmitir o que havia recebido.
Notemos ainda um pormenor que o evangelista não teria registrado sem motivo: antes de falar, suspíciens in cælum, ingémuit (“erguendo os olhos ao céu, gemeu”). Nosso Senhor não distribui as suas generosidades com a leveza de quem nada gasta. Aquele gemido é a sombra da Cruz projetada por antecipação sobre um milagre na Decápole; é o sinal de que a nossa cura foi comprada, e comprada por um preço caro. Não há no Evangelho um só milagre que nada custe àquele que o realiza. A misericórdia que excede os nossos pedidos não é uma facilidade divina: é o preço que nosso Bom Amigo pagou por nós, preço de um sangue divino.
Reparemos, enfim, meus caros conspícuos, na ordem em que a coleta pede as duas coisas. Primeiro dimíttas, depois adiícias: primeiro o perdão daquilo que tememos, depois o acréscimo daquilo que não ousamos. É exatamente a ordem do milagre: primeiro os ouvidos, depois a língua. Ninguém fala retamente de Deus sem antes O ter ouvido, e ninguém O ouve enquanto o pecado lhe tapa os ouvidos. Por isso a nossa vida cristã tem dois lugares muito concretos onde esta oração se cumpre. O confessionário é o lugar do dimíttas quæ consciéntia métuit: ali se perdoa precisamente aquilo que a consciência teme, aquilo que nos envergonha, aquilo que preferiríamos não nomear. E o altar é o lugar do adiícias quod orátio non præsúmit. Pensemos bem nisto, meus caros: nenhum homem, por mais audacioso que fosse, teria a presunção de pedir a Deus o próprio Deus, de pedir-lhe que descesse e se desse a nós como alimento. Ninguém pede tal coisa. E é exatamente isso que dentro de alguns minutos ser-nos-á dado nesta balaustrada. A oração não presumiu; Ele acrescentou.
Alarguemos, portanto, os nossos pedidos. Diláta os tuum, et implébo illud (“Dilata a tua boca, e eu a encherei”), diz o Senhor pelo salmista, palavra que soa de modo singular num domingo em que se abre a boca de um mudo. Peçamos a graça final e a perseverança; peçamos a conversão daqueles por quem já não sabemos o que pedir; e quando não conseguirmos rezar, pois haverá dias assim, dias de mudez interior, deixemo-nos conduzir por outros até o Senhor, pela oração de nossa Santa Madre Igreja, pelo terço dos amigos, pelo sacrifício deste altar, como aquele homem foi conduzido sem nada dizer.
A multidão, no fim do evangelho, resume tudo numa frase que vale como juízo sobre a vida inteira: bene ómnia fecit: et surdos fecit audíre, et mutos loqui (“tudo fez bem: fez ouvir os surdos e falar os mudos”). Talvez olhemos hoje para a nossa história e ali encontremos orações que julgamos recusadas. Guardemos esta certeza: muitas delas não foram recusadas, foram super-excedidas. Deus não nos deu o pouco que pedíamos porque tinha nas mãos o muito que ainda não sabíamos desejar.


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