Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Santa Maria de Belém do Grão-Pará
02 de abril de 2026 A.D.
Caríssimos fiéis,
Nesta Quinta-feira Maior, nossa Santa Romana Igreja nos impele a contemplar, com particular reverência e gratidão, os dois grandes dons que Nosso Senhor Jesus Cristo outorgou à sua Esposa na véspera de sua Paixão: o Santíssimo Sacramento da Eucaristia e o Sacerdócio católico. Estes dois mistérios, nascidos no mesmo Cenáculo e na mesma noite, são inseparáveis, pois não há Eucaristia sem sacerdote, e não há sacerdote católico cuja vida não se ordene essencialmente ao altar.
O Evangelista São Lucas narra-nos que, tomando o pão, o Senhor deu graças, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: Hoc est corpus meum, quod pro vobis datur; hoc facite in meam commemorationem, «Isto é o meu Corpo, que é dado por vós; fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19). Com estas palavras, hoc facite, Cristo não fez apenas um gesto de despedida: instituiu um sacramento e, ao mesmo tempo, constituiu sacerdotes os seus Apóstolos, dando-lhes o poder e o mandato de perpetuar, até ao fim dos tempos, o mesmo sacrifício que Ele estava prestes a consumar no Calvário. O sacrossanto Concílio de Trento ensina-nos, com toda a clareza, que naquela noite Cristo «constituiu os Apóstolos sacerdotes do Novo Testamento» e ordenou que eles e os seus sucessores no sacerdócio oferecessem o seu Corpo e o seu Sangue sob as espécies do pão e do vinho (Sessão XXII, cap. 1).
Contemplemos, pois, o que significa ser sacerdote de Jesus Cristo. O Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Hebreus, define o sacerdote como aquele que é «tomado dentre os homens e constituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados», ex hominibus assumptus, pro hominibus constituitur in iis quae sunt ad Deum, ut offerat dona et sacrificia pro peccatis (Hb V, 1). O sacerdote não se pertence a si mesmo: é tomado, é separado, é constituído para os outros. Toda a sua existência é mediação. Toda a sua vida é ponte entre o céu e a terra, entre a miséria dos homens e a misericórdia de Deus.
Ora, meus caros, há nesta vocação sacerdotal uma dimensão que talvez não consideremos com suficiente atenção, e que esta noite santa nos convida a meditar: o sacerdote não é apenas o que oferece o sacrifício; ele é chamado a ser, também, vítima com a Vítima. Cristo, nosso Sumo Sacerdote, não ofereceu no Calvário um cordeiro alheio, como faziam os sacerdotes da Antiga Lei: ofereceu-Se a Si mesmo. Ele é, ao mesmo tempo, sacerdos et hostia, sacerdote e hóstia, como ensina o Doctor Angelicus: «Cristo foi ao mesmo tempo sacerdote e vítima, e a oblação da vítima foi sua própria imolação», Christus obtulit seipsum in sacrificium… idem fuit sacerdos et hostia (S. Th. III, q. XXII, a. 2). O que torna o sacerdócio de Cristo absolutamente único é precisamente isto: Aquele que oferece é o mesmo que é oferecido. O altar e a cruz são um só. O sacerdote e o cordeiro são um só.
E aqui está o ponto que devemos reter: todo sacerdote católico, na medida em que é alter Christus, outro Cristo, participa não somente do poder sacerdotal de Cristo, mas também da sua condição de vítima. Quando o sacerdote pronuncia as palavras da consagração, não fala em seu próprio nome: diz hoc est corpus meum, «isto é o meu Corpo». Naquele instante sagrado, o sacerdote se identifica com Cristo de tal modo que é a própria voz de Cristo que fala pela sua boca. Mas esta identificação não pode limitar-se ao altar. Se o sacerdote é Cristo no momento do sacrifício, deve sê-lo também na vida inteira, e isto significa que deve ser, como Cristo, o Servo Sofredor de quem o profeta Isaías escreveu: Vere languores nostros ipse tulit, et dolores nostros ipse portavit, «Verdadeiramente foi ele quem carregou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores» (Is LIII, 4).
São João Crisóstomo, naquela sua obra admirável sobre o sacerdócio, não hesita em dizer que a alma do sacerdote deve ser mais pura que os próprios raios do sol, e que o sacerdote vive numa luta contínua, exposto a tentações e provas que o comum dos fiéis dificilmente imagina (De Sacerdotio, III, 4). O sacerdote carrega, muitas vezes em silêncio, o peso das almas que lhe são confiadas; sofre com os que sofrem, chora com os que choram, e não raro é incompreendido, caluniado e abandonado precisamente por aqueles a quem mais se dedica. Nisto, conforma-se àquele de quem São João escreveu: In propria venit, et sui eum non receperunt, «Veio para os seus, e os seus não O receberam» (Jo I, 11).
Não pensemos, meus caros, que os nossos sacerdotes sejam anjos revestidos de carne humana. São homens, ex hominibus assumpti, tomados dentre nós, com as mesmas fraquezas, as mesmas fadigas, as mesmas tentações. São vasos de barro, como diz São Paulo, que carregam um tesouro infinito (cf. 2Cor IV, 7). E é justamente por isso que necessitam das nossas orações. Se o próprio Cristo, na noite em que instituiu o sacerdócio, pediu aos seus três Apóstolos mais íntimos que velassem e orassem com Ele no Horto das Oliveiras, Vigilate et orate (Mt XXVI, 41) — quanto mais os sacerdotes de hoje precisam que os fiéis velem e orem por eles!
É uma triste e dolorosa realidade que muitos sacerdotes sofrem sozinhos, num isolamento que o mundo não vê e que frequentemente nem os próprios fiéis percebem. Sofrem a aridez espiritual, o cansaço pastoral, a ingratidão, e por vezes a própria noite escura da fé, na qual Deus parece ocultar-Se daqueles que mais O servem. São Gregório Magno, ele mesmo Papa e pastor, escrevia que o peso do governo das almas é a mais terrível das provações, e que o pastor deve estar pronto a morrer interiormente cada dia pelos que lhe foram confiados (Regula Pastoralis, I, 4).
Peçamos, pois, nesta noite santa, com todo o fervor de que somos capazes, a graça de compreender o sacerdócio como Cristo o instituiu: não como um privilégio mundano, mas como um chamado à imolação; não como uma posição de honra, mas como uma vocação ao serviço e ao sofrimento redentor. E, compreendendo-o assim, rezemos pelos nossos sacerdotes. Rezemos para que sejam santos. Rezemos para que sejam fiéis. Rezemos para que, nos momentos de escuridão e de prova, não percam a esperança, mas se lembrem de que estão configurados Àquele que, na mesma noite em que foi traído, tomou o pão, deu graças e disse: Hoc est corpus meum, quod pro vobis datur.
Se Cristo, que é Deus, quis precisar do conforto de um anjo no Getsêmani (cf. Lc XXII, 43), não neguemos aos seus sacerdotes, que são homens, o conforto das nossas orações, da nossa paciência, da nossa caridade e da nossa fidelidade.
Que a Santíssima Virgem Maria, Mãe dos Sacerdotes, que permaneceu de pé junto à Cruz enquanto o seu Filho consumava o Sacrifício, interceda por todos os sacerdotes do mundo, e especialmente por aqueles que neste momento sofrem, duvidam ou vacilam. Que Ela os cubra com o seu manto e os conduza, pela senda estreita do Calvário, até à glória da Ressurreição.


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