[Sermão] Acaso estou lutando contra a realidade da ressurreição?

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Sermão para o Domingo de Páscoa
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Santa Maria de Belém do Grão-Pará, 05 de abril de 2026 A.D.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

I. O anúncio que tudo muda

Caríssimos fiéis,

Na madrugada daquele primeiro dia da semana, três mulheres caminham em direção ao sepulcro. Levam consigo aromas, lágrimas e uma certeza: a certeza de que tudo havia terminado. A pedra estava selada, os guardas postados, o corpo morto. Vinham prestar as últimas honras àquele a quem amavam e que, segundo todas as evidências, a morte havia vencido. Não esperavam a Ressurreição. Ninguém a esperava. Nem as mulheres fiéis, nem os Apóstolos escondidos, nem os discípulos dispersos. A Ressurreição não constava no horizonte de expectativas de ninguém.

E contudo, ao chegarem, encontram a pedra removida e, no interior do sepulcro, não um corpo morto, mas um anjo que lhes diz: Surrexit, non est hic, “Ressuscitou, não está aqui” (Mc XVI, 6). A Ressurreição não pediu licença às expectativas humanas. Não aguardou o consentimento dos discípulos. Ela se impôs — como se impõe a realidade. E aqui está, meus caros, o primeiro ensinamento da Páscoa: a fé pascal não é credulidade piedosa, não é um otimismo vago, não é um sentimento reconfortante. É a adesão a um fato real, tão real que reconfigurou a história inteira, tão real que transformou pescadores medrosos em mártires intrépidos, tão real que, dois mil anos depois, nos reúne nesta manhã diante deste altar.

Mas a Ressurreição não é apenas um fato que contemplamos de fora, como quem admira um acontecimento remoto. Ela opera algo em nós. Produz um efeito real na nossa alma. E se a celebração pascal se reduzisse a uma comemoração histórica, a uma recordação piedosa de algo que aconteceu há dois milênios, ela seria grande, sem dúvida, mas não seria o que é: o acontecimento que nos transforma, que nos recria, que nos faz novos. É isto que devemos compreender na manhã de hoje.

II. A dupla causalidade: Paixão e Ressurreição

São Paulo, escrevendo aos Romanos, formula uma distinção que a teologia de Nossa Santa Romana Igreja sempre conservou: Traditus est propter delicta nostra, et resurrexit propter justificationem nostram, “Foi entregue por causa dos nossos pecados, e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm IV, 25). Notemos, meus caros, a precisão do Apóstolo: não diz simplesmente que Cristo morreu e ressuscitou por nós, mas atribui a cada um destes mistérios uma razão própria, uma causalidade distinta.

Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologiae (III, q. LVI, a. 2), explica esta distinção com a clareza que lhe é própria. A Paixão e a Ressurreição não são duas causas separadas da nossa salvação, como se uma pudesse existir sem a outra. São dois aspectos de uma única obra salvífica, cada um com a sua razão própria — a sua ratio propria, no dizer do Doutor Angélico.

Paixão opera a nossa salvação por modo de remoção do mal. Pela Cruz, Cristo destrói o pecado, paga a dívida, satisfaz a justiça divina. A Paixão é propriamente a causa da remissão dos nossos pecados: ela remove aquilo que nos separava de Deus, abate o muro que a culpa erguera entre o Céu e a terra. Na Sexta-Feira Santa, o homem velho foi pregado na Cruz com Cristo.

Ressurreição, por sua vez, opera por modo de inauguração do bem novo. Ela é o princípio e o exemplar da nossa vida nova, da nossa justificação positiva. Cristo ressuscitado não volta à vida anterior — não retorna à condição de antes, como Lázaro que saiu do sepulcro para morrer novamente. Cristo entra numa vida nova, gloriosa, definitiva, que já não conhece a morte. E é esta vida que Ele nos comunica. Pela Ressurreição, nasce em nós o homem novo, revestido de graça, capaz de uma novidade de vida, novitas vitae, que antes era impossível.

Podemos dizer, portanto, que a Paixão é o remédio e a Ressurreição é o alimento. O remédio cura a doença; o alimento dá a vida. O remédio remove o que é nocivo; o alimento comunica o que é bom. Ambos são necessários, ambos procedem do mesmo Cristo, ambos se destinam à mesma alma. Mas a Paixão sem a Ressurreição seria um remédio que cura para nada; e a Ressurreição sem a Paixão seria um alimento oferecido a quem ainda está enfermo de morte. Foi preciso que Cristo morresse para destruir a morte, e que ressuscitasse para nos dar a vida. Como diz o Apóstolo: Si enim, cum inimici essemus, reconciliati sumus Deo per mortem Filii eius; multo magis reconciliati, salvi erimus in vita ipsius, “Se, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do Seu Filho, muito mais, reconciliados, seremos salvos pela Sua vida” (Rm V, 10).

Portanto, pela Paixão, Cristo tirou o que era velho; pela Ressurreição, inaugurou o que é novo. A Paixão é o término do homem velho; a Ressurreição é o nascimento do homem novo. E nós participamos desta dupla causalidade: pelo Batismo, fomos sepultados com Cristo na sua morte, e com Ele ressuscitamos para uma vida nova (cf. Rm VI, 4). É isto que nossa Santa Madre Igreja celebra hoje. Não apenas um acontecimento do passado, mas uma realidade que opera em nós, agora mesmo, neste instante, pela graça.

III. O velho fermento e os ázimos novos

Ora, é precisamente esta distinção que São Paulo aplica na Epístola de hoje com uma imagem luminosa, tirada do rito da páscoa judaica. Os judeus, na véspera da Páscoa, deviam purgar toda a casa de qualquer vestígio de fermento. Nenhuma migalha de pão fermentado podia permanecer. E São Paulo nos diz:

Expurgate vetus fermentum, ut sitis nova consparsio, sicut estis azymi. Etenim Pascha nostrum immolatus est Christus. (I Cor V, 7)

“Limpai o velho fermento, para que sejais uma massa nova, como sois de fato ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.” A imagem é simples e profunda: o fermento velho é o pecado, os vícios, os hábitos da vida antiga; os ázimos são a pureza, a sinceridade, a retidão da vida nova em Cristo.

Mas notemos, meus caros, a força extraordinária do argumento paulino. O Apóstolo não diz: “Esforçai-vos para vos tornardes ázimos.” Diz: “sede uma massa nova, sicut estis azymi, como já sois ázimos.” A Ressurreição já operou em vós pelo Batismo; já sois criaturas novas, já recebestes a graça justificante, já fostes revestidos de Cristo. O que São Paulo pede não é que nos tornemos aquilo que não somos, mas que vivamos conforme aquilo que já somos. A moral cristã não é um esforço voluntarista de quem tenta alcançar o inalcançável, mas a coerência de quem vive segundo a realidade daquilo que a graça fez dele.

E aqui, caríssimos, devemos fazer um exame de consciência. Que fermentos velhos ainda toleramos na casa da nossa alma? Que hábitos, que apegos, que modos de viver contradizem a realidade daquilo que somos? Talvez aquele rancor que cultivamos em segredo; talvez aquela preguiça espiritual que nos afasta dos sacramentos; talvez aquela mundanidade que nos faz pensar e agir como se Cristo não tivesse ressuscitado. São Paulo diz: Expurgate, limpai! A Páscoa é o momento de purgar a casa. Não por perfeccionismo, não por escrúpulo, mas por verdade: porque o fermento velho não combina com a massa nova que somos. É o zelo pela verdade, é o zelo pela realidade que nos impele a expurgar aquilo que nos suja com o mal, com o pecado, com a mentira, com aquilo que atenta contra a realidade da nossa redenção.

IV. Viver conforme a fé: a alegria pascal ou a angústia da incoerência

E é aqui, meus caros, que devemos compreender algo de decisivo sobre a natureza da fé e da vida cristã. Retomemos o que dissemos no início: a fé pascal é a adesão a uma realidade. Não a uma ideia, não a um programa moral, não a uma filosofia de vida, não a uma experiência, mas a uma realidade: a realidade de que Cristo ressuscitou e de que, n’Ele, nós somos criaturas novas. A Ressurreição é a realidade mais profunda da nossa existência. Mais real do que as nossas dúvidas, mais real do que os nossos fracassos, mais real do que as aparências do mundo.

Ora, quando um homem vive conforme a realidade, encontra — ainda que no meio de cruzes, dificuldades e provações — a paz, a ordem interior, o sentido. Viver na verdade é viver na ordem; e viver na ordem é o princípio da paz. Santo Tomás chama isto de gaudium de veritate, a alegria da verdade: a satisfação profunda da alma que repousa naquilo que é verdadeiro, naquilo que é real. Eis a alegria pascal, caríssimos: não uma euforia passageira, não uma emoção superficial, mas a alegria sólida e profunda de quem vive de acordo com a realidade da graça que recebeu.

Mas quando um homem vive contra a realidade, quando, tendo sido justificado por Cristo, persiste em viver como o homem velho; quando, sabendo a verdade, recusa as suas consequências, esse homem entra necessariamente em conflito consigo mesmo. Está em guerra contra aquilo que é. E esta guerra interior, meus caros, produz frutos amargos: a angústia, a inquietação, o terror, o sofrimento de uma vida dividida. Não porque Deus o castigue de fora, como quem inflige uma pena arbitrária, mas porque a realidade se impõe por si mesma. Assim como quem luta contra as leis da natureza se fere, quem luta contra a ordem da graça se destrói interiormente.

Eis o que tantas almas experimentam sem compreender a causa: a angústia de viver uma vida que contradiz a sua própria verdade. Sabem que foram feitas para Deus e vivem como se Deus não existisse. Sabem que foram lavadas no Batismo e arrastam-se na lama dos vícios. Sabem que Cristo ressuscitou e vivem como se Ele ainda estivesse no sepulcro. E esta contradição, que é uma contradição ontológica, contradição entre o que somos pela graça e o que fazemos pela infidelidade, é a raiz profunda de toda a inquietação espiritual. Santo Agostinho já o havia dito com incomparável lucidez em suas Confissões: Fecisti nos ad te, Domine, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te, “Fizeste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós.”

Meus caros, a Páscoa é o chamado a sairmos desta guerra interior. A Páscoa nos diz: parai de lutar contra a realidade daquilo que sois. Parai de resistir à graça. Aceitai finalmente ser aquilo que o Batismo fez de vós: criaturas novas, filhos de Deus, membros de Cristo ressuscitado. É isto que a Sequência de hoje proclama com magnífica audácia: Mors et vita duello conflixere mirando: dux vitae mortuus, regnat vivus, “A morte e a vida travaram um duelo admirável: o Senhor da vida, que morrera, reina vivo.” O duelo já foi vencido. A Vida já triunfou. E nós, que pertencemos ao Vencedor, não temos razão alguma para viver como derrotados.

Se viverdes assim, não com perfeccionismo idealista, afinal a perfeição é meta do caminho e não ponto de partida, mas com coerência, sinceridade, perseverança, com desejo verdadeiro de conversão e recurso frequente aos sacramentos, encontrareis aquela paz que o mundo não pode dar e que nenhuma tribulação pode destruir. A paz de quem sabe que a realidade está do seu lado, porque a realidade é Cristo, e Cristo ressuscitou.

V. O convite pascal

A Páscoa, portanto, coloca-nos diante de uma escolha: a escolha mais decisiva que podemos fazer. Viver conforme a realidade da nossa justificação, na alegria e na liberdade dos filhos de Deus; ou resistir a essa realidade e colher o fruto amargo da incoerência. Expurgate vetus fermentum. Limpai o velho fermento. Que esta Páscoa seja o dia em que finalmente aceitamos ser aquilo que a graça já fez de nós.

Cristo ressuscitou, meus caros conspícuos, e nós com Ele. Não vivamos mais como mortos. Não vivamos mais como se a pedra ainda estivesse selada e o sepulcro ainda fechado. A pedra foi removida. O sepulcro está vazio. Cristo vive, e porque Ele vive, nós também vivemos. Que nesta manhã de Páscoa, diante deste altar, renovemos a decisão de viver como aquilo que somos: homens ressuscitados com Cristo, purificados do velho fermento, revestidos da novidade da graça. Vivamos, pois, como ressuscitados. Haec dies quam fecit Dominus; exsultemus et laetemur in ea. “Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos e exultemos nele.”

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