[Sermão] Meu Senhor e meu Deus: a fé que vence o mundo

A aparição de Jesus a Tomé

Sermão para o Domingo in Albis
Na Oitava da Páscoa
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 12 de abril de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

A liturgia de hoje conserva, no seu próprio nome, a memória de um gesto antigo e belíssimo. Dominica in Albis depositis, o domingo em que se depõem as vestes brancas. Na Igreja dos primeiros séculos, os catecúmenos que tinham sido batizados na noite santa da Vigília Pascal traziam, durante toda a oitava, as vestes alvas recebidas na fonte batismal. Caminhavam pelas ruas como sinais vivos da Páscoa, como pequenas tochas brancas acesas pela ressurreição de Cristo. E eis que, neste oitavo dia, depunham essas vestes para retornar ao trabalho e à vida comum dos fiéis. Nossa santa Madre Igreja, porém, mãe atenta, não os deixava partir sem antes lhes dirigir uma palavra. E a palavra que lhes dirige é a do introito que acabamos de ouvir: Quasi modo géniti infántes, rationábile, sine dolo lac concupíscite, “como meninos recém-nascidos, desejai ardentemente o leite espiritual e puro.”

Recém-nascidos. Eis o nome que nossa Santa Romana Igreja dá àqueles que acabam de receber o batismo, e eis o nome que ela nos dá também a nós, meus caros, que talvez há muitos anos tenhamos sido batizados, mas que diante dos mistérios pascais permanecemos sempre principiantes. Diante da Ressurreição, diante das chagas gloriosas do Senhor, diante do dom inaudito da fé, somos todos crianças que ainda precisam crescer.

E para nos ajudar a crescer, a santa Igreja nos coloca hoje diante dos olhos duas grandes lições: a lição doutrinal de São João na sua primeira epístola, que nos diz o que é a fé e o seu poder; e a lição viva, dramática, comovente do Evangelho, que nos mostra como essa fé nasceu, num homem concreto, no apóstolo São Tomé. Contemplemos, pois, primeiramente, o que é essa fé que vence o mundo; em seguida, como ela se realizou em São Tomé; e, por fim, como ela deve viver em nós, recém-nascidos da fonte pascal.

Escutemos antes de tudo a palavra de São João, o discípulo amado, aquele que mais profundamente penetrou no mistério do Verbo encarnado: Omne quod natum est ex Deo, vincit mundum: et haec est victoria, quae vincit mundum, fides nostra, “Todo o que nasceu de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

Detenhamo-nos, meus caros, em cada palavra desta sentença, porque cada palavra é um tesouro.

“Todo o que nasceu de Deus.” São João pensa aqui naquilo que somos pelo batismo: filhos de Deus, nascidos não da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo. Aqueles neófitos das vestes brancas eram, em sentido próprio, os recém-nascidos de Deus. Mas também nós, que renascemos um dia na fonte sagrada, levamos no fundo da alma essa filiação divina, esse princípio sobrenatural que é a graça santificante.

“Vence o mundo.” Que mundo é este? Não é, certamente, a criação, obra boa do Criador e reflexo de Sua sabedoria. É o mundo na acepção da tríplice concupiscência: concupiscentia carnis, concupiscentia oculórum, et supérbia vitae, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. É o mundo dos homens que se organizam sem Deus e contra Deus; é o reino do príncipe deste mundo; é tudo aquilo que, em nós mesmos e ao nosso redor, resiste ao Reino de Cristo.

E que arma nos dá São João para vencer o mundo? Não o esforço voluntarista da carne, não a virtude cultivada à força do braço, não a austeridade dos filósofos. Haec est victoria, quae vincit mundum, fides nostra. A nossa fé. Isto, meus caros, é uma das verdades mais consoladoras e que facilmente esquecemos.

Mas que fé é essa? É preciso responder com precisão, porque vivemos numa época em que se chama “fé” a tudo: ao sentimento religioso vago, à confiança subjetiva, à intuição íntima, ao impulso emocional, à adesão irracional a um movimento. Nada disto é a fé teologal. A fé teologal é, conforme nos ensina o Concílio Vaticano I, o assentimento do intelecto às verdades reveladas por Deus, fundado não na evidência interna dessas verdades nem na perspicácia da nossa razão, mas exclusivamente na autoridade de Deus que revela, do Deus que não pode enganar-Se nem enganar-nos. A fé é, portanto, antes de tudo, adesão à verdade: adesão firme, sobrenatural, livre, ao testemunho de Deus.

E por que somente esta fé vence o mundo? Porque esta fé nos une realmente ao único e verdadeiro Vencedor. A vitória sobre o mundo já foi assegurada; foi conquistada na cruz e selada na manhã da Ressurreição. Cristo já venceu. E a fé é o meio pelo qual essa vitória de Cristo passa a ser nossa, pelo qual o triunfo do Cabeça se comunica aos membros. Sem a fé teologal, todo nosso esforço moral seria apenas mero pelagianismo disfarçado, um miserável esforço humano querendo erguer-se ao sobrenatural por suas próprias forças. Com a fé, o mais frágil dos cristãos toma parte na vitória do Filho de Deus.

São João acrescenta ainda o tríplice testemunho: o Espírito, a água e o sangue. Os Padres da Igreja viram nessa palavra os primeiros sacramentos da vida cristã, o batismo, a confirmação e a Eucaristia; ora viram os sinais brotados do lado aberto do Crucificado, confirmados pelo Espírito que vivifica a Igreja. Em todas as interpretações ressoa a mesma verdade: a nossa fé tem fundamento divino, não humano. Não cremos porque os homens nos persuadiram; cremos porque Deus falou, porque Deus deu testemunho, porque Deus selou esse testemunho com o sangue do Seu Filho e com o sopro do Seu Espírito.

Mas esta fé, meus caros, que São João nos descreve em termos tão densos na epístola, vemo-la nascer dramaticamente, num homem concreto, no Evangelho de hoje. E esse homem é o apóstolo São Tomé.

A cena nos é familiar. Cristo aparecera aos dez na tarde de Páscoa, entrando januis clausis, com as portas fechadas, e saudando-os com o Pax vobis, a paz que somente o Ressuscitado pode dar, paz que é fruto da Redenção e que o mundo não conhece. São Tomé, porém, estava ausente. E quando os outros lhe disseram, alegres: Vidimus Dóminum, “Vimos o Senhor”, ele respondeu com aquelas palavras duras: “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e não meter o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, não acreditarei.”

Não julguemos, meus caros, São Tomé com severidade. Não há nele má vontade; há somente a fraqueza de um homem ainda não sustentado pela graça pascal, ainda preso ao desespero do Calvário, ainda incapaz de crer naquilo que ultrapassa toda experiência sensível. E é precisamente essa fraqueza que Cristo vai curar.

Oito dias depois, e vejamos, oito dias depois, isto é, hoje, neste mesmo domingo, Cristo retorna. Reúnem-se os apóstolos, São Tomé desta vez presente, e o Senhor entra de novo januis clausis, e dirige a São Tomé exatamente as palavras que ele pronunciara: Infer dígitum tuum huc, “Põe aqui o teu dedo”. Cristo não o repreende com dureza; condescende. Oferece-lhe exatamente aquilo que ele havia exigido, não para lisonjear sua incredulidade, mas para vencê-la. Eis a misericórdia do Coração ressuscitado: ela não nos deixa onde estamos, mas vem ao nosso encontro na nossa fraqueza para nos elevar acima dela.

E então acontece o prodígio. Diante das chagas, São Tomé não pondera, não toca, não experimenta. Os santos Padres notam, com razão, que o Evangelho não diz que Tomé tenha efetivamente posto o dedo nas chagas. Diante daquela visão, num só movimento da alma, São Tomé imediatamente adora: Dominus meus et Deus meus, “Meu Senhor e meu Deus.” Eis uma das mais explícitas confissões da divindade de Cristo em todos os Evangelhos. São Tomé não diz apenas: “Vós ressuscitastes”; não diz apenas: “Vós, de fato, sois o Messias”; diz: “Vós sois o meu Senhor e o meu Deus.” Os sinais sensíveis foram apenas a ocasião; a causa verdadeira desse salto foi a graça que tocou aquele coração e o levou, num só impulso, da incredulidade à adoração.

E eis que Cristo lança então aquela palavra que atravessa os séculos e nos alcança a todos nós, aqui presentes: Beati qui non vidérunt et credidérunt, “Bem-aventurados os que não viram e creram.” Cristo olha para todas as gerações futuras de fiéis. Olha para nós. E proclama bem-aventurados os que crerão sem ter visto, os que aderirão à Sua palavra pela autoridade divina, sem exigir o que foi concedido aos Apóstolos como testemunhas oculares da Ressurreição. Aqui está, meus caros, a felicidade própria do cristão. Não é a felicidade dos que veem; é a felicidade dos que creem.

Mas digamos uma palavra ainda sobre as chagas. Por que Cristo conservou as cicatrizes no Seu corpo glorioso? Por que o corpo ressuscitado, que poderia ter ficado sem nenhuma marca da Paixão, conservou as feridas dos cravos e da lança? São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, dá-nos cinco razões: para confirmar nos Apóstolos a fé na ressurreição, mostrando que era o mesmo corpo crucificado; para fundar nossa esperança no corpo glorioso, que será também transfigurado mas verdadeiro; para mostrar perpetuamente ao Pai os sinais da Redenção, intercedendo por nós; para que os remidos saibam, contemplando-as no céu, com que preço foram comprados; e para que, no juízo final, sejam testemunho contra os que rejeitaram tal amor. As chagas do Ressuscitado são, ao mesmo tempo, troféu de vitória e súplica eterna pelos pecadores.

Eis, meus caros, a fé que vence o mundo, e eis o homem em quem ela venceu de modo exemplar. Resta-nos perguntar: como deve ela viver em nós, que somos os quasi modo géniti infántes deste domingo?

Voltemos ao introito. A Igreja nos diz: desejai o leite espiritual e puro, o rationábile, sine dolo lac. Que é esse leite? É a sã doutrina, recebida íntegra e sem adulteração, pelas Escrituras e pela Tradição, e ensinada pela  santa Romana Igreja. É o ensinamento dos santos Padres e dos Doutores. É o catecismo bem aprendido, é a verdade católica recebida sem mistura de erro. E são, sobretudo, os sacramentos pascais que nos alimentam: a Santíssima Eucaristia, em primeiro lugar, mas também — e como não recordá-lo neste domingo? — o sacramento da Penitência, instituído pelo próprio Cristo no mesmo Cenáculo da Páscoa, quando soprou sobre os Apóstolos e disse: Accípite Spíritum Sanctum: quorum remiseritis peccáta, remittúntur eis, “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados.” O Domingo in albis é, por excelência, o dia em que contemplamos o amor de Deus que devolve a veste branca àqueles que a perderam pelo pecado mortal.

Crescer na fé, portanto, exige de nós três coisas concretas. Primeiro, alimentar-nos de doutrina sólida: ler o catecismo, conhecer a nossa fé, fugir do leite adulterado das modas de atualização e conciliação adúltera com o mundo. Segundo, frequentar os sacramentos pascais com reverência, com preparação, sem rotina: a Missa bem ouvida, a Confissão bem feita, a Comunhão bem recebida. E terceiro, exercitar a fé na vida ordinária, contra a tríplice concupiscência, nas pequenas vitórias diárias sobre o nosso próprio mundo interior.

Façamos, pois, neste domingo, próprio o ato de Tomé. Não com os lábios apenas, mas com o intelecto que adere e com a vontade que se entrega. Diante do Cristo ressuscitado, presente sobre o altar como esteve presente no Cenáculo, repitamos cada um na profundidade da alma: Dominus meus et Deus meus. “Meu Senhor e meu Deus.” E que a paz que Ele deixou aos Seus, e que estes sagrados mistérios nos comunicam, nos guarde firmes na fé até o dia em que já não creremos sem ver, mas veremos para sempre, face a face, Aquele em quem agora cremos.

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O Antoniano