[Sermão] A verdade não se negocia: o Bom Pastor e os mercenários modernos

Sermão para o II Domingo depois da Páscoa
Domingo do Bom Pastor
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 19 de abril de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

No Evangelho que acabamos de ouvir, Nosso Senhor Jesus Cristo faz uma declaração solene sobre Si mesmo: “Ego sum pastor bonus: bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis”, “Eu sou o Bom Pastor: o bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas” (Jo. X, 11). Notemos bem: Cristo não Se apresenta como um facilitador de consensos, nem como um animador de processos comunitários, nem como um propagandista de bons sentimentos, nem como um promotor de diálogo e sinodalidade. Apresenta-Se como Aquele que dá a vida, a vida inteira, sem reservas, até ao último suspiro na Cruz. E nossa Santa Romana Igreja, com sabedoria, coloca este Evangelho no tempo pascal, porque a entrega do Bom Pastor não terminou no Calvário: consumou-se na Ressurreição. Aquele que morreu pelas ovelhas é o mesmo que ressuscitou para continuar a apascentá-las pela eternidade.

Mas o Evangelho não Se limita a apresentar o Bom Pastor. Apresenta, ao lado d’Ele, uma figura oposta: o mercenário. E obriga-nos a confrontar estas duas figuras, a medir a distância que as separa, a compreender o critério que as distingue. Este critério não é a simpatia, não é a popularidade, não é o aplauso das multidões: é a relação de cada um com a Verdade e com o Sacrifício.

Oves meae vocem meam audiunt”, “As minhas ovelhas ouvem a minha voz” (Jo. X, 27). As ovelhas reconhecem a voz do pastor. Mas que voz é esta? Não é uma opinião pessoal sujeita a revisões periódicas. Não é um programa pastoral adaptável às modas culturais de cada década. Não é uma proposta em evolução permanente, como se a Verdade divina pudesse amadurecer ao ritmo das revoluções humanas. A voz do Bom Pastor é a voz da Verdade, a Verdade revelada, imutável, entregue à custodia de nossa Santa Madre Igreja e transmitida sem alteração de geração em geração. Santo Tomás de Aquino, comentando esta passagem na Catena Aurea, ensina que o pastor verdadeiro ensina aquilo que Cristo ensinou: a sua autoridade não provém do cargo que ocupa, mas da conformidade da sua palavra com a Verdade eterna. E Santo Agostinho, com a sua habitual profundidade, adverte: “Non enim a nobis, sed ab illo pascuntur”, não somos nós que apascentamos, é Ele que apascenta através de nós. O pastor é um instrumento fiel e não uma fonte autônoma. E se o instrumento se deforma, se a voz que sai dos seus lábios já não é a voz de Cristo, então as ovelhas, que têm aquele sensus fidei sobrenatural, aquele instinto da fé que o Espírito Santo comunica aos batizados, começam a desconfiar, começam a sentir que há algo de estranho naquela voz, porque já não reconhecem nela o timbre inconfundível da doutrina de sempre.

O Bom Pastor, meus caros, é antes de tudo homem do sacrifício. “Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis”, o bom pastor dá a sua vida. O verbo é claro, definitivo e sem ambiguidade. O pastor verdadeiro é o homem dedicado ao culto de Deus e à salvação das almas, não à promoção de si mesmo, não à gestão de simpatias, não à construção de uma imagem pública agradável. A sua missão é combater os três inimigos de nossas almas, o demônio, o mundo e a carne, e não fazer as pazes com eles. É ajudar os bons a perseverar na virtude, corrigir com firmeza e caridade os que erram, e suportar com paciência a perseguição dos maus, sem jamais ceder diante da pressão inimiga. São Gregório Magno, na sua Regra Pastoral, que deveria ser leitura obrigatória de todos os que têm encargo de almas, ensina que o pastor que cala a verdade por medo é tão culpado quanto aquele que ensina positivamente o erro. O silêncio diante do lobo já é uma fuga. São Paulo escreve a Timóteo: “Praedica verbum, insta opportune, importune”, “Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente” (2Tim. IV, 2). Oportuna e inoportunamente: isto significa que a verdade deve ser anunciada não apenas quando é bem recebida, quando agrada, quando encontra ouvidos dispostos, mas também quando incomoda, quando provoca resistência, quando suscita perseguição. A fidelidade do pastor não é uma rigidez estéril nem dureza de temperamento: é firmeza na caridade, é fortaleza sobrenatural. Precisamente porque ama as ovelhas, porque as ama verdadeiramente, com a caridade de Cristo, e não com um sentimentalismo vago, o pastor recusa-se a alimentá-las com o erro e a abandoná-las aos lobos.

Passemos agora, meus caros conspícuos, ao mercenário. “Mercenarius autem, et qui non est pastor, cuius non sunt oves propriae, videt lupum venientem, et dimittit oves, et fugit”, “O mercenário, porém, que não é pastor, a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge” (Jo. X, 12–13). O mercenário não é necessariamente um inimigo declarado da fé. É algo talvez pior: é alguém que não tem vínculo vital com a verdade, e que por isso cede quando a pressão aumenta, quando o lobo se aproxima, quando o preço da fidelidade se torna alto demais para os seus cálculos.

Os pretextos do mercenário mudam de nome em cada época da história, mas a lógica que os anima é sempre a mesma: sacrificar a verdade em nome de um bem aparente. Ontem, os pretextos chamavam-se “progresso” e “modernidade”. Hoje, chamam-se atualização, aggiornamento, adaptação pastoral, diálogo, sinodalidade, escuta, acolhimento, diversidade, inclusividade. Alguns destes termos, considerados em si mesmos, poderiam até ter um sentido legítimo. Mas quando são usados sistematicamente como pretextos para diluir a doutrina, para atenuar a moral, para contemporizar com o erro, para esvaziar o dogma do seu conteúdo perene, então tornam-se máscaras do mercenário, disfarces da infidelidade.

Porque vejamos bem, meus caros, o que é o mercenário na prática. O mercenário quer ser tido por bom, ao invés de ser realmente bom. Não é pastor de almas: é propagandista de uma ideologia, pacifista, ecologista, sentimental, uma utopia absolutamente irreal, sem nenhuma raiz na Revelação divina e sem nenhuma eficácia sobre as almas. Na prática, reduz-se a militante de causas mundanas, a assistente social improvisado, a animador de palco, a autor de autoajuda barata, e tudo isso feito com uma incompetência notável, porque nada disso é a sua vocação, nada disso é aquilo para que foi ordenado. O sacerdote não foi ordenado para ser militante político, nem assistente social, nem animador cultural. Foi ordenado para oferecer o Santo Sacrifício, para administrar os sacramentos, para pregar a Verdade, para conduzir as almas ao Céu. Quando abandona isto para se dedicar àquilo, não faz bem nem uma coisa nem outra, porque ele se diluiu no mundo e na utopia mundana.

E aqui está o ponto decisivo, que devemos considerar com toda a atenção: o mercenário, por ter abandonado a substância do seu ministério, não pode dar o que não tem. Não traz verdadeiro conforto, porque o verdadeiro conforto vem de Deus e não de slogans humanitários. Não promove verdadeira mudança, porque a verdadeira mudança é a conversão do coração, e a conversão exige a Verdade e a Graça, coisas que o mercenário abandonou ou relegou a segundo plano. Ele promete muito, promete um mundo melhor, uma sociedade mais justa, uma Igreja mais aberta, seja lá o que isso for, mas não entrega nada de substancial, porque esvaziou a própria razão de ser do seu ministério. As suas ovelhas ficam sem doutrina, sem sacramentos dignamente celebrados, sem direção espiritual, sem a palavra de Deus pregada com clareza e sem compromissos, ficam, enfim, sem pastor. E o lobo, que é astuto, não precisa de mais nada: basta-lhe a ausência do pastor para devorar o rebanho. “Non enim pertinent ad eum de ovibus”, “As ovelhas não lhe pertencem” (Jo. X, 13). O mercenário não ama as ovelhas; ama o lucro, seja o lucro material, seja o lucro da aprovação mundana, do aplauso, do reconhecimento dos poderes do século.

Mas o Evangelho de hoje, meus caros, não se dirige apenas aos pastores: dirige-se também às ovelhas. E nós, ovelhas do rebanho de Cristo, temos também deveres. “Alienum autem non sequuntur, sed fugiunt ab eo, quia non noverunt vocem alienorum”, “Ao estranho, porém, não seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo. X, 5). As ovelhas de Cristo não apenas seguem a voz do verdadeiro pastor: fogem ativamente da voz do estranho. Isto supõe, e exige, formação doutrinal sólida, conhecimento do catecismo, amor à Tradição da Igreja, frequência aos sacramentos, vida de oração. Num tempo de confusão generalizada, em que tantas vozes estranhas se fazem ouvir, e se fazem ouvir, não raro, de púlpitos m de cátedras, de tronos, que deveriam ser instrumentos da Verdade. o fiel católico precisa de critérios claros para discernir. E esses critérios são claros: a doutrina de sempre, os sacramentos celebrados com reverência e fidelidade à doutrina revelada, a moral pregada sem concessões, o culto divino oferecido com a dignidade que Deus merece. Onde se encontram estas coisas, ali está a voz do Pastor. Onde há diluição, novidade e contemporização, ali fala o estranho.

A Epístola que ouvimos hoje, da primeira carta de São Pedro, confirma isto com palavras admiráveis: “Eratis enim sicut oves errantes, sed conversi estis nunc ad Pastorem et Episcopum animarum vestrarum”, “Éreis como ovelhas desgarradas, mas agora vos convertestes ao Pastor e Bispo das vossas almas” (1 Pd. II, 25). Convertemo-nos ao Pastor e Bispo das nossas almas, a Cristo. E todo pastor humano, seja ele pároco, bispo ou papa, tem sua autoridade fundada em sua conformidade com o Pastor supremo. A nossa adesão não é cega: é a adesão de quem reconhece a voz de Cristo e, reconhecendo-a, segue com confiança aquele que a transmite fielmente. Rezemos, portanto, pelos nossos pastores: para que sejam fiéis, para que não cedam, para que tenham a fortaleza de pregar a verdade oportune et importune — oportuna e inoportunamente, mesmo quando ninguém quer ouvir — e para que sejam verdadeiros homens do sacrifício, e não meros animadores de uma religião cheia de slogans mas vazia da Verdade.

O Bom Pastor ressuscitado, meus caros, continua a apascentar o Seu rebanho pela verdade transmitida fielmente. A alegria pascal que celebramos nestes dias não é um sentimentalismo vago nem um otimismo superficial: é a alegria profunda e sólida de quem encontrou a Verdade, d’Ela vive e por Ela está disposto a sofrer. O mundo oferece utopias — belas no papel, desastrosas na realidade. Cristo oferece a realidade concreta da salvação — exigente, sim, mas verdadeira, eficaz e eterna. Que sejamos, pois, ovelhas fiéis, que reconhecem a voz da Verdade e não se deixam seduzir pelas vozes do estranho, por mais doces, por mais agradáveis, por mais modernas que pareçam. Que nenhum pretexto — por mais belo que seja o nome que se lhe dê — nos afaste do redil da Verdade, que é a Igreja de sempre, com a Doutrina de sempre e a Missa de sempre. E peçamos a intercessão de Nossa Senhora, Mãe do Bom Pastor e Sede de Sabedoria, para que nos obtenha pastores santos e fiéis — pastores segundo o Coração de Cristo, que dêem a vida pelas suas ovelhas e jamais as abandonem ao lobo.

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O Antoniano