[Sermão] “Reconhece, ó Cristão, a tua dignidade” e a necessidade de cuspir fora o mundo

Cristo en gloria con santos (Mattia Preti)

Sermão para o III Domingo depois da Páscoa
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 26 de abril de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Nossa santa Romana Igreja coloca-nos hoje diante de uma palavra do Senhor que é, ao mesmo tempo, anúncio e enigma: Modicum, et iam non vidébitis me: et iterum modicum, et vidébitis me, “Um pouco e já não me vereis: e outro pouco e me tornareis a ver” (Jo. XVI, 16). Os discípulos não compreenderam. Perguntavam uns aos outros que sentido teria aquele duplo “pouco”. E nós, meus caros, vivemos justamente dentro deste segundo “pouco”: entre a Ressurreição que celebramos e a visão eterna que esperamos. Entre o Cristo que se ausentou da nossa carne e o Cristo que veremos face a face. Toda a vida cristã se decide neste intervalo.

A coleta deste domingo coloca em nossos lábios uma petição grave: pedimos a Deus que aos que se inscrevem na profissão cristã, qui christiána professióne censéntur, seja dada a graça de rejeitar o que é inimigo deste nome e de seguir o que lhe é conforme. Ouçamos atentamente o verbo: censéri é estar recenseado, contado, alistado. Cada um de nós, no dia do nosso Batismo, foi recenseado entre os de Cristo. Recebemos um nome, não o nome civil que figura nos registros do Estado, mas o nome cristão, marcado em nós com indelével caráter, e cujo selo é o Sangue do Cordeiro derramado na Cruz.

São Leão Magno, num sermão que a Igreja repete inalterado há quinze séculos, exclama com força admirável: Agnósce, o christiáne, dignitátem tuam, et divínæ consors factus natúræ, noli in véterem vilitátem degéneri conversatióne redíre, “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade; e, feito participante da natureza divina, não queiras voltar à antiga vileza por uma conduta degenerada”. Eis o fundamento de tudo o que hoje meditaremos. A nossa dignidade não é nossa: é-nos doada. E a doação obriga. Quem recebeu o nome de Cristo não pode viver como se não o tivesse recebido. Quem foi feito filho de Deus não pode viver como filho do mundo. Pretender o contrário é contradizer a própria realidade daquilo que somos por graça.

E todavia, meus caros, sejamos sinceros: somos atraídos. O Apóstolo São Pedro, na epístola que hoje nossa Santa Madre Igreja nos lê, supõe-no quando nos exorta como peregrinos e estrangeiros, tamquam ádvenas et peregrinos, a abstermo-nos a carnálibus desidériis, quæ mílitant advérsus ánimam: “dos desejos carnais, que combatem contra a alma” (1 Pe 2, 11). O verbo é militar: mílitant, fazem guerra. Há uma guerra contínua dentro de nós e ao nosso redor. As paixões desordenadas, os pensamentos imundos, as imagens que se imprimem nos sentidos, as conversas levianas, as companhias más: tudo isto se põe como um exército contra a alma cristã. E o nosso Senhor, durante este modicum presente, faz-Se sensivelmente ausente. Não O vemos. Não O tocamos. Não escutamos a Sua voz humana. Mundus autem gaudébit; vos vero contristabímini, “o mundo se alegrará: e vós vos entristecereis” (Jo. XVI, 20). Esta é a assimetria dolorosa em que vivemos: o mundo festeja aquilo que nos contrista, e nós devemos contristar-nos com aquilo que ele festeja.

Aqui, meus caros, devemos ser severos com nós mesmos. Não basta lamentar a corrupção do mundo, a obscenidade das ruas, a indecência dos costumes, a leviandade das conversas. Não basta diagnosticar o mal. É preciso renovar em nós, com firmeza, com decisão, com energia da vontade, o desprezo positivo por tudo aquilo que contradiz a dignidade de filhos de Deus que recebemos. A coleta usa um verbo que devemos meditar e imprimir em nossa memória: respúere, repelir, cuspir fora, vomitar. Não é tolerar com indiferença, não é conviver com tristeza resignada: é cuspir fora. Tudo aquilo que é inimigo do nome cristão deve, na alma cristã, ser objeto desta repulsa interior, ativa, deliberada.

Pois há um perigo que São Pedro nomeia com clarez: usar a liberdade cristã quasi velámen malítiæ, “como capa de malícia” (1 Pe. II, 16). Encobrir o pecado com o nome de Cristo. Alegar a misericórdia divina para continuar a ofender essa mesma misericórdia. Tomar a graça do Batismo por permissão para o vício, e a paciência de Deus por garantia da impunidade. Esta é a degeneração mais sutil e talvez a mais frequente entre os batizados de hoje: não a degeneração de voltar ao paganismo declarado, mas de vesti-lo com um vocabulário cristão, permitindo-se a imundície, justificando-a, escusando-se, enfim, vivendo uma contradição que ofende a Deus e ofende a própria razão; afinal, achar que é possível viver uma contradição é jogar o cérebro no lixo. São Leão chamava-a degéner conversátio: uma conduta indigna daquilo que somos. Que ninguém entre nós, meus caros, viva nesta contradição. Que ninguém suponha que, por trazer o nome de Cristo, está dispensado das exigências do nome de Cristo.

E porque a alma cristã é frágil, e porque a sedução é forte, e porque a ausência sensível do Senhor é longa, não podemos confiar em meras boas intenções. Boas intenções que não se traduzem em meios concretos são engano sutil de uma vontade que ainda quer pecar. O cristão sério, o cristão que leva a sério a sua dignidade, busca meios práticos. Permitam-me, com a clareza que o ofício pastoral exige, indicar três deles, antiquíssimos na tradição da Igreja, e que conservam toda a sua força.

Primeiro, a guarda dos sentidos, e particularmente a guarda dos olhos. O santo Jó dizia de si: Pepígi fœdus cum óculis meis, ut ne cogitárem quidem de vírgine, “Fiz pacto com os meus olhos de não olhar (cobiçosamente) para uma virgem” (Job XXXI, 1). Não é coisa pequena. O olho é janela da alma; e por essa janela entram, em poucos segundos, imagens que se imprimem na memória por anos. Numa época em que basta tocar uma tela para aceder a todas as imundícies que outrora exigiam viagens longas e cumplicidades vergonhosas, a guarda dos olhos não é piedade arcaica: é necessidade urgente. Decidamos onde os nossos olhos podem pousar e onde devem desviar-se. Configuremos os nossos aparelhos. Limitemos os nossos consumos. Quem ama de verdade a Cristo não permite que olhos consagrados a vê-Lo um dia se contaminem hoje com aquilo que ofende o Seu Coração.

Segundo, a fuga das ocasiões de pecado. Qui amat perículum, in illo períbit, “quem ama o perigo nele perecerá”, diz o Eclesiástico (III, 27). Esta é uma das mais sólidas e mais negligenciadas máximas da moral cristã. Conhecemos as nossas fraquezas: aquelas amizades que sempre nos arrastam para conversas más, o uso livre da internet que sempre acaba em pecado, aquele ambiente, aquele horário, aquele estado de alma em que sempre caímos. O cristão minimamente prudente não negocia com a ocasião próxima: foge dela. Quem se mantém deliberadamente no perigo, mesmo invocando boa intenção, mostra que a sua vontade ainda está dividida. A penitência verdadeira, ensina o Doutor Angélico, inclui a remoção das causas do pecado. Sem isto, o que chamamos contrição é, no melhor dos casos, atrição superficial; no pior, autoengano.

Terceiro, a pureza nas conversas e na linguagem. O Apóstolo São Paulo escrevia aos Efésios: Omnis sermo malus ex ore vestro non procédat, “Não saia da vossa boca nenhuma palavra má” (Ef. IV, 29). E o próprio Senhor, em São Mateus, adverte que daremos conta de toda palavra ociosa no dia do juízo (Mt. XII, 36). A boca cristã não é a boca pagã. A linguagem suja, a chacota indecente, a piada de duplo sentido, a maledicência habitual, a familiaridade frívola com o sagrado, enfim, tudo isto contradiz o nome cristão que carregamos. Numa cultura que faz da grosseria forma de pertencimento, a pureza na linguagem é, ela própria, testemunho silencioso. A bona conversátio inter gentes (1 Pe. II, 12), a boa conduta entre os pagãos, começa pelo modo como falamos.

E nesse sentido, meus caros, pela misericórdia de Deus, frequentamos regularmente o sacramento da Penitência. Recebemos a absolvição. Saímos da grade da confissão com a alma branca outra vez. Mas lembremos que a graça da absolvição traz consigo uma responsabilidade. A absolvição não é varinha mágica que apaga o passado e nada mais há a fazer. É graça que vem com obrigação correlata: a obrigação de adotar meios práticos, concretos, verificáveis, para combater as ocasiões de pecado e lutar contra os vícios. São João Batista, ao pregar a penitência, exigia: Fácite ergo fructus dignos pœniténtiæ, “Fazei, pois, frutos dignos de penitência” (Lc. III, 8). Frutos. Não promessas. Não bons sentimentos. Frutos.

Quem se confessa do mesmo pecado, mas se mantém indiferente àquilo que o fez cair, sem mudar nada nas circunstâncias externas em que sempre cai — sem afastar a ocasião, sem evitar a companhia, sem configurar o aparelho, sem mudar o hábito — esse, meus caros, faz violência ao sacramento. Recebe a graça e não a deixa frutificar. Trata o santo tribunal da Penitência como caixa de queixas. Sai do confessionário absolvido, mas volta para o mesmo precipício de onde acaba de ser arrancado, sem nem sequer olhar onde pisa. Esta não é a penitência cristã. Esta é a presunção disfarçada em devoção. Tomemos a sério, cada um de nós, o que prometemos em cada confissão: o firme propósito de mudar de vida. Tornemos esse propósito concreto. Escrevamos, se for preciso, os meios que adotaremos. E executemo-los.

Tudo isto, meus caros, é difícil. Tudo isto é dor. Mas é exatamente aqui que o Evangelho de hoje se torna luz. Múlier, cum parit, trístitiam habet, quia venit hora eius: cum autem peperérit púerum, iam non méminit pressúræ propter gáudium, quia natus est homo in mundum, “A mulher, quando dá à luz, tem tristeza, porque chegou a sua hora: mas, depois que dá à luz um menino, já se não lembra da angústia, pelo gozo de ter trazido um homem ao mundo” (Jo. XVI, 21). A dor de cada renúncia, de cada repulsa, de cada combate é dor de parto. Não é dor estéril. É dor fecunda. Cada vez que cuspimos fora aquilo que ofende o nome cristão, está a nascer em nós, mais um pouco, o homem novo. Cada vez que evitamos a ocasião, está a formar-se em nós o herdeiro do Céu. A tristeza desta peregrinação, vivida com fé, é parto contínuo da alegria eterna.

E a alegria que nos espera, meus caros, é alegria definitiva: gáudium vestrum nemo tollet a vobis, “ninguém vos tirará a vossa alegria” (Jo. XVI, 22). Esta é a alegria que o mundo desconhece, porque não a sabe dar; e por isso mesmo, não a pode tirar. O mundo dá alegrias que se evaporam no instante seguinte; Cristo dá alegria que perdura para a eternidade. O mundo dá prazeres que deixam a alma vazia depois de saciados; Cristo dá uma plenitude que nunca se gasta. Vale a pena, meus caros, mil vezes vale a pena, preferir a tristeza fecunda do parto cristão à alegria estéril do prazer mundano.

Renovemos pois, neste mesmo Sacrifício que nos vai unir a Cristo Pontífice e Vítima, as promessas do nosso Batismo. Não como fórmula recitada de cor, mas como repulsa efetiva, respúere, de tudo aquilo que ofende em nós a dignidade de filhos de Deus, e como adesão renovada, sectári, de tudo aquilo que essa dignidade exige. Que cada um de nós saia desta santa Missa com um meio prático adotado, com uma ocasião evitada, com uma resolução concreta tomada. E supliquemos à Virgem Santíssima, Mãe das Dores e da Esperança, que nos obtenha a coragem do parto e a constância da peregrinação, até que se cumpra em nós o segundo modicum: o pouco breve, ainda escondido, depois do qual O veremos para sempre.

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O Antoniano