[Sermão] Quem foge da cruz sofre mais, ou como ter a consolação na perseguição

Sermão para o Domingo na Oitava da Ascensão
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 17 de maio de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Há uma misericórdia que se esconde sob a aparência da dureza. Quando o bom médico se senta à cabeceira do enfermo e não lhe oculta a gravidade do mal que há de vir, não é crueldade o que o move, mas o desejo de prepará-lo, de armá-lo de antemão contra a hora difícil. O silêncio, naquele instante, seria a verdadeira crueldade, porque deixaria o doente desprevenido diante do golpe. Foi assim que procedeu Nosso Senhor na véspera da sua Paixão. Reunidos os discípulos em torno da mesa, prestes a deixá-los visivelmente, não os entreteve com palavras vagas e reconfortantes, mas pôs diante deles uma verdade severa: a perseguição os esperava. E declarou abertamente a razão de o fazer: “Haec locutus sum vobis, ut non scandalizémini” (“Estas coisas vos disse para que não vos escandalizeis”). Neste domingo na Oitava da Ascensão, tempo em que nossa Santa Romana Igreja vela e ora no Cenáculo com Nossa Senhora e os Apóstolos, à espera do Paráclito, somos nós que ouvimos essa advertência. E faz bem a santa Madre Igreja em nos repetir essa advertência, meus caros, porque a hora que o Senhor previu não pertence apenas aos Apóstolos: pertence a toda geração de cristãos, e também à nossa.

Reparemos, antes de tudo, no modo como o Senhor enquadra o seu anúncio. Ele abre a perícope e a fecha com a mesma frase, como quem a emoldura: “Haec locutus sum vobis” (“Estas coisas vos disse”). E ao final acrescenta a finalidade: “ut cum venerit hora eórum, reminiscámini quia ego dixi vobis” (“para que, quando chegar sua hora, vos lembreis de que eu vo-lo disse”). Eis a chave de toda a passagem. O Senhor não prediz a tribulação para nos amedrontar, mas para que, chegada ela, a reconheçamos, e, reconhecendo-a, não nos escandalizemos. A fé advertida não cambaleia quando a provação a alcança. Os antigos romanos tinham um ditado que a sabedoria cristã fez seu: praemonitus, praemunitus: o que foi prevenido está prearmado. Santo Agostinho, comentando este mesmo texto, observa que o Senhor anuncia os males futuros como remédio, para que o golpe esperado não derrube aquele que o golpe inesperado faria cair. Pensemos no soldado a quem o capitão, na véspera da batalha, revela o ponto exato em que o inimigo há de investir: quando o assalto vier, esse soldado não se desfará em pânico, pois reconhecerá o ataque, dirá consigo mesmo “era isto que me foi anunciado”, e firme permanecerá no seu posto. Assim quer o Senhor que estejamos nós. Por isso, meus caros, a primeira graça que devemos pedir neste domingo é a de não nos surpreendermos. Quando o cristão se admira de que o mundo o odeie, é sinal de que esqueceu (ou nem conheceu de fato) o Evangelho.

Mas detenhamo-nos, meus caros conspícuos, no traço mais agudo deste anúncio, aquele que mais nos deve fazer pensar. O Senhor adverte que a perseguição não virá sempre de mãos declaradamente ímpias. Virá, muitas vezes, travestida de religião. “Venit hora, ut omnis qui intérficit vos, arbitrétur obséquium se praestáre Deo” (“Vem a hora em que todo aquele que vos matar julgará prestar culto a Deus”). Que mistério perturbador é este: perseguir a verdade e, ao mesmo tempo, crer que se serve a Deus! Como é possível? O próprio Senhor no-lo explica, e o faz sem rodeios, apontando a raiz: “Et haec fácient vobis, quia non novérunt Patrem, neque me” (“E estas coisas vos farão porque não conheceram o Pai nem a mim”).

Aqui está, meus caros, o cerne da questão. Aqueles homens prestarão culto, sim — mas a quem? Não ao Pai, que nunca conheceram; não a Cristo, que nunca conheceram. Prestarão culto a um ídolo que o seu próprio orgulho fabricou. Tendo recusado o Deus verdadeiro tal como Ele se revelou, modelaram em seu lugar uma divindade à sua imagem: um deus dócil aos seus apetites, conformado aos seus caprichos, que aprova o que eles aprovam e condena o que eles condenam. A esse fantasma rendem obséquio. E porque chamam “deus” àquilo que adoram, persuadem-se de que servem a Deus quando, na verdade, servem a si mesmos.

Eis o que devemos chamar pelo seu nome: a religião do homem. Não a negação franca e aberta de Deus, essa, ao menos, se conhece a si mesma e não engana ninguém, mas algo mais sutil e mais perigoso: a substituição do Deus verdadeiro por uma imagem fabricada, na qual o homem, sob o disfarce de adorar o céu, na realidade adora a si próprio. É a religião que conserva as palavras antigas e lhes troca o conteúdo; que mantém o vocabulário do culto e dele expulsa o Deus vivo. E reparemos bem: os que assim procedem nunca conheceram nem o Pai nem o Filho. Conheceram apenas a ideia que, no seu orgulho, fizeram de um Anti-pai e de um Anticristo talhados à sua medida; uma caricatura cômoda, que não os incomoda, que não os julga, que não lhes exige conversão alguma. A modernidade, meus caros, em larga parte não é senão isto: a religião do culto do homem, erguida sobre as ruínas do culto de Deus. E é dela que parte, em nossos dias, boa porção da perseguição contra os que querem permanecer fiéis: uma perseguição que se apresenta como tolerância, como progresso, como o próprio bem, e que precisamente por isso julga, ao oprimir a verdade, estar a prestar um serviço a Deus e aos homens. Religião do homem, que, pelas idéias modernas, penetra todas as instituições hoje e mesmo a igreja, como se viu claramente no período pósconciliar, fazendo que se declarasse em certo momento com uma audácia blasfema “a religião, que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas de facto não se deu. […] Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós —  e nós mais do que ninguém temos o culto do homem”. 

Diante deste anúncio, meus caros, abre-se uma pergunta que cada um de nós deve dirigir a si mesmo na própria consciência: e eu, como hei de atravessar essa hora? Não se trata de uma curiosidade especulativa, nem de um exercício para tempos de ócio, mas da pergunta mais prática e mais urgente que existe, pois dela depende a nossa salvação ou a nossa ruína. E o Evangelho de hoje, lido à luz de toda a doutrina do Senhor, nos põe diante de dois caminhos, e não há um terceiro.

Há o católico que conhece a sua fé. Não a conhece apenas de nome, nem de ouvir dizer: conhece-a por dentro, alimenta-a, mantém-na viva e ardente pelo contato assíduo com Deus na oração e nos sacramentos. Esse, quando a hora da provação chegar, não ficará desamparado. Sofrerá, certamente, afinal o Senhor não promete a ninguém a dispensa da cruz, mas sofrerá com Cristo e em Cristo; e por Cristo será sustentado, fortalecido e consolado. É para ele que o Senhor envia o Paráclito, palavra que significa precisamente Consolador, Advogado, aquele que se chama para junto de si na hora da aflição. É a ele que a epístola de hoje dirige o seu conselho: “estóte prudéntes, et vigiláte in oratiónibus” (“sede prudentes e vigiai nas orações”). O cristão que vela e ora tem onde firmar os pés quando a terra estremece.

Mas há também o outro: o católico mundano, ou o católico morno, aquele que traz o nome, frequenta talvez os ritos, mas cujo coração permanece inclinado ao mundo, ainda enamorado daquilo que o mundo oferece. Quando a hora chegar, esse fugirá da cruz. E aqui está, meus caros, o engano trágico que precisamos desfazer: ele julgará, fugindo, escapar ao sofrimento, e não escapará. Porque fugiu da cruz, não estará unido a Cristo crucificado; e não estando unido a Cristo, não será por Cristo sustentado, nem fortalecido, nem consolado. Sofrerá assim mesmo, pois ninguém atravessa esta vida sem dor, mas sofrerá sozinho, sofrerá sem fruto, sofrerá ainda mais. E, ao cabo, será engolido pelo mesmo mundo de cuja cruz quis fugir. Este é o paradoxo que devemos gravar em nossas mentes e em nosso coração: quem foge da cruz não evita o sofrimento, apenas o multiplica e o esvazia de sentido. A cruz abraçada salva; a cruz recusada esmaga assim mesmo. E não esqueçamos a palavra severíssima que o Senhor dirige, no Apocalipse, precisamente ao morno: porque não é nem frio nem quente, Ele o vomita de sua boca. Não há lugar mais perigoso, na hora da provação, do que essa tepidez que se julga em segurança.

E aqui, meus caros, este domingo nos entrega a sua chave. Pois não estamos num domingo qualquer: estamos no domingo na oitava da Ascensão do Senhor. Que nos mostra o admirável mistério da Ascensão? Mostra-nos onde está o nosso fim e onde repousa a nossa verdadeira alegria. Cristo subiu aos céus, e subiu como cabeça do seu corpo, que é a Igreja, da qual somos membros; subiu para nos preparar o lugar e para atrair-nos atrás de si. O nosso termo não está aqui. A nossa pátria não é este mundo que persegue. O nosso fim e a nossa felicidade estão no céu, onde Cristo nos precedeu e nos espera. Não nos enganemos, meus caros, sobre o que celebramos: a Ascensão não é a ausência de Cristo, mas a sua entronização. O Senhor não nos abandonou ao subir; subiu para reinar, e reina para nos conduzir. E porque subiu como cabeça, arrasta consigo, por direito e por promessa, todos os membros do seu corpo, pois para onde foi a cabeça, para lá tendem necessariamente os membros. Quem pertence de verdade a Cristo já tem, por assim dizer, um pé no céu.

Por isso o Apóstolo nos ordena, com palavras que nossa Santa Madre Igreja faz ressoar reiteradamente neste tempo: “Quae sursum sunt quærite… quae sursum sunt sápite” (“Buscai as coisas do alto… saboreai as coisas do alto”). É erguendo o olhar para o céu que o católico vence as tribulações desta vida. Santo Agostinho dizia, no dia da Ascensão, que embora Cristo tenha subido sem nós, nós, contudo, já subimos com Ele pelo coração; e isso é verdade, pois onde está o nosso tesouro, aí está também o nosso coração, e onde já está o nosso coração, ali de algum modo já vivemos. O católico que tem o coração fixo no céu torna-se inabalável na terra, porque a perseguição não pode arrancar-lhe aquilo que ele guarda fora do alcance do mundo. Quem nada espera deste mundo nada tem a perder quando o mundo o ameaça; e quem olha para o alto não tropeça nas pedras que o inimigo lhe atira aos pés. E notemos como tudo se entrelaça: esse olhar erguido para o céu é, ele mesmo, uma forma de vigilância e de oração, precisamente aquilo que a epístola de hoje nos recomenda quando nos manda velar.

Recolhamos, pois, meus caros, o que ouvimos. O Senhor previu a hora, a hora da perseguição, a hora em que a religião do homem julgará servir a Deus oprimindo os que servem ao Deus verdadeiro, e previu-a para que, chegada ela, nos lembremos de que Ele a anunciou e não nos escandalizemos. Três coisas, então, levemos hoje deste altar. A primeira: não temer, porque nada nos sucederá que o Senhor não tenha previsto e permitido para o nosso bem. A segunda: não fugir da cruz, porque a fuga não poupa o sofrimento, apenas lhe rouba o fruto e a glória. A terceira: alimentar a fé, alimentá-la todos os dias no estudo, na oração e nos sacramentos, para que, quando a hora vier, ela não nos encontre de mãos vazias e de coração tíbio.E façamos nossa, com inteira sinceridade, a oração que nossa Santa Romana Igreja hoje pôs em nossos lábios na coleta da Missa, suplicando a Deus que nos conceda “devótam gérere voluntátem; et maiestáti tuae sincéro corde servíre” (“conduzir uma vontade a Ele devotada e servir à sua majestade com coração sincero”). Pois somente o coração sincero, meus caros, e não o coração que adora a si mesmo sob o nome de Deus, presta ao Altíssimo o verdadeiro obséquio e o culto que Lhe é devido. Que a Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe das Dores, que velou no Cenáculo com os Apóstolos à espera do Espírito Santo, nos alcance essa sinceridade e essa perseverança. E que, com os olhos postos no céu para onde o Senhor nos precedeu, atravessemos sem temor a hora que Ele previu, certos de que o Consolador prometido não nos deixará jamais órfãos.

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O Antoniano