Festa de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 08 de maio de 2026 A.D.
Caríssimos fiéis,
Nossa Santa Romana Igreja nos impele hoje a celebrar Nossa Senhora sob um dos seus títulos mais sublimes e mais combatidos nos tempos atuais: Mediatrix omnium gratiarum, Medianeira de todas as graças. Num mundo que desconfia dos intermediários, que exalta a relação direta, imediata e sem mediações, este título soa estranho ou até perturbador. Mas a estranheza não está no dogma; está nos nossos ouvidos modernos, habituados à soberba de um individualismo que, em matéria espiritual, pretende igualmente dispensar os meios que o próprio Deus quis estabelecer.
É da vontade de Deus que Maria Santíssima ocupe este lugar. Não por acidente da devoção popular, não por exagero piedoso, mas por um desígnio eterno. São Tiago nos lembra que “omne datum optimum et omne donum perfectum desursum est” (“todo dom excelente e todo presente perfeito desce do alto”, Tg. I, 17), mas Deus, na liberdade soberana do seu amor, quis que esse dom descesse por Maria. A distinção teológica é precisa e necessária: existe uma única Mediação absoluta, a de Nosso Senhor Jesus Cristo, “unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum, homo Christus Iesus” (“porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus”, 1Tm. II, 5). A Mediação Universal de Nossa Senhora não rivaliza com esta; dela participa, a ela se subordina, por ela é inteiramente constituída. É o que São Bernardo ilustra com a imagem do aqueduto: a água que vem da fonte não é menos real nem menos gratuita por vir pelo canal. Deus quis esse canal, e esse canal tem nome: Maria.
O fundamento desta missão é a humildade. Deus não exaltou Maria apesar da sua humildade, mas precisamente por causa dela: “respexit humilitatem ancillae suae” (“olhou para a humildade de sua serva”, Lc. I, 48). É esta serva que, nas Bodas de Caná, percebe a nossa indigência antes de nós mesmos e a apresenta a Cristo com uma intercessão discreta, direta e certeira: “Vinum non habent” (“Não têm vinho”, Jo. II, 3). E o Senhor age. É esta mesma serva que, ao pé da Cruz, recebe na pessoa de São João a maternidade de todos os redimidos: “Mulier, ecce filius tuus” (“Mulher, eis o teu filho”, Jo. XIX, 26). Desta Maternidade decorre organicamente a Mediação: a mãe intercede pelos filhos; não pode ela agir de outro modo.
Há, meus caros conspícuos, uma imagem que devemos contemplar com atenção: o proto-evangelho do Gênesis: “ipsa conteret caput tuum” (“ela esmagará a tua cabeça”, Gen. III, 15). O pé que esmaga a cabeça da serpente é um pé humilde, o pé de uma serva, de uma Mãe, de uma Medianeira. A força esmagadora não vem da soberba, mas do abaixamento; não vem da autonomia, mas do abandono total à vontade de Deus. É exatamente por isso que negar a Mediação universal de Maria é, no fundo, aliviar o peso desse pé sobre o inimigo. Quem rejeita a Medianeira, rejeita o instrumento que Deus escolheu para a nossa salvação.
E é aqui que devemos denunciar a patologia espiritual que não é nova mas que os tempos modernos exacerbaram: a insanidade do protagonismo espiritual. O modernista (empregando o termo no sentido rigoroso que lhe deram os Papas, de São Pio X a Pio XII) quer chegar a Cristo diretamente, sem intermediários, do seu jeito, pela sua experiência subjetiva, como se a graça fosse uma conquista pessoal e não um dom recebido. Rejeita os sacramentos como meios necessários, rejeita a hierarquia como a mediação querida por Cristo, e rejeita Maria como Medianeira por considerar que ela interpõe um obstáculo entre a alma e a experiência de Deus.
Mas esta pretensão é uma contradição em termos. O próprio Cristo, o único Mediador absoluto, veio ao mundo por uma Mulher. Quis nascer, ser alimentado, ser educado, depender de criaturas. Não por fraqueza, mas por desígnio: para nos ensinar que a humildade de receber é a única via de entrada na lógica da graça. Quem quer ser o protagonista da própria santificação, quem recusa os meios que Deus estabeleceu e quer fazer o seu caminho espiritual “sem intermediários”, comete exatamente o pecado de Adão: “eritis sicut dii” (“sereis como deuses”, Gen. III, 5). É seguir o caminho orgulhoso de Lúcifer manifestado pela língua bífida da serpente.
Reconheçamos, meus caros, que chegamos a Cristo como chegamos ao mundo: por uma Mãe. Não por fraqueza nossa, mas porque assim o quis a sabedoria divina. A humildade cristã não consiste em pretender dispensar os meios que Deus nos deu; consiste em acolhê-los com gratidão filial, reconhecendo que toda a graça que recebemos, sem exceção, nos vem pelo patrocínio e pela intercessão desta Mulher bendita entre todas as mulheres. Nesta festa, renovemos, pois, a nossa confiança filial em Nossa Senhora Medianeira de todas as graças. Recorramos a Ela em toda necessidade, especialmente naquelas do espírito, onde mais facilmente nos iludimos com a autossuficiência. E façamos nossa, com coração simples, a antiga oração da Igreja: “Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genetrix”, “A vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus.” Ela que esmagou e esmaga a cabeça da serpente não nos faltará, nem à sua Santa Romana Igreja nos combates contra as forças das trevas e contra os inimigos da Mulher.


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