Sermão para o IV Domingo depois da Páscoa
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 03 de maio de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Voltemos nossa atenção para o episódio que nossa santa Romana Igreja narra no evangelho deste Domingo: Reverberava ainda no Cenáculo o eco dos discursos que o Senhor pronunciava na noite de sua Paixão, quando, ao anunciar a sua próxima partida, proferiu uma palavra que tem a força de uma branda repreensão: “Vado ad eum, qui misit me: et nemo ex vobis intérrogat me: Quo vadis?”, “Vou para Aquele que me enviou, e ninguém de vós me pergunta: Para onde vais?” Assim, na vigília mesma de seu sacrifício, o Senhor lamentava a estranha mudez dos seus: vai-se Ele para o Pai, e os discípulos, absorvidos pela tristeza imediata da separação, sequer indagam o termo dessa partida. Nossa santa Madre Igreja, com sabedoria, retoma hoje esse texto e o coloca diante de nós no esplendor do tempo pascal, e isso não para que repitamos o silêncio dos apóstolos, mas para que, a esta altura da vida cristã, a pergunta que eles deveriam ter feito ao Senhor seja feita por nós a nós mesmos, e com toda a seriedade: Quo vado? para onde vou eu?
Mas para que essa pergunta se torne, em nós, real e fecunda, meus caros, comecemos por responder primeiro à pergunta original: para onde vai o Senhor?
Vai para o Pai. Vai para Aquele de quem o Apóstolo São Tiago, na Epístola de hoje, nos diz que é o Pater luminum, apud quem non est transmutatio nec vicissitudinis obumbratio, “o Pai das luzes, no qual não há mudança, nem sombra de variação”. Eis a primeira lição, e a mais elementar: o Senhor vai àquele lugar onde nada passa, onde nada oscila, onde nada se altera. Vai à pátria das vera gaudia, das verdadeiras alegrias, que a coleta deste domingo nos faz pedir como termo último do nosso desejo. Santo Agostinho, com a sinceridade ardente de quem havia experimentado em si todas as inquietações, registrou-o de uma vez por todas no início das Confissões: “Fecisti nos ad te, Domine, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te”, “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Ali, onde está o Senhor, onde está o Pai imutável, é que está o repouso para o qual fomos criados. Tal é a direção objetiva que toda alma cristã deve assumir como sua.
Mas se essa é a direção do Senhor, qual é, meus caros, a direção do mundo? Ouçamos com atenção a coleta: inter mundanas varietates, “entre as variações do mundo”. A Igreja não escolhe esses termos por acaso. O mundo é, por sua estrutura mesma, o reino do mutável. As suas modas, os seus assuntos, os seus entretenimentos, os seus ídolos: tudo nele é vicissitudinis obumbratio, sombra de variação. O que hoje é celebrado, amanhã é esquecido; o que hoje é lei, amanhã é abominação; o que hoje é heroísmo, amanhã é crime; o que hoje é arte, amanhã é vergonha. Aqueles mesmos que ontem eram aclamados como gênios, hoje são ridicularizados como tolos; e os estúpidos de hoje amanhã serão os gênios de pessoas mais estúpidas ainda. Tal é o mundo: passa a sua figura, lembra-nos São Paulo, praeterit enim figura huius mundi (I Cor VII, 31).
Ora, meus caros, contraponhamos com firmeza esses dois eixos do Evangelho de hoje. De um lado, o Pai imutável a quem o Senhor vai. De outro, princeps huius mundi iam iudicatus est, “o príncipe deste mundo já está julgado”. Eis as duas direções, e não há terceira. Caminhar com Cristo é caminhar para o Pai; caminhar com o mundo é caminhar com o seu príncipe — e o seu príncipe, advertiu-nos o próprio Salvador, iam iudicatus est. Assim como o céu já está aberto Àquele que dele desceu, assim também o juízo já está pronunciado sobre aquele que se levantou contra Ele. Nolite conformari huic saeculo, exorta-nos São Paulo (Rom XII, 2): “Não vos conformeis com este século”. O Apóstolo não está fazendo sensacionalismo; está descrevendo, com o realismo dos santos, as duas únicas vias que se abrem diante do batizado.
E aqui, meus caros, é onde a pergunta nos atinge em cheio: Quo vado? Para onde vou eu? Para onde, de fato, se inclina o meu coração nas vinte e quatro horas do dia? Façamo-nos quatro perguntas, e respondamo-las sem maquilhagem.
Primeira: a quem é familiar o nosso espírito? Onde está a nossa intimidade habitual — com o mundo, ou com o céu? Com quem conversamos, do que nos ocupamos, em que pensamos quando ninguém nos observa? Quando nos pomos a sós com nós mesmos, qual é o pensamento que naturalmente nos vem à mente: algo relacionado ao céu ou à nossa alma? Aos nossos deveres de estado? A algum interesse honesto? Alguma alegria honesta — ou a última cena da novela, o último vídeo curto, o último comentário do influencer a quem seguimos? De quem é, afinal, a voz que mais ouvimos no decurso de uma semana: a do nosso Senhor, a de nossos mestres, de nossos amigos ou a dos apresentadores, dos artistas, dos cronistas deste mundo? A quem conhecemos melhor: os santos da Igreja, os grandes homens que são modelos de ciência, arte ou vida, nossos pais e amigos, por quem temos deveres de piedade; cujas vidas deveriam ser nosso pão de cada dia, ou os ídolos populares — os ídolos de esporte, da televisão, da política, das redes sociais? A resposta sincera a estas perguntas, meus caros, já diz para onde vai o coração; porque o coração vai aonde está o tesouro, e o tesouro está onde a alma se demora.
Segunda: a arte das pequenas dispensas. Não nos apressamos nós, com mil razões aparentes, a justificar pequenas mundanidades, pequenas condescendências, pequenas dispensas? “Não tem nada demais.” “É só uma série.” “Todo mundo vê.” “É só desta vez.” “Não é tão ruim assim.” “Não fui eu que escolhi o lugar.” “Era apenas um compromisso profissional.” “Não posso me isolar, vai que posso ajudar essas pessoas.” Cada uma destas frases é, em si mesma, uma pequena confissão. A confissão de que já não pensamos com a mente da Igreja, mas com a mente do século. O católico inteiro não precisa ficar justificar a sua vida, porque a sua vida está em ordem; aquele que precisa diariamente de mil dispensas, mil exceções, de mil “tolerâncias”, esse é o sinal vivo de que mil coisas em si não vão bem.
Terceira, e quero deter-me aqui um pouco mais: o pudor perdido. As festas, as modas, os entretenimentos, os assuntos do século — coisas que deveriam fazer corar de vergonha qualquer católico medianamente formado — ainda nos constrangem, ainda nos causam horror, ou já tomamos parte nelas com a naturalidade de quem nunca recebeu o santo Batismo? Façamos um exame, meus caros, sem máscaras e sem complacência.
Os carnavais e demais festas públicas do mundo, plenos de imoralidades, que percorre as cidades em escárnio aberto da decência cristã e mesmo natural: ainda nos causa horror, ignoramos como se estivesse tudo bem ou, pior, tomamos parte nas suas farsas? As novelas, séries, filmes, que noite após noite fazem das telas um pequeno templo do adultério normalizado, da sodomia apresentada como amor, da blasfêmia banalizada em piada: ainda as repudiamos, ou já as consumimos como se fossem alimento neutro? As músicas correntes cheias de imoralidades, desordenadas nas letras e ritmos, fazem parte do nosso lazer, da nossa rotina, dos nossos passeios de carro, dos ouvidos dos filhos? As modas: vestimo-nos como quem reconhece sua dignidade cristã (ou, ao menos a sua racionalidade), mantendo o pudor e a mínima cortesia de acordo com as circunstâncias, ou estamos prontos para achar desculpas para se misturar na multidão indistinta de novos pagãos? Ou estamos prontos para achar a primeira desculpa para se permitir a indecência, achando que só por serem familiares ou próximos não lhes devemos o respeito da modéstia.
Ainda temos festas em que um católico não deveria sequer ser visto, devido aos excessos certos, à quem frequenta, às imoralidades presentes: declinamos com firmeza, comparecemos “para não ofender” ou “nos iludimos achando que vamos nos controlar”, mas esquecendo que nosso consentimento já foi dado e o escândalo causado? O calendário do mundo — feriado, fim de semana prolongado, viagem de turismo — soberanamente substituindo o calendário litúrgico: cancelamos a Missa dominical pela viagem de lazer, pela festa de aniversário, pelo casamento de sábado à noite que entra noite adentro? A conversação corriqueira, recheada de palavrões, de duplos sentidos, de fofocas sobre a vida íntima dos famosos, de juízos temerários sobre o próximo: ainda sentimos que tal linguagem está abaixo de um filho de Deus, ou já abrimos a nossa boca a tudo? A paixão pelo futebol e pelos espetáculos análogos, que mobiliza horas, gritos, paixões, dinheiro, ódios contra adversários: nossa mente está no jogo com mais constância do que diante do altar? O resultado de domingo importa-nos mais do que o Evangelho de domingo?
E que diremos, meus caros, dos novos coliseus do nosso tempo — essas lutas em jaula, essas chamadas “artes marciais mistas” e congêneres, em que homens criados à imagem de Deus aceitam expor-se uns aos outros, causando-se danos seríssimos pelo puro deleite do espetáculo, e em que multidões cada vez mais numerosas sintonizam para se deleitar com o sangue derramado, com os ossos quebrados, com os semblantes desfigurados? Que diferença há entre os pavilhões iluminados de hoje e o velho coliseu pagão, senão a substituição dos leões pelos punhos? Santo Agostinho narra-nos, nas Confissões, a queda do seu amigo Alípio, jovem virtuoso que, levado quase à força a um espetáculo de gladiadores, fechou os olhos para não ver — mas, ao ouvir o rugido da multidão diante de uma ferida, abriu-os, e, ferido na alma muito mais do que o gladiador no corpo, perdeu-se naquela embriaguez de sangue. Eis exposto em poucas linhas o mecanismo deste pecado: começa-se por relutar, depois acompanha-se por curiosidade, depois entusiasma-se, depois precisa-se daquilo. Insensibilizamo-nos, meus caros, à brutalidade sangrenta — àquela mesma brutalidade que alegra o demônio e bestializa os homens. Não tenhamos pudor de chamar a coisa pelo seu nome próprio: isto é desumano, isto é diabólico — e nenhum cristão pode aplaudir, nenhum cristão pode pagar para ver, nenhum cristão pode permitir tal coisa dentro de sua casa.
Quarta pergunta, que é antes uma constatação. Se este exame nos descobre, meus caros, tomando parte habitualmente em algumas dessas coisas, sem rubor, sem combate, sem horror — então é porque já não fomos formados pela fé, mas pelo mundo. O nosso Batismo não informou a nossa vida. Somos católicos no nome, no domingo durante um momento; mas no fundo do coração, na semana toda, somos cidadãos do século presente. E o século presente, lembra-nos sem rodeios o Evangelho de hoje, tem o seu princeps iam iudicatus; seu príncipe já julgado, e quem com ele anda, com ele será julgado.
Ouçamos, por isso, a palavra do mesmo Apóstolo São Tiago que hoje nos fala na Epístola, e que poucos capítulos adiante, na mesma carta, escreve: “Adúlteri, nescítis quia amicítia huius mundi inimíca est Dei? Quicúmque ergo volúerit amícus esse sæculi huius, inimícus Dei constitúitur”, “Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Quem, pois, quiser ser amigo deste século, constitui-se inimigo de Deus” (Tg. IV, 4). Adúlteros, diz o Apóstolo, sem suavização: porque a alma cristã foi desposada por Cristo no Batismo, e quem se entrega ao mundo entrega-se a outro esposo. Tertium non datur, não há terceiro caminho. O Senhor mesmo o disse: nemo potest duobus dominis servire (Mt VI, 24), ninguém pode servir a dois senhores. Aquele que vive na familiaridade habitual com o mundo, que justifica todas as suas mundanidades, que perdeu o pudor diante daquilo que deveria escandalizar o cristão médio, esse não está apenas tíbio: está em perigo real de descobrir, na hora de prestar contas, que durante toda a vida foi para onde vai o mundo, e não para onde foi o seu Senhor. E o caminho do mundo, ensina-nos a Sagrada Escritura, é largo; mas o seu termo é a perdição.
Que faremos, então, meus caros, diante de tal diagnóstico? Aqui é a própria liturgia que nos socorre. Voltemos à coleta deste domingo, e ouçamo-la agora como nunca a ouvimos: “Da pópulis tuis id amáre quod præcipis, id desideráre quod promíttis”, “Dai aos vossos povos amar o que ordenais, desejar o que prometeis”. A fixação do coração no Pai imutável não é fruto de simples esforço humano: é graça que se pede, e que se pede precisamente nesta liturgia, ao Pai das luzes, do qual desce todo dom perfeito. Mas é graça que supõe a nossa cooperação: o desprendimento dos afetos desordenados, a frequência aos sacramentos da Confissão e da Comunhão, a meditação quotidiana, o terço diário, mínimo para alguém se dizer católico, o exame de consciência à noite, a disciplina dos sentidos, o cuidado severo com aquilo que entra pelos olhos e pelos ouvidos, a coragem de declinar, de sair da festa, de fechar a tela, de quebrar o costume. Há que fazer, em cada vida, uma poda, e ninguém é poupado dela.
E o Santo Sacrifício da Missa que assistimos, meus caros, é o próprio antegozo das vera gaudia, das verdadeiras alegrias: nele o tempo se abre ao eterno, nela tocamos já, ainda que por instantes, o repouso da pátria. Quem conhece esse repouso não confunde mais o brilho passageiro do mundo com a luz que vem do Pai das luzes. Este saberá distinguir, e saberá escolher.
Que ninguém de nós, meus caros, saia hoje desta capela sem ter feito sinceramente a si mesmo a pergunta que os apóstolos não fizeram ao Senhor: Quo vado? Para onde vou? Para onde, na realidade nua e crua dos meus dias, se dirige o meu coração? E que ninguém de nós saia sem ter respondido, com a resolução firme da graça implorada, que vai aonde foi Cristo, e não aonde vai o mundo. Recolhamos toda esta meditação na própria oração que nossa Santa Madre Igreja, com sabedoria divina, nos pôs hoje nos lábios: “Da pópulis tuis id amáre quod præcipis, id desideráre quod promíttis; ut inter mundánas varietátes ibi nostra fixa sint corda, ubi vera sunt gáudia”, “Dai aos vossos povos amar o que ordenais e desejar o que prometeis, a fim de que, entre as variações deste mundo, estejam fixos os nossos corações onde há verdadeiras alegrias.” Assim seja.


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