[Sermão] As três ilusões do católico hoje e a verdadeira prática da fé

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Sermão para o V Domingo depois da Páscoa
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 10 de maio de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja na divina liturgia deste V Domingo depois da Páscoa põe-nos diante de um espelho. Daqui a poucos dias, na Quinta-feira da Ascensão, contemplaremos o Senhor subindo ao céu; mas antes que ele suba, a Santa Igreja convoca-nos a três dias de procissão e oração, as Rogações, que se iniciam amanhã. E para esses dias, e para toda a vida cristã, os textos sagrados deste Domingo dão-nos uma chave preciosa.

Comecemos pela oração que abriu a Missa, a Coleta. Pedimos a Deus, a quo bona cuncta procedunt (“de quem procedem todos os bens”), duas coisas inseparáveis: ut cogitemus, te inspirante, quæ recta sunt; et, te gubernante, eadem faciamus, “que, por Vossa inspiração, pensemos o que é reto, e, por Vosso governo, façamos o mesmo”. Pensar e fazer; fazer o que se pensa; pensar o que se vai fazer. A unidade entre estes dois movimentos é o coração do cristianismo vivido, e a sua ruptura é a ruína de tantas almas piedosas.

Pois o Apóstolo São Tiago, na epístola que acabamos de ouvir, denuncia precisamente essa ruptura com uma imagem inesquecível: o homem que se vê no espelho e, mal se afasta, esquece-se imediatamente do rosto que viu. Estote autem factores verbi, et non auditores tantum, fallentes vosmetipsos, “Sede, porém, praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”. Eis o nosso programa para hoje: examinar a ilusão do espelho, descobrir o remédio que a Coleta nos põe nos lábios e, enfim, abraçar o critério apostólico da religião verdadeira.

Reparemos, meus caros, na sutileza desta imagem. São Tiago não fala do homem que recusa olhar-se ao espelho — esse, ao menos, sabe que não quer ver. Fala daquele que se contempla e logo esquece. O espelho, como ele mesmo explica, é lex perfecta libertatis, “a lei perfeita da liberdade”, isto é, a Palavra de Deus e, mais largamente, toda a vida cristã ensinada por nossa Santa Madre Igreja. Quem ouve um sermão, quem recebe um conselho de confessor, quem lê um livro espiritual, esse contempla seu rosto verdadeiro: o rosto da própria alma com suas misérias e com a vocação à santidade. E, no momento mesmo em que esse rosto se apresenta, é também esquecido.

Por que o Apóstolo acrescenta essa palavra terrível, fallentes vosmetipsos, “enganando-vos a vós mesmos”? Porque Deus não se engana sobre nós; somos nós que nos enganamos sobre nós mesmos. E este é, talvez, o pecado mais difundido entre os cristãos bem-intencionados, e o mais difícil de detectar, justamente porque tem aparência de piedade.

Pensemos quantos modos quotidianos há de se cair nesse autoengano. Há o cristão que sai da Missa como entrou, ouviu a Epístola, escutou o Evangelho, recebeu a bênção, e na conversa do almoço tudo se evapora. Há o que lê páginas e páginas de espiritualidade e não corrige uma só falta concreta: não a impaciência com a esposa, não a língua solta no trabalho, não o olhar entregue às telas. Há o que escuta o sermão admirando a doutrina, comparando um pregador com outro, comovendo-se com uma imagem bem apresentada sobre a doutrina, e sai sem que uma única palavra lhe atinja a consciência.

Eis a ilusão. E São Gregório Magno desmascara-a com vigor: Probatio ergo dilectionis exhibitio est operis, “A prova do amor é a manifestação da obra”. O Senhor mesmo nos havia advertido: Non omnis qui dicit mihi, Domine, Domine, intrabit in regnum cælorum, “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus”.

Mas nossa Santa Igreja, conhecendo melhor que nós a nossa miséria, não nos abandona diante do espelho. No mesmo Domingo em que nos põe diante dos olhos a censura apostólica, põe-nos nos lábios o remédio, isto é, a Coleta que rezamos no início desta Missa.

Reparai, meus caros, na admirável construção desta oração. Há nela dois verbos gêmeos: cogitemus e faciamus, pensemos e façamos; além disso, temos dois ablativos absolutos paralelos: te inspirante e te gubernante, por Vossa inspiração e por Vosso governo. A vida cristã é como uma respiração de duas vias: o entendimento que assente à verdade, recebida do alto, e a vontade que executa o bem, sustentada do alto. Reduzir a religião apenas à primeira é o engano denunciado por São Tiago: tão somente ouvintes e não factores. Reduzi-la apenas à segunda, supor que a santidade se faz por força de vontade, sem oração, sem doutrina, sem submissão à graça, é cair na heresia do ativismo, um ativismo desenfreado que de cristão tem apenas o verniz.

E aqui, meus caros, é preciso falar com franqueza, porque vivemos um tempo em que ambos os extremos permeiam os meios católicos, e ambos se apresentam disfarçados de catolicismo verdadeiro.

Há, primeiramente, o catolicismo sentimental. É o catolicismo dos que vão à Missa para “sentir-se bem”. Buscam emoção, conforto, uma certa atmosfera de paz; e quando saem da igreja sem essa sensação, acusam o pregador de não saber falar ao coração, as pessoas de não serem acolhedoras, os cantores de não serem afinados, a liturgia de não ser inteligível, enfim, de não se sentir o alecrim dourado que julgam ser. E se obtém alguma satisfação, tratam a Casa de Deus como o homem da Epístola trata o espelho: contemplam-se nele, comovem-se um instante, e esquecem-se. Saem da Missa como entraram, ou, pior ainda, persuadidos de uma falsa edificação que apenas confirmou o que já eram. Para esses, a Missa não é o Sacrifício do Calvário renovado nos altares; é uma sessão de bem-estar espiritual. Para esses, Deus existe principalmente para os consolar, não para os converter. E, no entanto, todo o evangelho deste Domingo nos diz exatamente o contrário: petite, et accipietis: pedi, e recebereis. A oração cristã não é busca de sentimentos; é súplica que reforma a vida.

Há, em segundo lugar, e nem sempre se nota o quanto a tentação é simétrica, o catolicismo militante de fachada. É o catolicismo dos que confundem a luta pela fé com a polêmica das redes, com a partilha de imagens e provocações, com o domínio teórico de cada controvérsia e o desconhecimento dos próprios pecados. Conhecem cada documento e cada polêmica, mas não conhecem a si mesmos. Passam horas em grupos e minutos, se muito, em oração. Sabem nomear cada falha do prelado tal, e cada hesitação do eclesiástico tal, mas não examinam a própria consciência antes de dormir. Constroem para si uma identidade católica como quem constrói uma marca pessoal: um conjunto de slogans, de adesões, de frases prontas; e, em casa, na convivência com a esposa, com os filhos, com os colegas de trabalho, com qualquer um na rua, são tão impacientes, tão duros, tão maledicentes, tão mundanos quanto qualquer pagão. Esses, meus caros, não são factores verbi; são apenas auditores barulhentos, e tão enganados quanto os primeiros, pois que o engano de gritar muito é o mesmo engano de não fazer nada.

Mas há ainda,  e aqui me dirijo de modo particular a nós, aderimos exclusivamente ao rito romano tradicional, defendendo-o, guardando-o e propagando-o como a expressão litúrgica fiel e verdadeira da fé católica,  uma terceira tentação, talvez a mais insidiosa, porque a mais próxima de nós. É a tentação de confundir o zelo litúrgico exterior com a santidade alcançada. Vir à Missa rezada, conhecer cada gesto do celebrante, cada rubrica, possuir missais, livros litúrgicos, Liber Usualis na estante, tudo isso é bom, tudo isso é dom de Deus mas, nada disso é, por si só, santidade. Pode-se assistir por decadas à Missa de sempre e sair, ainda assim, exatamente o mesmo homem que entrou. A missa de sempre é o espelho límpido por excelência que nossa Santa Romana Igreja nos oferece neste vale de lágrimas; mas mesmo o espelho mais límpido nada serve a quem se afasta dele e se esquece imediatamente do rosto que viu. Que ninguém entre nós faça da tradição católica um abrigo da própria mediocridade.

A todos estes, aos sentimentais, aos militantes de redes, e a nós mesmos quando nos contentamos com a estética da mediocridade, São Tiago dirige a mesma palavra severa: fallentes vosmetipsos. Enganamo-nos a nós mesmos. E a Coleta deste Domingo nos arranca desse engano: porque pede a Deus, com humildade, que pensemos aquilo que é reto sim, mas também que o façamos.

Mas se o Apóstolo nos adverte do que a religião não é, dá-nos também, com a mesma clareza, a definição positiva. Religio munda et immaculata apud Deum et Patrem hæc est: visitare pupillos et viduas in tribulatione eorum, et immaculatum se custodire ab hoc sæculo, “A religião pura e imaculada diante de Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas em sua tribulação, e conservar-se imaculado deste mundo”.

Reparemos nos dois polos desta definição. Há o movimento para fora: visitar os necessitados, exercer a caridade efetiva, sair de si para ir ao encontro do irmão sofredor. E há o movimento para dentro: conservar-se imaculado, guardar a alma da contaminação do mundo, vigiar a pureza interior. Cada um destes polos, separado do outro, degenera. A caridade sem a pureza torna-se filantropia maçônica, indistinguível de qualquer obra puramente humana. A pureza sem a caridade torna-se farisaísmo refinado, escrúpulo sem amor. Apenas juntos esse dois polos formam a religio munda et immaculata, a religião pura e imaculada.

Apliquemos isto, meus caros, com toda a concretude. Há certamente entre nós órfãos e viúvas que ninguém visita; vizinhos enfermos cuja porta há anos ninguém bate; irmãos em dificuldade. Visitare pupillos et viduas, visitar os órfãos e as viúvas, começa na nossa rua, no nosso bairro, na nossa capela. E, do outro lado, há os hábitos de mundanidade que entram silenciosamente pelas telas, pelas redes, pelas conversas frívolas, pelas más companhias, pelo modo de vestir, pelas leituras superficiais, pelos olhares descuidados. Immaculatum se custodire ab hoc sæculo, conservar-se imaculado deste mundo, é a vigilância paciente do espírito.

Recolhamo-nos, pois, meus caros. Não saiamos hoje desta capela como o homem da parábola apostólica, esquecidos da face que aqui contemplamos. Ouvimos a censura, fallentes vosmetipsos. Ouvimos o remédio, te inspirante, te gubernante. Ouvimos a definição da religião verdadeira, visitar os necessitados e conservar-se imaculado. Que estas três palavras nos acompanhem na semana que se inicia.

Pois amanhã, segunda-feira, começam as Rogações. Nossa Santa Madre Igreja sai em procissão pelos campos e pelas ruas, pedindo a Deus os frutos da terra, a paz, a saúde dos homens, o afastamento das calamidades. E a Santa Igreja sabe por que pede: porque o Senhor o ordenou neste mesmo Evangelho que acabamos de ouvir: Petite, et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum, “Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja completa”. Sem a graça, nada pensamos de reto; sem a graça, nada fazemos de bom; sem a graça, o espelho da Palavra é olhado e esquecido.

Daqui a poucos dias, o Senhor sobe ao Pai. Mas envia-nos o Espírito Santo, para fazer dos Apóstolos e de nós, pobres pecadores, não apenas ouvintes, mas verdadeiros factores verbi: praticantes da palavra, fiéis ao espelho, filhos da religião pura e imaculada. Que Nossa Senhora das Dores, padroeira desta nossa Capela, nos alcance esta graça. Amém.

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O Antoniano