[Sermão] Você se confessa ou apenas se alivia?

The confession by giuseppe molteni1


Sermão para o I Domingo da Paixão
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 22 de março de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

I. EXÓRDIO: A pergunta que ninguém responde

Caríssimos fiéis,

No Evangelho que acabamos de ouvir, Nosso Senhor Jesus Cristo dirige aos fariseus uma pergunta desconcertante: “Quis ex vobis arguet me de peccato?”, “Quem dentre vós Me arguirá de pecado?” (Jo. VIII, 46). A cena é pública: os doutores da Lei, habituados a dissecar a conduta alheia, ficam em silêncio. Não porque reconheçam a inocência de Cristo, mas porque não encontram, apesar de todo o seu rancor, uma única falta de que possam acusá-Lo.

Imaginemos agora que essa mesma pergunta fosse invertida e dirigida a nós: “Quem dentre vós está sem pecado?” O silêncio seria igualmente profundo, mas por razão oposta. Não porque sejamos inocentes, e sim porque sabemos, no fundo da consciência, que somos culpados e não queremos dizê-lo. Esse silêncio, o silêncio que se recusa a nomear o próprio pecado, é, meus caros, o primeiro e mais traiçoeiro obstáculo a uma boa confissão.

Entramos hoje no Tempo da Paixão. Nossa Santa Romana Igreja cobre as cruzes e as imagens; vela o que nos é mais querido para que aprendamos a olhar para dentro. E o que o Tempo da Paixão nos pede, antes de tudo, é que rompamos esse silêncio, não diante dos homens, mas diante de Deus, no Sacramento da Penitência. A Páscoa se aproxima, e com ela o dever grave da confissão anual e da comunhão pascal. Mas a pergunta que deve nos inquietar não é apenas “vou me confessar?”, e sim “vou me confessar bem?”

II. A verdade rejeitada: a confissão como ato de verdade

“Si veritatem dico vobis, quare non creditis mihi?”, “Se vos digo a verdade, por que não Me credes?” (Jo. VIII, 46). Cristo é a Verdade em pessoa, e os fariseus O rejeitam precisamente porque a verdade exige conversão. Não é que não possam entendê-la: é que não querem aceitá-la, porque aceitá-la significaria mudar de vida. “Qui ex Deo est, verba Dei audit; propterea vos non auditis, quia ex Deo non estis”, “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; vós não as ouvis porque não sois de Deus” (Jo. VIII, 47). Sentença terrível: não ouvir a verdade divina é sinal de não pertencer a Deus.

Ora, meus caros, há um paralelo inquietante entre a atitude dos fariseus e a atitude de quem vai à confissão sem querer a verdade inteira sobre si mesmo. A confissão rotineira, vaga, genérica, que se contenta com gêneros e não com os atos pecaminosos em si, “pequei contra a caridade, faltei com a paciência, tive maus pensamentos”, pode ser, em muitos casos, uma forma sutil de rejeitar a verdade enquanto se finge aceitá-la. Confessar sem nomear o pecado com clareza, sem indicar as circunstâncias que mudam a espécie, sem precisar ao menos o número aproximado dos pecados graves é como os fariseus que ouvem a voz de Cristo e permanecem inertes. Diz-se algo, mas não se diz o que importa.

Santo Agostinho adverte: “Noli te excusare, noli te accusare leviter; accusa te veraciter, et Deus ignoscit liberaliter”, “Não te escuses, não te acuses levianamente; acusa-te com verdade, e Deus te perdoará com liberalidade” (Sermo LXVII). A generosidade divina no perdão é proporcional à nossa sinceridade na acusação. Quem se acusa levianamente recebe levianamente; quem se acusa com verdade recebe a plenitude da misericórdia.

Por isso o exame de consciência não é introspecção psicológica, não é um vago “sinto que não fui bom o suficiente”. É o confronto metódico da nossa conduta com os mandamentos de Deus e com os deveres do nosso estado de vida. É deixar que Cristo nos pergunte “Quis ex vobis arguet me de peccato?” e responder, desta vez, não com o silêncio evasivo dos fariseus, mas com a humildade concreta de quem nomeia as suas faltas. O catecismo nos ensina a percorrer os Dez Mandamentos, os mandamentos da Igreja, os sete pecados capitais, os deveres do próprio estado. É uma questão de honestidade: quem é de Deus escuta as palavras de Deus, inclusive quando essas palavras apontam o pecado.

III. Das obras mortas à consciência purificada

A Epístola de São Paulo aos Hebreus que ouvimos hoje abre-nos uma perspectiva mais profunda. São Paulo distingue dois níveis de purificação. O sangue de bodes e de novilhos, aspergido sobre os impuros, “sanctificat ad emundationem carnis”, “santifica quanto à pureza da carne” (Heb. IX, 13). Era uma purificação ritual, exterior, que tornava o israelita apto a participar do culto, mas não transformava o coração. Depois, o contraste decisivo: “Quanto magis sanguis Christi, qui per Spiritum Sanctum semetipsum obtulit immaculatum Deo, emundabit conscientiam nostram ab operibus mortuis, ad serviendum Deo viventi!”, “Quanto mais o Sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo Se ofereceu a Si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!” (Heb. IX, 14).

Notemos bem, caríssimos: o Sangue de Cristo não purifica apenas a carne, o exterior, a aparência, purifica a consciência. E purifica-a “das obras mortas”. Que são obras mortas? São as obras feitas sem a graça, ou contra a graça; os pecados, certamente, mas também os atos religiosos esvaziados de vida interior, as devoções sem conversão, os sacramentos recebidos sem disposição. E reparemos o fim da frase: a purificação tem uma finalidade, “ad serviendum Deo viventi”, “para servir ao Deus vivo”. Quem se confessa bem não sai apenas aliviado de um peso: sai reorientado para o serviço de Deus.

Aqui, meus caros, reside o grande perigo que devemos examinar com seriedade: o perigo da confissão-pedágio. Usar o Sacramento da Penitência como simples bilhete de entrada para a Comunhão seguinte; confessar-se no sábado para comungar no domingo, ou unicamente na missa que vai comungar (torcendo para a fila estar pequena ou andar rápido), sem verdadeira contrição, sem exame sério, sem propósito firme de emendar a vida. É, paradoxalmente, reduzir a Nova Aliança ao regime da Antiga. É tratar o Sangue de Cristo como se fosse o sangue dos novilhos e dos bodes: uma purificação exterior, ritual, que limpa a superfície mas não alcança o coração. São Gregório Magno, nas suas Homilias sobre Ezequiel, diz que há quem faça penitência exterior sem conversão interior, e que tal penitência é “quasi mortuorum opera”, como obras mortas: tem a forma da vida, mas não o espírito.

A Coleta deste domingo ilumina esta dupla exigência quando pede a Deus que nos “governe no corpo” e nos “guarde na mente”, “regátur in córpore; et, te servánte, custodiátur in mente”. Corpo e mente, exterior e interior, rito e consciência. A confissão verdadeira opera nos dois planos: confessamos com os lábios (corpo) o que reconhecemos no coração (mente), e a graça sacramental atinge ambos. Mas quando falta a disposição interior, isto é, quando a mente não quer ser custodiada, a confissão fica mutilada: existe no corpo, mas não alcança a consciência.

E o propósito de emenda? É o termômetro da sinceridade. O Concílio de Trento ensina que a contrição inclui, por sua natureza, o propósito de não mais pecar (Sessão XIV, cap. 4). Não se trata de garantir que nunca mais cairemos, a fragilidade humana é real e Deus a conhece melhor do que nós, mas de querer sinceramente não cair e de estar disposto a usar os meios para evitar a queda. Uma confissão sem propósito é como semear num terreno que de antemão se decide não regar: a semente da graça é lançada, mas cai em terra que a sufoca.

IV. Fugir das ocasiões: a prova do propósito verdadeiro

Voltemos, pois, ao Evangelho, meus caros conspícuos. Ao final da disputa, quando os judeus pegam pedras para apedrejá-Lo, Nosso Senhor “abscondit se, et exivit de templo”, “escondeu-Se e saiu do Templo” (Jo. VIII, 59). Cristo não foge por covardia, a Sua hora ainda não chegara. Mas age com a prudência divina de quem Se retira do lugar onde a violência ameaça, porque sabe que o momento do sacrifício será determinado por Ele e não pelos Seus inimigos.

Há aqui uma lição moral de enorme alcance prático, meus caros. Assim como Cristo saiu do Templo, onde queriam matá-Lo, o cristão que se confessou de verdade sai, isto é, foge dos lugares, das companhias, dos hábitos e das ocasiões que matam a sua alma. O propósito de emenda não é um sentimento piedoso pronunciado de joelhos no confessionário e esquecido ao transpor a porta da capela. É uma decisão concreta e prática: que lugar evitarei? Que hábito cortarei? Que aplicativo apagarei? Que companhia limitarei? Que horário mudarei?

A Coleta, caríssimos, pede que Deus nos “governe no corpo”, “regátur in córpore”. Governar o corpo é governar os passos, os olhos, as mãos, a rotina. A teologia moral ensina que quem se coloca voluntariamente na ocasião próxima de pecado já peca, ainda que não cometa o ato final, porque despreza a graça e tenta contra a Providência. São João Crisóstomo é incisivo: “Não digas: passei pela forja e não me queimei. Se te demoras junto ao fogo, hás de queimar-te, ainda que não agora” (Hom. in Matthaeum, XVII). Quem se confessa do mesmo pecado mês após mês, ano após ano, sem jamais alterar as circunstâncias que o ocasionam (notemos bem, contra o demônio do escrúpulo, cair novamente sem nada ter feito para evitar a queda), deve perguntar-se com toda a seriedade se o seu propósito é verdadeiro ou se a sua confissão não ficou, como dissemos, no plano da purificação exterior: sangue de bodes e novilhos, não o Preciosíssimo Sangue de Cristo.

E claro, longe de nós pretendermos, com isto, desencorajar quem luta e cai. A graça sacramental é real e eficaz, e a recaída não significa necessariamente que a confissão anterior tenha sido má. Há uma diferença imensa entre cair apesar de ter lutado e cair porque nunca se pretendeu lutar. O mesmo Deus que nos pede o propósito nos dá a graça para cumpri-lo; mas essa graça supõe a cooperação humana. A Coleta diz: “te servánte, custodiátur in mente”, “Vós guardando, seja custodiada na mente”. Deus guarda quem se dispõe a ser guardado, isto é, quem aceita os limites, as renúncias, as cautelas que a prudência cristã impõe. A graça não substitui a prudência: mas sim a aperfeiçoa.

V. PERORAÇÃO: A herança ou o apedrejamento

Meus caros, o desfecho do Evangelho de hoje apresenta-nos dois caminhos e nenhum meio-termo. De um lado, a herança eterna que a Epístola promete a quem acolhe a Nova Aliança: “repromissionem accipiant, qui vocati sunt, æternæ hæreditatis”, “para que os que são chamados recebam a promessa da herança eterna” (Heb. IX, 15). De outro, as pedras empunhadas contra a Verdade: “tulerunt ergo lapides ut jacerent in eum” (Jo. VIII, 59). Ou acolhemos Cristo com a verdade que Ele exige, ou O apedrejamos, e há muitas maneiras de apedrejar Cristo: a mais insidiosa, talvez, seja usar o Seu próprio Sacramento como rotina vazia, tratando o Sangue que purifica a consciência como se fosse água lustral sem consequências.

Eis que estamos a duas semanas da Páscoa do Senhor, meus caros. As imagens veladas nos lembram que é tempo de olhar para dentro e não para fora. Façamos, pois, o que nossa santa Madre Igreja nos pede. Preparemos a confissão com tempo: com exame de consciência bem realizado, com zelo, atenção e recolhimento; com a coragem de nomear os pecados sem eufemismos; com um propósito de emenda que inclua ao menos uma medida concreta contra a ocasião de pecado mais frequente. Confessar-se assim é confessar-se como filhos de Deus que escutam a Sua verdade, “Qui ex Deo est, verba Dei audit”.O mesmo Cristo que hoje Se esconde, “abscondit se”, vai Se revelar na Páscoa, ressuscitado e glorioso. Quem purificar a consciência agora, nestas duas semanas de penitência, O verá com olhos limpos e com o coração inteiro. Que a Santíssima Virgem das Dores, nossa boa mãe e Refúgio dos Pecadores, nos alcance a graça de uma confissão verdadeira: sincera na acusação, profunda na contrição, concreta no propósito. Que façamos essa boa confissão, com dor, contrição, alegria e confiança, para que possamos receber dignamente o Seu Divino Filho na Comunhão pascal e herdar a vida eterna que o Seu Sangue nos mereceu.

Comentários

2 respostas para “[Sermão] Você se confessa ou apenas se alivia?”

  1. Marcel Camboim Gonçalves

    O Pe Marcos Mattke carrega com muita leveza a virtude da humildade. Nossa Senhora continue de abençoando com muitas graças pela continuidade desse admirável apostolado.

  2. Maria Célia Lúcio da Silva Silva

    Desejo melhora a minha como cristão porém sempre vem o comodismo e o desânimo

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