[Artigo] Domingo de Ramos: o ingresso da Igreja na Semana Maior

Domingo de Ramos

Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

O Domingo de Ramos marca a entrada solene de nossa Santa Romana Igreja na Semana Santa — a semana das semanas, que contém os mistérios mais sublimes de nossa Redenção. Dom Guéranger, ao descrever este dia, nota a dualidade paradoxal que o caracteriza: a alegria das aclamações que ressoam pela cidade de David e a tristeza dos gemidos sobre as dores do Esposo divino. Dois acontecimentos aparentemente contraditórios são comemorados numa mesma liturgia: o triunfo de Nosso Senhor em Sua entrada em Jerusalém e o início de Sua Paixão santíssima.

A tríplice estrutura do rito

A liturgia do Domingo de Ramos divide-se em três partes distintas, mas organicamente unidas: a bênção dos ramos, a solene procissão e a Santa Missa com o canto da Paixão. Cada elemento desta tríplice estrutura possui um significado espiritual próprio e, juntos, compõem uma preparação completa para os mistérios da Semana Santa. Dom Parsch observa que o drama sagrado deste dia se desenrola em três locais: o Monte das Oliveiras, para a bênção dos ramos; o caminho para Jerusalém, para a procissão; e a cidade santa, para a Santa Missa.

As três cerimônias são celebradas com paramentos de cor roxa, pois, apesar do caráter triunfal da entrada de Cristo em Jerusalém, a Santa Romana Igreja já se encontra imersa no tempo da Paixão. O roxo, cor da penitência e do sofrimento, recorda-nos que estamos seguindo Cristo em Sua caminhada para o Calvário. Mesmo durante a bênção dos ramos e a procissão, que celebram a entrada triunfal na cidade santa, os paramentos roxos assinalam que este triunfo é apenas prelúdio do grande drama da Redenção que se desenrolará nos próximos dias.

Primeira parte: a bênção dos ramos

A liturgia começa de maneira triunfal, anunciando a realeza de Cristo. A antífona de entrada, que serve como Introito para esta primeira parte, proclama: Hosanna ao Filho de David! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor. Ó Rei de Israel! Hosanna nas alturas!

A bênção dos ramos é estruturada de maneira semelhante à Santa Missa, com Oração, Epístola, Gradual, Evangelho e Prefácio, mas sem Ofertório, Consagração ou Comunhão. O Cardeal Schuster nota que esta cerimônia conserva o antigo tipo das reuniões alitúrgicas, isto é reuniões realizadas para a recitação do ofício divino e a instrução dos fiéis, sem a oferta do santo Sacrifício.

O sacerdote começa com uma oração que já antecipa os grandes mistérios da semana maior: “Ó Deus que nos devemos amar para ser justos, multiplicai em nós os dons de vossa graça inefável: pela morte de vosso Filho, vós nos destes direito de esperar o que é objeto de nossa fé; fazei-nos chegar, por sua ressurreição, ao termo para o qual aspiramos.”

A Epístola e os responsórios

Na leitura da Epístola, tirada do livro do Êxodo (XV, 27; XVI, 1-7), somos transportados ao deserto, onde os filhos de Israel, após a saída do Egito, acamparam sob setenta palmeiras em Elim. Ali encontraram doze fontes, que prefiguram os doze apóstolos, de quem emana a água da doutrina salvadora. Dom Guéranger sublinha que todas estas figuras se cumprem no povo cristão: por uma sincera conversão, os fiéis romperam com o Egito, que representa o mundo. As doze fontes figuram o Batismo que será conferido aos catecúmenos, e o maná do céu prefigura Jesus, Pão da Vida, que ressuscitará no Domingo de Páscoa.

Após a Epístola, canta-se um dos dois responsórios, que já nos conduzem ao drama da Paixão. O primeiro, tirado de São João (XI, 47-53), recorda a decisão tomada no sinédrio, sob a presidência de Caifás, de condenar Jesus à morte: “É melhor que um só homem morra pelo povo, que pereça toda a nação.” O segundo, tirado de São Mateus (XXVI, 39-41), evoca a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice. Contudo, não se faça a minha, mas a tua vontade.”

O Evangelho

O Evangelho desta primeira parte, tirado de São Mateus (XXI, 1-9), relata a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, evento que fora anunciado pelo profeta Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião, rejubila, filha de Jerusalém: eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta” (Zc IX, 9). Dom Guéranger explica o significado simbólico da jumenta e do jumentinho: a jumenta representa o povo judeu, que há muito estava sob o jugo da Lei; o jumentinho, sobre o qual nenhum homem havia montado ainda, representa a gentilidade, que ninguém havia domado até então. Jesus monta sobre o jumentinho, prefigurando como os gentios tomariam o lugar do povo judeu na Nova Aliança.

As orações da bênção e o Prefácio

Após o Evangelho, seguem-se as orações solenes de bênção dos ramos. Segundo o costume romano, antes da anáfora consecratória, há uma oração semelhante à secreta da Missa: “Aumentai, ó Deus, a fé daqueles que esperam em vós, e atendei propício às súplicas dos que vos imploram. Que a vossa misericórdia desça abundantemente sobre nós; sejam igualmente benzidos estes ramos de palmeira e de oliveira; e assim como, para prefigurar a Igreja, concedestes uma descendência numerosa a Noé, ao sair da arca, e a Moisés, ao sair do Egito com os filhos de Israel, que também nós, levando em nossas mãos palmas e ramos de oliveira, possamos, por meio de uma vida santa, ir ao encontro de Cristo, e que, pelos seus méritos, sejamos dignos de entrar na alegria eterna.”

O sacerdote entoa então o Prefácio, no qual a Santa Igreja glorifica a Deus, reconhecendo que todas as criaturas lhe obedecem e que os seus santos o bendizem de maneira especial quando confessam livremente, diante dos reis e potestades deste mundo, o grande nome do Filho Unigênito. Este Prefácio, profundamente anti-ariano, reafirma a doutrina católica da consubstancialidade do Filho com o Pai — verdade esta que será reafirmada na Epístola da Missa.

Após o Sanctus, seguem-se seis orações muito antigas, que explicam o simbolismo dos ramos e invocam a proteção divina sobre aqueles que os levarem consigo. Na primeira delas, pede-se: “Abençoai, nós vos pedimos, Senhor, estes ramos de palmeira e de oliveira, e fazei que o que vosso povo hoje executa corporalmente para vossa honra, o realize espiritualmente com a maior devoção, alcançando a vitória sobre o inimigo e amando ardentemente a obra de misericórdia.”

O padre asperge então os ramos com água benta e os incensa, completando assim a bênção. Segundo Dom Guéranger, esses ramos, objeto da primeira parte da função, recebem por essas orações, acompanhadas do incenso e da aspersão, uma virtude que os eleva à ordem sobrenatural e os torna aptos a auxiliar na santificação de nossas almas e na proteção de nossos corpos e de nossas moradas.

Segunda parte: a procissão solene

Após a distribuição dos ramos aos fiéis, começa a segunda parte da liturgia: a solene procissão. Seu objeto, segundo Dom Guéranger, é representar a marcha do Salvador para Jerusalém e Sua entrada na cidade — princípio da Paixão e do Calvário, donde os paramentos roxos próprios do tempo. O diácono, voltando-se para o povo, anuncia: “Procedamus in pace”, ao que o coro responde: “In nomine Christi. Amen.”

Durante a procissão, cantam-se várias antífonas que evocam a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Entre elas: “Os filhos dos hebreus, levando ramos de oliveira, foram ao encontro do Senhor, clamando e dizendo: Hosanna nas alturas!” e “Os filhos dos hebreus estendiam suas vestes pelo caminho e clamavam, dizendo: Hosanna ao Filho de David; bendito o que vem em nome do Senhor!”

Dom Guéranger recorda que, entre os judeus, ter às mãos ramos de árvores era sinal de alegria, uso sancionado pela lei divina. No livro do Levítico, Deus ordenara para a festa dos Tabernáculos: “No primeiro dia da festa, tereis em vossas mãos frutos das mais belas árvores; levareis ramos de palmeira, ramos cobertos de folhas… e vos alegrareis na presença do Senhor vosso Deus” (Lv XXIII, 40). Ao levarmos ramos nas mãos, não apenas comemoramos a entrada de Jesus em Jerusalém, mas também proclamamos nossa alegria pela salvação que Ele nos trouxe.

As portas fechadas e o hino Gloria, laus et honor

Um momento particularmente expressivo da cerimônia ocorre quando a procissão retorna à igreja e encontra as portas fechadas. Esta cena, segundo Dom Guéranger, tem por objetivo retraçar a entrada do Salvador em uma outra Jerusalém, da qual a terrestre era apenas figura: a pátria celeste, cujo acesso o pecado do primeiro homem havia vedado, mas que Jesus, o Rei da glória, reabriu pela virtude de Sua Cruz.

As portas fechadas representam, pois, o Paraíso, fechado pelo pecado original. O subdiácono bate três vezes na porta com o pé da cruz, simbolizando como Cristo, por Sua Cruz, reconquistou para nós o acesso ao céu. Durante este momento solene, canta-se o hino Gloria, laus et honor, composto pelo bispo Teodulfo de Orléans enquanto estava preso em Angers, por ordem do rei Luís, o Piedoso, no início do século IX. A Santa Romana Igreja, adotando as seis primeiras estrofes deste poema, tornou-o célebre em todo o mundo. O hino é cantado alternadamente: os cantores dentro da igreja entoam a primeira estrofe, e o coro do lado de fora responde com o refrão. Este canto alternado simboliza o diálogo entre a Igreja triunfante no céu e a Igreja militante na terra, unidas no louvor a Cristo.

Quando as portas finalmente se abrem, a procissão entra na igreja cantando o responsório Ingrediente Domino“Ao entrar o Senhor na cidade santa, os filhos dos hebreus, prenunciando a ressurreição da vida, com ramos de palmeira, clamavam: Hosanna nas alturas. Quando o povo ouviu que Jesus vinha a Jerusalém, saíram ao seu encontro com ramos de palmeira, clamando: Hosanna nas alturas.” Este canto já alude à ressurreição, mostrando que a Igreja jamais separa a Cruz da glória pascal.

Terceira parte: a Santa Missa e o canto da Paixão

Ao entrar na igreja, deixamos para trás os cânticos de alegria e iniciamos imediatamente a Santa Missa da Paixão. A transição é abrupta, quase chocante, e nos recorda que o mesmo povo que aclamou Cristo com hosannas no domingo gritaria “Crucifica-O!” na sexta-feira.

Em Roma, a estação era originalmente na Basílica de São João de Latrão, a catedral do Papa, Mãe e Cabeça de todas as igrejas. O Cardeal Schuster recorda que era de regra, na Idade Média, que as grandes cerimônias da semana pascal se celebrassem junto à residência pontifícia, no palácio dos Laterani. Mais tarde, a estação passou para a Basílica de São Pedro, sem prejuízo dos direitos da arquibasílica lateranense, que conserva as indulgências concedidas àqueles que a visitam neste dia.

O Introito e a Coleta

O Introito da Missa, tirado do Salmo XXI, situa-nos no centro da Paixão: “Senhor, não afasteis de mim o vosso socorro; atendei à minha defesa. Livrai-me da boca do leão e salvai a minha fraqueza das pontas dos unicórnios.” O Cardeal Schuster observa que este salmo representa o paroxismo da Paixão: o abandono do Senhor na Cruz. Ao recitá-lo, somos transportados em espírito ao Gólgota, onde Jesus, em Seu abandono extremo, iniciou este mesmo salmo: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”

A Coleta da Missa pede a graça de imitar a humildade de Cristo: “Ó Deus onipotente e eterno, que, para dar ao gênero humano um exemplo de humildade, fizestes o nosso Salvador encarnar-se e sofrer o suplício da cruz, concedei-nos a graça de aproveitarmos os ensinamentos de Sua paciência e de participarmos da Sua ressurreição.” Esta oração, de delicada composição, desvela o significado mais íntimo da semana: Jesus crucificado é como um livro no qual a alma lê tudo o que Deus deseja dela para torná-la santa.

A Epístola aos Filipenses

A Epístola, tirada da carta de São Paulo aos Filipenses (II, 5-11), é um hino cristológico que contrasta a majestade divina de Cristo com Sua humilhação voluntária. São Paulo descreve o mistério da kénosis, o aniquilamento do Verbo, que, sendo Deus, assumiu a condição de servo e se humilhou até a morte de cruz. Mas a este abaixamento segue-se imediatamente a exaltação: “Por isso, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos, e toda língua confesse, para glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor.”

Durante a leitura desta Epístola, há um momento solene: quando o subdiácono pronuncia as palavras “para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre”, todos os fiéis se ajoelham. Dom Guéranger nota que a Santa Igreja nos prescreve dobrar o joelho justamente no momento em que o Apóstolo proclama esta obrigação universal, e que, se há uma época no ano em que o Filho de Deus tenha direito às nossas mais profundas adorações, é sobretudo nesta Semana, em que Sua divina majestade é ultrajada.

O Gradual e o Tracto

O Gradual, tirado do Salmo LXXII, preludia já o triunfo do próximo domingo: “Por pouco meus pés não vacilaram, pois me irritei contra os pecadores, vendo a paz dos ímpios. Tu, porém, Senhor, me tomaste pela mão, me conduziste segundo a tua vontade, e me recebeste com glória.” A mão do Todo-Poderoso, recorda o Cardeal Schuster, sempre guiou Seu Filho Unigênito: conduziu-o pelo caminho da vida e o coroou na glória triunfal de Sua ressurreição e de Sua ascensão ao céu.

O Tracto, ou salmo in directum, é o Salmo XXI em sua íntegra, onde se descrevem a agonia dilacerante de Cristo e seus sentimentos de humildade, desolação interior e confiante abandono em Deus. Dom Parsch sublinha que este salmo é diretamente messiânico, isto é, trata no sentido literal da Paixão de Cristo. Nele encontramos profecias que se cumpriram com exatidão no Calvário: “Traspassaram minhas mãos e meus pés, posso contar todos os meus ossos. Repartiram entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançaram sortes.”

O canto da Paixão

O momento mais solene da Missa é o canto da Paixão segundo São Mateus. Dom Guéranger recorda que, desde o século VI, a Igreja adotou um recitativo particular para esta narração do Santo Evangelho, transformando-a num verdadeiro drama. Três diáconos participam deste canto: um assume o papel do Cronista, narrando os fatos em tom sereno e inabalável; outro representa Cristo, cujas palavras têm acento grave, de uma autoridade nobre e doce; o terceiro assume as falas de todos os demais interlocutores, estridentes, patéticas e confusas, e dos clamores da população.

Durante o canto da Paixão, todos os assistentes devem segurar os ramos nas mãos, a fim de protestarem, por este emblema de triunfo, contra as humilhações infligidas ao Redentor. É precisamente neste momento em que, por amor a nós, Ele se deixa pisotear pelos pés dos pecadores, que devemos proclamá-lo com maior veemência nosso Deus e nosso soberano Rei. Após a narrativa da morte de Cristo, há uma pausa solene: todos se ajoelham e permanecem em silêncio, honrando por um ato de luto a morte do Salvador dos homens.

Para que a Missa não fique privada do rito essencial da leitura solene do Evangelho, o diácono reserva uma última parte da narrativa. Aproxima-se do altar, faz benzer o incenso pelo celebrante e recebe a bênção. Dirigindo-se ao norte, acompanhado somente do turiferário, pois os acólitos não levam os candelabros, em sinal de luto, incensa o livro e conclui a narração evangélica.

Ofertório, Secreta e Comunhão

O Ofertório, extraído do Salmo LXVIII, prossegue na expressão dos sofrimentos do Messias: “Meu coração esperou o opróbrio e a miséria; esperei alguém que se compadecesse de mim, mas não houve ninguém; busquei quem me consolasse, mas não encontrei. Deram-me fel por alimento e, em minha sede, deram-me vinagre para beber.” O Cardeal Schuster observa: assim foi tratado aquele que se prepara para nos dar Seu corpo como alimento e Seu sangue como bebida.

A Secreta pede a Deus o duplo fruto da Paixão de Cristo: “Concedei, Senhor, que o dom oferecido aos olhos de vossa majestade nos obtenha a graça de uma piedosa devoção e nos faça gozar da bem-aventurança eterna.”

Na Antífona da Comunhão, a Igreja recorda as palavras de Jesus no Jardim das Oliveiras (Mt XXVI, 42): “Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.” O Cardeal Schuster sublinha que, quando os fiéis se aproximavam para beber no cálice sustentado pelo diácono o sangue de Cristo durante o canto destas palavras, compreendiam perfeitamente que o fato de comungar nos torna solidários da Paixão.

A Oração depois da Comunhão conclui as súplicas do Sacrifício, implorando a remissão dos pecados para todos os filhos da Igreja e o cumprimento do desejo que nutrem de participar da ressurreição gloriosa do Homem-Deus.

O sentido espiritual da liturgia

Da riqueza dos ritos que acabamos de percorrer, emergem lições espirituais de singular alcance.

O Domingo de Ramos revela, antes de tudo, a inconstância da glória humana. O mesmo povo que aclamou Cristo como Rei no domingo pediu Sua crucifixão na sexta-feira. Isto nos adverte contra a tentação de buscar o aplauso do mundo, que é passageiro e enganador.

Revela também o verdadeiro caráter da realeza de Cristo. Dom Parsch observa que Cristo entra na cidade santa montado num jumento, para simbolizar o caráter doce e benigno de Sua primeira aparição messiânica: Ele não quer amedrontar com relâmpagos e trovões, mas deseja ardentemente atrair todos os homens ao Seu Coração pela suavidade de Seus atrativos.

Em terceiro lugar, esta liturgia nos prepara para entrar no grande mistério da Semana Santa. Os ramos que levamos para casa e colocamos junto a um crucifixo ou a uma imagem sagrada são lembrete contínuo de nosso compromisso de seguir Cristo até o Calvário. Dom Guéranger exorta os fiéis a portarem respeitosamente estes ramos durante a procissão e durante a Missa, enquanto se canta a Paixão, e a colocá-los com honra em suas casas, como sinal de fé e esperança no socorro divino.

Por fim, este dia recorda-nos que a Paixão e a Ressurreição formam um único mistério. A Igreja, em sua sabedoria, não nos permite separar a Cruz da vitória. Desde o início, mesmo em meio aos sofrimentos de Cristo, ela nos faz vislumbrar a luz da Ressurreição. Dom Parsch sintetiza: a liturgia destes dias não separa a lembrança da paixão do Salvador daquela dos triunfos de sua ressurreição.

Outros nomes do Domingo de Ramos

Este domingo, além de seu nome litúrgico e popular de Domingo de Ramos ou das Palmas, é chamado também de Domingo de Hosanna, por causa do grito de triunfo com que os judeus saudaram a chegada de Jesus. Outrora foi chamado de Domingo de Páscoa Florida, porque a Páscoa, distante apenas oito dias, está hoje como que florescendo, e os fiéis podem cumprir desde já o dever da comunhão anual. Foi em lembrança desta denominação que os espanhóis, tendo descoberto no Domingo de Ramos de 1513 a vasta região que avizinha o México, deram-lhe o nome de Flórida.

Encontramos este domingo chamado também de Capitilavium, isto é, “lava-cabeça”, porque, nos séculos da média antiguidade, quando se adiava para o Sábado Santo o batismo das crianças nascidas nos meses precedentes, os pais lavavam hoje a cabeça dessas crianças, a fim de que no sábado seguinte se pudesse fazer com decoro a unção do Santo Crisma. Em época mais recuada, em certas Igrejas, este domingo era chamado de Páscoa dos Competentes. Chamavam-se Competentes os catecúmenos admitidos ao batismo. Eles se reuniam neste dia na igreja, e se lhes fazia uma explicação particular do Símbolo que haviam recebido no escrutínio precedente.

A perda de um tesouro litúrgico

Ao contemplarmos a riqueza da liturgia tradicional do Domingo de Ramos, não podemos deixar de notar, com tristeza, como este patrimônio espiritual foi sendo progressivamente empobrecido pelas reformas litúrgicas do século XX.

A primeira ruptura significativa ocorreu com a reforma da Semana Santa decretada por Pio XII em 1955. A primeira parte da cerimônia, que retomava a estrutura da Missa com seu Introito, Coleta, Epístola, Gradual, Evangelho e Prefácio, foi consideravelmente simplificada. As seis orações de bênção foram reduzidas a uma única, muito mais breve. O rito das portas fechadas, com seu simbolismo da entrada no céu, foi abolido.

Com a reforma litúrgica de 1969, após o Concílio Vaticano II, o empobrecimento atingiu seu ápice: simplificações ainda mais radicais e adoção mais acentuada de um caráter catequético em detrimento do culto. O que se perdeu nestas reformas não foi apenas um conjunto de ritos externos, mas toda uma forma de expressão pela lex orandi da lex credendi católica — forma que, ao longo dos séculos, pela condução do Espírito Santo, plasmou a oração do Corpo Místico de Cristo.

O Rito Romano Tradicional foi um dos principais instrumentos de evangelização na história da Igreja. Ele conduz ministros e fiéis, pela suavidade do culto e com a firmeza da doutrina, através dos mistérios da fé — sem se dobrar à subjetividade sentimental, mantendo sempre os olhos em Cristo, Sua doutrina e o caminho para adorá-lo. Mesmo os iletrados, que não podiam ler as Escrituras, podiam “ler” a liturgia e, através dela, penetrar nos mistérios de Cristo.

Quando este patrimônio é empobrecido, toda a vida espiritual da Igreja sofre. Os fiéis perdem o sentido do sagrado, a compreensão dos mistérios da fé torna-se superficial, e a própria identidade católica se enfraquece. Para a propagação e defesa da fé, é essencial que o Rito Romano Tradicional seja resgatado, difundido e restabelecido em seu lugar de direito como o culto devido da Santa Romana Igreja. Não se trata de retorno nostálgico ao passado, mas do restabelecimento do culto católico em sua plenitude. Esta liturgia, formada ao longo de séculos sob a ação do Espírito Santo, contém um tesouro de valores espirituais, doutrinais e pastorais absolutamente necessários para a vida da Igreja.

Conclusão

O Domingo de Ramos, com sua liturgia admirável, é síntese perfeita de toda a Semana Santa. Nele vemos o contraste entre o triunfo e o sofrimento, entre a aclamação e a rejeição, entre a vida e a morte.

Dom Guéranger resume a paradoxal beleza deste dia: em meio ao luto da Semana das Dores, a Santa Madre Igreja quer que nossos corações se aliviem por um momento de alegria, e que Jesus seja hoje saudado por nós como nosso Rei. Logo, porém, retornaremos ao curso dos gemidos sobre as dores do Esposo divino.

Ao entrarmos na Semana Maior, tenhamos conosco os ramos benditos, não apenas como objetos de devoção, mas como sinais visíveis de nosso compromisso de seguir Cristo, nosso Rei e Salvador, até a Cruz e, além dela, até a glória da Ressurreição. Dom Parsch nos recorda: ser mártir significa render testemunho a Cristo em nossas obras e em nossa vida, pela palavra e pela profissão de fé, ainda que nos custe a perda de nossos bens e de nossa vida.

Que a liturgia deste dia santo nos ajude a compreender mais profundamente o mistério de nossa Redenção e a viver mais intensamente o amor e a fidelidade a Cristo, especialmente durante os dias solenes que se seguem. Com Cosme de Jerusalém, proclamemos: “Livra-te à alegria, ó Sião! O Cristo teu Deus reina para sempre. Ele é doce, e vem para salvar, como está escrito dele; ele é o justo, nosso redentor que avança montado sobre o filhote da jumenta.”

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O Antoniano