Sermão para o II Domingo da Paixão
Domingo de Ramos
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 29 de março de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Nossa Santa Romana Igreja faz hoje uma procissão solene. Levamos nas mãos os ramos benditos, cantamos o Gloria, laus et honor ao Rei que entra em Jerusalém, e acompanhamos Nosso Senhor na Sua entrada triunfal. Tudo parece festa e alegria. Mas logo em seguida, nesta mesma Missa, a Igreja proclama a Paixão segundo São Mateus, e aquele mesmo povo que momentos antes estendia mantos e ramos no chão e aclamava Hosanna filio David passou a gritar com fúria: Crucifigatur! Crucifique-se! Este contraste terrível é a grande lição do Domingo de Ramos. Nele se revela, como num espelho impiedoso, toda a miséria da inconstância humana e, ao mesmo tempo, toda a grandeza da fidelidade de Cristo. Duas vozes, dois clamores, e entre eles o abismo que separa o entusiasmo superficial da fé verdadeira. É sobre este duplo mistério que meditaremos nesta missa.
I. A mesma multidão, dois clamores
Consideremos primeiro o fato histórico. Nosso Senhor Jesus Cristo aproxima-se de Jerusalém montado num jumentinho, cumprindo à risca a profecia de Zacarias: Ecce Rex tuus venit tibi mansuetus, sedens super asinam, eis que o teu Rei vem a ti, manso, montado sobre uma jumenta (Zc IX, 9). A multidão, inflamada de entusiasmo, corta ramos das árvores, estende as suas vestes pelo caminho e clama: Hosanna filio David! Benedictus qui venit in nomine Domini! Hosanna in excelsis!, Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas! (Mt XXI, 9). É uma aclamação régia, um reconhecimento público da messianidade de Cristo. A cidade inteira se comove: commota est universa civitas, toda a cidade se comoveu (Mt XXI, 10).
Poucos dias depois, porém, diante do pretório de Pilatos, aquela mesma turba clamará: Tolle, tolle, crucifige eum!, Fora, fora, crucifica-o! (Jo XIX, 15). E não se trata, meus caros, de dois grupos distintos de pessoas. Os exegetas e os Padres da Igreja são concordes em afirmar que se trata substancialmente da mesma multidão. São João Crisóstomo, na sua Homilia LXVI sobre São Mateus, observa com amargura que aqueles mesmos que haviam estendido os seus mantos diante do Senhor foram os que, poucos dias depois, pediram a Barrabás. E Santo Agostinho, comentando o Salmo XXXIX, nota que a língua humana é volúvel como uma folha ao vento: louva e maldiz com a mesma facilidade.
Ora, qual a causa desta mudança tão repentina? A adesão da multidão era ao reconhecimento do messias num sentido puramente terreno. Esperavam um rei político, um libertador nacional, um Messias de espada e coroa, que os livrasse do jugo romano e restaurasse a glória temporal de Israel. Quando Cristo Se revelou Messias sofredor, quando não tomou para Si o poder temporal, quando Se deixou prender, esbofetear e humilhar, a decepção converteu-se em ódio. A multidão, no fundo, não amava a Cristo: amava a imagem que havia fabricado d’Ele. E quando o Cristo real não correspondeu à fantasia, a turba preferiu eliminá-Lo.
É instrutivo notar, meus caros, que a própria liturgia deste dia nos adverte contra esta ilusão. A procissão dos ramos, embora celebre a entrada triunfal de Cristo, permanece revestida de paramentos roxos, a cor da penitência. A cruz continua velada. Nossa Santa Madre Igreja não depõe o luto. Por quê? Porque aquela entrada gloriosa não foi senão uma glória superficial, passageira, que seria em breve substituída pelos gritos deicidas e pelo escárnio da populaça. O roxo nos recorda que a glória verdadeira, a da Ressurreição, ainda não chegou, e que entre o Hosanna e o Alleluia pascal está a Cruz. A própria liturgia, portanto, com a sua sabedoria maternal, desmascara a superficialidade daquela aclamação e nos chama a não nos contentarmos com uma adesão meramente entusiástica a Cristo. O triunfo das palmas é real, porque Cristo é verdadeiramente Rei; mas é um triunfo que só se consumará pela Cruz, e por isso a Igreja mantém o véu da cruz e a penitência, para que não nos enganemos com uma glória que ainda não é a definitiva.
II. O espelho moral: a inconstância do nosso coração
Se este fato histórico ficasse circunscrito à Jerusalém do ano 33, poderíamos contemplá-lo com certa tranquilidade distante. Mas não é assim, meus caros. A multidão de Jerusalém é um espelho do nosso próprio coração. Nós mesmos repetimos, com frequência dolorosa, o gesto daquela turba volúvel. Aclamamos Cristo nos momentos de consolação espiritual, quando a oração é doce, quando a vida corre bem, quando a fé nos traz conforto e alento, e O abandonamos nos tempos de aridez, de provação, de exigência moral. Dizemos Hosannana prosperidade e Crucifige na tribulação.
São Tomás de Aquino, na Summa Theologica (IIa-IIæ, q. IV, a. 7-8), distingue cuidadosamente entre a fé enquanto virtude teologal e os afetos sensíveis que podem acompanhá-la. A fé teologal é um ato da inteligência que adere à verdade revelada por Deus, movida pela vontade sob o impulso da graça. Ela não depende da consolação nem do entusiasmo. Pode coexistir com a aridez, com a tentação, até com o sofrimento interior mais agudo. A multidão de Jerusalém, porém, não tinha esta fé: tinha entusiasmo. E o entusiasmo, por sua própria natureza, é efêmero. Quando faltou o espetáculo, faltou a adesão.
São Bernardo, nos seus Sermões sobre o Cântico dos Cânticos (Serm. XXI), descreve com penetração admirável a volubilidade da vontade humana ferida pelo pecado original. Hoje fervorosa, amanhã tíbia, depois infiel. Hoje disposta a grandes sacrifícios, amanhã incapaz de suportar a menor contrariedade. Quantas vezes, meus caros, não experimentamos isto na nossa própria vida espiritual? Saímos de um retiro cheios de propósitos; passadas duas semanas, voltamos aos mesmos pecados. Fazemos uma boa confissão, com lágrimas sinceras de arrependimento; uma semana depois, a frieza sacramental tomou conta de nós novamente. Prometemos fidelidade à oração diária; no primeiro obstáculo, abandonamo-la. Somos, enfim, filhos de Adão, e a marca do pecado original é precisamente esta inconstância: esta incapacidade crônica de perseverar no bem sem o socorro contínuo da graça.
E não pensemos que esta inconstância é apenas dos leigos ou dos cristãos medíocres. O próprio São Pedro, o príncipe dos Apóstolos, aquele que havia dito com ardor generoso: Etsi omnes scandalizati fuerint in te, ego numquam scandalizabor (Mt XXVI, 33), “ainda que todos se escandalizem, eu jamais me escandalizarei” — negou a Cristo três vezes antes que o galo cantasse. Se até Pedro caiu, quem de nós pode presumir de si mesmo? Quem de nós pode dizer com segurança que não teria estado, naquele dia, no meio da multidão que gritava Crucifige?
III. O remédio: a constância de Cristo e a fidelidade da Cruz
Voltemos, porém, os olhos para Cristo. Se a multidão é inconstante, Ele é perfeitamente fiel. Entra em Jerusalém sabendo exatamente o que O espera. Não Se deixa iludir pelo aplauso, porque conhece o coração dos homens: Ipse enim sciebat quid esset in homine, pois Ele mesmo sabia o que havia no homem (Jo II, 25). Mas também não desvia diante da Cruz. A Sua obediência ao Pai é absoluta e irrevogável: Factus oboediens usque ad mortem, mortem autem crucis, feito obediente até a morte, e morte de cruz (Fl II, 8). Eis a diferença radical entre Cristo e a multidão, entre Cristo e nós: onde nós vacilamos, Ele permanece firme; onde nós fugimos, Ele avança; onde nós buscamos a glória fácil, Ele abraça a Cruz. Cristo não é levado ao Calvário contra a Sua vontade: Ele caminha livremente, como sacerdote e vítima ao mesmo tempo, conforme ensina São Tomás (III, q. XLVII, a. 2). A Sua Paixão é o ato supremo de liberdade e de amor.
São Luís Maria Grignion de Montfort, no seu admirável opúsculo O Segredo da Cruz, ensina que não podemos pretender reinar com Cristo na glória se recusamos padecer com Ele na tribulação. A palma que carregamos hoje na procissão é símbolo, ao mesmo tempo, de triunfo e de martírio. E estes dois significados não se opõem: completam-se. Porque o verdadeiro triunfo cristão não é o aplauso da multidão, é a vitória sobre si mesmo, sobre o pecado e sobre a morte, e essa vitória passa necessariamente pela Cruz. Não há atalho. Não há Ressurreição sem Sexta-Feira Santa.
A fidelidade cristã, portanto, não consiste em seguir a Cristo apenas na procissão gloriosa do Domingo de Ramos, quando tudo é alegre e fácil. Consiste em segui-Lo até o Calvário, através do Getsêmani e da flagelação, através do escárnio e do abandono. Consiste em perseverar quando a consolação se retira, quando os amigos fogem, quando o mundo nos contradiz e nos persegue. Consiste, enfim, em repetir com Cristo no Horto: Non mea voluntas, sed Tua fiat (Lc XXII, 42) — não a minha vontade, mas a Tua se faça.
A Semana Santa que hoje se inicia é a ocasião providencial para provarmos esta fidelidade. Não com o entusiasmo fácil e efêmero do Domingo de Ramos, mas com a perseverança silenciosa e recolhida que nossa Santa Romana Igreja nos pede ao longo desta semana. Participemos dos Ofícios sagrados: os cantos da Paixão, a Missa da Quinta-feira na Ceia do Senhor, a adoração consoladora no Sepulcro, a adoração da Cruz e a Missa dos Pré-santificados na Sexta-Feira Maior. Meditemos a Paixão. Façamos uma boa confissão. Mortifiquemos os sentidos. Recolhamo-nos no silêncio. Acompanhemos o Senhor passo a passo no Seu caminho até a Cruz, não como espectadores curiosos, mas como discípulos que querem compartilhar a sorte do Mestre. Não sejamos como a multidão de Jerusalém, que aclamou no domingo e fugiu na sexta-feira.
Meus caros, antes de concluir, voltemos os olhos para aquela que, quando todos fugiram, permaneceu firme, de pé junto à Cruz: a Santíssima Virgem Maria. Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa — estava a Mãe dolorosa, junto à cruz, lacrimosa. Nossa boa Mãe, a Virgem das Dores, não carregou palmas na entrada em Jerusalém. Mas estava no Calvário. Não gritou Hosanna com a multidão, mas não gritou Crucifige tampouco. O Seu silêncio fiel ao pé da Cruz, de pé, firme, inabalável, é a resposta perfeita à volubilidade da turba. Ela é o modelo perfeito da fidelidade que nos falta.
Peçamos, pois, a nossa Virgem Dolorosa que nos obtenha a graça da constância. Que não sejamos cristãos de palmas e de aplausos, mas cristãos de cruz e de perseverança. Que não amemos em Cristo apenas a imagem que nos agrada, mas o Cristo real, inteiro, o Cristo da glória e o Cristo da Cruz, que são um só e mesmo Cristo. Que a palma que carregamos hoje não seja um adorno passageiro, mas o penhor de uma fidelidade que durará até o fim, até a manhã gloriosa da Ressurreição, quando o roxo enfim cederá lugar ao branco, e o Hosanna da turba inconstante será substituído pelo Alleluia eterno dos que perseveraram.


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