[Artigo] O tempo da Paixão: rubricas e significado litúrgico

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Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 21 de março de 2026
Festa de São Bento, Abade

No calendário litúrgico do rito romano, o caminho até a Páscoa se desdobra em três etapas progressivas de preparação, cada qual mais intensa do que a anterior: a Septuagésima, a Quaresma e o Tempo da Paixão. A Septuagésima constitui a preparação remota, destinada a imprimir na alma a consciência do pecado e a necessidade da conversão; a Quaresma é a preparação próxima, tempo propriamente penitencial; e o Tempo da Paixão, por fim, é a preparação imediata, em que a austeridade da Liturgia se converte em verdadeiro luto.

Esta distinção, tão bem articulada pela sabedoria litúrgica tradicional, possui uma lógica profunda: quanto mais próximos estamos do augusto Mistério da Morte de Nosso Senhor, mais a Liturgia intensifica os seus sinais de compunção. Se a Quaresma põe diante dos nossos olhos os nossos pecados, o Tempo da Paixão põe diante dos nossos olhos a conspiração dos fariseus para conduzir à Morte o divino Cordeiro de Deus.

I. O contexto litúrgico: da Septuagésima à Paixão

Já na Septuagésima, a setenta dias da Páscoa, a Sagrada Liturgia se reveste de paramentos roxos e omite o Glória da Santa Missa e o Aleluia de todos os ofícios, supressões que perdurarão até a gloriosa Vigília Pascal. Embora não se trate ainda de um tempo de penitência formal, é um período propicio para a aquisição do espírito de compunção.

Com o início da Quaresma, a Liturgia assume um aspecto verdadeiramente austero: suprime-se totalmente o órgão e os instrumentos; desaparecem as flores e as relíquias do altar; multiplicam-se os ritos penitenciais durante os ofícios sagrados, como a oratio super populum (“oração sobre o povo”) após a pós-Comunhão nas Missas feriais, durante a qual os fiéis se mantêm piedosamente ajoelhados e profundamente inclinados.

O I Domingo da Paixão inaugura, porém, uma nova fase. A partir daqui, não estamos simplesmente na Quaresma, mas no seu coração mais íntimo: o sacratíssimo Tempo da Paixão, que se estende por duas semanas, culminando na Semana Santa.

II. O velamento da Cruz e das imagens

A rubrica mais visível do Tempo da Paixão é, sem dúvida, o velamento das cruzes e das imagens dos santos com um véu roxo. A Cruz do altar coberta representa o Cristo que Se oculta de Seus perseguidores, conforme narra o Evangelho de São João: diante do ódio dos fariseus, Nosso Senhor “teve que Se ocultar e sair do Templo” (cf. Jo. VIII, 59). O velamento simboliza, portanto, o luto profundo de nossa Santa Romana Igreja face à humilhação do seu divino Esposo. A Escritura nos diz: “Velaverunt faciem ejus”, “cobriram o Seu rosto”.

As imagens dos santos são igualmente cobertas por uma razão teológica coerente: se a própria Luz de Cristo é eclipsada, não convém aos santos que a sua glória fique exposta. Toda a glória dos santos procede de Cristo; se Ele Se esconde, seus membros também se recolhem no mesmo mistério.

O velamento se coaduna com a palavra de Isaías: “Vere tu es Deus absconditus”, “Verdadeiramente tu és um Deus escondido” (Is. XLV, 15). Deus oculta a Sua glória para que contemplemos as Suas dores redentoras. A Cruz permanecerá velada até a adoração solene da Sexta-feira Santa, quando será progressivamente descoberta com as palavras “Ecce lignum Crucis”; as imagens dos santos, por sua vez, serão descobertas na Vigília Pascal, ao canto do Glória in excelsis Deo.

III. As rubricas próprias da Santa Missa

Na Liturgia da Missa, o luto da Santa Igreja se manifesta por diversas alterações nas rubricas ordinárias.

Supressão do Salmo XLII nas orações ao pé do altar. O Salmo Judica me (Sl. XLII), habitualmente recitado pelo sacerdote e pelo acólito no início da Santa Missa, é omitido durante todo o Tempo da Paixão. Fora deste período, tal omissão só ocorre nas Missas dos defuntos. O profundo sentido deste salmo reside na ardente esperança do salmista em retornar ao tabernáculo de Deus para contemplar a Sua glória: “Introibo ad altare Dei”, “Subirei ao altar de Deus”. No Tempo da Paixão, porém, Deus oculta a Sua glória, de modo que a expectativa jubilosa de contemplá-la cede lugar à contemplação das Suas dores. Permanece, todavia, a antífona “Ad Deum qui laetificat juventutem meam” (“Ao Deus que alegra a minha juventude”), pois a alegria espiritual, mesmo velada, jamais se extingue na alma do fiel.

Supressão do Glória Patri do Intróito e do LavaboA doxologia menor (“Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo”) desaparece do Intróito e do Salmo do Lavabo. Este gesto de luto litúrgico indica que a Igreja, diante da conspiração que conduzirá o Seu Esposo à Morte, silencia momentaneamente a sua louvação triunfal, reservando-a para o brado pascal.

Prefácio da Santa Cruz. A partir do I Domingo da Paixão e até a Quinta-feira Santa, as Missas que não possuem prefácio próprio utilizam o Prefácio da Santa Cruz, que louva o Mistério da Redenção operada pelo madeiro sagrado. Este prefácio testemunha que, mesmo em meio ao luto, a Igreja reconhece na Cruz o instrumento da vitória e do triunfo de Cristo sobre o demônio, o mundo e o pecado.

IV. O Ofício Divino no Tempo da Paixão

No Ofício Divino, o Glória Patri é suprimido dos responsórios, em continuidade com o mesmo espírito de luto que permeia a celebração da Missa. Em contrapartida, os hinos do Breviário para este tempo são consagrados ao louvor da Cruz. O célebre hino Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei se apresentam”), atribuído a Venâncio Fortunato (séc. VI), é cantado nas Vésperas deste período, enquanto o Pange, lingua, gloriosi proelium certaminis, do mesmo autor, é recitado nas Matinas. Ambos proclamam o paradoxo central da Paixão: a Cruz, instrumento da mais vergonhosa pena capital da Antiguidade, é ao mesmo tempo o trono excelso de Deus. “Regnavit a ligno Deus”, “do madeiro da Cruz Deus reinou”.

V. O sentido teológico: luto e triunfo

O luto da Igreja no Tempo da Paixão não é, contudo, um luto sem esperança. A Cruz velada pelo pano roxo é, paradoxalmente, o sinal glorioso da vitória do Salvador. Por esta razão, o Prefácio da Santa Cruz e os hinos do Breviário cantam o triunfo da Cruz mesmo enquanto nossa santa Madre Igreja chora as dores do Seu divino Esposo. “O Crux ave, spes unica”, “Salve, ó Cruz, única esperança”.

Esta tensão entre luto e triunfo responde, aliás, a uma acusação injusta frequentemente dirigida ao venerável Rito Romano tradicional: a de que a Liturgia de sempre não tinha olhos senão para a Paixão, esquecendo-se da Ressurreição. Na verdade, o Rito tradicional canta o triunfo da Cruz sem jamais esquecer o quanto este triunfo custou ao Salvador: nada menos do que a Sua atroz, cruenta e dolorosíssima Paixão. A sabedoria litúrgica não separa os dois mistérios, antes os une de modo admirável, pois é precisamente “a ligno”, do madeiro, do instrumento de suplicio, que Deus reina.

VI. O velamento como símbolo da condição do pecador

As cruzes e imagens veladas não representam apenas o Cristo que Se esconde de Seus perseguidores; simbolizam também a condição miserável do pecador que dá as costas à face de Deus. Como ensina Santo Agostinho, o pecado consiste numa “aversio a Deo” (aversão a Deus) e numa “conversio ad creaturam” (conversão à criatura). A cada vez que pecamos, escondemo-nos da face do Senhor, à semelhança de Adão e Eva no Paraíso: “Absconderunt se Adam et uxor ejus a facie Domini” (Gn. III, 8).

Mas Deus também oculta a Sua face do pecador, conforme diz o Deuteronômio: “Abscondam faciem meam ab eis”, “Vou ocultar-lhes o meu rosto, pois são uma geração perversa” (Dt. XXXII, 20). Se durante a Quaresma procurávamos curar o nosso apego desordenado às criaturas mediante a mortificação, no Tempo da Paixão somos convidados a nos condoer porque rejeitamos a graça e desprezamos o infinito amor de Deus. As imagens veladas são, pois, um espelho de nossa própria desolação merecida.

VII. Conclusão: a face que será revelada

O Tempo da Paixão, com toda a sua sobriedade e severidade litúrgica, é um convite a entrar mais profundamente no Mistério da Redenção. As supressões, os velamentos e os silenciamentos da Liturgia não são meras formalidades mas constituem uma catequese viva que prepara a alma para reviver, com a Igreja, o drama da Paixão e a alegria da Ressurreição. Cada rubrica é portadora de um sentido teológico preciso e de uma lição espiritual permanente.

O fiel que vive interiormente estas duas semanas da Paixão, acompanhando a Sagrada Liturgia com piedade e atenção, chegará à Semana Maior verdadeiramente preparado para acompanhar o Cordeiro de Deus até o Calvário e para contemplar, na manhã de Páscoa, aquela Sagrada Face que, na Transfiguração, “resplandeceu como o sol” (Mt. XVII, 2). Façamos nosso o clamor do Salmista: “Ne avertas faciem tuam a me”, “Não escondas de mim a vossa face” (Sl XXVI, 9).

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