[Sermão] São Silvestre, abade, e a vaidade do mundo

St syvester gozzolini 1

Sermão para a festa de São Silvestre, abade
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Saint Louis-MO, EUA
26 de novembro de 2025 A.D.

Caríssimos,

Nossa santa Romana Igreja festeja hoje São Silvestre, abade, cujo exemplo luminoso nos impele a contemplar a vaidade dos bens terrenos e a buscar unicamente os tesouros imperecíveis do céu. Nosso santo, nascido no século XII em Osimo, abandonou as honras do mundo para abraçar a pobreza evangélica, fundando a Ordem dos Silvestrinos e demonstrando com sua vida que somente em Deus reside a verdadeira riqueza.

Consideremos, meus caros, como São Silvestre renunciou aos estudos de direito em Bolonha, carreira que lhe prometia prestígio e fortuna, ao contemplar o cadáver decomposto de um parente outrora de grande beleza. Naquele momento de graça, compreendeu a palavra do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade’ (Ecle. I, 2). Que lição admirável para nós, que vivemos num século embriagado pelos prazeres efêmeros, pelas riquezas corruptíveis e pelas honras vãs!

Santo Agostinho, em suas Confissões, ensina-nos que o coração humano foi criado para Deus e permanece inquieto até que nele repouse. Contudo, quantos de nós buscamos saciar esta sede infinita nas poços envenenados e podres deste mundo! Perseguimos os prazeres sensuais que, como diz São Gregório Magno, “no desejo inflamam, na posse entediam, e quando perdidos, atormentam”. Acumulamos riquezas que, como adverte Nosso Senhor, “a traça e a ferrugem consomem, e os ladrões minam e roubam” (Mt. VI, 19).

São João Crisóstomo compara os bens terrenos às sombras que fogem quando tentamos agarrá-las. “Vedes aquele rico?”, pergunta o santo doutor, “hoje ele nada em ouro, amanhã será sepultado nu. Hoje é invejado, amanhã pranteado. Onde está sua glória? Dissipou-se como fumo”. Que terrível verdade, meus caros! As honras mundanas, os aplausos humanos, os títulos pomposos, tudo passa como névoa matinal diante do sol nascente da eternidade.

São Silvestre compreendeu esta verdade fundamental: devemos olhar todas as coisas sub specie aeternitatis, sob a perspectiva da eternidade. Quando contemplamos nossa vida desde este prisma sobrenatural, como mudam nossas prioridades! O que parecia importante torna-se fútil; o que julgávamos desprezível revela-se precioso. São Bernardo expressa magnificamente: “Se pensasses que haverias de morrer hoje, quão pouco caso farias de tudo o que é temporal!”

Meditemos no exemplo dos santos. São Francisco de Assis chamava à pobreza sua senhora e esposa. São Bento abandonou Roma e seus estudos para buscar a Deus na solidão. Santo Antão do Deserto distribuiu sua herança aos pobres. São Silvestre deixou tudo para seguir Cristo pobre e humilde. Por que fizeram isto? Porque compreenderam a palavra do Apóstolo: “As coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas” (II Cor. IV, 18).

Nossa sociedade, caríssimos, está enferma de materialismo. Vivemos como se esta vida fosse tudo, como se não houvesse eternidade. Acumulamos bens, multiplicamos prazeres, buscamos reconhecimento e esquecemos que “de que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder sua alma?” (Mt. XVI, 26). São Silvestre, ao contrário, escolheu perder o mundo para ganhar sua alma e, com ela, ganhar também inúmeras outras almas para Cristo.

Consideremos ainda, meus caros, como nosso santo, mesmo quando elevado ao cargo abacial, manteve-se humilde e desprendido. As honras eclesiásticas não o corromperam porque seu coração estava ancorado na eternidade. Sabia que toda autoridade vem de Deus e a Ele deve servir. Quantos, porém, se deixam embriagar pelo poder, esquecendo que “todo vale será aterrado e todo monte abatido” (Lc. III, 5) no dia do juízo!

Aprendamos, pois, meus caros, de São Silvestre a arte divina do desapego. Não se trata de desprezar as criaturas, mas de amá-las ordenadamente, usando dos bens terrenos como peregrinos que caminham para a pátria celeste, não como habitantes que aqui pretendem estabelecer morada permanente. Como ensina Santo Inácio, devemos usar das coisas criadas “tanto quanto nos ajudam para nosso fim último, e deixá-las tanto quanto dele nos apartam”.

Que São Silvestre, abade, interceda por nós para que, desprezando as ilusões do século, busquemos unicamente o Reino de Deus e sua justiça, certos de que tudo o mais nos será acrescentado.

Comentários

Uma resposta para “[Sermão] São Silvestre, abade, e a vaidade do mundo”

  1. Maria Socorro

    Um Sermão abençoado. Que possamos refletir, tendo como base a vida de São Silvestre, bem como dos outros Santos citados e verificar onde se encontra a nossa afeição. Que São Sivestre nos ajude a olhar todas as coisas sob a perspectiva da eternidade…

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