Prédica para a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Curitiba-PR, 02 de novembro de 2026 A.D.
Capela da Imaculada Conceição
Caríssimos fiéis,
Ontem nossa Santa Romana Igreja revestia-se de branco e cantava a glória dos santos que já contemplam a face de Deus. Hoje os paramentos são negros, o altar despojou-se dos seus ornamentos, o Gloria e o Alleluia emudeceram, e ressoa o belo e grave canto do Dies irae. A Igreja, é claro, não mudou de humor de um dia para o outro. Ela apenas volta os olhos para outra parte da sua família: a Igreja padecente, as almas que, tendo morrido na graça de Deus, ainda se purificam antes de entrar na glória. Por elas suplicamos com as palavras do Intróito: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis (Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e brilhe para eles a luz perpétua). Mas esta Missa, meus caros, não fala apenas dos que partiram. Fala também de nós. Aqueles por quem hoje rezamos sentaram-se um dia em bancos como estes, fizeram projetos, contaram com o dia seguinte. E nós seremos, sem dúvida alguma, os defuntos de amanhã.
Statutum est hominibus semel mori, post hoc autem iudicium (Está determinado que os homens morram uma só vez, e depois disso vem o juízo), ensina São Paulo Apóstolo na Epístola aos Hebreus. De todas as coisas que nos podem acontecer, a morte é a única absolutamente certa. Podemos não nos casar, não ter filhos, não envelhecer, não adoecer; mas não podemos deixar de morrer. E, no entanto, é a verdade mais esquecida. O mundo moderno esconde a morte nos hospitais, afasta dela as crianças, disfarça-a com eufemismos e fala dela como de um acidente que só acontece aos outros. Vivemos como se fôssemos durar para sempre e adiamos para um amanhã indefinido a conversão, a confissão, a reconciliação, a reforma da vida.
Ora, caríssimos, a morte é certa quanto ao fato e incerta quanto à hora. Nosso Senhor insiste: Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam (Vigiai, pois, pois que não sabeis o dia nem a hora). Não se trata de exagero de pregador. Todos conhecemos alguém que saiu de casa pela manhã e não voltou, alguém que se deitou com saúde e não acordou, alguém que dizia ter ainda muito tempo e viu o tempo acabar. Pode ser esta noite. Pode ser na estrada, ao voltarmos desta Missa. Não digo isto para lhes assustar, mas porque é verdade, e o amor à verdade é o primeiro dever de quem sobe a este púlpito.
Por isso, meus caros, o cristão deve estar pronto para morrer no instante presente. Não daqui a dez anos, não depois de resolver esta ou aquela situação, não quando tiver mais idade: agora. A verdadeira preparação para a morte consiste em viver de tal modo que, se ela chegasse neste minuto, nos encontrasse em estado de graça, reconciliados com Deus e com o próximo, com a consciência em paz. Os santos não eram homens impecáveis, não eram pessoas incapazes de cair; eram homens que não deixavam o pecado instalar-se na alma. Confessavam-se com frequência, perdoavam depressa e cumpriam o dever de cada dia como se fosse o último. Conta-se de São Luís Gonzaga que, perguntado durante um recreio sobre o que faria se soubesse que morreria dentro de uma hora, respondeu com simplicidade que continuaria a jogar. Não havia nada a mudar, porque a sua vida inteira já estava voltada para Deus.
E aqui façamos um exame sincero. Se o pensamento da morte nos aterroriza, se não suportamos sequer considerá-lo, há algo de errado na nossa prática da fé. Não falo do temor natural que toda criatura sente diante da separação entre a alma e o corpo; essa angústia Nosso Senhor ele mesmo quis experimentar no Horto. Falo do pavor de quem sabe, no fundo da consciência, que não está pronto: de quem guarda um pecado grave não confessado, um rancor não perdoado, uma injustiça não reparada, uma vida dividida entre Deus e o mundo. Esse medo não é um inimigo a calar; é uma graça, um aviso. É uma luz lançada por Deus em nossa consciência. É a voz de Deus que nos repete o que o profeta disse ao rei Ezequias: Dispone domui tuae, quia morieris tu (Põe em ordem a tua casa, porque vais morrer). Respondamos a esse aviso enquanto há tempo. Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis (Lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás), diz o Eclesiástico. A lembrança da morte não é morbidez; é sabedoria.
É sabedoria justamente porque, depois da morte, vem o juízo. No Evangelho Nosso Senhor anuncia a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus: et procedent qui bona fecerunt in resurrectionem vitae, qui vero mala egerunt in resurrectionem iudicii (e sairão os que fizeram o bem para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal para a ressurreição do juízo). No instante mesmo da morte, a alma comparecerá diante de Deus sozinha, sem advogados, sem desculpas, sem a opinião dos homens. Unusquisque nostrum pro se rationem reddet Deo (Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus).
Nossas escolhas, meus caros, não são indiferentes. Cada ato livre nos constrói ou nos destrói, nos aproxima de Deus ou nos afasta d’Ele. A eternidade não será uma sentença arbitrária caída do céu, mas a colheita daquilo que nós mesmos semeamos: Quae enim seminaverit homo, haec et metet (O que o homem semear, isso também colherá). O Dies irae lembra o livro em que tudo está escrito: Liber scriptus proferetur, in quo totum continetur (Será trazido o livro escrito, onde tudo está contido). Nada se perderá: nem o copo d’água dado por amor, nem a palavra maldosa, nem a hora roubada à oração. E, na eternidade, gozaremos ou sofreremos para sempre as consequências dessas escolhas. Aqui é o tempo de semear; lá, apenas o de colher. Depois da morte já não há mérito, já não há conversão.
É precisamente isso que torna tão comovente a condição das almas do purgatório. Elas morreram na graça de Deus; estão salvas e jamais O perderão. Mas não podem ainda entrar na glória, porque no Céu não entra nihil inquinatum (nada de impuro), e elas trazem ainda a pena devida pelos pecados perdoados e as manchas dos apegos não purificados. Sofrem a ausência d’Aquele a quem agora amam com todo o ardor, e já não mais podem merecer coisa alguma para si mesmas. Nossa santa Madre Igreja põe nos seus lábios as palavras de Jó: Miseremini mei, miseremini mei, saltem vos amici mei (Tende piedade de mim, tende piedade de mim, ao menos vós, meus amigos).
Elas dependem de nós. Pela comunhão dos santos, os nossos sufrágios chegam-lhes como alívio: Sancta ergo et salubris est cogitatio pro defunctis exorare (É santo e salutar o pensamento de rezar pelos defuntos). Mandemos celebrar Missas, que são o sufrágio por excelência; ofereçamos as nossas Comunhões, os nossos terços, as nossas esmolas e sacrifícios; lucremos as indulgências que a Santa Romana Igreja oferece nestes dias. Santa Mônica, ao morrer, nada pediu a Santo Agostinho senão que se lembrasse dela no altar do Senhor. Não pediu túmulo nem honras; pediu a Missa.
E há ainda um fruto para nós. Ensina São Tomás que a caridade cresce pelos seus atos. Ora, rezar por quem não nos pode mais merecer, por quem não vemos nem ouvimos, é uma caridade das mais puras, livre de todo interesse e de toda vaidade. Quem socorre as almas aprende a pensar na eternidade, desapega-se do mundo e prepara a própria morte. Granjeia também amigos no Céu, que um dia intercederão por nós, segundo a promessa do Senhor: Beati misericordes, quoniam ipsi misericordiam consequentur (Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia).
Ao sairmos desta capela, meus caros, pensemos nos nossos mortos, mas pensemos também na nossa morte. Façamos hoje a pergunta que faremos naquele último instante: estou pronto? Se a resposta nos inquieta, não percamos tempo. Procuremos o confessionário, reconciliemo-nos com quem nos ofendeu, reformemos a vida, para que a morte, quando vier, nos encontre vigilantes. E não nos esqueçamos daqueles que esperam a nossa caridade. Com nossa Santa Romana Igreja, digamos por eles e um dia, assim o esperamos, digam outros por nós: Pie Iesu Domine, dona eis requiem (Piedoso Senhor Jesus, dai-lhes o descanso). Amém.


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