Sermão para a Festa de Todos os Santos
(XXIII Domingo depois de Pentecostes)
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Curitiba-PR, 1º de novembro de 2026 A.D.
Capela da Imaculada Conceição
Caríssimos fiéis,
Quem visita Roma e entra no Panteão encontra um dos edifícios mais antigos e mais perfeitos da Antiguidade. Aquela grande cúpula, aberta ao céu pelo óculo central, foi erguida para honrar todos os deuses do paganismo romano: ali se veneravam, sob mil nomes e mil figuras, os ídolos de um império que ainda não conhecia Cristo. No início do século VII, porém, o Papa São Bonifácio IV recebeu aquele templo do imperador e o consagrou à Santíssima Virgem e a todos os mártires. Onde antes se prestava culto àqueles de quem diz a Escritura “omnes dii gentium daemonia” (“todos os deuses dos gentios são demônios”, Sl. XCV, 5), passou a ser oferecido o Santo Sacrifício ao único Deus verdadeiro e em honra daqueles que por Ele deram a vida. Desta dedicação nasceu, em grande parte, a festa que hoje celebramos. E há nela, meus caros, toda uma lição: o mesmo lugar pode pertencer a dois senhores, e a história do mundo, como a história de cada alma, é a história da passagem de um domínio a outro.
Nossa Santa Romana Igreja, na coleta desta Missa, diz a Deus que Ele nos concedeu venerar “omnium Sanctorum tuorum merita sub una celebritate” (“os méritos de todos os vossos Santos numa só solenidade”), e pede que, “multiplicatis intercessoribus” (“multiplicados os intercessores”), nos conceda a desejada abundância da sua misericórdia. Hoje não honramos apenas os santos dos altares, cujos nomes conhecemos e cujas imagens veneramos; honramos também a multidão que São João contemplou no Apocalipse, “turbam magnam, quam dinumerare nemo poterat” (“uma grande multidão, que ninguém podia contar”). Entre eles há pais e mães de família, operários e camponeses, crianças e anciãos, almas escondidas que ninguém canonizou, mas que Deus coroou com a glória. São Bernardo, pregando nesta festa, observava que os santos não precisam das nossas honras, pois nada acrescentamos à sua glória; somos nós que precisamos recordá-los, para que o seu exemplo nos acenda o desejo de estar com eles e a sua intercessão nos ajude a chegar até lá.
Façamos, então, a pergunta que esta festa nos impõe: o que tornou santos todos estes homens e mulheres, tão diferentes entre si, de todas as nações, de todos os séculos e de todos os estados de vida? A resposta, Nosso Senhor nos dá no Evangelho de hoje. “Videns autem Iesus turbas, ascendit in montem, et cum sedisset, accesserunt ad eum discipuli eius” (“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e, tendo-se sentado, aproximaram-se dele os seus discípulos”). Como outrora Moisés recebera a Lei no Sinai, entre trovões e relâmpagos, agora o próprio Legislador Divino senta-se no monte e ensina com mansidão a lei do seu Reino. As oito Bem-aventuranças são essa lei. São o caminho que todos os santos percorreram e são, por isso mesmo, o caminho que nós devemos percorrer.
Todo homem deseja ser feliz, meus caros conspícuos. Não há quem não o queira, e não há ação humana que não seja feita, de algum modo, em vista da felicidade. Este desejo não é uma fraqueza nem um defeito: é a assinatura do Criador em nossa alma. Deus nos fez para Si, e por isso nada que não seja Ele pode saciar-nos. Santo Agostinho, depois de longos anos a procurar a felicidade onde ela não estava, confessou: “Fecisti nos ad te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te” (“Fizestes-nos para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós”). São Tomás de Aquino examina um a um os bens em que os homens costumam pôr a felicidade, as riquezas, as honras, a fama, o poder, os prazeres do corpo, e mostra que nenhum deles pode ser o nosso fim último. Todos são limitados, todos são passageiros, e muitas vezes, inclusive, deixam a alma ainda mais vazia do que a encontraram. A felicidade verdadeira só pode estar no Bem infinito, isto é, no próprio Deus, possuído pela visão face a face no céu.
Ora, as Bem-aventuranças são precisamente o caminho para esse fim. Reparemos, meus caros, que cada uma delas tem duas metades: uma virtude que se pratica agora e uma recompensa que se promete. “Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum caelorum” (“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”). Aos pobres de espírito, aos mansos, aos que choram, aos que têm fome e sede de justiça, aos misericordiosos, aos puros de coração, aos pacíficos e aos perseguidos por causa da justiça, Nosso Senhor promete o Reino, a posse da terra, a consolação, a saciedade, a misericórdia, a visão de Deus e a filiação divina. Ensina São Tomás que as Bem-aventuranças são os atos mais perfeitos das virtudes, aperfeiçoadas pelos dons do Espírito Santo, e que nelas já começa, ainda nesta vida, uma certa antecipação da felicidade eterna. Quem as vive não é feliz apenas depois da morte; começa desde já a provar algo daquilo que um dia possuirá plenamente. É assim que o homem alcança o seu fim último e cumpre a sua vocação ao céu, e é exatamente isto que os santos fizeram.
But wait! There’s more! Mas há ainda mais, meus caros! Quem vive as Bem-aventuranças não apenas caminha para Deus: torna-se semelhante a Cristo. Afinal, caríssimos, as Bem-aventuranças são, antes de tudo, o retrato do próprio Senhor. Quem foi mais pobre do que Aquele que nasceu num presépio e não tinha onde reclinar a cabeça? Quem foi mais manso do que o Cordeiro que se deixou levar ao matadouro sem abrir a boca? Quem chorou como Ele sobre Jerusalém e junto ao túmulo de Lázaro? Quem teve maior fome de justiça, maior misericórdia, maior pureza? Quem trouxe maior paz e quem foi mais perseguido? Ao pregar as Bem-aventuranças, Nosso Senhor descrevia a Si mesmo. E por isso os santos, vivendo-as, tornaram-se imagens vivas dele, a ponto de poderem dizer com São Paulo: “Vivo autem, iam non ego: vivit vero in me Christus” (“Vivo, já não vivo eu: é Cristo que vive em mim”).
É aqui que compreendemos o que significa o Reino de Deus. “Regnum Dei intra vos est” (“O Reino de Deus está dentro de vós”). O Reino começa por dentro: Cristo reina numa alma quando ela Lhe pertence pela graça, quando a sua inteligência se submete à verdade que Ele revelou e a sua vontade se conforma à sua lei. E este Reino interior não fica escondido. Nossa Santa Madre Igreja, que é o Reino de Deus sobre a terra, cresce na medida em que as almas se santificam. Os santos converteram povos inteiros mais pelo que eram do que pelo que diziam. Foram os mosteiros de São Bento, onde homens viviam a pobreza, a mansidão e a pureza, que reconstruíram a Europa sobre as ruínas do império; foi a santidade de São Francisco Xavier que abriu o Oriente ao Evangelho; foi o sangue dos mártires, segundo a célebre sentença de Tertuliano, que se tornou semente de cristãos.
Daqui decorre, caríssimos, aquilo que nossa Santa Madre Igreja chama o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando Cristo reina nas almas, reina nas famílias; quando reina nas famílias, reina nos costumes; e quando reina nos costumes, acaba por reinar nas leis e nas instituições. O Papa Pio XI, na encíclica Quas primas, com a qual instituiu a festa de Cristo Rei, ensinava que a multidão de males que aflige o mundo provém de os homens terem afastado Jesus Cristo e a sua santa lei da vida privada, da família e da sociedade. E resumira o programa do seu pontificado em poucas palavras: “Pax Christi in regno Christi” (“A paz de Cristo no reino de Cristo”). São Pio X, antes dele, tomara por lema as palavras do Apóstolo: “Instaurare omnia in Christi” (“Restaurar todas as coisas em Cristo”). Este reinado, meus caros, não se impõe de fora. Constrói-se de dentro, alma por alma, e os santos que hoje celebramos são os seus verdadeiros artífices. Não o foram apenas no passado: do céu continuam a combater conosco, como intercessores, pelo mesmo Reino. A Igreja triunfante sustenta a Igreja militante, e é por isso que a coleta de hoje se alegra com os intercessores multiplicados.
Se as Bem-aventuranças são o caminho pelo qual Cristo reina, há também, meus caros, um caminho inverso, pelo qual reina outro senhor. Santo Agostinho resumiu toda a história humana numa frase admirável: “Fecerunt itaque civitates duas amores duo: terrenam scilicet amor sui usque ad contemptum Dei, caelestem vero amor Dei usque ad contemptum sui” (“Dois amores fizeram duas cidades: a terrena, o amor de si até o desprezo de Deus; a celeste, o amor de Deus até o desprezo de si”). Leão XIII, retomando esta doutrina, ensinava que o gênero humano está dividido em dois campos opostos, que combatem sem trégua: o Reino de Deus sobre a terra, que é a Igreja, e o reino de Satanás. Não há terreno neutro nesta guerra. Cada alma em estado de pecado mortal é um território perdido para Cristo, onde reina aquele que Nosso Senhor chama de “princeps huius mundi” (“o príncipe deste mundo”). E o reino de Satanás expande-se na sociedade exatamente pelo caminho inverso ao dos santos: o vício pessoal, multiplicado em muitas almas, torna-se costume; o costume torna-se lei; a lei torna-se cultura; e a cultura passa a formar, ou antes a deformar, as novas gerações, gerando a ruína e degradação da própria sociedade como um todo (e, claro, atraindo para a ela a ira e os castigos de Deus – em sua justiça, e em seu amor que busca a conversão).
Consideremos, meus caros, o que acontece quando os homens vivem o contrário das Bem-aventuranças. Onde não há pobreza de espírito, reinam a cobiça e o orgulho: o homem julga-se dono de si mesmo e senhor absoluto dos bens da terra, o dinheiro torna-se ídolo, e uma sociedade inteira passa a medir o valor das pessoas pelo que possuem e pelo que produzem. E onde falta a misericórdia, nasce aquela dureza de coração que descarta os fracos como coisas inúteis: a criança no seio materno, que se mata porque é inconveniente; o idoso e o doente, a quem se oferece a morte como solução; o pobre, abandonado à própria sorte. Uma sociedade que cultua o dinheiro acaba sempre por desprezar aqueles que não rendem.
Onde não há pureza de coração, reina a luxúria, e com ela tudo se corrompe. Vimos, no último século, a chamada revolução sexual prometer liberdade e felicidade; o que ela entregou foram famílias desfeitas, crianças sem pai, uma indústria da pornografia que escraviza milhões de almas e uma destruição da inteligência confusão tal sobre a natureza humana que já não se sabe sequer dizer o que é um homem e o que é uma mulher. A luxúria anda de mãos dadas com sua irmã, a sede de prazer, que é o contrário de “beati qui lugent” (“bem-aventurados os que choram”). O mundo moderno não quer chorar: quer divertir-se sem cessar, anestesiar a consciência, esquecer o pecado, fugir da realidade, fugir de toda cruz, e, imitando o demônio, fugir do céu. E quem não sabe chorar os próprios pecados nunca conhecerá a consolação de Deus.
Onde não há mansidão nem amor à paz, reinam a ira e a discórdia. Que vemos ao nosso redor senão uma sociedade dilacerada, em que o ódio se tornou linguagem corrente, em que esposos se separam à primeira contrariedade, em que se ensina às classes, às gerações e aos sexos que são inimigos uns dos outros? Este espírito de revolta e de luta permanente não é cristão: é o espírito daquele que disse “Non serviam” (“Não servirei”). Por fim, onde não há fome e sede de justiça nem disposição de sofrer por ela, reinam o relativismo e o respeito humano. Já ninguém deseja a verdade; cada um tem a sua, e a lei deixa de ser a expressão da ordem querida por Deus para tornar-se mera vontade do mais forte ou da maioria (isto é, ditadura do líder ou a ditadura da maioria). E os próprios cristãos, por medo de parecerem estranhos, calam-se, adaptam-se e apostatam em silêncio. As perversões que hoje nos escandalizam, meus caros, não surgiram do nada. São o fruto maduro de vícios que começaram nas almas, e muitas vezes em almas batizadas. Antes de estarem nas leis e nos meios de comunicação, a cobiça, a luxúria, a ira e a covardia estiveram nos corações. Corrompendo os corações, corromperam a inteligência, corrompendo a inteligência, corromperam as nações. Por isso devemos reconhecer com humildade que cada um dos nossos pecados mortais não é apenas um assunto privado entre nós e Deus: é também uma pedra acrescentada na edificação do reino de Satanás.
Que devemos fazer, então? Muitos, diante da degradação do mundo, põem toda a sua esperança na luta política. Claro que não desprezamos o dever cívico do católico, que é real; mas compreendamos que nenhuma ação meramente política será capaz de restaurar o que se perdeu, porque o mal não começou nas instituições, e sim nos corações. Mais ainda: uma luta política que aceita os princípios do liberalismo, isto é, que admite uma liberdade desvinculada da verdade e reduz a religião a assunto privado de cada um, já começa derrotada, pois combate os frutos enquanto rega a raiz. A raiz do liberalismo já calca aos pés a cruz de Cristo, aprisionando-a na vida privada, impedindo-o de reinar sobre as nações. Leão XIII, na encíclica Libertas praestantissimum, ensinava que a liberdade verdadeira não é o poder de fazer qualquer coisa, mas a faculdade de escolher o bem segundo a reta razão e a lei de Deus. Fora disso, a liberdade torna-se licença, e a licença acaba sempre em servidão.
O verdadeiro trabalho pelo reinado social de Nosso Senhor começa, portanto, onde começa o seu Reino: na alma. Começa pelo conhecimento de Deus e de nós mesmos. “Noverim me, noverim te” (“Que eu me conheça, que eu Vos conheça”), pedia Santo Bispo de Hipona. Não se ama o que não se conhece, e quem não conhece a sua fé facilmente se deixa arrastar pelo erro. Por isso o estudo da doutrina cristã não é um luxo para alguns devotos: é uma necessidade para todo católico que queira servir a Cristo neste tempo de confusão. Continua pela conservação do estado de graça. Cada confissão bem feita é uma vitória sobre Satanás, um território que lhe é retomado e devolvido ao seu verdadeiro Rei. Uma alma na graça de Deus faz mais pela restauração da sociedade cristã do que mil discursos inflamados de quem vive em pecado mortal.
E prossegue pelo crescimento da vida da graça. A graça é uma vida, e toda vida ou cresce ou definha. Façamo-la crescer pela oração quotidiana, pela meditação, pelo Santo Rosário, e sobretudo pelos sacramentos: pelo Santo Sacrifício da Missa, que é o próprio Sacrifício do Calvário renovado sobre os nossos altares, e pela Sagrada Comunhão, na qual o Rei vem pessoalmente tomar posse da alma que O recebe. Pratiquemos, enfim, as Bem-aventuranças no quotidiano, nas pequenas coisas: a pobreza de espírito no uso dos bens, a mansidão no trato com a família, a pureza no olhar e nos pensamentos, a misericórdia com os que nos ofendem, a coragem de professar a fé quando ela nos custa. Foi assim que os santos mudaram o mundo, mais do que qualquer partido, qualquer exército, qualquer governo: atacaram o mal pela raiz, que está no coração do homem, e deixaram Cristo reinar onde Ele quer reinar primeiro, expandiram esse reino nas obras e nos apostolado e nas lutas sociais fundadas na graça, fiéis à sã doutrina e sob a égide da Santa Igreja.
Voltemos, meus caros, por um instante ao Panteão de Roma. O que aconteceu naquele templo, quando os ídolos foram expulsos e Cristo foi entronizado com a sua Santa Mãe e os seus mártires, deve acontecer em cada uma das nossas almas e em cada um dos nossos lares. Cada um de nós é chamado a ser um templo consagrado, de onde se expulsaram os ídolos da cobiça, da luxúria, do orgulho e da covardia, e onde Cristo reina com os seus santos. Não estamos sós nesta obra. Temos conosco essa multidão inumerável que hoje celebramos, homens e mulheres que conheceram as nossas lutas, as nossas tentações e as nossas fraquezas, e que venceram. Recorramos a eles com confiança, pois nossa Santa Romana Igreja nos assegura hoje que os intercessores se multiplicam em nosso favor.
E quando as perseguições, as incompreensões e as dificuldades nos parecerem pesadas, recordemos as últimas palavras do Evangelho de hoje: “Gaudete et exsultate, quoniam merces vestra copiosa est in caelis” (“Alegrai-vos e exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus”). Amanhã nossa Santa Madre Igreja nos convidará a rezar pelas almas do Purgatório, completando assim a visão da Igreja em sua totalidade: triunfante no céu, padecente no Purgatório, militante na terra. Hoje, porém, ergamos os olhos para o termo da nossa peregrinação. E cada vez que repetirmos no Pai-Nosso “Adveniat regnum tuum” (“Venha a nós o vosso Reino”), saibamos que esse pedido começa a ser atendido em nós, quando vivemos as Bem-aventuranças e deixamos Cristo reinar em nossas almas, para que um dia reinemos com Ele e com todos os santos na glória eterna. Assim seja.


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