[Artigo] Gallo canente, spes redit: o galo nas Escrituras

Galo Cantando Sobre a Cidade Antiga

Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP

Poucas criaturas foram tão carregadas de sentido pela Escritura e pela liturgia quanto o galo. Ave doméstica, presente nos quintais de todos os tempos, ele se tornou nas mãos dos Padres uma imagem do pregador, da consciência despertada e do próprio Cristo. Nenhum texto o mostra melhor do que o hino Æterne rerum Conditor, que o Breviário Romano canta nas Laudes dos domingos depois da Epifania e depois de Pentecostes.

As Laudes são a oração da aurora. A antiga divisão da noite chamava gallicinium ao momento em que o galo começa a cantar, pouco antes do nascer do sol. Não é por acaso que a Santa Romana Igreja põe nos lábios do seu clero, nessa hora, um hino sobre o canto do galo: a criatura que anuncia o dia ensina a alma a despertar.

Propomo-nos percorrer esse simbolismo a partir deste hino de Santo Ambrósio, sem nos limitarmos a ele. Depois de situar o texto e o seu autor, veremos o que a Escritura diz literalmente do galo. Em seguida, guiados pelos diversos sentidos espirituais que a Tradição sempre reconheceu nas Sagradas Letras, contemplaremos o galo como figura de Cristo e do pregador, como instrumento da conversão e como anúncio da Ressurreição e da vinda final do Senhor.

I. O hino e o seu autor

Poucos hinos da Igreja latina têm autoria tão bem atestada. Santo Agostinho, que ouvira Santo Ambrósio pregar em Milão e dele recebera o batismo, cita-o expressamente nas Retractationes (I, 21). Ao rever uma interpretação sua a respeito da pedra sobre a qual a Igreja foi fundada, recorda que o mesmo sentido se canta pela boca de muitos nos versos do beatíssimo Ambrósio, onde este diz do galo: Hoc ipsa petra Ecclesiæ canente culpam diluit. O testemunho é precioso: já no tempo de Agostinho o hino estava nos lábios dos fiéis.

Santo Ambrósio é o pai da himnografia latina. Compôs para a sua igreja hinos em dímetros jâmbicos, com estrofes de quatro versos breves, simples o bastante para serem cantados por todos e densos o bastante para alimentar a meditação. Santo Agostinho conta em suas Confissões (IX, 7) que esse costume nasceu quando os católicos de Milão faziam vigília na basílica com o seu santo bispo, para resistir às pretensões da imperatriz ariana Justina. O hino ambrosiano nasceu, portanto, numa vigília: era justamente o canto de um povo que esperava o dia.

O hino Æterne rerum Conditor tem uma versão irmã em prosa. No Hexaemeron, série de homilias sobre os seis dias da criação, Santo Ambrósio dedica ao galo uma página (V, 24, 88) que possui quase o mesmo conteúdo do hino, por vezes utilizando as mesmas palavras. Ao canto do galo, diz ali, o salteador abandona as emboscadas, a estrela da manhã se levanta, o marinheiro deixa de lado a tristeza, e a própria pedra da Igreja lava a sua culpa. O pregador e o poeta são um só homem, e a página em prosa ajuda a ler e interpretar os versos.

O texto que hoje rezamos não é exatamente o ambrosiano. Na revisão dos hinos do Breviário promovida pelo papa Urbano VIII em 1632, os humanistas retocaram vários versos por amor à métrica clássica. No nosso hino, a segunda estrofe foi recomposta: o original abria com Præco diei iam sonat, / noctis profundæ pervigil, ao passo que a forma revista começa por Nocturna lux viantibus e termina com iubarque solis evocat. A doxologia final é também um acréscimo posterior. A substância, porém, permaneceu intacta, e é ela que agora examinaremos.

II. O galo nas Escrituras

O galo aparece poucas vezes na Bíblia, mas sempre em lugares significativos. No Antigo Testamento, a Vulgata de São Jerônimo o apresenta em três passagens. No livro de Jó, o Senhor interroga o seu servo ao meio das tribulações: Quis posuit in visceribus hominis sapientiam? vel quis dedit gallo intelligentiam?, “Quem pôs a sabedoria nas entranhas do homem? Ou quem deu inteligência ao galo?” (Jó XXXVIII, 36). Nos Provérbios, entre as criaturas de andar garboso, figura o gallus succinctus lumbos, o galo de rins cingidos (Pr. XXX, 31). E em Isaías o Senhor ameaça o mordomo Sobna de o levar para longe sicut asportatur gallus gallinaceus, como se carrega um galo (Is. XXII, 17).

No Novo Testamento, o galo entra na história da salvação na noite da Paixão. Os quatro evangelistas registram a profecia de Jesus a Pedro e o seu cumprimento (Mt. XXVI, 34, 74-75; Mc. XIV, 30, 72; Lc. XXII, 34, 60-62; Jo. XIII, 38; XVIII, 27). São Marcos, que segundo a tradição escreveu a pregação de Pedro, é o mais minucioso: priusquam gallus vocem bis dederit, ter me es negaturus, “antes que o galo cante duas vezes, me negarás três” (Mc. XIV, 30). O príncipe dos Apóstolos, por assim dizer, quis que a sua queda fosse contada com todos os pormenores.

O galo marca ainda o tempo da espera. No discurso escatológico, o Senhor adverte que ninguém sabe quando virá o dono da casa, sero, an media nocte, an galli cantu, an mane, “à tarde, à meia-noite, ao canto do galo ou de manhã” (Mc. XIII, 35). O “canto do galo” era o nome da terceira vigília da noite, entre a meia-noite e o alvorecer. E há, por fim, a galinha: chorando sobre Jerusalém, Jesus se compara à ave que reúne os pintinhos debaixo das asas (Mt. XXIII, 37; Lc. XIII, 34).

Convém notar que o galo como símbolo, em si mesmo, é ambivalente. A Antiguidade pagã associava o galo a Asclépio, e Sócrates, ao morrer, pede que se pague a esse deus um galo. A simbologia medieval conheceu também um galo da soberba e da luxúria, por causa da sua altivez e fecundidade. São os textos sagrados, e sobretudo os episódios da Paixão do Senhor, que orientam definitivamente o sentido cristão deste símbolo: o galo é a voz que desperta.

III. O arauto do dia: Cristo e o pregador

Além do sentido literal, a Escritura encerra um sentido espiritual, que a Tradição distingue em alegórico, moral e anagógico. São Tomás resume essa doutrina logo na primeira questão da Suma Teológica (I, q. I, a. 10, corpus): as próprias coisas significadas pelas palavras significam, por sua vez, outras realidades. Começamos pelo sentido alegórico, que lê nas coisas as figuras de Cristo e da Igreja.

O comentário clássico é o de São Gregório Magno. Nos Moralia in Iob (livro XXX), ao explicar Jó XXXVIII, 36, São Gregório vê no galo a figura do pregador. O galo canta nas horas escuras: e assim o pregador clama na noite deste mundo. A inteligência que Deus lhe deu é o discernimento dos tempos, isto é, saber quando falar com doçura e quando repreender com veemência. E antes de cantar, o galo bate as asas e fere a si mesmo: assim o bom pregador, antes de despertar os outros, castiga e emenda em si o que há de repreender neles.

O hino de Santo Ambrósio pressupõe essa leitura. O galo é o præco diei, o arauto do dia, e é também a nocturna lux viantibus, a luz noturna para os viajantes, a nocte noctem segregans, aquele que separa a noite da noite. A expressão, claro, é enigmática. Literalmente, o galo divide as horas noturnas como um relógio vivo. Mas o ouvido cristão percebe aí outra coisa: a voz do pregador separa a noite natural, que é obra de Deus, da noite do pecado, que é obra do homem.

O arauto anuncia alguém maior do que ele. Ao seu canto, diz a terceira estrofe, excitatus Lucifer solvit polum caligine: a estrela da manhã desperta e livra o céu da escuridão. A Escritura dá esse título a Cristo. São Pedro fala do lucifer que nasce nos corações (II Pd. I, 19), e no Apocalipse o Senhor se declara stella splendida et matutina (Ap. XXII, 16). O galo é como São João Batista: não é a luz, mas veio dar testemunho da luz (Jo. I, 8).

A história natural antiga, recolhida por Plínio, afirmava que o leão teme o galo, e Santo Ambrósio o repete no próprio Hexaemeron(VI, 4). A tradição tirou daí uma lição espiritual evidente. O demônio, diz São Pedro, anda ao nosso redor tamquam leo rugiens (I Pd. V, 8), e a voz da pregação e da oração o afugenta. O hino o diz a seu modo: Hoc omnis erronum cohors viam nocendi deserit, ao canto do galo toda a turba dos vagabundos abandona o caminho do mal. Os salteadores da noite são justamente a figura dos espíritos errantes que rondam as almas buscando perdê-las.

O símbolo, porém, não é apenas severo. Ao lado do galo que acusa e admoesta está a galinha que acolhe e consola. Chorando sobre Jerusalém, o Senhor escolhe para si uma imagem materna: quemadmodum gallina congregat pullos suos sub alas (Mt. XXIII, 37). Santo Agostinho observa que a galinha se enfraquece com os filhotes para os proteger (In Ioannis Evangelium tractatus, XV), figura de Cristo que se fez fraco para nos recolher sob as suas asas. O mesmo Senhor que nos desperta é aquele que nos dá abrigo e consolo.

Dessa leitura alegórica nasce também o galo dos campanários das igrejas. Uma tradição de historicidade incerta atribui a um papa do século IX a ordem de colocá-lo no alto das igrejas. Seja como for, ele se tornou ali um emblema eloquente: voltado contra o vento, recorda o pastor que vela pela cidade e enfrenta o sopro das heresias, e convida quem passa a erguer os olhos para o céu.

IV. O galo e a conversão

O sentido moral é o coração do hino. Da quarta à sétima estrofe, Santo Ambrósio compõe uma pequena teologia da conversão, construída em torno de São Pedro.

Hoc, ipsa petra Ecclesiæ, canente, culpam diluit: ao canto do galo, a própria pedra da Igreja lava a sua culpa. Santo Ambrósio não esconde a queda do Príncipe dos Apóstolos; ao contrário, chama-o pelo título mais alto no momento mais baixo. A pedra sobre a qual Cristo edificou a Igreja é a mesma que o negou três vezes. A lição aqui é dupla. Ninguém está tão firme que não possa cair, e por isso qui se existimat stare, videat ne cadat (I Cor. X, 12). Mas ninguém está tão caído que não possa ser restaurado.

A quinta estrofe dirige-se a nós: Gallus iacentes excitat, et somnolentos increpat, gallus negantes arguit. Três verbos descrevem três estados da alma. Os que jazem são os que caíram em pecado grave; os sonolentos são os tíbios; os que negam são os que renegam a Cristo, seja abertamente ou pelas obras. A todos o galo fala: ele acorda os que jazem, admoesta os sonolentos e acusa os que negam. O verbo arguit tem a força de convencer de culpa, como o Espírito Santo que arguet mundum de peccato (Jo. XVI, 8).

A sexta estrofe enumera os frutos: Gallo canente, spes redit, ægris salus refunditur, mucro latronis conditur, lapsis fides revertitur. Volta a esperança, a saúde é devolvida aos enfermos, o punhal do salteador volta à bainha, a fé retorna aos que caíram. A ordem é significativa. Primeiro a esperança, que impede o desespero de Judas; depois a cura da enfermidade; depois vemos o abandono da obra má; e, por fim, a fé restaurada na alma.

Mas o canto sozinho não basta. São Pedro ouvira a profecia e não se emendara. O que o converteu foi outra coisa, que São Lucas registra: Et conversus Dominus respexit Petrum… et egressus foras Petrus flevit amare, “O Senhor, voltando-se, olhou para Pedro… e Pedro, saindo, chorou amargamente” (Lc. XXII, 61-62). Por isso a sétima estrofe passa do galo a Jesus: Iesu, labantes respice, et nos videndo corrige: si respicis, labes cadunt, fletuque culpa solvitur. Se Tu olhas, caem as manchas, e a culpa se desfaz em pranto.

Há aqui com exatidão a teologia da graça. São Tomás ensina que, para o assentimento da fé, não basta a pregação exterior: é necessária uma causa interior, que é Deus movendo o homem pela graça (S. Th. II-II, q. VI, a. 1, corpus). O mesmo vale para a conversão do pecador. O galo é a voz exterior: o sermão, a admoestação, o remorso despertado por um acontecimento. O olhar de Jesus é a graça que move a vontade. Sem o canto, São Pedro não se teria lembrado; mas sem o olhar misericordioso de Cristo, a lembrança não o teria levado às lágrimas.

A tradição prolonga essa cena. A Legenda Áurea de Tiago de Varazze, recolhendo a tradição que remete ao papa São Clemente de Roma, conta que São Pedro, pelo resto da vida, chorava sempre que ouvia o galo cantar. É uma tradição que exprime bem a verdade do fletuque culpa solvitur: o perdão não apaga o amor arrependido, mas o aprofunda.

Por isso o galo entrou, no fim da Idade Média, entre as Arma Christi, os instrumentos da Paixão que a iconografia reunia em torno do Crucificado: a coluna, os açoites, os cravos, a lança, a esponja e, não raro, o galo empoleirado sobre uma coluna. Contemplá-lo era recordar que entre os sofrimentos de Cristo esteve a infidelidade dos seus. E dentre seus amigos infiéis, cada um de nós tem seu lugar nessa recordação.

V. A aurora e a vigília

O sentido anagógico lê nas coisas as realidades últimas. O canto do galo anuncia a aurora, e a aurora, para o cristão, é a hora da Ressurreição. As santas mulheres foram ao sepulcro valde mane una sabbatorum, muito cedo, no primeiro dia da semana (Mc. XVI, 2). Por isso o Æterne rerum Conditor é o hino de domingo: a cada semana, ao alvorecer, a Santa Romana Igreja recorda que a noite do sepulcro terminou.

O galo anuncia também a vinda futura de Cristo, em sua glória. No galli cantus de Mc. XIII, 35, o Senhor pode chegar a qualquer hora, e a conclusão vale para todos: quod autem vobis dico, omnibus dico: Vigilate (Mc. XIII, 37). São Paulo traduz a mesma urgência: hora est iam nos de somno surgere… nox præcessit, dies autem appropinquavit, “já é hora de despertar do sono… a noite vai adiantada, e o dia se aproxima” (Rom. XIII, 11-12). O hino responde com o seu Surgamus ergo strenue, levantemo-nos, pois, com presteza. A vida inteira é uma vigília, e o cristão é aquele que espera o dia da eternidade.

O mesmo canto une as duas vindas de Cristo. A Missa da noite de Natal recebeu nos países ibéricos o nome de Missa do Galo, denominação que passou ao Brasil. A piedade popular imaginou que naquela noite o galo teria sido a primeira criatura a anunciar o nascimento, cantando o Christus natus est. É uma lenda graciosa, mas teologicamente justa. O arauto do dia anuncia Aquele que é o Oriens ex alto, o Sol nascente que nos visita do alto (Lc. I, 78), e que voltará no último dia.

Outra tradição, oriunda do Caminho de Santiago de Compostela, remete ao galo. Em Santo Domingo de la Calzada, um jovem peregrino fora enforcado injustamente; quando os pais anunciam ao juiz que o filho ainda vivia, este responde que o rapaz estava tão vivo quanto o galo e a galinha assados no seu prato, e as aves se levantam e cantam. A tradição de Portugal conhece a variante do Galo de Barcelos. Não se trata, é claro, de doutrina, mas a fé do povo soube ler aí a imagem da Ressurreição: Deus pode devolver a voz ao que estava morto.

Pouco depois de Santo Ambrósio, o poeta Prudêncio escreveu o hino Ales diei nuntius (Cathemerinon I), que o Breviário canta nas Laudes da terça-feira. Ali a figura se torna explícita: depois do galo que anuncia a luz próxima, é o próprio Cristo, aquele que desperta as almas, quem nos chama à vida, nos excitator mentium iam Christus ad vitam vocat. O sono é a imagem da morte, e o despertar, da ressurreição.

Conclusão: a nossa voz, primeiro

O hino termina com uma súplica que resume todo o percurso: Tu, lux, refulge sensibus, mentisque somnum discute: te nostra vox primum sonet, et vota solvamus tibi. “Tu, que és a luz, resplandece em nossos sentidos e afasta o sono da mente; que a nossa voz seja a primeira a soar para Ti, e cumpramos para contigo os nossos votos.”

O que o galo faz por natureza, o cristão é chamado a fazer pela graça. A primeira palavra do dia pertence a Deus. Por isso a Igreja sempre recomendou que o dia começasse pela oração: para o clero e os religiosos, as Laudes; para todos os fiéis, ao menos o oferecimento do dia ao levantar e uma breve recordação dos bons propósitos para o dia. Quem assim desperta torna-se, por sua vez, um pequeno arauto da luz para os que o rodeiam.

E quando ouvirmos um galo cantar, no campo ou na vizinhança, ou quando o virmos no alto de uma torre, podemos lembrar-nos de São Pedro: da sua queda, do olhar de Jesus e das suas lágrimas. Nenhuma noite é tão escura que o Senhor não possa voltar-se para nós e olhar-nos. Gallo canente, spes redit: ao canto do galo, volta a esperança.

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O Antoniano