Sermão para o XXI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 18 de outubro de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Há no Evangelho de hoje um detalhe que facilmente deixamos de perceber e que, no entanto, integra todo o drama da parábola. O servo devia ao rei dez mil talentos, soma absurdamente gigantesca, que nenhum homem daquele tempo poderia pagar em toda uma vida, nem em muitas. Lançou-se ele, então, aos pés de seu senhor, pediu paciência e recebeu muito mais do que pedira: não um prazo, mas o perdão de toda a dívida, que era impagável. E diz o Evangelista: Egressus autem servus ille, invenit unum de conservis suis (“Saindo dali, aquele servo encontrou um dos seus companheiros”). Saindo dali. Mal deixara a presença do rei, ele já tinha as mãos na garganta do irmão que lhe devia meros cem denários. Meus caros, é sempre assim que começa o rancor: quando saímos da presença de Deus e esquecemos o que dele recebemos.
Perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores. Por que, então, poderíamos nos perguntar, Nosso Senhor faz depender o perdão que recebemos do perdão que damos? Seria somente para nos coagir ao perdão? E quem está, afinal, por trás do coração que se recusa a perdoar? São estas as duas perguntas que a liturgia deste domingo nos propõe, quando coloca lado a lado a parábola do servo impiedoso e a armadura de Deus descrita por São Paulo aos Efésios.
Comecemos pela segunda. O Apóstolo nos adverte hoje: Non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem(“Não temos de lutar contra a carne e o sangue”), mas contra os espíritos da malícia. Isso vale de modo particular para as ofensas que sofremos. A ofensa, sem dúvida, vem do irmão, de um homem de carne e osso como nós. Mas o rancor que se instala depois da ofensa, que cresce, que se alimenta de lembranças e que se recusa a morrer, esse já é obra de outro sujeito. São Paulo o diz expressamente na mesma epístola: Sol non occidat super iracundiam vestram: nolite locum dare diabolo (“Não se ponha o sol sobre a vossa ira; não deis lugar ao demônio”). O rancor guardado é precisamente o lugar que entregamos ao diabo dentro de nós. É um daqueles tela nequissimi ignea, os dardos inflamados do maligno de que fala a Epístola: atingem o coração e continuam a arder mesmo depois de muito tempo cravados.
E é preciso compreender bem o que o demônio pretende com isso. Ele não quer apenas que odiemos; o ódio, para ele, é somente um meio. O que ele quer é manter-nos fechados à misericórdia de Deus. Ele sabe, melhor do que nós, que quem não perdoa não pode ser perdoado, e por isso semeia o ressentimento, rega-o com lembranças, protege-o com razões aparentemente justas (falsos raciocínios). Diz-nos que temos direito à nossa mágoa, que o outro não merece ser perdoado, que ele não mudou, continua sem reconhecer o mal realizado, que esquecer a ofensa seria trair a nós mesmos. E, enquanto nos ocupamos em guardar a ofensa, ele guarda a nossa alma longe de Deus.
Vejamos, meus caros, para o retrato do inimigo, porque é também o retrato do coração rancoroso. Quem é implacável em mostrar e em guardar as misérias alheias? O demônio, a quem o Apocalipse chama accusator fratrum nostrorum, qui accusabat illos ante conspectum Dei nostri die ac nocte (“o acusador dos nossos irmãos, que os acusava diante do nosso Deus dia e noite”). O seu próprio nome, diabolos, quer dizer o caluniador, aquele que divide. Quem julga que perdoar é fraqueza, que ceder é vergonhoso, que a misericórdia é coisa de tolos? O demônio. Quem, em seu orgulho, não suporta nenhuma contradição à sua vontade e prefere a ruína eterna a curvar-se? O demônio, a quem pertence o grito Non serviam (“Não servirei”). Quando negamos o perdão, tornamo-nos semelhantes a ele. E ele, que mesmo se não ama ninguém, reconhece ao menos os seus: vê em nós um semelhante e sente-se em casa.
Voltemos agora à primeira pergunta. O Senhor conclui a parábola com palavras terríveis: Sic et Pater meus caelestis faciet vobis, si non remiseritis unusquisque fratri suo de cordibus vestris (“Assim vos fará também meu Pai celeste, se não perdoardes cada um a seu irmão do íntimo do coração”). Seria um erro grave imaginar que Deus está aqui a negociar conosco, como um credor desconfiado que espera a nossa atitude para decidir a sua. Deus não se vinga, nem nos paga na mesma moeda. O que Nosso Senhor nos revela é algo mais profundo: o rancor mantido nos torna incompatíveis com o perdão.
Pois o que é o perdão de Deus? Não é uma simples anotação num livro de contas, como se Deus riscasse uma dívida e nos deixasse como estávamos. É a graça que entra na alma e a faz viver, é a caridade derramada em nossos corações. Ora, a caridade com que amamos a Deus e aquela com que amamos o próximo são uma só; não se pode recebê-la por uma via e apartá-la por outra. Quem conserva voluntariamente o ódio contra o irmão fecha a mesma porta por onde entraria o amor de Deus. Pensemos numa mão fechada em punho: ela pode ameaçar o irmão, mas não pode, ao mesmo tempo, abrir-se para receber a esmola do Rei. Não é o Rei que deixa de dar; é a mão que não se abre.
Por isso os Padres da Igreja, entre eles São Cipriano e Santo Agostinho, advertiam sobre o modo como rezamos o Pai-Nosso. Todos os dias dizemos: dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris (“perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”). O rancoroso que pronuncia essas palavras assina a própria sentença: pede a Deus, sem perceber, que não o perdoe. E a primeira vítima do perdão negado é ele mesmo. O rei da parábola tradidit eum tortoribus (“entregou-o aos verdugos”); mas esses verdugos começam o seu trabalho já nesta vida, na ruminação que não deixa dormir, na amargura que azeda cada alegria, na paz que se perdeu e não volta. Julgamos castigar o outro guardando a ofensa, e somos nós que a carregamos. Somos nós que fazemos com que aquela dor se perpetue, fazendo de nossa vida um inferno antecipado.
Meus caros, o Eclesiástico já perguntava: Homo homini reservat iram, et a Deo quaerit medelam? In hominem similem sibi non habet misericordiam, et de peccatis suis deprecatur? (“O homem guarda ira contra outro homem, e pede a Deus remédio? Não tem misericórdia de um homem semelhante a si, e pede perdão dos seus pecados?”). Consideremos a desproporção que o Senhor quis colocar na parábola. Um talento valia cerca de seis mil denários; dez mil talentos são, portanto, uns sessenta milhões de denários, contra os cem que o companheiro devia. Tal é a distância entre o que devemos a Deus e o que os outros nos devem. Nós ofendemos a Majestade infinita todos os dias, por pensamentos, palavras, obras e omissões, e imploramos dela o perdão que negamos ao próximo por muito menos.
Quando guardamos o rancor, ousamos ser mais severos com o irmão do que Deus é conosco. Exigimos do outro uma reparação que Deus não exige de nós. Fazemo-nos juízes mais rigorosos que o próprio Juiz e assim, sem o dizer, nos colocamos acima de Deus. Haverá soberba maior do que esta? É a soberba do próprio demônio, que também quis ser como Deus.
E a consequência não fica restrita à alma. O inferno é o lugar onde já não há perdão; e Jó, que nossa Santa Romana Igreja nos recorda no Ofertório desta Missa, descreve a região dos mortos como a terra ubi umbra mortis et nullus ordo, sed sempiternus horror inhabitat (“onde há sombra de morte e nenhuma ordem, mas habita o horror eterno”). O rancor faz da nossa casa, do nosso casamento, da nossa família e da nossa comunidade uma antecâmara desse lugar: cada um guardando as faltas do outro, cada palavra lida como ofensa, cada ferida constantemente reaberta. Transformamos o nosso entorno num inferno antecipado. É o exato contrário do que a Igreja pede hoje na coleta, quando roga a Deus que guarde a sua família: Familiam tuam, quaesumus, Domine, continua pietate custodi (“Guardai, Senhor, nós vos pedimos, a vossa família com contínua bondade”).
Mas vale aqui uma advertência: é preciso dizer com clareza o que é perdoar e o que não é. Assim como amar o próximo não significa gostar dele, nem sentir por ele afeição ou simpatia, perdoar também não significa voltar a gostar de quem nos feriu. O Senhor pede o perdão de cordibus, do íntimo do coração; e o coração de que fala a Escritura é a vontade, não os sentimentos. Perdoar é um ato da vontade: renunciar à vingança, não desejar o mal ao ofensor, não o excluir da nossa oração, estar disposto a socorrê-lo se ele precisar. A ferida pode continuar a doer por muito tempo, a lembrança pode voltar sem que a chamemos, e nada disso é pecado enquanto a vontade não a abraça. Perdoar também não obriga a confiar de novo de modo imprudente, nem a expor-se outra vez ao mal, nem a renunciar à justiça devida: é possível perdoar de coração e, ainda assim, manter distância prudente de quem pode ainda nos fazer mal, ou pedir a reparação justa. A severidade destas palavras não se dirige a quem luta e sofre com a lembrança; dirige-se à vontade que se obstina e decide guardar a ofensa como seu tesouro.
Como, então, apagar este dardo? A Epístola responde: in omnibus sumentes scutum fidei, in quo possitis omnia tela nequissimi ignea exstinguere (“tomando em tudo o escudo da fé, com o qual possais apagar todos os dardos inflamados do maligno”). É a fé que nos faz recordar, a cada ofensa recebida, os dez mil talentos que nos foram perdoados no Batismo, em cada confissão, em cada dia em que Deus nos sustenta apesar das nossas ingratidões. Quem tem diante dos olhos a própria dívida perdoada não consegue, nem ousaria, agarrar o irmão pela garganta por uma ninharia.
Façamo-nos dispostos a isto. Antes mesmo que o sol se ponha, coloquemos diante de Deus o nome de quem nos ofendeu e rezemos por essa pessoa, ainda que nossa sensibilidade a isto resiste. Não esperemos sentir vontade de perdoar; perdoemos com a vontade, e o sentimento, com o tempo e a graça, há de seguir o ato. Assim a família de Deus será guardada, e cumprir-se-á em nós o que nossa Santa Madre Igreja pede na coleta: ut a cunctis adversitatibus, te protegente, sit libera, et in bonis actibus tuo nomini sit devota (“para que, sob a vossa proteção, seja livre de todas as adversidades e devotada ao vosso nome nas boas obras”). E não há obra mais devotada ao nome de Deus do que o perdão, porque é por ele que deixamos de nos parecer com o inimigo e começamos a nos parecer com nosso Pai celeste.


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