[Artigo] As Bem-Aventuranças Evangélicas

Sermon on the Mount by Fra Angelico

AS BEM-AVENTURANÇAS EVANGÉLICAS
Sua ordem, suas virtudes, seus dons e sua oração

Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à justiça, porque deles é o reino dos céus”.
São Mateus. V, 3-12.

I. A busca da felicidade e os seus desvios

O homem busca sempre a felicidade. Nenhum ato humano escapa a esta lei: quem trabalha, quem descansa, quem ama e até quem peca, tudo faz movido pelo desejo de ser feliz. Entretanto, com muita frequência os homens se enganam sobre aquilo em que a felicidade realmente consiste. O Sermão da Montanha abre-se precisamente com a resposta divina a esta questão que nenhuma filosofia soube resolver por inteiro: Nosso Senhor, sentado no monte como novo e definitivo legislador, proclama oito vezes quem são os verdadeiramente felizes — os bem-aventurados — e o faz de modo que contradiz, ponto por ponto, os falsos caminhos pelos quais os homens costumam procurar a felicidade.

Para compreender a arquitetura das bem-aventuranças, convém partir da alma humana tal como ela é. Duas forças impelem a nossa alma sensível. A primeira é o apetite concupiscível, que nos impulsiona ao bem sob qualquer forma que ele se apresente; e a primeira forma, a mais imediata e grosseira, do bem que se nos apresenta é o prazer sensível; em segundo lugar, a posse dos bens materiais. Estes bens — o prazer e a riqueza — são bens reais, criados por Deus, e só se tornam males quando os colocamos acima dos bens espirituais: é na desordem do amor aos bens em que consiste o pecado. Ora, depois do pecado original o concupiscível tornou-se desordenado: ou queremos demais os bens inferiores, ou permanecemos tibiamente indiferentes diante dos bens superiores.

Por outro lado, quando algo se opõe à conquista do bem que desejamos, irritamo-nos e lançamo-nos com força contra o obstáculo. Essa força que nos leva a lutar é o apetite irascível. Também ele foi ferido pelo pecado original: ou nos irritamos em demasia contra tudo o que contraria a nossa vontade, ou pecamos por falta de coragem, reagindo fracamente diante do mal que deveria ser combatido.

Platão comparou a alma a uma biga puxada por dois cavalos[1]. O concupiscível e o irascível são esses dois corcéis indomados que arrastam o carro da alma; a razão é o cocheiro que os governa com as rédeas — e, quando rebeldes, os corrige com o chicote. Na linguagem das virtudes: a temperança doma o cavalo do concupiscível; a fortaleza domina o cavalo do irascível; a prudência, virtude intelectual, é o cocheiro que dá a ambos o justo meio; e a justiça, harmonizando todas as potências e dando a cada um o que lhe é devido, torna o homem justo. A filosofia antiga, porém, apenas entreviu o que a graça haveria de realizar: as bem-aventuranças são a resposta de Cristo à desordem dos dois apetites, e uma resposta que ultrapassa infinitamente o simples equilíbrio natural sonhado pelos filósofos.

Daqui se compreendem os três erros capitais acerca da felicidade. O primeiro erro consiste em colocá-la nos prazeres, nas riquezas e na imposição da própria vontade: contra ele erguem-se as três primeiras bem-aventuranças: a pobreza de espírito, a mansidão e o pranto pelos pecados. O segundo erro consiste em colocar a felicidade na simples realização de grandes ações exteriores: contra ele, Nosso Senhor ensina que a bem-aventurança da vida ativa consiste em ter fome e sede de justiça e em exercer a misericórdia (quarta e quinta bem-aventuranças). O terceiro erro, enfim, consiste em querer alcançar a felicidade por uma falsa contemplação ou um falso saber: contra ele, Cristo opõe a sexta e a sétima bem-aventuranças, a visão de Deus pelos puros de coração e a verdadeira paz dos pacíficos. A oitava, como veremos, é a síntese e a confirmação de todas.

Há ainda uma chave de leitura mais profunda, que remonta a Santo Agostinho e que São Tomás fez sua: as sete primeiras bem-aventuranças correspondem, uma a uma, aos sete dons do Espírito Santo enumerados pelo profeta Isaías (Is. XI, 2-3), e estes, por sua vez, às sete petições da Oração Dominical[2]. Cada bem-aventurança é o ato próprio de um dom; cada dom apoia-se numa virtude, cardeal ou teologal; e cada dom é pedido a Deus numa petição do Pai-Nosso. Bem-aventurança, dom, virtude e oração formam, assim, um único organismo sobrenatural. Expor essa tríplice correspondência é o objetivo do presente artigo.

II. A ordem das bem-aventuranças segundo São Tomás

Pergunta São Tomás se as bem-aventuranças estão convenientemente enumeradas, isto é, se há nelas uma ordem, ou se são apenas uma lista de sentenças justapostas. A resposta do Doutor Angélico é uma das páginas mais luminosas da Summa Theologiae, e merece ser lida por extenso[3]:

Respondo dizendo que estas bem-aventuranças são enumeradas do modo mais conveniente. Para o evidenciar, deve-se considerar que alguns puseram a bem-aventurança em três coisas diversas: uns a puseram na vida voluptuosa; outros, na vida ativa; outros, enfim, na vida contemplativa. Ora, estas três bem-aventuranças relacionam-se de modo diverso com a bem-aventurança futura, por cuja esperança somos chamados bem-aventurados já nesta vida. Pois a bem-aventurança voluptuosa, por ser falsa e contrária à razão, é impedimento da bem-aventurança futura. A bem-aventurança da vida ativa dispõe para a bem-aventurança futura. E a bem-aventurança contemplativa, se for perfeita, é essencialmente a própria bem-aventurança futura; se imperfeita, é dela um certo começo.

E por isso o Senhor propôs, em primeiro lugar, algumas bem-aventuranças que removem o impedimento da bem-aventurança voluptuosa. Com efeito, a vida voluptuosa consiste em duas coisas. Primeiro, na afluência dos bens exteriores, sejam riquezas, sejam honras; dos quais o homem se retrai pela virtude, de modo a usá-los com moderação, e pelo dom, de modo mais excelente, a saber, desprezando-os totalmente. Donde se põe a primeira bem-aventurança: bem-aventurados os pobres de espírito, o que pode referir-se ao desprezo das riquezas ou ao desprezo das honras, o que se faz pela humildade. Em segundo lugar, a vida voluptuosa consiste em seguir as próprias paixões, sejam do irascível, sejam do concupiscível. Do seguimento das paixões do irascível retrai a virtude, para que o homem não se exceda nelas, segundo a regra da razão; e o dom, de modo mais excelente, faz que o homem, segundo a vontade divina, permaneça totalmente tranquilo a seu respeito. Donde se põe a segunda bem-aventurança: bem-aventurados os mansos. Do seguimento das paixões do concupiscível retrai a virtude, usando com moderação dessas paixões; e o dom, rejeitando-as totalmente, se necessário for, e mais ainda, assumindo, se necessário, um pranto voluntário. Donde se põe a terceira bem-aventurança: bem-aventurados os que choram.

A vida ativa, por sua vez, consiste principalmente naquilo que prestamos ao próximo, seja a título de dívida, seja a título de benefício espontâneo. Para o primeiro, a virtude nos dispõe a não recusar ao próximo aquilo que lhe devemos, o que pertence à justiça; o dom, porém, conduz-nos a isso mesmo com um afeto muito mais abundante, de sorte que cumpramos as obras de justiça com fervente desejo, assim como o faminto e o sedento desejam ardentemente a comida e a bebida. Donde se põe a quarta bem-aventurança: bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Quanto aos benefícios espontâneos, a virtude nos aperfeiçoa para que demos àqueles a quem a razão dita que se deva dar, como aos amigos e aos que nos são chegados, o que pertence à virtude da liberalidade. Mas o dom, por reverência a Deus, considera somente a necessidade daqueles a quem presta benefícios gratuitos; por isso se diz em São Lucas: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos nem os teus irmãos…, mas chama os pobres e os aleijados” (Lc. XIV, 12-13); o que é propriamente ter misericórdia. E por isso se põe a quinta bem-aventurança: bem-aventurados os misericordiosos.

As coisas que pertencem à vida contemplativa, ou são a própria bem-aventurança final, ou um certo começo dela; e por isso não são postas entre as bem-aventuranças como méritos, mas como prêmios. Põem-se, porém, como méritos os efeitos da vida ativa, pelos quais o homem se dispõe à vida contemplativa. Ora, o efeito da vida ativa, quanto às virtudes e aos dons pelos quais o homem se aperfeiçoa em si mesmo, é a limpeza do coração, isto é, que a mente do homem não seja manchada pelas paixões. Donde se põe a sexta bem-aventurança: bem-aventurados os puros de coração. Quanto às virtudes e aos dons pelos quais o homem se aperfeiçoa em relação ao próximo, o efeito da vida ativa é a paz, segundo aquilo de Isaías: “A paz é obra da justiça” (Is. XXXII, 17). E por isso se põe a sétima bem-aventurança: bem-aventurados os pacíficos.

A ordem, portanto, é perfeita e profunda. As três primeiras bem-aventuranças removem os obstáculos da falsa felicidade voluptuosa; a quarta e a quinta aperfeiçoam a vida ativa; a sexta e a sétima são já os frutos que dispõem à vida contemplativa e a antecipam. E a oitava? Responde o próprio São Tomás: “a oitava bem-aventurança é uma certa confirmação e manifestação de todas as precedentes”[4]; quem persevera na pobreza de espírito, na mansidão e nas demais em meio à perseguição, mostra que as possui de modo firme e consumado. Sobre este fundamento, examinemos agora cada uma das oito, indicando, para cada qual, a virtude conexa, o dom do Espírito Santo que a produz, a petição do Pai-Nosso em que a pedimos, e, por fim, o seu cumprimento vivo na Pessoa de Nosso Senhor, sobretudo na sua Paixão, na qual o mundo respondeu a cada bem-aventurança com o seu exato contrário.

III. Análise das oito bem-aventuranças

1. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt. V, 3)

Conforme ensina São Tomás, o primeiro obstáculo à salvação reside na felicidade que se pretende atingir pelos prazeres, e a vida voluptuosa alimenta-se dos bens exteriores: a riqueza material e as honras. Para evitar o pecado, o homem necessita dominar essa tendência, usando moderadamente das riquezas e das honras pela virtude da temperança; mas o dom do Espírito Santo eleva-o mais alto, fazendo-o desprezá-las totalmente enquanto pretensas fontes de felicidade.

Para entender esta bem-aventurança com mais perfeição, é preciso compreender que se pode ser pobre ou rico de duas maneiras. Há o pobre material, que carece de bens; e há o pobre de espírito, que — tenha ou não riquezas — as despreza no coração e não coloca nelas a sua felicidade. Inversamente, rico material é o que possui muitos bens; e “rico de espírito”, no mau sentido, é aquele que, possuindo ou não fortuna, julga que o bem da existência está na riqueza, e para ela vive. São Luís IX, Rei de França, foi riquíssimo, mas desprezava as riquezas: por isso era pobre de espírito e bem-aventurado. Em contrapartida, um miserável pode ser “rico de espírito” se puser toda a sua alma na ambição do dinheiro: embora nada possua, só vive pensando nele e só para ele. Nosso Senhor proclama bem-aventurados, portanto, os que não vivem para o dinheiro, quer o tenham, quer não. E, como ensina Santo Agostinho, por pobres de espírito entendem-se ainda os humildes, que não põem a felicidade na própria excelência nem nas honras, assim como “ricos de espírito” são os orgulhosos[5].

Como os bens terrenos cativam com grande força a concupiscência desregrada do homem, o dom do Espírito Santo que auxilia a vencer essa atração é o dom do temor de Deus, e a virtude conexa é a temperança[6]. É pelo temor filial, isto é, o medo reverente de ofender a Deus e de d’Ele se separar, que se aprende a usar com sobriedade dos bens e das honras; pois, no grau mais elementar da vida espiritual, somos movidos mais pelo temor do que pelo amor. Por isso está escrito: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Sl. CX, 10).

Esta bem-aventurança está associada à primeira petição do Pai-Nosso: “santificado seja o vosso nome”. Nela pedimos que o nome de Deus se manifeste e resplandeça nos fiéis, e é o dom do temor que nos faz tremer diante da santidade desse nome, temendo perder os bens espirituais, ofender a Cristo, separar-nos d’Ele. Porém os homens não temeram a Cristo: ofenderam-no e quiseram separar-se d’Ele. “Ele será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros; e, depois de o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida” (Lc. XVIII, 32-33). O santo nome de Deus é admirável, porque realiza maravilhas nas suas criaturas, porém cuspiram no rosto de Cristo (Mt. XXVI, 67); é amável, porque não há outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos (At. IV, 12), porém o esbofetearam (Mt. XXVI, 67); é venerável, porque ao nome de Jesus todo joelho se dobra (Fl. II, 10), porém só dobraram o joelho para escarnecer d’Ele (Mt. XXVII, 29); é inefável, porque nenhuma palavra humana o exprime, porém zombaram d’Ele (Mt XXVII, 31).

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus: à semelhança de Cristo, que foi pobre de espírito na terra, buscando somente os bens espirituais para a maior glória do Pai, e a quem os homens negaram que fosse Rei do céu e da terra. Estavam tão ricos de si mesmos que recusaram o Reino de Deus e gritaram: “Não temos outro rei senão César” (Jo. XIX, 15). A única coroa que deram ao Rei dos pobres foi a de espinhos: “Os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha sobre a cabeça” (Jo. XIX, 2).

2. “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt. V, 4)

Se na primeira bem-aventurança são louvados os que dominam o apetite concupiscível quanto aos bens exteriores, na segunda anuncia-se a bem-aventurança dos que vencem o irascível. A virtude exige que o homem controle a sua ira segundo a razão: sem excesso, mas também sem defeito, pois há uma ira justa quando a injustiça exige reação. Ser manso não significa não reagir nunca, nem tudo suportar com passividade covarde. Mansos são os que governam a ira, cumprindo a palavra do Salmista citada por São Paulo: “Irai-vos, e não pequeis” (Sl. IV, 5; Ef. IV, 26).

A mansidão é uma virtude e, como tal, exige esforço da vontade em correspondência à graça de Deus. Por ela o homem domina o irascível, que tenta levá-lo a impor sempre a própria vontade, ainda que irracionalmente. O iracundo quer impor-se e dominar a todos — e, exatamente por isso, acaba por não se impor a ninguém, gerando apenas revolta contra a sua tirania. O manso, ao contrário, tem o senhorio completo das próprias reações: é senhor de si mesmo. Ora, como a palavra “terra” designa também o próprio homem, que da terra foi formado (Gen. II, 7), o que Cristo promete nesta bem-aventurança é, primeiramente, que os mansos serão senhores de si: possuirão a “terra” da própria natureza, da própria alma e do próprio corpo, cumprindo assim o mandato dado a Adão: “Dominai a terra” (Gen. I, 28). E porque quem se possui a si mesmo tudo pode receber de Deus, a promessa abre-se ainda para a “terra dos viventes” (Sl. XXVI, 13), a pátria celeste, herança eterna dos mansos. Os iracundos gostariam de dominar o mundo inteiro; mas, como não dominam sequer a própria ira, nada dominarão. São os mansos, que nada querem impor por capricho nem disputar por interesse, que terão a verdadeira autoridade sobre a terra e sobre os homens.

O dom do Espírito Santo que ajuda os mansos a vencer-se é o dom da piedade, que, apoiado na virtude cardeal da justiça, nos faz prestar a Deus o culto filial e afetuoso de filhos, e respeitar, por amor de Deus, os direitos do próximo, especialmente quando o próximo não tem como defender aquilo a que tem direito. Onde reina a piedade, a ira desordenada não encontra lugar: ninguém se enfurece contra aqueles a quem ama como irmãos diante do Pai comum.

Esta bem-aventurança está conexa à segunda petição do Pai-Nosso: “venha a nós o vosso reino”. Ensina São Tomás que nela pedimos que os pecadores se convertam, que os maus sejam punidos e que a morte seja destruída, isto é, que sejam respeitados os direitos soberanos de Deus e reparadas as injustiças contra Ele perpetradas. Porém os homens foram totalmente ímpios com Cristo e submeteram-no ao reino deste mundo: “Não me respondes? — disse Pilatos — Não sabes que tenho poder para te soltar e poder para te crucificar?” (Jo. XIX, 10). O Justo foi punido brutalmente; o malfeitor, Barrabás, foi solto; e quiseram destruir a própria Vida no madeiro da Cruz. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra: Cristo era manso — “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt. XI, 29); como cordeiro levado ao matadouro, não abriu a boca (Is. LIII, 7) — mas recusaram-lhe o direito de possuir a terra e de dilatar o seu reino. Os homens foram iracundos desde o princípio: negaram-lhe hospedagem ao nascer (Lc. II, 7), e a fúria de Herodes o obrigou a fugir para o Egito (Mt. II, 13-14).

3. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt. V, 5)

As duas primeiras bem-aventuranças referem-se ao domínio do concupiscível e do irascível. Mas pode-se ir além do simples equilíbrio da temperança e da fortaleza: vai-se além quando, juntamente com o exercício das virtudes, são lamentados os pecados cometidos contra elas e, pela penitência, que contraria a inclinação natural de ambos os apetites, chora-se voluntariamente os pecados passados. Quem são, pois, os que choram? São os que, tendo pecado no tocante aos bens terrenos, vivendo para eles e buscando a felicidade nos prazeres da carne, ou tendo querido impor a própria vontade contra a mansidão, se arrependem e choram os seus pecados, porque compreenderam que neles não está a verdadeira felicidade. Choram o mal cometido, e choram porque a penitência é sempre dolorosa e amarga.

São João Crisóstomo ensina que os bem-aventurados que choram neste mundo fazem-no por duas razões: primeira, pelas misérias desta vida; segunda, pelo desejo dos bens celestiais[7]. Bem-aventurados, pois, os que choram os próprios pecados com arrependimento verdadeiro. Mas São Jerônimo diz mais: “Os que choram os seus próprios pecados podem chamar-se bem-aventurados, porém só pela metade; mais bem-aventurados ainda são os que choram os pecados alheios”[8]. Com efeito, quem chora os próprios pecados faz muito bem, mas pode mover-se mais por interesse próprio do que pela glória de Deus; ao passo que quem chora, sincera e desinteressadamente, os pecados alheios, chora pelo mal que o pecador fez à sua própria alma e, principalmente, pela glória de Deus diminuída. Chorar os pecados alheios é fruto do zelo pelas almas e pela honra de Deus ofendida. Foi o que fez Elias no monte Horeb; perguntado por Deus: “Que fazes aqui, Elias?”, respondeu: “Consumo-me de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram a vossa aliança, destruíram os vossos altares e mataram à espada os vossos profetas; e fiquei eu só, e procuram tirar-me a vida” (III Reis XIX, 9-10). E os que assim choram serão consolados: já nesta vida, pela doçura do perdão e da graça; e na outra, quando conhecerem a infinita bondade de Deus e a retidão da sua justiça, aprovando-a inteiramente, pois está escrito: “Alegrar-se-á o justo quando vir a vingança” (Sl. LVII, 11), isto é, o triunfo da justiça divina sobre o mal que ele chorou sem ser ouvido.

O dom do Espírito Santo correspondente é o dom da ciência[9]. Por ciência entende-se aqui o reto juízo sobre as coisas criadas: quem julga retamente as criaturas vê a sua vaidade e o engano de quem nelas pôs o coração, e chora os pecados que por causa delas cometeu. É a ciência dos santos, que faz avaliar cada coisa como Deus a avalia, ordenando-a ao bem divino; ela apoia-se na virtude teologal da fé, que dá a medida verdadeira de tudo.

Esta bem-aventurança está conexa à terceira petição do Pai-Nosso: “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Ensina São Tomás que o homem não deve fiar-se nos próprios juízos, mas aceitar e seguir a vontade de Deus para o seu próprio bem e salvação. Porém o homem fez a sua própria vontade: quis curvar o Céu aos seus desígnios, quis ordenar o bem divino às suas misérias; foi totalmente insipiente. “Que mal fez ele?”, perguntou Pilatos; mas eles gritavam ainda mais: “Seja crucificado!” (Mt. XXVII, 23). Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados: Cristo, no Horto das Oliveiras, sofreu e não foi consolado pelos homens. Disse: “A minha alma está triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo”; e os apóstolos dormiram (Mt. XXVI, 38-40). Às mulheres que o pranteavam no caminho do Calvário, ensinou o verdadeiro pranto: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, mas chorai por vós mesmas e por vossos filhos” (Lc. XXIII, 28); chorai antes os pecados que causam a minha Paixão. E São Pedro, que o negara três vezes, “saiu e chorou amargamente” (Lc. XXII, 62): as suas lágrimas de penitência foram consoladas pelo perdão e coroadas pelo primado confiado; isso enquanto Judas, que teve remorso sem pranto de amor, desesperou. Nas lágrimas de Pedro está o retrato dos bem-aventurados que choram.

4. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt. V, 6)

Removidos os obstáculos da vida voluptuosa, seguem-se as bem-aventuranças da vida ativa. Como expõe São Tomás, a vida ativa consiste principalmente no que prestamos ao próximo: primeiro, a título de dívida, e não é possível dar a cada um o que é seu sem a virtude da justiça. A justiça é a virtude pela qual se possui a vontade firme e estável de dar a cada um aquilo que lhe é devido. Mas a virtude, por si só, cumpre o dever; o dom do Espírito Santo vai além: faz cumprir as obras de justiça com fervente desejo, como o faminto deseja o pão e o sedento a água. Não basta, pois, praticar atos justos: o bem-aventurado tem fome e sede de justiça; deseja-a como o corpo deseja o alimento.

Deve-se lembrar que, na Sagrada Escritura, “justiça” significa também a perfeição de toda a virtude: os “justos” das Escrituras são os santos. Ter fome e sede de justiça significa, portanto, ter apetência de santidade. Quanto mais um homem deseja a virtude, mais graças Deus lhe dará; mas aos que não manifestam desejo algum, menos dar-se-lhes-á e até o pouco que têm ser-lhes-á tirado (cf. Mt. XXV, 29). Como diz São João Crisóstomo, tem fome de justiça quem quer agir segundo a justiça de Deus, e tem sede de justiça quem deseja adquirir a sua ciência; e estes serão saciados, porque “não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt. IV, 4). Os mundanos julgam que é a indústria e o desenvolvimento que produzirão a abundância; Deus ensinou justamente o contrário: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt. VI, 33).

O dom do Espírito Santo correspondente a esta bem-aventurança é, segundo São Tomás, o dom da fortaleza, conexo à virtude cardeal do mesmo nome: pois só uma força sobre-humana permite suportar com paciência todos os sofrimentos que advêm dessa fome e sede (os trabalhos, as renúncias, as incompreensões que o caminho da santidade impõe) e empreender os bens árduos com confiança inabalável na ajuda divina. A fome faz desfalecer, a sede atormenta: é a fortaleza que sustenta o justo até à saciedade prometida.

A petição correspondente é a quarta do Pai-Nosso: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Nela pedimos não só o pão material, mas sobretudo o pão da graça e o próprio Autor da graça, realmente presente na Santíssima Eucaristia, o único pão que sacia a fome de justiça, pois é a própria Justiça substancial que se dá em alimento. E também aqui a Paixão do Senhor manifesta o avesso da bem-aventurança: Aquele que prometeu saciar os famintos de justiça teve fome no deserto (Mt. IV, 2) e sede na Cruz. “Sitio” — “Tenho sede” (Jo. XIX, 28), clamou o Justo; e à sua sede, que era sede de justiça e de almas, os homens responderam com fel e vinagre (Mt. XXVII, 34 e 48). Ele, cuja comida era fazer a vontade do Pai (Jo. IV, 34), foi deixado em jejum de toda consolação, até poder dizer: “Tudo está consumado” (Jo. XIX, 30); isto é, consumada toda a justiça (cf. Mt. III, 15). Por isso mesmo foi Ele saciado na Ressurreição, e com Ele serão saciados todos os que tiverem a sua fome.

5. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt. V, 7)

A vida ativa não se esgota no que devemos ao próximo por estrita justiça: há também os benefícios espontâneos. A virtude da liberalidade manda dar àqueles a quem a razão dita, sejam amigos, parentes, benfeitores; mas o dom, por reverência a Deus, olha somente a necessidade: “Quando deres um jantar, não convides os teus amigos…, mas chama os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (Lc. XIV, 12-13). Isto é propriamente ter misericórdia. A misericórdia é a virtude que nos enche o coração de compaixão pelas misérias alheias: o misericordioso vê a desgraça do outro como própria; o mal alheio lhe dói como se fosse seu.

Como há duas espécies de desgraça que afligem os homens: a miséria material e o pecado, que é a maior desgraça possível neste mundo; há também duas misericórdias: a misericórdia corporal, que socorre os males materiais do próximo, e a misericórdia espiritual, que se aflige com os pecados alheios e procura corrigi-los pelo conselho, pela instrução, pela correção e até pelo castigo. Por isso o Catecismo aponta entre as obras de misericórdia espirituais “ensinar os ignorantes” e “corrigir os que erram”; e é evidente que as obras de misericórdia espirituais são superiores às corporais, como a alma é superior ao corpo.

A misericórdia e a justiça são virtudes inseparáveis: uma não pode subsistir sem a outra. São como os dois arcos de uma ogiva gótica: tirado um, o outro desaba. Diz a Glosa: “Justiça sem misericórdia é crueldade; misericórdia sem justiça é dissipação”. Por isso canta o Salmista: “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” (Sl. LXXXIV, 11); e «verdade» significa aí exatamente a justiça, pois, explica São Tomás, “a justiça de Deus, que estabelece nas coisas a ordem conforme à razão de sua sabedoria, que é a sua lei, com razão se chama verdade; e por isso também entre nós se fala da verdade da justiça”[10].

Como a misericórdia para com o próximo se refere sempre a uma situação concreta, o dom do Espírito Santo que conduz a esta bem-aventurança é o dom do conselho, coadjuvado pela virtude cardeal da prudência: consiste em ver com clareza, pela luz do Espírito, como aplicar os princípios a cada caso particular: que palavra dizer, que socorro prestar, quando corrigir e quando calar. E aos misericordiosos promete-se a misericórdia do próprio Deus: se eles se compadecem dos males que afligem o próximo, Deus terá deles misericórdia ainda maior, pois não se deixa vencer em generosidade. Isto é tão central que Nosso Senhor incluiu no Pai-Nosso, que contém tudo o que devemos pedir, a quinta petição, na qual a nossa misericórdia é posta como medida da que imploramos: “perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.

Na Paixão, o Misericordioso por excelência não alcançou misericórdia dos homens. Ninguém se compadeceu d’Ele: flagelado, coroado de espinhos, esmagado com o madeiro, não recebeu senão escárnios. Mas Ele, do alto da Cruz, exerceu as duas misericórdias supremas: pela corporal, entregou o próprio Corpo; pela espiritual, rogou pelos seus algozes dizendo “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc. XXXIII, 34) e abrindo o Paraíso ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc. XXIII, 43). São Dimas, o bom ladrão, é a primeira testemunha de que os misericordiosos alcançarão misericórdia: teve compaixão do Inocente reconhecendo que “este não fez mal algum” (Lc. XXIII, 41) e alcançou, na mesma hora, a misericórdia infinita.

6. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. V, 8)

As duas últimas bem-aventuranças correspondem à felicidade da vida contemplativa, superior à da vida ativa. Essa felicidade será perfeita e plena no céu; mas já na terra os que praticam a virtude podem gozar de uma certa participação sapiencial da bem-aventurança celeste. Dominadas as paixões do concupiscível e do irascível, vencidas as provas da vida ativa, o homem goza, ainda nesta vida, de um domínio da própria alma que o faz senhor de si e das coisas, as quais passa ele a ver com clareza, sem a distorção das paixões, no valor que realmente têm, em outras palavras, vendo-as como Deus as vê. Nem a paixão lhe deforma o olhar, nem os afetos desregrados lhe falseiam a inclinação da vontade.

Ver tudo com olhar limpo, sem a deturpação da volúpia, sem a distorção da avareza, sem o apego da dominação, ver todos os seres, homens e criaturas, tais quais foram feitos por Deus e para Deus ordenados: eis a pureza de coração. E quem assim vê, vê nas coisas a imagem e os vestígios de Deus: vê no universo criado o espelho do Criador. Podendo-se afirmar que o universo é um conjunto de palavras de Deus, conclui São Boaventura que o universo é um poema; e, sendo um poema, pode ser lido, pois todas as coisas falam de Deus. Mas só é capaz de ler o universo, de ler os seus símbolos, já que o símbolo é “algo inteligível no sensível”, conforme a magistral definição de São Dionísio Areopagita, quem tem o coração reto, o olhar claro e o afeto puro. Para ler as criaturas, é preciso pureza de coração: quem a tem, vê a imagem de Deus nos anjos e nos homens, e os seus vestígios nas demais criaturas.

Hugo de São Vítor nota que Deus deu a Adão três olhos: o olho da carne, o olho da razão e o olho da contemplação[11]. Com o pecado original, o homem perdeu o olho da contemplação, o que tornou necessária a Revelação; ficou com o olho da razão danificado, de modo que só com dificuldade compreende a verdade; e só lhe restou intacto o olho da carne, donde a tendência de crer apenas no que vê. Por isso Cristo chamou bem-aventurados os que, não tendo visto, creram (Jo. XX, 29). Daqui se seguem três maneiras de ver a Deus no universo criado. Primeira: pela luz natural da razão, como define o Concílio Vaticano I, pois é possível chegar ao conhecimento certo da existência de Deus a partir das criaturas[12]; foi o que fez São Tomás com as suas cinco vias, e o que pode fazer todo homem reto diante da ordem e do bem do mundo. Segunda, muito mais perfeita: pela luz da fé, que nos dá a verdade plena e ainda auxilia poderosamente a própria razão, porque a graça aperfeiçoa a natureza. Terceira: pela luz da sabedoria que procede da fé viva, pois pode-se ter fé e viver em pecado (possuindo uma fé morta); mas quem une à fé a virtude vê a Deus nas coisas criadas com um olhar saboroso e conatural. E todas essas maneiras serão superadas pela visão beatífica, quando veremos a Deus face a face (I Cor. XIII, 12): que é a recompensa própria e literal desta bem-aventurança.

O dom do Espírito Santo correspondente é o dom da inteligência, pois a inteligência (intus legere, ler por dentro) é uma forma superior de visão, que penetra o interior das verdades da fé, coadjuvado pela virtude teologal da fé. E a petição conexa é a sexta do Pai-Nosso: “e não nos deixeis cair em tentação”. Pois é a tentação consentida que mancha o coração e obscurece o olhar da alma: cada pecado deposita nos olhos interiores uma camada de poeira, até a cegueira completa. Pedimos, portanto, que Deus não permita sermos vencidos na provação, para que, guardada a pureza do coração, possamos ver a criação com os olhos da fé e por ela subir ao nosso fim último. Na Paixão, os impuros de coração tiveram diante dos olhos o próprio Deus e não O viram. Vendaram-lhe os olhos e, esbofeteando-o, diziam: “Profetiza: quem foi que te bateu?” (Lc. XXII, 64): quiseram cegar Aquele que é a Luz, porque estavam cegos. “Se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória” (I Cor. II, 8). A venda estava, na verdade, sobre os olhos deles.

7. “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt. V, 9)

Paz é a tranquilidade da ordem; não a simples ausência de luta ou de guerra. Julga-se hoje que, havendo tranquilidade, haveria paz; ora, a tranquilidade pode ser causada pela ordem ou pela morte. Num cemitério há tranquilidade, mas não há ordem: há putrefação. Se sequestradores impõem silêncio pelas armas, haverá uma falsa tranquilidade, mas não haverá paz. A tranquilidade da paz é a que nasce da ordem; e a ordem é a reta disposição das partes de um todo para alcançar o seu fim: há ordem quando cada elemento está no seu devido lugar, faz o que deve e recebe aquilo a que tem direito. Ora, fazer o que se deve e dar a cada um o seu é exatamente o ofício da virtude cardeal da justiça: a paz é obra da justiça, opus iustitiae pax (Is. XXXII, 17). É o que ensina Santo Agostinho: “A paz é a tranquilidade da ordem; e a ordem é a disposição que dá a cada coisa o seu lugar, sejam elas iguais ou desiguais. Assim como não há ninguém que não queira alegrar-se, também não há ninguém que não queira a paz: até os que fazem a guerra não buscam outra coisa senão uma paz gloriosa”[13].

Pacífico, portanto, não é o que simplesmente evita conflitos, mas o que faz a paz, estabelecendo-a como fruto da ordem e da justiça. Um corpo sem saúde não tem paz física, porque no estado doentio os órgãos ou não fazem o que devem ou não recebem o que necessitam; e quando o mal é um tumor, só a intervenção cirúrgica devolve a saúde: o bisturi traz a paz do corpo. Do mesmo modo, na sociedade, muitas vezes só se restabelece a paz pela espada que restaura a justiça e a ordem. Por isso dizia Santa Joana d’Arc: “A paz só se obterá na ponta da lança”; e ela era uma guerreira pacífica, a quem as vozes celestes chamavam fille de Dieu, filha de Deus: título que é precisamente a recompensa prometida aos pacíficos por esta Bem-aventurança. E assim como há uma paz social, há uma paz da alma: explica Santo Agostinho que são pacíficos os que, tendo ordenado todos os movimentos da alma, sujeitando-os à razão e a razão ao império da fé, mantêm sob domínio as concupiscências da carne. Esta é a paz que Deus dá na terra aos homens de boa vontade (Lc. II, 14), aos que querem verdadeiramente fazer a vontade de Deus. Só quem tem paz em si mesmo pode dá-la aos demais; e os que, vivendo em paz consigo, procuram ordenar o próximo para que também a tenha, agem com todos como verdadeiros irmãos, vivem como numa família, e por isso têm a Deus por Pai: o prêmio dos que fazem a paz é serem chamados, e serem de fato, filhos de Deus, pois a adoção filial consuma a semelhança com Aquele que é o Deus da paz.

O dom do Espírito Santo correspondente é o dom da sabedoria, pois pertence ao sábio ordenar, e a paz é a tranquilidade da ordem[14]; e a virtude conexa é a virtude teologal da caridade, pela qual nos unimos a Deus, nosso fim último e sumo bem, e ao próximo em Deus. A petição correspondente é a sétima e última do Pai-Nosso: “mas livrai-nos do mal”, pela qual pedimos que nenhum mal nos arranque dessa ordem que nos une a Deus, e que sejamos guardados na paz até o fim. Na Paixão, “Aquele que é a nossa paz” (Ef. II, 14) e que viera “pacificar, pelo sangue da sua cruz, tudo o que há na terra e no céu” (Col. I, 20) recebeu dos homens a guerra. E o mundo produziu, ao pé da Cruz, a sua paródia diabólica de paz: “naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois antes eram inimigos entre si” (Lc. XXIII, 12), manifestando a falsa paz dos que se reconciliam na iniquidade. Ao Pacífico negaram até o título de Filho: “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mt. XXVII, 40). Mas precisamente ali, no supremo ato de obediência ordenadora, a bem-aventurança se cumpriu diante de uma testemunha inesperada: o centurião, vendo-o expirar, confessou: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc. XV, 39).

8. “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à justiça, porque deles é o reino dos céus” (Mt. V, 10)

A oitava bem-aventurança não acrescenta uma nova matéria às sete precedentes: ela é, ensina São Tomás, “uma certa confirmação e manifestação de todas as anteriores. Pois pelo fato de alguém estar confirmado na pobreza de espírito, na mansidão e nas demais, segue-se que nenhuma perseguição o fará afastar-se delas”[15]. A perseguição é a pedra de toque das bem-aventuranças: enquanto tudo corre bem, não se sabe ao certo se o homem é pobre de espírito ou apenas moderado; manso ou apenas tranquilo; pacífico ou apenas acomodado. Mas quando a fidelidade à justiça, isto é, à santidade, à lei de Deus, à ordem querida por Ele, começa a custar os bens, a honra, a liberdade e a própria vida, então se manifesta quem possui de verdade, e de modo consumado, as sete bem-aventuranças. Por isso o seu vértice é o martírio, testemunho supremo; e por isso a recompensa prometida retorna à da primeira bem-aventurança: “deles é o reino dos céus”. Fecha, assim, o círculo e mostra que todas as recompensas intermediárias (possuir a terra, ser consolado, ser saciado, alcançar misericórdia, ver a Deus, ser filho de Deus) são aspectos de um único e mesmo Reino.

Note-se bem: não é bem-aventurada qualquer perseguição, mas a que se sofre por amor à justiça. “Se sofreis alguma coisa pela justiça, bem-aventurados sois” (I Ped. III, 14); mas quem padece pelos próprios crimes ou pela própria soberba não é mártir, é réu. Sofrer por amor à justiça é o destino normal, e não excepcional, de quem leva a sério as bem-aventuranças, pois o mundo, que ordenou a sua falsa felicidade sobre os prazeres, a riqueza e o orgulho, não pode suportar a acusação viva que é a existência de um santo: “Todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus padecerão perseguição” (II Tim. III, 12). O próprio Senhor o prometeu como herança: “Se me perseguiram a mim, também vos perseguirão a vós” (Jo. XV, 20).

E aqui o paralelo com a Paixão, que acompanhou cada bem-aventurança, atinge o seu cume: Cristo é o Perseguido por amor à justiça por excelência; perseguido desde o berço pela espada de Herodes até o Calvário pela sentença de Pilatos; o Justo do Salmo XXI, cercado por cães e touros, cujas mãos e pés foram traspassados; Aquele de quem os ímpios do livro da Sabedoria disseram: “Armemos ciladas ao justo, porque nos é incômodo e se opõe às nossas obras” (Sb. II, 12). Todas as bem-aventuranças que os homens contradisseram na sua Paixão, Ele as viveu em grau infinito: pobre de espírito sob a coroa de espinhos, manso diante de Pilatos, chorando sobre Jerusalém, sedento de justiça na Cruz, misericordioso com os algozes, puro de coração diante dos cegos, pacífico entre os violentos, perseguido até a morte, e, por isso mesmo, exaltado, recebendo o Reino e o Nome que está acima de todo nome (Fl. II, 9). As bem-aventuranças não são, afinal, senão o autorretrato de Cristo; e o mundo, respondendo a cada uma com o seu contrário exato, escreveu sem querer, na Paixão, a prova da sua verdade.

IV. Quadro sinóptico das correspondências

O quadro seguinte recolhe toda a arquitetura aqui exposta: cada bem-aventurança com a virtude que lhe é conexa, o dom do Espírito Santo que a produz, a petição do Pai-Nosso em que a pedimos e a recompensa prometida.

Bem-aventurançaVirtude conexaDom do Espírito SantoPetição do Pai-NossoRecompensa
1. Pobres de espíritoTemperança (e humildade)Temor de DeusSantificado seja o vosso nomeO reino dos céus
2. MansosJustiçaPiedadeVenha a nós o vosso reinoPossuirão a terra
3. Os que choramFé (reto juízo das criaturas)CiênciaSeja feita a vossa vontadeSerão consolados
4. Fome e sede de justiçaFortaleza (e justiça)FortalezaO pão nosso de cada dia nos dai hojeSerão saciados
5. MisericordiososPrudência (e liberalidade)ConselhoPerdoai-nos as nossas dívidasAlcançarão misericórdia
6. Puros de coraçãoFéInteligênciaNão nos deixeis cair em tentaçãoVerão a Deus
7. PacíficosCaridadeSabedoriaLivrai-nos do malFilhos de Deus
8. Perseguidos pela justiçaSíntese e confirmação de todas as precedentes——O reino dos céus

V. Conclusão

As bem-aventuranças estão, portanto, colocadas em ordem perfeita e profunda: sobem da purificação dos apetites (primeira, segunda e terceira) ao aperfeiçoamento da vida ativa (quarta e quinta), e, desta, aos frutos que antecipam a contemplação (sexta e sétima), coroando-se na fidelidade provada pela perseguição (oitava). Nessa escada, nada é deixado ao acaso: cada degrau apoia-se numa virtude, é elevado por um dom do Espírito Santo e é pedido numa petição da oração que o próprio Senhor nos ensinou. Quem reza o Pai-Nosso com atenção pede, sem talvez o saber, as oito bem-aventuranças; quem recebe os dons do Espírito recebe a capacidade de vivê-las; e quem as vive já traz em si, começada, a felicidade do céu.

Elas são, ao mesmo tempo, o retrato de Cristo e o programa da santidade cristã. Por isso a Santa Igreja no-las põe diante dos olhos na festa de Todos os Santos: os santos não são outra coisa senão as bem-aventuranças realizadas na diversidade dos tempos e das vocações. E o mundo continua a responder-lhes com a mesma aversão e contradição com que respondeu na Paixão: opondo aos pobres de espírito a avareza; aos mansos, a violência; aos que choram, a frivolidade; aos famintos de justiça, a iniquidade instalada; aos misericordiosos, a dureza; aos puros, a impureza; aos pacíficos, a desordem; e aos perseverantes, a perseguição. Por isso mesmo cada geração católica é chamada a escolher de novo entre as duas felicidades: a que o mundo promete e não dá, e a que Cristo proclamou no monte e selou na Cruz. Peçamos, pois, cada dia, nas sete petições do Pai-Nosso, os sete dons do Espírito Santo; e o Espírito, que é o Consolador prometido aos que choram, há de operar em nós as bem-aventuranças, até que a esperança se converta em posse e vejamos a Deus face a face, no Reino que é dos pobres, dos perseguidos, e de todos os que tiverem tido fome e sede da sua justiça.

Notas

[1] Platão, Fedro, 246a-254e (a alegoria da parelha alada); sobre a harmonia das virtudes na alma, cf. República, IV, 435c-444e.

[2] Santo Agostinho, De sermone Domini in monte, II, 11, 38 (PL 34, 1286). É de Santo Agostinho a primeira articulação sistemática entre as sete bem-aventuranças, os sete dons de Isaías 11, 2-3 e as sete petições da Oração Dominical.

[3] S. Th., I-II, q. 69, a. 3, corpus. Tradução nossa a partir do texto latino da edição leonina.

[4] S. Th., I-II, q. 69, a. 3, ad 5. Tradução nossa.

[5] Santo Agostinho, De sermone Domini in monte, I, 1, 3: os pobres de espírito são os humildes, “os que não são inchados, os que não são soberbos”.

[6] Cf. S. Th., II-II, q. 19, a. 9 e a. 12, onde se mostra que o dom do temor corresponde à primeira bem-aventurança e se conecta, quanto ao seu efeito moderador dos prazeres, à virtude da temperança.

[7] São João Crisóstomo, Homilia XV in Matthaeum, 3 (PG 57, 227).

[8] São Jerônimo, apud São Tomás, Catena Aurea in Matthaeum, cap. V (vol. I, p. 115 da edição brasileira).

[9] Cf. S. Th., II-II, q. 9, a. 4: a terceira bem-aventurança corresponde ao dom da ciência, porque o reto juízo sobre as criaturas faz ver a sua vaidade e move ao pranto pelos pecados cometidos por causa delas.

[10] S. Th., Ia, q. 21, a. 2, corpus.

[11] Hugo de São Vítor, De sacramentis christianae fidei, I, 10, 2 (PL 176, 329).

[12] Concílio Vaticano I, Const. dogm. Dei Filius, cap. 2 (DH 3004): Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas.

[13] Santo Agostinho, De civitate Dei, XIX, 13 (PL 41, 640).

[14] Cf. S. Th., II-II, q. 45, a. 6: a sétima bem-aventurança corresponde ao dom da sabedoria, pois pertence ao sábio ordenar, e a paz é a tranquilidade da ordem.[15] S. Th., I-II, q. 69, a. 3, ad 5.

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O Antoniano