[Sermão] A lei que obriga e o amor que cumpre

Fra Angelico Christ the Judge WGA00679

Sermão para o XIII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 23 de agosto de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

A oração que nossa Santa Romana Igreja faz na coleta da Missa resume, em poucas palavras, um aparente paradoxo que merece a nossa atenção. Pedimos a Deus o aumento da fé, da esperança e da caridade; e pedimos, logo em seguida, que mereçamos alcançar aquilo que Ele promete: ut mereámur assequi quod promíttis (“para que mereçamos alcançar o que prometeis”). Mas não é Deus quem promete? Não é um dom gratuito e imerecido? Ora, meus caros, se aquilo é promessa, porque haveríamos de merecer? E se é preciso merecê-lo, com que direito lhe chamamos promessa? Essa tensão entre o merecimento e a gratuidade transparece na liturgia de hoje, e o Apóstolo, na epístola aos Gálatas, dá-nos a chave para a resolver.

Comecemos por onde São Paulo começa. As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência, e o Apóstolo detém-se com surpreendente minúcia sobre uma única palavra: non dicit: Et semínibus, quasi in multis; sed quasi in uno: Et sémini tuo, qui est Christus (“não diz: E às descendências, como se fossem muitas; mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo”). Guardemos isto: a Promessa de Deus não é uma coisa, é uma Pessoa. O que é prometido é o Messias. Quem a recebe não recebe um bem qualquer; recebe Cristo.

E essa promessa, observa o Apóstolo, precedeu a Lei na história. A ordem não é indiferente. Deus não começou a sua obra por mandamentos, mas por um dom gratuito, e uma disposição posterior não anula a anterior. Daí a conclusão: si ex lege heréditas, iam non ex promissióne (“se a herança vem da Lei, já não vem da promessa”). Reparemos na palavra herança. Um servo recebe salário ao fim do mês; um filho recebe a herança do pai. Ambos entram na mesma casa, mas por títulos que não se confundem. E há entre nós, meus caros, e há sobretudo entre os fiéis mais piedosos, uma tentação persistente de tratar a vida cristã como um contrato: tantas orações, tantas obras, tanto de retorno esperado. Quem assim reza acabará por não conhecer Deus como Pai, mas como patrão; ou, pior, como um prestador de serviços já pagos.

Perguntará então alguém, como pergunta o próprio Apóstolo: quid ígitur lex? (“para que serve, pois, a Lei?”). Propter transgressiónes pósita est (“Foi estabelecida por causa das transgressões”). A Lei veio revelar o pecado como pecado, dar-lhe nome, tirá-lo da penumbra em que a consciência o esconde. Mas revelar não é curar. O espelho mostra-nos o rosto sujo e não o lava; o diagnóstico do médico nomeia a doença sem a curar. É o que São Paulo afirma com todo o rigor: si enim data esset lex, quae posset vivificáre, vere ex lege esset iustítia (“pois se tivesse sido dada uma lei capaz de vivificar, verdadeiramente a justiça viria da Lei”).

Mas não foi dada uma lei capaz de vivificar. E a Escritura, diz-nos ele, conclúsit ómnia sub peccáto (“encerrou tudo sob o pecado”), não por crueldade, mas por misericórdia: Deus fecha todas as portas falsas para que reste aberta somente a porta verdadeira, que é a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Santo Agostinho resumiu-o numa frase que vale por um tratado inteiro: lex data est, ut grátia quaererétur; grátia data est, ut lex implerétur (“a Lei foi dada para que se buscasse a graça; a graça foi dada para que se cumprisse a Lei”).

Guardemo-nos, porém, de tirar daqui a conclusão que tiraram os heresiarcas do século XVI. O próprio Apóstolo se antecipa à objecção: lex ergo advérsus promíssa Dei? Absit (“será então a Lei contrária às promessas de Deus? De modo nenhum”). Cessou a Lei cerimonial de Israel; a lei moral permanece inteira, e Nosso Senhor, longe de a atenuar, deixou-a ainda mais severa e exigente no Sermão da Montanha. O que São Paulo nega não é que devamos obedecer, mas que a obediência, por si mesma, tenha força para nos dar a vida.

E aqui, meus caros, voltemos à coleta, porque ela contém a solução em quatro palavras: fac nos amáre quod prǽcipis(“fazei-nos amar o que ordenais”). Não pedimos que Deus nos faça cumprir o que manda; pedimos que nos faça amá-lo. Nisto está toda a distância entre a Antiga e a Nova Aliança: uma lei escrita em tábuas de pedra, exterior ao homem, e uma lei escrita no coração pela graça. Porque a Lei Nova, ensina São Tomás, é principalmente a própria graça do Espírito Santo; a letra, se a graça não estiver nela, permanece letra e mata, unicamente apontando a transgressão, o pecado. E é por isso que o Apóstolo pode escrever aos Romanos que plenitúdo legis est diléctio (“a plenitude da Lei é o amor”).

Fica assim desfeito aquele paradoxo inicial. Merecemos, sim, e nossa Santa Madre Igreja não teme dizê-lo contra os que negam o mérito; mas merecemos com aquilo que recebemos. Santo Agostinho, ainda uma vez diz: cum Deus corónat mérita nostra, nihil áliud corónat quam múnera sua (“quando Deus coroa os nossos méritos, não coroa senão os seus próprios dons”). Entre o erro de Pelágio, que quer merecer sem a graça, e o erro de Lutero, que quer a graça sem mérito, esta breve oração romana mantém-se de pé, e ensina-nos mais do que muitos volumes.

Vejamos agora como o Evangelho de hoje expõe em ato aquilo que a epístola explicou. Dez leprosos param ao longe e clamam: Iesu praecéptor, miserére nostri (“Jesus, Mestre, tende piedade de nós”). Nosso Senhor manda-os aos sacerdotes, e pelo caminho ficam limpos. Notemos bem: os nove fizeram exatamente o que lhes fora determinado. Cumpriram a prescrição da Lei, apresentaram-se ao sacerdote como o Levítico determinava, e obtiveram o que pediam. Do lado da obediência, nada lhes falta. E, contudo, é por eles que Nosso Senhor pergunta, com uma tristeza que devia tocar-nos: et novem ubi sunt? (“e os nove, onde estão?”).

Um só voltou, e era samaritano, alienígena (“estrangeiro”), homem sem título legal nenhum, de fora da Aliança. Dos nove diz o texto que foram mundáti (“purificados”); a este, e só a este, diz o Senhor: fides tua te salvum fecit (“a tua fé te salvou”). Nove ficaram com a saúde do corpo; um levou consigo de bônus a salvação da alma. E reparemos em um detalhe: aquele regresso não lhe fora mandado. Cristo dissera-lhe que fosse aos sacerdotes, e ele volta atrás. É esse o sinal próprio da caridade, que excede sempre o preceito, porque quem ama não se contenta com o mínimo necessário. E, todavia, não desobedeceu: foi ao Sacerdote verdadeiro e eterno, e prostrou-se ante pedes eius (“a seus pés”). Fez mais do que a Lei mandava justamente porque amava aquilo que a Lei mandava amar.

Peçamos, pois, com nossa Santa Romana Igreja, o aumento das três virtudes teologais, que não são luxo de almas escolhidas, mas o próprio organismo essencial da vida cristã: pela fé recebemos a Promessa, na esperança a aguardamos e na caridade já a possuímos em penhor. E façamos, antes de nos aproximarmos deste altar, uma pergunta honesta a nós mesmos. Há uma religião exata, pontual, escrupulosamente cumprida, e estéril, porque nunca voltou atrás para agradecer; e há a daquele único que voltou. A pergunta do Senhor não se calou com os nove leprosos: ela permanece aberta sobre cada dia de nossa vida. Conceda-nos Ele ouvir um dia, dirigida a cada um de nós, a palavra com que despediu o samaritano: surge, vade: quia fides tua te salvum fecit (“levanta-te, vai: a tua fé te salvou”).

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