[Sermão] O bom combate até a coroa eterna

Stefan lochner last judgement circa 1435

Sermão para o XXIV Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Saint Louis-MO, EUA,
23 de novembro de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

As palavras do Evangelho de hoje ressoam com força particular neste último domingo do ano litúrgico: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”. Enquanto o ciclo sagrado se encerra e nos preparamos para adentrar o santo tempo do Advento, nossa santa Madre Igreja, em sua sabedoria milenar e cuidado materno, coloca diante de nossos olhos a realidade suprema que deve orientar toda nossa existência: a eternidade que nos aguarda.

Não há verdade mais certa que esta, meus caros: cada respiração nos aproxima daquele momento tremendo em que compareceremos ante o tribunal de Cristo. E, no entanto, não há verdade mais esquecida em nossos dias de apostasia generalizada. Vivemos como se fôssemos eternos neste vale de lágrimas, enquanto somos apenas peregrinos caminhando para nossa verdadeira pátria.

I. A Meditação sobre nosso destino eterno

Meditemos sobre as duas eternidades que se abrem diante de cada alma. De um lado, a felicidade sem fim dos eleitos; de outro, o tormento eterno dos réprobos, onde “haverá choro e ranger de dentes”. Entre estas duas eternidades não existe meio termo, não há segunda chance.

Santo Agostinho adverte-nos: “Teme Aquele que pode lançar corpo e alma no inferno.” Não o demônio, que apenas atormenta; não os homens, que podem matar apenas o corpo; mas Deus, o Juiz justo, cuja sentença ecoa pela eternidade: ou “Vinde, benditos de meu Pai”, ou “Apartai-vos de mim, malditos”.

Quando será pronunciada esta sentença? Hoje, talvez. Amanhã, possivelmente. “Hodie si vocem eius audieritis” (Sl. XCIV, 8; Heb. III, 15), hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais vossos corações. São Gregório Magno exclama: “Que loucura adiar para amanhã o que deve ser feito hoje, quando não sabemos se teremos um amanhã!”

A parábola das virgens nos adverte: as imprudentes também esperavam o esposo, também tinham lâmpadas. Faltou-lhes o óleo da perseverança, e ouviram aquelas palavras terríveis: “Não vos conheço”, “nescio vos”.

II. Nosso combate espiritual em tempos de apostasia

Meus caros, vivemos tempos preditos pelas Escrituras, tempos em que “muitos se escandalizarão”. A apostasia não vem apenas de fora, dos inimigos declarados da Cruz, mas de dentro, daqueles que deveriam ser guardiões da fé. O modernismo, essa síntese de todas as heresias como bem definiu São Pio X, infiltrou-se por toda parte, corrompendo a doutrina, deformando a liturgia, destruindo a disciplina.

Contra estes inimigos da Cruz de Cristo, devemos empunhar as armas da militia Christi, do exército de Cristo. E qual é nossa primeira arma? A fidelidade inabalável à Tradição, expressa de modo sublime em nossa adesão exclusiva e inabalável à Missa de sempre. “Lex orandi, lex credendi”, a lei da oração é a lei da fé. Ao guardarmos a liturgia tradicional, preservamos a fé integral. Quando assistimos à Missa de nossos pais, dos mártires, dos santos de todos os séculos, bebemos na fonte pura da graça, não contaminada pelas inovações do orgulho do homem.

Lembremo-nos dos mártires da Inglaterra elisabetana, que preferiram o cadafalso a abandonar a Missa católica. Recordemos os heróis da Vandéia, que morreram gritando “Viva Cristo Rei!” enquanto defendiam seus sacerdotes e altares. Estes são nossos modelos no combate espiritual. Não nos pedem o sangue, ao menos ainda, mas pedem nossa firmeza, nossa fidelidade, nosso testemunho destemido diante de um mundo que odeia Cristo e sua santa Igreja.

Contudo, meus caros, este combate deve ser travado com uma arma que o demônio não pode suportar: a misericórdia. “Misericordia Domini super omnia opera eius”, a misericórdia do Senhor está sobre todas as suas obras. São João Crisóstomo nos ensina que o demônio foge da alma misericordiosa como as trevas fogem da luz. Por quê? Porque a misericórdia é o reflexo mais perfeito de Deus nesta terra, e onde Deus habita, o demônio não pode permanecer.

Combatamos, sim, o erro com todas as nossas forças, mas amemos o pecador com toda a caridade de Cristo. Denunciemos a heresia, mas abramos nossos corações aos hereges arrependidos. Lutemos contra a apostasia, mas oremos pela conversão dos apóstatas. A caridade cobre multidão de pecados e desarma os inimigos mais ferozes. Quantas almas se perderam porque encontraram cristãos orgulhosos, duros, que queriam ser mais implacáveis que Deus, preocupando-se somente em quererem estar certos! E quantas se salvaram porque encontraram um reflexo do Coração misericordioso de Jesus, firme na verdade, ardente na caridade e suave na misericórdia!

Este é o paradoxo cristão: sermos fortes na doutrina e suaves com as pessoas; inflexíveis com o erro e compassivos com os que erram; guerreiros da verdade e ministros da misericórdia. Assim combateram os santos, assim devemos combater nós.

III. A graça da perseverança final

“Aquele que perseverar até o fim será salvo.” Eis a promessa e o desafio. A perseverança final é dom gratuito de Deus, graça das graças, coroa de todas as virtudes. Não basta começar bem; é necessário terminar bem. Não basta ter sido fervoroso na juventude; é preciso morrer na graça de Deus.

São Bernardo nos adverte que a perseverança não se conquista em um dia de fervor, mas na fidelidade cotidiana às pequenas coisas. É no cumprimento diário de nossos deveres de estado, na paciência com as cruzes ordinárias, na fidelidade às orações habituais que se forja a perseverança final. Quantos começaram com grande entusiasmo e terminaram na tibieza! Quantos prometeram fidelidade e traíram na primeira dificuldade!

Quais são os meios que nossa santa Madre Igreja nos oferece para alcançar esta graça suprema? Primeiro, a frequência aos sacramentos. A confissão regular que nos purifica do pecado, a comunhão frequente que nos fortalece com o próprio Corpo de Cristo. Segundo, a devoção filial à Santíssima Virgem. São Luís Maria Grignion de Montfort nos assegura que é moralmente impossível que se perca um verdadeiro devoto de Maria. Ela é a Mãe da perseverança, o refúgio dos pecadores, a esperança dos desesperados. Terceiro, a meditação diária dos Novíssimos, morte, juízo, inferno e paraíso. Quem medita nestas verdades eternas não peca facilmente. Quarto, a prática constante das obras de misericórdia corporais e espirituais.

“In hoc signo vinces”, neste sinal vencerás. O sinal da Cruz deve marcar toda nossa vida. Carregar a cruz diária com paciência, sem murmurações, unindo nossos sofrimentos aos de Cristo, eis o caminho seguro da perseverança. Cada dor oferecida, cada humilhação aceita, cada tentação vencida é mais um passo rumo à coroa da glória. São Paulo, ao fim de sua vida, pôde exclamar com santa confiança: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Resta-me a coroa da justiça.”

Peroração

Caríssimos, eis o programa de vida católica: meditar continuamente em nossa eternidade, para não sermos surpreendidos pela morte; combater o bom combate da fé com as armas invencíveis da tradição e da misericórdia; perseverar dia após dia, hora após hora, até o último suspiro, na graça santificante.

Que importará, na hora do juízo, termos sido ricos ou pobres neste mundo? Que valor terão as honras humanas quando estivermos diante do Juiz eterno? Que consolo nos restará senão o de haver combatido fielmente pelos direitos de Deus e de sua Igreja? A Missa de sempre, este tesouro inestimável que defendemos contra toda inovação, é nosso sustento nesta peregrinação terrestre. Nela encontramos a força para o combate, a luz para não nos desviarmos, o pão dos fortes para perseverarmos.

Meus caros, o tempo é breve, a eternidade é longa. Escolhamos hoje a quem queremos servir. Que Maria Santíssima, Auxiliadora dos Cristãos e Refúgio dos Pecadores, nos alcance a graça final da perseverança. Que no dia tremendo do Juízo, possamos ouvir, não a sentença terrível da condenação, mas aquelas palavras benditas pelas quais suspira nossa alma: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo.”

Comentários

Uma resposta para “[Sermão] O bom combate até a coroa eterna”

  1. Edvaldo Sousa Vieira

    Excelente Homilia. Sua Benção Padre Marcos.
    Deus lhe abençoe sempre.

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