[Sermão] A voz que clama, ou A firmeza de São João Batista na defesa da moral e da verdade

Giovanni Fattori St John the Baptist rebuking Herod (MeisterDrucke 287218)

Sermão para a Festa da Natividade de São João Batista
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 24 de junho de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja celebra hoje o nascimento daquele que o próprio Salvador chamou de “o maior entre os nascidos de mulher”. São João Batista, o Precursor, cuja voz ecoou no deserto da Judeia como um clarim divino, convocando os homens à conversão e ao arrependimento. Mas não foi apenas no deserto que sua voz se fez ouvir: foi também nos palácios, diante dos poderosos, proclamando sem temor a verdade eterna que não se curva às conveniências humanas.

A figura do santo que hoje veneramos ergue-se diante de nós como modelo sublime da firmeza cristã na defesa da lei natural e da verdade revelada. Em tempos de apostasia das nações como são os nossos, quando a confusão dos espíritos obscurece os princípios mais elementares da ordem moral, a lição de São João Batista ressoa com particular urgência.

Consideremos, pois, meus caros conspícuos, o episódio que custou ao Precursor a própria vida. Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia, havia tomado para si Herodias, esposa de seu irmão Filipe, vivendo em escandaloso concubinato que violava tanto a lei mosaica quanto a lei natural inscrita no coração humano. Era um crime que clamava aos céus, perpetrado não em segredo, mas ostensivamente, com o agravante de provir daquele que deveria dar exemplo aos súditos.

Que fez então São João Batista? Poderia ter-se calado, como tantos outros. Poderia ter considerado que não lhe competia julgar os atos dos poderosos. Poderia ter raciocinado que sua missão era puramente espiritual, sem interferência nos assuntos temporais. Poderia considerar imprudente arriscar o seu ministério para denunciar mais um crime de uma figura de vida podre. Poderia justificar que seria uma denúncia inútil e arriscada. Mas não: movido pelo Espírito Santo e pela reta consciência, e sabendo que “a verdade não conhece pessoa; ela fala igualmente ao rei e ao súdito”, como ensina São João Crisóstomo, dirigiu-se ao tetrarca e, sem rodeios nem diplomacias mundanas, declarou-lhe: “Não te é lícito ter a mulher de teu irmão.”

Aqui reside, meus caros, a primeira lição que o Batista nos oferece: a verdade moral não admite acomodações nem contemporizações. Como ensina o Doutor Angélico, “a lei natural não é outra coisa senão a participação da lei eterna na criatura racional”. Esta lei, gravada por Deus no coração humano desde a criação, não se submete às flutuações da opinião pública nem às pressões do poder temporal. O que é contrário à ordem estabelecida pelo Criador permanece contrário, independentemente de quem o pratique ou quantos o aprovem.

São João sabia perfeitamente os riscos que corria. Conhecia o caráter violento de Herodes e a influência nefasta de Herodias. Não ignorava que sua palavra poderia custar-lhe a liberdade e, eventualmente, a vida. Contudo, como observa São João Crisóstomo, “João não temia a morte, mas temia ofender a Deus pelo silêncio”. Preferiu obedecer a Deus antes que aos homens, cumprindo assim o preceito apostólico que deve nortear toda consciência cristã retamente formada.

A prisão, é claro, veio, como era previsível. Mas nem o cárcere pôde silenciar a voz que Deus havia constituído para preparar os caminhos do Senhor. Mesmo encarcerado, São João continuou a ser uma reprovação viva ao pecado de Herodes, uma consciência que o acusava sem descanso. Por isso Herodias não encontrou paz enquanto o Precursor permaneceu vivo, até conseguir, por meio de uma dança lasciva e do juramento estúpido, ébrio e imprudente do tetrarca, a cabeça do santo numa bandeja.

Assim, caríssimos, consumou-se o martírio daquele que preferiu perder a vida terrena a comprometer a verdade eterna. Assim selou-se com sangue o testemunho de quem não quis ser cúmplice, nem pelo silêncio, da corrupção moral dos que governavam. Bem dizia Santo Agostinho: “Remove a justiça, e que são os reinos senão bandos de ladrões?” O poder sem a retidão moral torna-se tirania, e contra ela deve erguer-se sempre a voz da consciência cristã.

Que nos ensina, pois, meus caros, este exemplo glorioso em nossa época conturbada? Ensina-nos, em primeiro lugar, que a defesa da lei natural não é opcional para o cristão. Quando os fundamentos da ordem moral são atacados, quando as instituições sagradas são profanadas, quando se pretende chamar bem ao mal e mal ao bem, não podemos refugiar-nos numa neutralidade cômoda, numa espiritualidade desencarnada, ou numa abjeta prudência de uma insana laicidade. Como declarou São Pio X, “a Igreja não pode transigir com o erro, seja qual for a forma que revista”, e nós, como filhos da Igreja, devemos seguir este mesmo princípio.

Ensina-nos, em segundo lugar, que a verdade deve ser proclamada com caridade, mas também com firmeza. São João não insultou Herodes nem o humilhou publicamente; limitou-se a enunciar o princípio moral violado. Contudo, fê-lo sem ambiguidades, sem meias palavras, sem os subterfúgios que frequentemente empregamos em nossa covardia para evitar o confronto com o erro. Recordemos as palavras de Leão XIII: “a liberdade verdadeira é a faculdade de fazer o bem; a licença de fazer o mal é corrupção da liberdade”. Não há verdadeira liberdade no silêncio cúmplice diante da injustiça.

Ensina-nos, finalmente, que o sacrifício é parte integrante do testemunho cristão. Não podemos esperar que a defesa da verdade seja sempre recompensada neste mundo com o aplauso dos homens. Pelo contrário: devemos estar preparados para o opróbrio, para a perseguição, para a incompreensão, até mesmo por parte daqueles que deveriam ser nossos aliados naturais na defesa dos valores eternos.

São João Batista não era sacerdote no sentido levítico, e, mais que isso, era profeta. Sua missão não se limitava ao anúncio do Messias vindouro, mas estendia-se à denúncia profética do pecado, onde quer que se manifestasse. Nós, meus caros, hoje, em meio a uma sociedade apóstata devemos como cristão ser outros Cristos. Como cristãos, temos parte, cada um segundo seu estado, nesta missão profética de Cristo, missão de proclamar a verdade e condenar o erro. Pelo batismo, fomos constituídos, como cristãos, profetas, sacerdotes e reis. E a função profética implica, necessariamente, o anúncio da verdade e a denúncia do erro.

Isto não significa que devamos buscar o confronto desnecessário ou que devamos julgar temerariamente as intenções alheias. Significa, sim, que não podemos ser espectadores silenciosos quando os princípios fundamentais da ordem cristã são negados ou ridicularizados. Significa que temos o dever de formar nossas consciências segundo a doutrina de sempre de nossa Santa Madre Igreja e de agir em conformidade com esta formação, custe o que custar.

Que o exemplo de São João Batista nos inspire, pois, à prática heróica das virtudes cristãs. Que sua intercessão nos obtenha a graça da fortaleza necessária para permanecermos fiéis à verdade, mesmo quando ela se tornar incômoda ou impopular. Como bem disse Santo Agostinho, “a verdade é como um leão; não precisas defendê-la. Solta-a apenas; ela se defenderá sozinha”. Que sua voz continue a ecoar em nossos corações, chamando-nos à conversão constante e ao testemunho corajoso da fé que professamos. “Vox clamantis in deserto” – a voz que clama no deserto. Que este deserto de nossos tempos, árido de verdade e sedento de caridade, encontre em nós ecos daquela voz profética que não se calou diante do erro nem se curvou diante do poder injusto.

Comentários

3 respostas para “[Sermão] A voz que clama, ou A firmeza de São João Batista na defesa da moral e da verdade”

  1. Marcel Camboim Gonçalves

    Glorioso São João Batista, ensina-me um pouco da rua perseverança e muito da tua coragem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

  2. José Macedo

    Excelentíssimo Sr. Padre Ricardo

    Muitíssimo obrigado por este excelente artigo sobre São João Batista!

    Deus o abençoe!

    Com superlativos cumprimentos

    José Macedo

  3. Gabriel

    Excelente o comentário de Vsa. Rvma.! Conheci agora o site, e fico agradecido de poder ler vossas reflexões. Salve Maria.

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