[Sermão] Rorate coeli: o céu e a terra na obra da Redenção

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Sermão para o IV Domingo do Advento
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 21 de dezembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Rorate coeli desuper, et nubes pluant Justum; aperiatur terra, et germinet Salvatorem.
(Is. XLV, 8)

Caríssimos fiéis,

Estamos às portas do Natal. Nossa santa Romana Igreja, neste quarto e último domingo do Advento, canta as palavras do profeta Isaías: Rorate coeli desuper, Destilai, ó céus, lá do alto, e as nuvens chovam o Justo; abra-se a terra e germine o Salvador.

Contemplemos atentamente esta figura profética, meus caros, pois nela está contida toda a economia da nossa salvação. Notemos que Isaías não diz simplesmente que o Salvador descerá do céu. Ele apresenta uma cooperação: o céu destila o orvalho, mas a terra deve abrir-se; as nuvens enviam a chuva, mas o solo deve germinar. Há uma ação que vem do alto e uma resposta que vem de baixo.

Eis o princípio fundamental que governa a obra da Redenção: Deus, podendo salvar-nos sozinho, por um ato imediato de sua onipotência, não o quis fazer assim. Preferiu associar a criatura à obra salvífica. O céu dá o orvalho; a terra dá a carne. O Verbo desce; uma criatura consente.

E quem é esta terra bendita que se abre ao orvalho celeste e germina o Salvador? É Maria Santíssima. Nela o céu e a terra se encontram; nela o divino e o humano se abraçam num ósculo eterno. Ela não foi instrumento passivo, como um canal inerte por onde a água simplesmente passa. Ela cooperou ativamente: com sua fé inabalável, com seu consentimento livre, com sua carne virginal.

Santo Irineu, já no segundo século, ensinava que assim como Eva cooperou na ruína do gênero humano, Maria cooperou na sua restauração. O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que uma virgem atou pela incredulidade, outra Virgem desatou pela fé. Notemos bem, meus caros: não se trata de mera comparação poética. Trata-se de uma verdade teológica profunda. Deus quis que uma mulher participasse da queda para que outra mulher participasse da redenção.

Nossa Santa Igreja, em seu magistério, em seu ensino constante, reconhece em Maria não apenas a Mãe do Redentor, mas a Corredentora, aquela que, de modo subordinado mas verdadeiro, cooperou na obra da Redenção. Pio XI, de venerada memória, não hesitou em afirmar que Maria, com Cristo, redimiu o gênero humano. Não que a Redenção de Cristo fosse insuficiente, longe de nós tal blasfêmia! Mas aprouve à Sabedoria divina associar uma criatura à obra do Criador, assim como aprouve ao sol servir-se da lua para iluminar a noite.

Maria cooperou na Encarnação pelo seu Fiat generoso, e sem esse consentimento, segundo a economia estabelecida por Deus, o Verbo não teria assumido nossa carne. Cooperou no Calvário, de pé junto à Cruz, quando todas as forças da natureza teriam feito uma mãe desmaiar ou fugir. Ali permaneceu ela, oferecendo ao Pai Eterno o fruto bendito de suas entranhas, unindo suas dores maternas ao sacrifício do Filho, consumando em seu coração traspassado o que oferecia no altar da Cruz.

O Apóstolo São Paulo ensina que devemos completar em nossa carne o que falta à Paixão de Cristo. Ora, se isso vale para nós, miseráveis pecadores, quanto mais para Aquela que estava aos pés da Cruz, com a alma atravessada pela espada de dor que Simeão profetizara! O orvalho desceu do céu, sim, mas a terra teve parte ativa em germinar o Salvador.

E se Maria cooperou na aquisição da graça, coopera igualmente na sua distribuição. É o ensinamento constante do Magistério: todas as graças que fluem de Cristo-Cabeça chegam aos membros através de Maria. Leão XIII ensina com clareza: nenhuma graça nos é concedida senão por Maria. E São Pio X confirma: assim como ninguém pode ir ao Pai senão pelo Filho, assim ninguém pode ir a Cristo senão por sua Mãe.

O orvalho celeste continua a descer, cada graça atual, cada socorro divino, cada auxílio para vencer a tentação, mas desce sempre através daquela terra bendita que primeiro germinou o Salvador. Maria é o aqueduto, na expressão de São Bernardo; é o pescoço do Corpo Místico, pelo qual todas as graças descem da Cabeça aos membros.

Mas eis, meus caros, que esta verdade consoladora nos conduz a uma reflexão mais austera. Se Deus quis agir através de instrumentos e mediações, então o estado desses instrumentos importa. A graça passa primeiro por Maria, perfeitamente disposta, Imaculada desde o primeiro instante de sua conceição. Mas deve depois encontrar em nós uma terra aberta e bem preparada.

E o que diz a Coleta deste domingo? Palavras importantíssimas: Manifestai, Senhor, o vosso poder e vinde; e socorrei-nos com grande força, para que, pelo auxílio de vossa graça, vosso benigno perdão apresse o benefício que os nossos pecados nos impedem de receber. Apresse o benefício quod nostra peccata praepediunt, que nossos pecados impedem. Nossos pecados impedem a ação da graça. O verbo latino é forte: praepedire significa prender os pés, criar tropeço, colocar obstáculo. O orvalho celeste quer descer sobre nós, mas encontra uma terra endurecida, fechada, impermeável.

A terra de Maria era imaculada, perfeitamente disposta a receber o orvalho divino. A nossa terra, porém, está cheia de pedras e espinhos. Por isso nossa santa Madre Igreja suplica com urgência: que a indulgência de vossa propiciação acelere aquilo que nossos pecados retardam. Notemos a precisão teológica desta oração: nossos pecados retardam a ação salvífica; a misericórdia divina deve acelerá-la.

Eis porque a santa Igreja nos exorta à confissão antes do Natal, meus caros. Não basta que Deus queira vir; não basta que Maria interceda; é preciso que o orvalho encontre em nós uma terra aberta e preparada.

O Apóstolo São Paulo, na Epístola de hoje, aplica este mesmo princípio aos ministros sagrados. Que os homens os considerem como servidores de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus. O sacerdote é dispensator mysteriorum Dei, administrador e dispensador dos divinos mistérios. A graça que desce do céu, passa por Maria, e chega aos fiéis através dos sacramentos administrados pelos sacerdotes.

Ora, se o instrumento deve estar bem disposto, o que exige São Paulo dos dispensadores? Uma coisa sobretudo: fidelidade. Que cada um seja encontrado fiel. O sacerdote infiel é como terra endurecida, o orvalho celeste quer passar através dele para fecundar as almas, mas encontra obstáculo. Justamente, quantas não são hoje as graças deixam de chegar aos fiéis por causa da infidelidade dos ministros!

Mas não pensemos, meus caros, que isso diz respeito apenas aos sacerdotes. Cada cristão, pelo Batismo, participa de algum modo desta dispensação. Os pais são dispensadores da fé aos filhos; devem transmitir-lhes a doutrina e o exemplo. Os patrões têm responsabilidade para com seus empregados; os mestres para com seus discípulos. Todos nós somos, em alguma medida, canais da graça, e nossos pecados podem obstruir esses canais, impedindo que o orvalho celeste chegue àqueles que Deus colocou sob nossa influência.

Estamos a poucos dias do Natal. O orvalho está prestes a descer. A liturgia da santa Romana Igreja respira urgência: Excita, Domine, potentiam tuam, et veni, despertai, Senhor, vossa potência, e vinde! A Igreja quase perde a paciência, por assim dizer; quer que Deus se apresse. E nós, meus caros, o que fazemos nós?

Enquanto suplicamos a vinda do Senhor, examinemos o estado de nossa terra. Está aberta ou fechada? Há pedras a remover? Espinhos a arrancar? Os pecados que acumulamos durante o ano criaram crostas em nossa alma? O orgulho endureceu nosso coração? A sensualidade tornou-o lodoso? A avareza fê-lo estéril?

Meus caros, ainda há tempo. A Igreja, nossa mãe providente, multiplica sempre as oportunidades de confissão precisamente para isso. Procuremos o sacramento da Penitência. Façamos uma confissão sincera, completa, dolorosa. Removamos os obstáculos que nossos pecados criaram. Abramos nossa terra ao orvalho celeste, à imitação de Maria Santíssima que, pela perfeita disposição de sua alma imaculada, mereceu tornar-se a Medianeira de todas as graças.

Peçamos a Ela, nestes últimos dias de espera, que nos obtenha a graça de uma verdadeira conversão. Que prepare ela mesma nossos corações, já que tão mal sabemos fazê-lo. Que interceda junto a seu Filho para que, quando Ele vier na noite santa, encontre em nós não terra endurecida, mas solo fértil, pronto a recebê-lo.

Rorate caeli desuper. Que os céus destilam o Justo. E que nossa terra, enfim preparada pela graça que nos vem através de Maria, possa germinar frutos dignos de receber o Salvador.

Comentários

Uma resposta para “[Sermão] Rorate coeli: o céu e a terra na obra da Redenção”

  1. Eliene Machado

    Senhor, concedei-me a graça de um sincero arrependimento e de uma confissão purificadora, para que minha alma seja renovada e emendada pela vossa misericórdia. À imitação da Virgem Santíssima, terra imaculada que acolheu o orvalho celeste, fazei de meu coração um solo fértil, aberto e dócil à vossa vontade. Que o Verbo eterno encontre em mim morada digna e, fecundando minha vida com sua presença, produza frutos abundantes de santidade e de vida eterna.

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