Caríssimos,
Salve Maria!
Mais uma vez o ano civil termina e o que muda? Nada muda substancialmente: nosso fim continua sendo o mesmo, conhecer, amar e servir a Deus neste mundo para salvarmos nossa alma e gozarmos da bem-aventurança eterna. Das 23h59m59s de hoje para as 00h00m00s de amanhã, nada há de mágico; a passagem do ano não opera nenhuma transformação nas almas, não apaga pecados, não infunde virtudes, não concede graças.
No entanto, é próprio ao homem ordenar pela razão as coisas temporais, e é útil à vida natural o estabelecimento de um calendário comum. Por isso, podemos e devemos aproveitar esta ordenação do tempo para fazer um sério exame de consciência sobre o ano que passou: fomos fiéis às graças recebidas? Correspondemos aos auxílios divinos? Crescemos nas virtudes ou retrocedemos? Amamos mais a Deus e ao próximo, ou nos deixamos arrastar pela tibieza e pelo espírito do mundo?
Feito este exame com sinceridade, devemos então reafirmar nossos propósitos e resoluções em vista de uma vida mais santa e mais unida a Deus, que é, de fato, aquilo que realmente importa, o unum necessarium. Não resoluções vãs e superficiais, como as que o mundo costuma fazer nesta ocasião, mas propósitos sérios, concretos e sobrenaturais: frequentar mais assiduamente os Sacramentos, dedicar mais tempo à oração, combater com maior vigor aquele defeito dominante que bem conhecemos, praticar com mais generosidade as obras de misericórdia.
Muitos pensam: “Afinal, basta que eu seja salvo; não preciso ser santo”. Grave engano! Como ensina o Pe. Garrigou-Lagrange, não é necessário ser um santo que faça milagres e cuja santidade seja oficialmente reconhecida pela Igreja; porém, para ser salvo, é necessário tomar o caminho da salvação, e este é precisamente o caminho da santidade. Só haverá santos no Céu. Ninguém ali entra sem aquela pureza que consiste em estar limpo de toda falta. Toda falta, mesmo venial, deve ser apagada, e toda pena devida ao pecado deve ser suportada ou remitida, para que uma alma goze eternamente da visão beatífica. Se uma alma entrasse no Céu antes da remissão total de suas faltas, não poderia permanecer ali, e ela mesma se precipitaria no Purgatório para ser purificada.
Guardemo-nos, pois, da tentação da mediocridade espiritual. Há quem diga: “Basta-me fazer o mínimo para não cair em pecado mortal”. Tal pensamento é indigno do católico! Quem assim raciocina é um fanfarrão que desperdiça o Sangue preciosíssimo derramado por Cristo na Cruz. Nosso Senhor não sofreu a Paixão para que vivêssemos na tibieza, calculando mesquinhamente o limite entre a graça e a condenação. Na verdade, quem se contenta com o mínimo para evitar o pecado mortal já faz o suficiente para abraçá-lo, pois a alma que não avança, retrocede; a que não busca generosamente a Deus, acaba por dele se afastar. A vida espiritual não admite mediocridade: ou subimos, ou descemos; ou amamos a Deus cada vez mais, ou esfriamos no Seu amor.
Esta vida interior do justo, que tende para Deus e que já vive dele, é o único necessário. Não é indispensável ter grande cultura intelectual nem extraordinária atividade exterior; basta viver profundamente de Deus, como vemos nos santos dos primeiros tempos de nossa Santa Madre Igreja, muitos dos quais eram pobres ou mesmo escravos, e em tantos outros, como São Francisco, São Bento José Labre e o Santo Cura d’Ars. Todos eles compreenderam profundamente que a vida da alma, destinada à eternidade, vale infinitamente mais que todos os bens passageiros deste mundo.
Que neste novo ano gravemos mais profundamente em nossos corações a palavra do Salvador: “De que serve ao homem ganhar o universo inteiro, se vier a perder a sua alma? Que dará o homem em troca de sua alma?” (Mt. XVI, 26). Se tantas coisas sacrificamos para conservar a vida do corpo, que afinal deve morrer, quanto mais não devemos sacrificar para salvar a vida da alma, que há de durar eternamente?
Unum est necessarium: uma só coisa é necessária, escutar a palavra de Deus e viver dela. Esta é a melhor parte, que Maria escolheu aos pés do Senhor, e que não poderá ser tirada da alma fiel, ainda que ela venha a perder todo o resto.
Confiemos este novo ano à Santíssima Virgem, nossa Mãe, Corredentora e Medianeira de Todas as Grças. Que Ela, que guardava todas as coisas e as meditava em seu Coração, nos obtenha a graça de viver cada dia do ano que se inicia com os olhos fixos na eternidade, buscando em tudo a maior glória de Deus e a salvação de nossas almas.
Que Deus lhes abençoe e vos conceda um Feliz e sobretudo Santo Ano Novo, 2026º da Encarnação e 2779º da fundação de Roma.
Pe. Marcos V. Mattke, IBP


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