A devoção a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, Rainha de Curitiba

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Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Curitiba-PR, 08 de setembro de 2025
Festa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais

Hoje comemoramos a Festa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, padroeira da cidade e da arquidiocese de Curitiba, Rainha de Curitiba, celebrada no dia 8 de setembro, data em que nossa Santa Romana Igreja comemora a Natividade de Nossa Senhora. Não é por acaso que esta festa mariana coincide com o nascimento da Santíssima Virgem, pois assim como o nascimento de Maria Santíssima trouxe a aurora da salvação ao mundo, preparando o caminho para a vinda do Salvador, Nossa Senhora da Luz ilumina e guia seus filhos nas trevas deste vale de lágrimas, sendo ela mesma a Estrela da Manhã que anuncia o Sol da Justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo.

A origem portuguesa da devoção

A devoção a Nossa Senhora da Luz tem suas raízes em Portugal, no século XV. Pero Martins era um humilde agricultor português da vila de Carnide que, tendo casado com Inês Anes, uma moça de algum patrimônio, levava vida tranquila em sua terra natal. Porém, a Divina Providência permitiu que caísse prisioneiro dos mouros da África, na dura condição de escravo.

Submetido aos trabalhos forçados sob clima atroz, privado de todo amparo espiritual e humano, exposto a morrer a qualquer momento sem os sacramentos da Igreja, Pero Martins encontrava-se em situação desesperadora. Sem possibilidade de resgate, pois as comunicações do tempo eram precárias, especialmente entre povos inimigos, o cativo não tinha esperança humana alguma.

Corria o ano de 1463 quando, em sua aflição, Pero Martins recorreu àquela que é o Refúgio dos Pecadores e Auxílio dos Cristãos. Poderia ter abandonado a Fé católica para obter libertação quase automática de seus captores, mas tal decisão seria trocar poucos anos de vida terrena por uma eternidade de danação – o pior negócio que um cristão poderia fazer.

A Mãe de Deus, em sua infinita misericórdia, apareceu-lhe em sonhos durante trinta noites consecutivas, prometendo-lhe que na última noite, ao despertar, estaria miraculosamente em Carnide, sua cidade natal. Nossa Senhora pediu-lhe que, ao chegar, procurasse uma imagem sua escondida perto da fonte do Machado, num local que seria indicado por uma luz misteriosa, e que ali construísse uma ermida em sua honra.

Grande foi a alegria do bom português ao acordar na trigésima manhã e encontrar-se em sua terra, liberto do cativeiro pela poderosa intercessão da Rainha do Céu e da Terra. Imediatamente pôs-se a procurar a imagem, seguindo as indicações recebidas. Há tempos aparecia sobre a fonte do Machado uma luz misteriosa que atraía curiosos até de Lisboa.

Acompanhado de seu primo Lopo Simões, Pero dirigiu-se de noite ao local. A luz misteriosa começou a mover-se diante deles, guiando-os até parar sobre umas pedras no meio do matagal. Ali, removendo as pedras, encontraram a imagem de Nossa Senhora, exatamente como a Virgem havia descrito.

Nasceu assim a devoção a Nossa Senhora da Luz, para a qual foi construída primeiro uma ermida e depois uma magnífica igreja no local da aparição. Desde o início, em Portugal, esta devoção esteve intimamente ligada à festa da Natividade de Nossa Senhora, celebrada em 8 de setembro, pois Maria Santíssima é vista como a aurora que anuncia a alegria ao mundo, a luz que precede o Sol da Justiça. Esta invocação da Luz distingue-se de Nossa Senhora da Candelária, celebrada em 2 de fevereiro, quando a Virgem apresenta o Menino Jesus no Templo – nesta, Cristo já é a Luz presente; naquela, Maria é a aurora que o anuncia.

A devoção chega ao Brasil

Menos de quarenta anos após esse prodígio, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Com a Fé católica, vieram as devoções mais caras ao coração português. Em 1580 já existia em São Paulo uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Luz, transferida em 1603 para o atual bairro da Luz, onde hoje se encontra o Mosteiro das Concepcionistas, no qual está sepultado Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, o primeiro santo brasileiro. No Rio de Janeiro também floresceu a devoção, com um santuário cuja imagem encontra-se hoje na Matriz do Alto da Boa Vista.

O milagre dos pinhais de Curitiba

Foi especialmente em Curitiba que Nossa Senhora da Luz quis manifestar sua predileção, operando maravilhas para a conversão dos povos indígenas e o estabelecimento da civilização cristã.

Por volta de 1650, existia uma capela dedicada a Nossa Senhora da Luz próxima ao rio Atuba, no atual Estado do Paraná. Os devotos notaram com admiração que, a cada manhã, a sagrada imagem tinha os olhos voltados insistentemente para uma região coberta de pinheirais – “Curitiba”, muito pinhão, no idioma indígena – onde habitavam os temidos índios caingangues.

Tão insistente era o olhar da imagem naquela direção que os habitantes, interpretando-o como sinal divino, decidiram desbravar a região. Armaram-se e penetraram nos pinhais, preparados para o combate contra os selvagens.

Contrariando todas as expectativas, em vez da esperada batalha, foram recebidos pacificamente pelo cacique Gralha Branca, também conhecido como Araxó. Tocados pela graça, os índios concordaram em ceder amigavelmente aquelas terras aos desbravadores. O cacique, num gesto simbólico, tomou sua vara de comando e enterrou-a no local que viria a ser o coração da futura cidade.

Na primavera seguinte, aquela vara seca voltou a brotar, dando ramos e flores – sinal da bênção divina sobre aquela terra. Nesse local, hoje Praça Tiradentes, foi erguida a primeira igreja matriz em honra a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

A devoção a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais foi fundamental na obra de evangelização e civilização cristã do Paraná. Os missionários, especialmente os padres da Companhia de Jesus, difundiram esta devoção entre os povos indígenas, que nela encontraram o terno amor da Mãe de Deus e amável Mãe do povo cristão. A pacífica integração dos caingangues e de outros grupos indígenas deveu-se, em grande parte, à mediação espiritual de Nossa Senhora. As reduções jesuíticas do Guairá, embora anteriores, prepararam o terreno espiritual para que a devoção mariana frutificasse. Muitos caciques, a exemplo de Araxó, receberam o batismo e se tornaram devotos da Virgem da Luz, facilitando a catequese de suas tribos. Esta herança evangelizadora perpetua-se na profunda devoção mariana observada no povo paranaense.

Graças e milagres ao longo dos séculos

Ao longo dos séculos, inúmeras graças foram atribuídas à intercessão de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Durante a epidemia de cólera de 1855, que devastou várias cidades brasileiras, Curitiba foi notavelmente preservada após procissões e preces públicas à sua Padroeira. Na Revolução Federalista de 1893-1895, quando a cidade esteve sitiada, os devotos atribuíram à proteção de Nossa Senhora o fato de terem sido mínimos os danos e perdas de vidas civis. Particularmente notável, relatam os historiadores, é a proteção maternal de Nossa Senhora nos partos de grande risco e na preservação de bebês prematuros, sendo incontáveis os testemunhos de mães que, em situações de extremo perigo, obtiveram o nascimento feliz de seus filhos após invocarem a Virgem da Luz. Muitas famílias curitibanas conservam relatos de curas, proteções em perigos e graças alcançadas por intercessão da Virgem da Luz.

A Catedral e a proclamação como Rainha de Curitiba

Com o crescimento da cidade, tornou-se necessário edificar um templo mais amplo. A atual Catedral Basílica Menor foi construída segundo projeto inspirado na catedral de Barcelona, com obras iniciadas em 1876 e concluída em 1893, no bicentenário da cidade. O templo neogótico, com suas torres gêmeas de 58 metros de altura, suas ogivas e vitrais, constitui notável exemplo da arquitetura religiosa do século XIX no Brasil. Em 1993, por ocasião do centenário de sua inauguração, foi elevada à dignidade de Basílica Menor pelo Papa João Paulo II. No interior, destacam-se o altar-mor em mármore de Carrara e os vitrais que narram cenas da vida de Nossa Senhora.

A imagem original da Padroeira encontra-se preservada no Museu Paranaense. A venerável imagem, executada em terracota policromada, representa Nossa Senhora segurando o Menino Jesus em seu braço esquerdo, enquanto na mão direita porta um cetro, símbolo de sua realeza. A Virgem está coroada e vestida com túnica e manto em tons de azul e dourado. O Divino Infante, também coroado, abençoa com a mão direita e segura o globo terrestre com a esquerda, significando seu domínio universal. A simplicidade da fatura colonial não diminui a dignidade e doçura da expressão, que durante séculos atraiu a devoção dos fiéis curitibanos.

Em 8 de setembro de 1993, festa da Natividade de Nossa Senhora, atendendo ao pedido de Dom Pedro Fedalto, Arcebispo Metropolitano, do Prefeito Rafael Greca de Macedo e da Câmara Municipal, presidida pelo Vereador Mário Celso Cunha, Sua Santidade o Papa João Paulo II declarou solenemente Nossa Senhora da Luz dos Pinhais como Rainha e Padroeira de Curitiba. A escolha desta data não foi casual: manteve-se a tradição secular que, desde Carnide, vincula a festa de Nossa Senhora da Luz à celebração da Natividade da Virgem Maria, perpetuando assim o profundo elo teológico entre o nascimento daquela que seria a Mãe de Deus e sua missão de ser a luz que anuncia a salvação.

Os pinheirais e a identidade paranaense

A araucária, o pinheiro-do-paraná que deu nome à cidade e caracteriza a paisagem paranaense, tornou-se símbolo indissociável da devoção a Nossa Senhora da Luz. Assim como estes pinheiros majestosos apontam para o céu com suas copas em forma de cálice, a devoção mariana eleva os corações dos fiéis às alturas celestiais. A própria economia e cultura paranaenses, historicamente ligadas aos pinheirais, desenvolveram-se sob o manto protetor de Nossa Senhora. Não é sem razão que o Paraná, terra dos pinheirais, tem como Padroeira aquela que escolheu manifestar-se através do olhar voltado para estas árvores características.

Reflexão espiritual

A celebração de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais no dia 8 de setembro, festa da Natividade de Maria Santíssima, reveste-se de profundo significado teológico herdado desde a origem da devoção em Portugal. O nascimento de Maria foi o primeiro raiar da luz após a longa noite do pecado original. Como canta a Igreja: “Vossa Natividade, ó Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria a todo o mundo, pois de vós nasceu o Sol de Justiça, Cristo nosso Deus.” Nossa Senhora da Luz é, portanto, a Estrela da Manhã, a aurora que precede e anuncia o Sol divino, diferentemente da Candelária que já O apresenta ao mundo.

Assim como Nossa Senhora libertou Pero Martins do cativeiro dos mouros, ela continua a libertar seus filhos devotos da escravidão do pecado e do demônio. Assim como guiou com sua luz misteriosa os primeiros devotos até sua imagem escondida, continua a guiar-nos com a luz de sua maternal proteção através das trevas deste mundo.

O milagre da pacificação dos índios caingangues nos ensina que Maria Santíssima é a verdadeira Pacificadora, aquela que reconcilia os povos e estabelece a paz de Cristo. A vara do cacique que floresceu é símbolo da graça divina que faz brotar a vida sobrenatural onde antes havia apenas a aridez do paganismo.

Que Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, Rainha de Curitiba, continue a derramar suas graças sobre esta abençoada terra, protegendo suas famílias, santificando seus lares, e conduzindo todos os seus filhos ao porto seguro da salvação eterna. Que sua luz maternal dissipe as trevas do erro e do pecado, e faça resplandecer em todos os corações a luz de Cristo, seu Divino Filho.

Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, rogai por nós!

Comentários

Uma resposta para “A devoção a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, Rainha de Curitiba”

  1. Marcel Camboim Gonçalves

    Nossa Senhora da Luz dia Pinhais, fortificai com Vossas graças o apostolado do Reverendíssimo, humilde e admirável padre Marcos Mattke.

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