[Sermão] Sobre as perseguições vindouras e a promessa da força do Espírito Santo

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ipsis litteris.

Sermão para o Domingo na Oitava da Ascensão
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 1º de junho de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Entre a glória da Ascensão e a graça de Pentecostes, a nossa Santa Romana Igreja coloca-nos num tempo singular de espera e preparação. Cristo já não está visivelmente entre nós; o Espírito Santo ainda não desceu. Este intervalo sagrado da oitava da Ascensão não é mero acidente do calendário litúrgico, mas importante lição para nossas almas. É a imagem perfeita de nossa condição presente: peregrinos entre a terra e o céu, militantes entre a promessa e seu cumprimento.

O Santo Evangelho deste domingo não nos permite ilusões. As palavras de Nosso Senhor são claras e solenes: “Absque synagogis facient vos” (Expulsar-vos-ão das sinagogas). E mais grave ainda: “Sed venit hora ut omnis qui interficit vos, arbitretur obsequium se praestare Deo” (Mas vem a hora em que todo aquele que vos matar julgará prestar culto a Deus).

Consideremos, meus caros, a terrível precisão destas palavras. Cristo não promete prosperidade temporal, não garante aceitação social, não assegura tranquilidade mundana. Pelo contrário, anuncia com clareza: sereis odiados, sereis perseguidos, sereis mortos. E vossos perseguidores julgarão estar servindo a Deus.

A história de nossa Santa Madre Igreja confirma esta profecia em cada página. Os imperadores romanos perseguiam os cristãos julgando defender a ordem social e religiosa do império. Os hereges de todos os tempos derramaram sangue católico acreditando purificar a fé. Os revolucionários modernos destroem a cristandade em nome do progresso e da humanidade. Hoje, é em nome da fraternidade, da tolerância, do respeito, da diversidade que querem nos calar e nos excluir da vida social. Sempre a mesma tragédia: “Et haec facient vobis, quia non noverunt Patrem neque me” (E isto vos farão porque não conhecem o Pai nem a mim).

Mas atentemos para um ponto crucial que Santo Agostinho, Doutor da Graça, sublinha nas lições de Matinas: esta ignorância não é inocente. “Nunc autem et viderunt, et oderunt et me, et Patrem meum” (Mas agora viram e odiaram a mim e a meu Pai). Viram os milagres, ouviram a doutrina, testemunharam a santidade — e odiaram. O ódio ao bem é sempre culpável, porque no fundo de toda alma grita a voz da consciência, ressoa o eco da lei eterna.

Esta perseguição assume formas variadas em nossos dias. Há a perseguição cruenta, que ainda hoje faz mártires em terras distantes. Há a perseguição sutil das leis iníquas, que procuram confinar a fé ao foro privado. Há a perseguição intelectual, que ridiculariza a verdade revelada. E há, bem o sabemos, a perseguição que vem de dentro, quando filhos da Igreja atacam sua própria Mãe, quando a confusão doutrinal se espalha, quando a liturgia sagrada é profanada por aqueles mesmos que deveriam guardá-la.

Diante deste quadro sombrio, qual deve ser nossa resposta? A Epístola de São Pedro, primeiro Papa e ele mesmo glorioso mártir, traça-nos o caminho com admirável clareza.

Estote prudentes et vigilate in orationibus” (Sede prudentes e vigiai nas orações). A primeira arma do cristão não é a polêmica, não é a agitação, não é sequer a apologética — é a oração. Mas notai bem: não qualquer oração, mas oração vigilante, a oração prudente. A vigilância supõe atenção constante, prontidão da alma, recolhimento habitual. A prudência exige discernimento, ordem, perseverança.

A oração é nossa força porque nos une à fonte de toda força. Como ensina São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, a oração é o ato próprio da virtude da religião, pelo qual a criatura reconhece sua dependência absoluta do Criador. Na oração, confessamos nossa fraqueza e invocamos a onipotência divina. Na oração, manifestamos nossa indigência e atraímos a misericórdia infinita.

Mas São Pedro não se detém aí. Acrescenta ele imediatamente: “Ante omnia autem mutuam in vobismetipsis caritatem continuam habentes” (Mas, antes de tudo, tende uns para com os outros uma caridade contínua). Observai a força da expressão: ante omnia — antes de tudo. Não é um conselho entre outros, não é uma virtude opcional — é o fundamento, é a prioridade absoluta.

Por que esta primazia da caridade? O Apóstolo mesmo no-lo explica: “Quia caritas operit multitudinem peccatorum” (Porque a caridade cobre a multidão dos pecados). A caridade não apenas une os corações, não apenas edifica a sociedade como sendo a sua forma — ela possui força expiatória, valor satisfatório. Numa época em que os pecados se multiplicam e os escândalos abundam, e isso no próprio seio da Igreja, a caridade autêntica é bálsamo que cura e é fogo que purifica: é a obra do Espírito Santo.

Esta caridade deve ser continua — constante, perseverante, inabalável. Não a caridade sentimental que se evapora ao primeiro obstáculo, mas a caridade sólida que persiste na provação. Não o amor natural que escolhe seus objetos, mas o amor sobrenatural que abraça até os inimigos.

A Epístola prossegue com conselhos práticos: “Hospitales invicem sine murmuratione” (Sede hospitaleiros uns para com os outros, sem murmuração). A hospitalidade era virtude necessária nos primeiros tempos, quando os cristãos fugiam de cidade em cidade. Hoje, talvez, a hospitalidade mais necessária seja a do coração — estar sempre pronto para acolher o nosso próximo em suas necessidades espirituais, em suas dúvidas, em suas fraquezas. Precisamos estar sempre prontos para acolher o nosso próximo com caridade e misericórdia, dando-lhe a verdade de Cristo e o caminho do céu.

Unusquisque, sicut accepit gratiam, in alterutrum illam administrantes” (Cada um, conforme o dom que recebeu, ponha-o a serviço dos outros). Cada fiel recebeu graças particulares — não para vanglória própria, mas para edificação comum. O doutor deve ensinar, o simples deve edificar com seu exemplo, o sofredor deve oferecer suas dores, o rico deve ser generoso, o pobre deve ser paciente. Todos são administradores, não proprietários, dos dons divinos.

Onde encontrar, meus caros, o modelo perfeito desta preparação espiritual? A liturgia e a tradição apontam-nos unanimemente para o Cenáculo, onde os Apóstolos “erant perseverantes unanimiter in oratione cum Maria matre Iesu” (perseveravam unanimemente em oração com Maria, mãe de Jesus).

Contemplemos esta cena admirável. Os Apóstolos, que haviam fugido durante a Paixão, agora perseveram. Que mudança! Que transformação! Mas notai um detalhe fundamental: eles perseveram cum Maria — com Maria, mãe de Jesus. A presença da Virgem Santíssima não é acidental, é essencial.

Maria no Cenáculo é o modelo acabado da Santa Igreja em oração. Seu silêncio é mais eloquente que todas as palavras. Ela não preside visivelmente — esse lugar pertence a Pedro, o príncipe dos Apóstolos. Ela não ensina publicamente — essa missão cabe aos Apóstolos. Mas ela está presente, ela ora, ela intercede. Sua presença é como o sol que, sem ruído, ilumina e aquece.

Por que Maria é modelo tão perfeito neste tempo entre Ascensão e Pentecostes? Porque ninguém como ela viveu a ausência e a presença de Cristo. Durante trinta anos, teve-o visivelmente consigo — em Belém, no Egito, em Nazaré. Depois, acompanhou-o à distância durante a vida pública. Esteve presente, stabat (estava de pé), junto à Cruz. Sentiu suas dores, ofereceu-se com ele. Viu-o ressuscitado, assistiu à sua Ascensão. Agora, no Cenáculo, vive pela fé o que antes vivera pela visão.

Mais ainda: Maria Santíssima conhece o Espírito Santo como nenhuma criatura. “Spiritus Sanctus superveniet in te” (O Espírito Santo descerá sobre ti) — ouviu do Anjo. Ela é a Esposa do Espírito Santo, o templo vivo onde ele realizou a obra máxima da Encarnação. Quem melhor que ela para ensinar os Apóstolos a prepararem-se para a vinda do Paráclito?

O Evangelho não nos deixa na desolação, caríssimos. Após anunciar as perseguições, Cristo faz uma promessa solene: “Cum autem venerit Paraclitus, quem ego mittam vobis a Patre, Spiritum veritatis, qui a Patre procedit, ille testimonium perhibebit de me” (Quando vier o Paráclito, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim).

Detenhamo-nos um instante na riqueza teológica destas palavras. O Espírito é chamado Paráclito — advogado, consolador, defensor. Num mundo que nos acusa, temos um Advogado. Numa vida cheia de tribulações, temos um Consolador. Diante dos tribunais humanos e divinos, temos um Defensor.

Ele é enviado pelo Filho, mas procede do Pai. Aqui temos, em poucas palavras, o mistério da Santíssima Trindade. O Espírito procede do Pai como de seu princípio fonte, mas é também enviado pelo Filho, revelando assim a íntima comunhão das Pessoas divinas e a processão do Espírito Santo a Patre Filioque (do Pai e do Filho).

Este Espírito é chamado “Espírito da verdade”. Vivemos em tempos de confusão doutrinal, de relativismo moral, de mentiras institucionalizadas. Nunca foi tão necessário o Espírito da verdade. Ele não traz uma verdade nova — a Revelação encerrou-se com a morte do último Apóstolo. Mas Ele faz compreender a verdade eterna, aplica-a às circunstâncias novas, defende-a contra os erros sempre renascentes.

Ille testimonium perhibebit de me” (Ele dará testemunho de mim). O testemunho do Espírito não é apenas interior, não é somente consolação privada. É testemunho público, é demonstração de poder, é evidência que convence. Quando o Espírito desceu no Pentecostes, três mil almas se converteram num só dia. Quando o Espírito anima os mártires, os próprios algozes se convertem. Quando o Espírito inspira os doutores, as heresias são confundidas.

E nós, meus caros? “Et vos testimonium perhibebitis, quia ab initio mecum estis” (E vós também dareis testemunho, porque desde o princípio estais comigo). O testemunho cristão não é opcional, é obrigatório. Não podemos calar quando a verdade é atacada. Não podemos ser neutros quando Cristo é negado. Mas nosso testemunho deve apoiar-se em duas colunas: a graça do Espírito Santo e a fidelidade à Verdade — “ab initio” (desde o princípio).

Que lições práticas, meus caros, devemos tirar da liturgia deste Domingo para nossa vida quotidiana?

Primeira lição: realismo sobrenatural. Não vivamos de ilusões. As perseguições são certas — se não cruentas, ao menos morais; se não exteriores, ao menos interiores. O demônio, o mundo e a carne não dão tréguas. Mas este realismo não deve gerar pessimismo. Cristo venceu o mundo. As portas do inferno não prevalecerão. A verdade é mais forte que a mentira, o amor mais forte que o ódio, a graça mais forte que o pecado.

Segunda lição: primado da vida interior. Antes de combater os erros do mundo, combatamos nossos próprios defeitos. Antes de converter os outros, convertamo-nos nós mesmos. A oração deve ser nossa primeira ocupação, não a última. O recolhimento deve ser nosso estado habitual, não excepcional. Como diz a Imitação de Cristo: “Tanto o homem aproveita quanto sobre si mesmo se vence.”

Terceira lição: caridade sem limites. Num mundo dividido pelo ódio, sejamos instrumentos de união em Deus, Verdade eterna. Numa sociedade fragmentada pelo egoísmo, sejamos laços de comunhão em Deus, nosso Bem supremo. Mas cuidado: caridade não significa fraqueza, amor não significa complacência com o erro. A verdadeira caridade corrige, admoesta, ensina — mas sempre com mansidão, sempre com paciência, sempre procurando o bem eterno das almas.

Quarta lição: devoção sólida e firme a Nossa Senhora. Não uma devoção sentimental, feita de emoções passageiras, mas uma devoção teológica, fundamentada na verdade revelada. Maria Santíssima é Mãe de Deus — eis o fundamento. Maria é Mãe nossa — eis a consequência. Maria é Medianeira de todas as graças — eis nosso consolo. Consagremo-nos a ela, rezemos o terço diariamente, imitemos suas virtudes.

Quinta lição: docilidade ao Espírito Santo. O Espírito sopra onde quer, mas tem suas preferências: prefere os humildes aos soberbos, os puros aos impuros, os generosos aos mesquinhos. Preparemos-lhe morada por uma vida santa. Invoquemo-lo antes de toda decisão importante. Sejamos sensíveis às suas inspirações, prontos aos seus impulsos, dóceis às suas moções.

Caríssimos fiéis, eis nossa situação: vivemos entre o “já” e o “ainda-não”. Já fomos redimidos, mas ainda não fomos glorificados. Já possuímos a graça, mas ainda não vemos a glória. Já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que seremos.

Este oitava entre Ascensão e Pentecostes é símbolo de toda nossa vida cristã. Como os Apóstolos no Cenáculo, devemos perseverar na oração. Como Maria, devemos viver de fé o que um dia veremos face a face. Como a Igreja nascente, devemos estar unidos na caridade, fortalecidos pela esperança, inflamados pelo zelo da glória de Deus.

As perseguições virão — não duvideis. Mas virá também o Espírito — não temais. E quando Ele vier, transformará nossa fraqueza em força, nosso medo em coragem, nosso silêncio em testemunho eloquente.

A Coleta deste domingo pede que tenhamos sempre “devotam voluntatem” (vontade devota) e sirvamos a Deus “sincero corde” (com coração sincero). Vontade devota significa vontade consagrada, dedicada, constante. Coração sincero significa coração sem dobras, sem enganos, sem reservas.

Que Nossa Senhora, Rainha dos Apóstolos, Rainha do céu e da terra, rainha de todos os santos e anjos, nos obtenha estas graças. Que ela, que guardava todas as coisas em seu coração, nos ensine o recolhimento. Que ela, que disse “Fiat” (Faça-se), nos ensine a obediência. Que ela, que permaneceu de pé junto à Cruz, nos ensine a fortaleza.

E quando vierem as provações — e certamente virão —, recordemos as palavras do Divino Mestre: “In mundo pressuram habebitis; sed confidite, ego vici mundum” (No mundo tereis tribulações; mas tende confiança, eu venci o mundo).

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