[Sermão] Quem odeia o próximo é homicida, ou da morte à vida pela Caridade

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ipsis litteris.

Sermão para o Domingo na Oitava de Corpus Christi
II Domingo depois de Pentecostes

Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 22 de junho de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Ressoa hoje em nossos ouvidos a voz de São João, o Apóstolo do Amor, o Apóstolo que repousou no Coração Sacratíssimo de Jesus: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos”. Palavras estas que nos revelam o grande mistério da vida cristã e nos apresentam o sinal distintivo pelo qual seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos do Divino Mestre. Como nos ensina o Papa São Pio X: “A caridade fraterna é o sinal distintivo dos verdadeiros cristãos”. É sobre este mistério da caridade que vos falarei hoje, meus caros, mostrando-vos como pela falta dela nos assemelhamos ao demônio homicida, e como por sua prática nos conformamos ao Sagrado Coração de Jesus.

Consideremos, meus caros, a terrível condição na qual todos nascemos pelo pecado de nossos primeiros pais. A alma, criada para a vida divina, encontra-se em estado de morte espiritual, privada da graça santificante e da amizade com Deus. Neste estado lamentável, o homem é incapaz do verdadeiro amor sobrenatural, permanecendo escravo de seus instintos e paixões desordenadas.

Mas eis que o Apóstolo São João nos anuncia a boa nova: existe uma passagem da morte para a vida, e esta passagem realiza-se pelo amor fraterno. “Ubi caritas non est, mors est; ubi autem caritas, ibi vita”, onde não há caridade, há morte; onde há caridade, aí está a vida, como nos ensina São João Crisóstomo.

Não pensem, porém, que se trata de qualquer amor natural ou sentimento humano. Não! A caridade de que fala o Apóstolo é aquela virtude teologal infundida em nossas almas pelo Espírito Santo no santo Batismo. É aquela amizade divina que, segundo Santo Tomás de Aquino, constitui a própria essência da vida sobrenatural: “Caritas est amicitia quaedam hominis ad Deum” – a caridade é uma certa amizade do homem com Deus.

Quando amamos verdadeiramente nosso próximo com amor sobrenatural, damos prova de que a vida divina habita em nós, de que passamos da morte do pecado para a vida da graça. Este amor fraterno torna-se, pois, o termômetro infalível de nossa vida espiritual.

Mas se a caridade é vida, o ódio é morte. E aqui, meus caros, devemos meditar profundamente nas palavras terríveis do Apóstolo: “Todo aquele que aborrece a seu irmão é homicida”. Palavras estas que Santo Agostinho nos explica dizendo: “Odium fratris homicidium est, etiamsi manus non moveatur ad occidendum”, o ódio ao irmão é homicídio, ainda que a mão não se mova para matar.

Vejamos como o pecado de Caim começou no coração antes de se manifestar na ação. Primeiro a inveja, depois o rancor, por fim o assassinato. Assim é sempre: o homicídio material é apenas a consumação exterior do homicídio espiritual que já se realizou na alma.

E quantos instrumentos utilizamos, meus caros, para este homicídio espiritual! A língua, principalmente, torna-se espada mortífera. Santo Agostinho nos adverte: “Lingua tua noli esse gladius ad occidendum proximum”, que tua língua não seja espada para matar o próximo. São Jerônimo é ainda mais direto: “Detractio proximi animae homicidium est” – a detração do próximo é homicídio da alma. E São Gregório Magno completa o ensinamento: “Qui de absente male loquitur, praesentem occidit”, quem fala mal do ausente, mata o presente.

Consideremos, meus caros, quantas modalidades assume este homicídio da língua! A maledicência que revela os defeitos ocultos do próximo; a calúnia que inventa falsas acusações; a detração que exagera os defeitos verdadeiros; o murmúrio que destrói sorrateiramente a reputação alheia. Todas estas são formas de assassinato moral, pois matam aquilo que há de mais precioso depois da vida física: a honra e a boa fama.

E não pensemos que apenas a língua é culpável. Quantas vezes o olhar desdenhoso, o sorriso irônico, o silêncio calculado não ferem mais profundamente que as palavras! Quantas vezes a frieza estudada, a indiferença ostensiva, o desprezo mal disfarçado não causam no próximo feridas que nunca cicatrizam!

Há ainda o homicídio do juízo temerário, quando presumimos malícia onde talvez haja apenas fraqueza, quando interpretamos sempre no pior sentido as ações alheias, quando condenamos sem ouvir a defesa. E que dizer da dureza de coração que se regozija secretamente com as desgraças do próximo, que não se comove com os sofrimentos alheios, que permanece insensível aos pedidos de auxílio?

Quantas vezes, pela maledicência, pelo juízo temerário, pela dureza de coração, não cometemos este homicídio espiritual! Quantas vezes não assassinamos a reputação, a paz, a alegria de nossos irmãos! E pensamos talvez que são pecados leves, quando na realidade participam da malícia do próprio homicídio.

Mas há mais, meus caros. Quando odiamos nosso próximo, quando nos entregamos à dureza de coração, ao rancor, à maledicência, não fazemos senão imitar aquele que Nosso Senhor chamou de “homicida desde o princípio”. Santo Isidoro de Sevilha ensina-nos que “Odium fraternum diabolus seminat”, o demônio semeia o ódio fraterno. É ele o autor de toda divisão, de toda discórdia, de todo rancor entre os homens.

E qual é a raiz deste ódio diabólico? São Gregório Magno no-lo revela: “Superbia vitium diaboli proprium”, a soberba é o vício próprio do diabo. Foi pela soberba que Lúcifer caiu dos céus, foi pela soberba que se tornou o inimigo de Deus e dos homens. E quando nós, pela falta de caridade, julgamos nossos irmãos, quando nos irritamos com suas imperfeições, quando nos recusamos a perdoar suas ofensas, que fazemos senão imitar o orgulho luciferino?

O homem sem caridade assemelha-se ao demônio: tem o coração duro como pedra, o olhar sem compaixão, a língua pronta para ferir. Compraz-se no mal alheio, irrita-se com o bem do próximo, julga-se superior a todos. Que terrível semelhança, meus caros! Que espantosa degradação da criatura feita à imagem e semelhança de Deus!

Observemos como se manifesta esta semelhança diabólica em nossa vida quotidiana. A inveja, essa tristeza pelo bem alheio, que nos faz sofrer quando vemos a prosperidade, as virtudes, os talentos do próximo. Não é esta a mesma inveja com que o demônio contempla a felicidade dos bem-aventurados? A ira que se inflama contra aqueles que nos contrariam, que não seguem nossa vontade, que ousam contradizer-nos. Não é esta a mesma ira com que Satanás se revolta contra a autoridade divina?

E que dizer da soberba que nos faz desprezar os humildes, menosprezar os simples, julgar-nos superiores aos ignorantes? Quando o cristão se envaidece de sua posição social, de sua cultura, de suas riquezas, e olha com desdém para os menos favorecidos, que faz senão reproduzir a atitude de Lúcifer que se julgava igual a Deus?

Há ainda a avareza que endurece o coração diante das necessidades alheias, a gula que se regala enquanto outros padecem fome, a luxúria que usa o próximo como objeto de prazer. Todos estes vícios, meus caros, quando nos fazem esquecer a caridade fraterna, nos configuram não à imagem de Cristo, mas à imagem do seu adversário.

Mas elevemos nossos olhos, meus caros, para o modelo perfeito de toda caridade: o Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que contraste infinito entre a dureza diabólica e a ternura divina! Onde o demônio semeia ódio, Jesus semeia amor. Onde Satanás divide, Cristo une. Onde o orgulho destrói, a humildade edifica.

“Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”, diz-nos o Divino Salvador. Mansidão contra a ira, humildade contra a soberba, amor contra o ódio. E São João Crisóstomo nos ensina que “Nihil tam facit nos Deo similes sicut benefacere proximis” nada nos torna tão semelhantes a Deus quanto fazer o bem ao próximo, e sobretudo o maior bem que é conduzir o próximo à Verdade de Cristo e sua graça.

Contemplemos, meus caros, como o Sagrado Coração ama! Ama os justos e os pecadores, os amigos e os inimigos, os gratos e os ingratos. Ama até o ponto de dar a vida, ama até derramar todo o seu Sangue. Ama perdoando na Cruz aos próprios algozes. Eis o modelo que devemos imitar, eis a caridade que devemos praticar!

Vejamos como Jesus trata os pecadores: não os condena, mas os acolhe; não os humilha, mas os eleva; não revela seus pecados, mas os perdoa em segredo. Como Ele próprio nos ensina: “Não vim para condenar o mundo, mas para salvar o mundo”. E ainda: “Não necessitam de médico os que estão sãos, mas sim os enfermos; não vim chamar os justos, mas os pecadores”. O Divino Salvador veio para que “tenham vida e a tenham em abundância”.

Mas entendamos bem, meus caros: Jesus acolhe os pecadores não para deixá-los em seus pecados, mas para curá-los deles. Sua misericórdia não é complacência com o mal, mas medicina divina para a alma enferma. Quando perdoa à adúltera, acrescenta: “Vai e não peques mais”. Quando chama Zaqueu, este se converte e repara suas injustiças. Quando acolhe a Samaritana, ela abandona sua vida desordenada.

A diferença entre o Sagrado Coração e nosso coração corrompido é esta: nós condenamos por orgulho, fazendo juízos temerários antes mesmo de conhecer as circunstâncias; Cristo, ao contrário, não condena previamente porque vem impelido pela sua caridade infinita para salvar cada alma. Nós julgamos para nos sentirmos superiores; Ele julga apenas no tribunal da penitência para oferecer o perdão e a cura. Contemplemos, ainda, sua paciência com os Apóstolos lentos em compreender, sua misericórdia com a Samaritana, sua ternura com a adúltera, sua compaixão com Zaqueu. Onde nós vemos motivos de escândalo, Cristo vê oportunidades de redenção.

Admiremos sua mansidão quando é injuriado pelos fariseus, caluniado pelos escribas, abandonado pelo povo volúvel. Jamais uma palavra de rancor, jamais um gesto de vingança, jamais um pensamento de retaliação. Mesmo diante de Herodes que o despreza, diante de Pilatos que o condena, diante dos soldados que o escarniam, Jesus conserva a serenidade divina da caridade perfeita.

E quando pende da Cruz, no auge de seus sofrimentos, que faz? Esquece-se de suas dores para cuidar dos outros: perdoa aos algozes, promete o paraíso ao ladrão arrependido, entrega sua Mãe ao discípulo amado. Até o último suspiro, o Sagrado Coração pensa nos outros, ama os outros, serve os outros.

Santo Afonso de Ligório, esse grande devoto do Sagrado Coração, ensina-nos esta verdade fundamental: “Quem não tem caridade com o próximo não pode ter verdadeiro amor a Jesus Cristo”. Não podemos separar o amor a Deus do amor ao próximo. Não podemos pretender amar o Coração de Jesus enquanto mantemos nosso coração fechado aos irmãos.

E aqui chegamos, meus caros, ao ponto mais exigente da doutrina apostólica. Não basta amar com amor natural, não basta a simpatia humana, não basta a beneficência filantrópica. Cristo exige de nós que amemos como Ele ama: “Como eu vos amei, assim também vos amai uns aos outros”.

Que significa isto? Significa amar com amor sobrenatural, amar por motivo divino, amar mesmo quando custa, amar mesmo quando não há retribuição, amar mesmo os inimigos. Significa ter para com cada próximo a mesma caridade que o Sagrado Coração tem conosco: caridade paciente, caridade benigna, caridade que perdoa sempre, caridade que se sacrifica.

E o Apóstolo é inexorável: “Se alguém tiver bens deste mundo e, vendo seu irmão padecer necessidade, lhe fechar o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” Aquele que endurece o coração diante das misérias alheias, aquele que fecha os ouvidos aos gemidos dos sofredores, aquele que se recusa a socorrer os necessitados, esse tal não pode ser chamado filho de Deus.

A caridade, meus caros, manifesta-se não apenas em palavras, mas “por obra e em verdade”. É nos atos concretos de misericórdia, na paciência com os defeitos alheios, no perdão das ofensas, na benevolência constante que provamos possuir a vida divina.

Como deve manifestar-se esta caridade na vida prática? Na família, suportando com paciência os defeitos do cônjuge, educando os filhos com firmeza e ternura, respeitando e cuidando dos pais idosos. No trabalho, tratando com justiça os subordinados, colaborando lealmente com os superiores, cumprindo com consciência os deveres profissionais. Na sociedade, praticando a cortesia cristã, evitando as discussões estéreis, promovendo a concórdia e a paz.

É caridade visitar os enfermos, consolar os aflitos, instruir os ignorantes, perdoar as injúrias, suportar as impertinências, dar bom exemplo, rezar pelos inimigos. É caridade também corrigir fraternalmente os que erram, advertir os que se perdem, defender a verdade contra o erro, mas sempre com espírito de mansidão e humildade.

E sobretudo, meus caros, é caridade guardar religiosamente o silêncio sobre os defeitos alheios, falar sempre bem do próximo quando a verdade o permite, interpretar em bom sentido as ações duvidosas, desculpar as fraquezas humanas, promover a boa harmonia entre os irmãos.

Permitam-me, pois, meus caros, que termine este sermão com um exame de consciência que cada um deve fazer em seu coração. Diante do Sagrado Coração de Jesus, diante deste modelo perfeito de caridade, que descobrimos em nós? Descobrimos a vida ou a morte? Descobrimos o amor ou o ódio? Descobrimos a semelhança com Cristo ou com o demônio?

Examinemos nossas palavras: quantas vezes não fomos homicidas pela língua, matando a reputação, a paz, a alegria de nossos irmãos? Examinemos nossos pensamentos: quantas vezes não julgamos temerariamente, não nutrimos rancores, não nos comprazemos no mal alheio? Examinemos nossos corações: quantas vezes não os endurecemos diante do sofrimento, da miséria, da necessidade do próximo?

Perguntemo-nos: quando foi a última vez que falamos bem de alguém espontaneamente? Quando foi a última vez que defendemos um ausente injustamente atacado? Quando foi a última vez que perdoamos de coração uma ofensa recebida? Quando foi a última vez que nos compadecemos verdadeiramente de um sofrimento alheio?

E no seio da própria família: somos pacientes com os defeitos de nossos parentes? Sabemos calar quando somos contrariados? Evitamos as palavras que ferem, os silêncios que magoam, as atitudes que humilham? Ou, pelo contrário, transformamos o lar num campo de batalha onde a caridade é constantemente violada? Acaso nosso lar não se encontra em estado de não haver estabilidade na paz entre um domingo e outro.

No ambiente de trabalho, nas relações sociais, na própria capela: somos promotores de união ou de discórdia? Nossa presença pacifica ou irrita? Nossas conversas edificam ou destroem? Nosso exemplo atrai para Cristo ou afasta d’Ele?

Se descobrimos em nós estas chagas do ódio, não desesperemos, mas convertamo-nos. A misericórdia divina é infinita, a graça dos sacramentos é eficaz, a caridade pode renascer em vossos corações. Mas é preciso reconhecer o mal, detestá-lo sinceramente, e buscar com humildade os meios de conversão.

Aproximemo-nos do sacramento da Penitência, onde o Sangue de Jesus lava todas as manchas. Aproximemo-nos da sagrada Eucaristia, onde o Coração de Jesus se dá todo a nós para transformar nossos corações. Oremos diante do Santíssimo Sacramento, pedindo a graça da verdadeira caridade.

E assim, meus caros, poderemos verdadeiramente dizer com o Apóstolo: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos”. Assim seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo. Assim participaremos já na terra da vida eterna, que é o amor perfeito, e que um dia possuiremos plenamente na glória dos céus.

Que a Santíssima Virgem Maria, modelo perfeito de caridade, interceda por nós junto ao Sagrado Coração de seu Divino Filho, para que rendamos fruto de caridade no amor fraterno.

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O Antoniano