Sermão para o II Domingo depois da Epifania
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 18 de janeiro de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Ainda ressoam em nossos ouvidos os cânticos da Epifania. Há poucos dias, contemplávamos os Magos do Oriente prostrados diante do Menino, oferecendo ouro, incenso e mirra. Víamos a estrela que os guiara, a simplicidade do presépio, a majestade escondida sob a fragilidade de uma criança. Hoje, nossa Santa Romana Igreja nos conduz a Caná da Galileia, onde o mesmo Cristo, já adulto, manifesta pela primeira vez a sua glória aos discípulos. A água transformada em vinho, o espanto dos servos, a fé nascente dos Apóstolos: tudo isto continua a grande revelação que celebramos neste tempo litúrgico. A Epifania não terminou; ela se desdobra diante de nossos olhos, levando-nos a penetrar cada vez mais fundo no mistério do Verbo encarnado.
E que nos diz a santa Madre Igreja através da liturgia deste domingo? Que nos ensina o Intróito, a Coleta, a Epístola? Meus caros, se ouvirmos com atenção, notaremos uma verdade que deve guiar toda a nossa vida: Cristo manifestado pela sua epifania exige de nós a adoração verdadeira, que se realiza no amor fraternal vivido com espírito de sacrifício, sob o governo providente de Deus que nos concede a paz.
Consideremos, pois, três pontos: primeiramente, a exigência da adoração universal; em segundo lugar, a forma concreta desta adoração; finalmente, em terceiro lugar, o fruto bendito que dela decorre.
I. A exigência da adoração universal
“Omnis terra adoret te, Deus, et psallat tibi”, toda a terra vos adore, ó Deus, e cante salmos em vosso louvor. Assim canta o Intróito desta Missa, tomando as palavras do Salmo LXV. Notemos bem: não diz “alguns povos”, não diz “aqueles que quiserem”, não diz “os que se sentirem inclinados”. Diz: omnis terra que toda a terra vos adore.
Meus caros, há nesta expressão uma verdade que o mundo moderno rejeitou com obstinação: a adoração a Deus não é opcional. Não é questão de preferência pessoal, não é matéria de escolha individual, não é assunto privado que cada um resolve conforme lhe apraz. A adoração é dever de justiça. A criatura racional, pelo simples fato de existir, deve ao Criador o reconhecimento, a reverência, e o culto devidos.
Quando Cristo se manifesta, na manjedoura, no Jordão, em Caná, na Cruz, Ele não pede gentilmente nossa consideração. Ele reclama nossa adoração. É Deus que se revela; a única resposta adequada é prostrar-se em adoração.
Que fez o mundo com esta verdade? Expulsou-a. Construiu uma sociedade apóstata onde Deus é tratado como uma mera hipótese dispensável, onde a religião é tolerada como passatempo inofensivo, onde o culto público é considerado resquício de eras obscuras. O laicismo moderno, meus caros, não é neutralidade mas recusa diabólica, o non serviam luciferino ecoando através dos tempos. Não é imparcialidade mas verdadeira rebelião. Dizer que o Estado nada tem a ver com Deus é dizer que a criatura pode ignorar o Criador. É mentira vestida de sofisma.
Mas nós, que conhecemos a Cristo manifestado, não podemos tomar parte nesta recusa. Omnis terra adoret te. Se toda a terra deve adorar, quanto mais nós, que recebemos a fé, que conhecemos os mistérios, que participamos dos Sacramentos. Nossa adoração não é favor que fazemos a Deus; é justiça que Lhe devemos.
II. A forma concreta desta adoração
Passemos agora ao segundo ponto. Em que consiste esta adoração? Será apenas um sentimento interior, uma vaga disposição da alma, um reconhecimento meramente intelectual? O Apóstolo São Paulo, na Epístola desta Missa, nos dá a resposta, e ela é muito concreta.
Lembremos que, no início do capítulo XII da Epístola aos Romanos, São Paulo exortou os cristãos a oferecer seus corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus: rationabile obsequium vestrum, o culto racional, o culto espiritual. E logo em seguida, no trecho que ouvimos hoje, ele descreve como se realiza este culto na prática quotidiana.
Primeiramente, pelo amor fraternal. “Dilectione fraternitatis invicem diligentes, honore invicem praevenientes”, amando-nos uns aos outros com amor fraternal, prevenindo-nos mutuamente com honra. Meus caros, não há adoração verdadeira a Deus onde há desprezo pelo próximo. São João é claríssimo: quem diz que ama a Deus e odeia seu irmão é mentiroso. O amor a Deus invisível manifesta-se no amor ao irmão visível. Não se trata de amor abstrato, de boa vontade vaga, de simpatia distante. Trata-se de honra concreta, de deferência mútua, de preferir o outro a si mesmo.
Segundo, pelas disposições interiores que sustentam este amor. O Apóstolo enumera: “Sollicitudine non pigri”, não sejamos preguiçosos no cuidado. A preguiça espiritual é veneno que mata lentamente. Quantos começam bem e depois esmorecem! Quantos têm fervor nos primeiros dias e depois se acomodam! São Paulo nos adverte: sem diligência, sem esforço, sem luta contra a inércia natural, não há vida cristã verdadeira.
E acrescenta: “Spiritu ferventes, Domino servientes”, fervorosos no espírito, servindo ao Senhor. Notemos a ordem: o fervor interior primeiro, o serviço exterior depois. Não basta a ação externa; é preciso que ela proceda de um coração ardente. A tibieza, essa mornidão que não é fria nem quente, é vomitada pela boca de Deus, como lemos no Apocalipse. O Senhor quer corações que ardam, não corações que apenas funcionem.
Terceiro, pelas virtudes que nos sustentam nas provações. Porque a vida cristã não é caminho florido; é via dolorosa. E São Paulo sabe disto, e por isso nos instrui: “Spe gaudentes, in tribulatione patientes, orationi instantes”, alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração.
Alegres na esperança: não na esperança vã de que tudo se resolverá neste mundo, mas na esperança certa da vida eterna. A alegria cristã não depende das circunstâncias; depende da promessa de Deus.
Pacientes na tribulação: não com resignação passiva de quem se entrega à fatalidade, mas com fortaleza de quem sabe que o sofrimento aceito tem valor redentor. A paciência cristã não é fraqueza; é força. A paciência tudo alcança, como ensina Santa Teresa d’Ávila e nos lembra sempre o Pe. Pasquotto.
Perseverantes na oração: esta é a fonte de todas as demais virtudes. Sem oração, não há fervor; sem fervor, não há paciência; sem paciência, não há alegria. A oração é o oxigênio da alma. Quem abandona a oração, morre espiritualmente, e às vezes sem nem perceber, como quem adormece no frio e não acorda mais.
Quarto, pelas obras exteriores. “Necessitatibus sanctorum communicantes, hospitalitatem sectantes”, comunicando nas necessidades dos santos, praticando a hospitalidade. O amor não fica nas palavras; desce às obras. Partilhar com quem precisa, acolher quem chega, abrir a mão e abrir a porta, isto é adoração. Quando damos de comer ao faminto, vestimos o nu, visitamos o enfermo, estamos adorando a Deus neles.
Eis, meus caros, a forma concreta da adoração: amor fraternal sustentado por diligência e fervor, fortalecido por esperança, paciência e oração, manifestado em obras de misericórdia. Isto é o culto espiritual que agrada a Deus.
III. O fruto desta adoração
Chegamos ao terceiro e último ponto. Que fruto produz esta adoração vivida na caridade fraterna? A Coleta desta Missa nos responde: a paz.
“Omnipotens sempiterne Deus, qui caelestia simul et terrena moderaris: supplicationes populi tui clementer exaudi, et pacem tuam nostris concede temporibus.” Deus onipotente e eterno, que governais simultaneamente as coisas celestes e terrestres: ouvi clementemente as súplicas do vosso povo, e concedei a vossa paz aos nossos tempos.
Notemos três coisas nesta oração, meus caros conspícuos. Primeiro: Deus governa tudo, o céu e a terra, as realidades espirituais e as temporais. Nada escapa à sua Providência. Os poderes deste mundo, como o seu príncipe, o demônio, julgam-se autônomos, mas são instrumentos nas mãos de Deus, ainda que não o saibam ou que se recusem.
Segundo: a paz é um dom pedido e não uma conquista autônoma. “Pacem tuam concede”, concedei a vossa paz. A Santa Igreja não diz: “ajudai-nos a construir a paz”, como se fosse obra principalmente nossa. Diz: “concedei”, porque sabe que a paz verdadeira é dom de Deus. Os homens podem estabelecer armistícios, podem assinar tratados, podem equilibrar forças; mas a paz verdadeira, a paz que penetra os corações e ordena as sociedades segundo a verdadeira justiça, esta só Deus pode dar.
Terceiro: pedimos a paz “nostris temporibus”, para os nossos tempos. Cada geração precisa desta paz; cada época tem suas guerras, suas discórdias, suas divisões. A oração de nossa santa Madre Igreja é sempre atual.
Meus caros, há uma falsa paz que o mundo oferece: a paz como mera ausência de conflito exterior, a paz como acomodação ao erro, a paz como silêncio cúmplice diante da injustiça, a paz que se compra ao preço da verdade. Esta paz é ilusão, é engano, é armadilha. A verdadeira paz, a pax Christi, é ordem interior fundada na verdade e na caridade. Ela começa no coração que adora a Deus e ama o próximo; estende-se às famílias onde reina a caridade fraterna que São Paulo descreve; irradia-se para a sociedade quando esta reconhece a soberania de Cristo, estabelecendo então o Reinado Social de Cristo.
A sociedade cristã que vive o amor fraternal segundo a Epístola experimenta esta paz. Não paz perfeita, porque ainda peregrinamos; não paz sem sofrimento, porque ainda carregamos a cruz. Mas paz real, paz sólida, paz que o mundo não pode dar nem tirar.
Peroração
Caríssimos fiéis, concluamos. A Epifania continua. Cristo manifestado permanece diante de nós, não mais na manjedoura, não mais em Caná, mas no Santíssimo Sacramento, na sua Santa Romana Igreja, nos seus pobres. E esta manifestação reclama nossa resposta.
Que toda a terra O adore, e que nós, primeiramente, O adoremos. Não com os lábios apenas, mas com vida inteira. Não com sentimentos vagos, mas com uma caridade concreta: amando-nos uns aos outros, servindo com fervor, perseverando na oração, partilhando com os necessitados.
E assim, vivendo esta adoração verdadeira, receberemos o dom que a Santa Igreja pede na Coleta: a paz de Deus para os nossos tempos. Não a paz enganosa do mundo, mas a paz de Cristo, a única verdadeira, aquela que Ele prometeu aos seus: “Pacem meam do vobis, non quomodo mundus dat.”
Em Caná, Nossa Senhora disse aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” Meus caros, façamos nós também. Obedeçamos ao Senhor manifestado. Enchamos as talhas de nossa vida com a água da obediência humilde, e Ele a transformará no vinho da caridade ardente.


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