[Sermão] Puxando pelos cabelos, ou o preço de não deixar o Sangue de Cristo ser em vão

O sermão pregado não segue o texto abaixo ipsis litteris.

Sermão para a Festa do Preciosíssimo Sangue de Jesus
Por ocasião do 8º aniversário sacerdotal

Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 1º de julho de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

“Sine sanguinis effusione non fit remissio” – Sem derramamento de sangue não há remissão dos pecados. Estas palavras do Apóstolo aos Hebreus ressoam com particular eloquência neste dia em que nossa Santa Romana Igreja celebra a Festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. E permite a Divina Providência que, neste mesmo dia, complete mais um ano desde aquele momento tremendo em que estas mãos indignas foram consagradas para tocar o Corpo e o Sangue do Redentor.

Não há, meus caros, coincidências no plano divino. Se hoje contemplamos o Sangue derramado e celebramos o sacerdócio instituído, é porque Deus aproveita da ocasião para nos falar da íntima conexão entre o sacrifício do Calvário e o sacrifício do altar, entre o Sangue do Cordeiro e o sangue – às vezes apenas místico, às vezes também físico – daqueles que Ele escolheu para perpetuar Sua oblação.

Consideremos primeiro, meus caros, o valor deste Sangue que hoje contemplamos na liturgia. Cada gota vertida pelo Salvador – desde a primeira, derramada na Circuncisão, até a última, brotada de Seu Coração traspassado – possui valor infinito. São João Crisóstomo, com sua costumeira eloquência, afirmava: “Uma só gota do Sangue de Cristo bastaria para redimir mil mundos”. E, no entanto, o Divino Redentor quis derramá-lo todo. Por quê? Para que compreendêssemos a gravidade infinita do pecado e a infinitude ainda maior de Seu amor.

Este Sangue, ao contrário do sangue de Abel que clamava por vingança desde a terra, eleva-se como incenso de suave odor, implorando misericórdia. Santo Agostinho, comentando esta passagem do Gênesis, ensina-nos: “O sangue de Abel pedia vingança, o Sangue de Cristo implora misericórdia”. Que contraste! O sangue do primeiro homicídio gritava por justiça; o Sangue do Justo assassinado pelo povo judeu em um abominável deicídio suplica por perdão.

Mas tremamos, meus caros! Este mesmo Sangue que salva pode também condenar. Pois aquele que O despreza, aquele que O calca aos pés, aquele que O recebe indignamente, torna-se réu deste mesmo Sangue. Eis a terrível realidade: o remédio pode tornar-se veneno, a medicina converter-se em condenação.

E aqui chegamos ao ponto que mais de perto toca o coração deste pobre sacerdote que vos fala. Se tremenda é a responsabilidade de todo cristão diante do Sangue de Cristo, que dizer daquele que foi constituído seu ministro? São Gregório Magno advertia: “Reconhecei, ó sacerdotes, o que fazeis! Que vossas vidas correspondam ao mistério que celebrais”.

A cada manhã, quando elevamos o cálice na consagração, temos em nossas mãos consagradas – repito, em nossas pobres mãos humanas – o próprio Sangue que redimiu o mundo. Os anjos, que cobrem o rosto diante deste mistério, como faz o subdiácono na missa solene, devem admirar-se da audácia divina que confia tal tesouro a vasos de barro. E nós, ministros indignos, devemos tremer.

Por quê? Porque seremos julgados não apenas pelas nossas próprias almas, mas por todas aquelas que nos foram confiadas. São João Crisóstomo, sempre severo quando se trata da dignidade sacerdotal, não hesita em afirmar: “Se uma alma se perde por nossa negligência, nem todo o nosso sangue bastará para expiá-lo”. Palavras terríveis! O sacerdote negligente torna vão, para algumas almas, o Sangue de Cristo. Que responsabilidade!

Mas não basta, meus caros, oferecer o sacrifício no altar. Quando Nosso Senhor disse “Hoc facite in meam commemorationem” – Fazei isto em memória de mim – não ordenava apenas a repetição de um rito. Ordenava a continuação de uma oblação. O sacerdote deve ser vítima com Cristo.

Santo Inácio de Antioquia, caminhando para o martírio, escrevia aos romanos: “Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras para tornar-me pão puro de Cristo”. Eis o ideal! O altar de pedra ou madeira onde celebramos cada manhã deve estender-se por toda nossa vida. Não há dois sacrifícios – um na igreja, outro fora dela. Há um único sacrifício que se prolonga nas vinte e quatro horas do dia, todos os dias da vida desde a ordenação até o momento do juízo.

Isto significa consumir-se no apostolado. São Paulo proclamava: “Omnibus omnia factus sum” – Fiz-me tudo para todos. Não por versatilidade humana ou desejo de agradar, mas por caridade sobrenatural. Santo Ambrósio, comentando a vida pastoral, sentenciava: “O bom pastor não se poupa quando se trata da salvação do rebanho”.

Não se poupar! Gastar-se e desgastar-se! Consumir as forças do corpo e da alma! E isto não por heroísmo humano, mas por configuração com Aquele que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida”.

E aqui, meus caros, toco numa ferida que sangra no coração de todo sacerdote zeloso: a incompreensão, a calúnia, a ingratidão. São Gregório Nazianzeno, recordando seu ministério episcopal, cunhou uma expressão paradoxal: foi “apedrejado com benefícios”. Que significa isto? Que muitas vezes aqueles a quem mais amamos e servimos são os primeiros a voltar-se contra nós.

Mas não é este o destino do discípulo que não pode ser maior que seu Mestre? Se Cristo foi incompreendido, caluniado, abandonado, por que haveria o sacerdote de esperar melhor sorte? São Cipriano, bispo e mártir, deixou-nos esta sentença lapidar: “O sacerdote que não está disposto a morrer por suas ovelhas não é digno de ser chamado pastor”.

Morrer, sim! E não falo apenas do martírio cruento, embora este também devamos desejar se Deus no-lo conceder. Falo do martírio branco, quotidiano, feito de mil pequenas mortes: a morte do amor-próprio quando somos criticados injustamente; a morte da vontade própria quando devemos atender o penitente importuno; a morte do conforto quando a caridade nos chama em hora inconveniente; a morte da reputação quando a verdade deve ser proclamada contra a opinião dominante.

E por que, meus caros, aceitar tudo isto? Por que abraçar tal vida de renúncias e sofrimentos? A resposta é simples e tremenda: para que as almas sejam banhadas no Sangue de Cristo. Este é nosso único objetivo, nossa única razão de existir como sacerdotes.

Pelos sacramentos que administramos, pela palavra que pregamos, pelo exemplo que damos – ou deveríamos dar –, nossa missão é uma só: aplicar às almas o Sangue redentor. São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, dizia com sua simplicidade profunda: “O sacerdote continua a obra da Redenção sobre a terra”. Continuá-la! Não apenas recordá-la ou celebrá-la, mas continuá-la!

Isto significa, meus caros, que muitas vezes seremos incompreendidos. Quando pregarmos contra o pecado, seremos acusados de dureza. Quando exortarmos à virtude, seremos tachados de exagerados. Quando defendermos a verdade, seremos chamados de intransigentes ou rígidos. Mas que importa? Nosso modelo não são os homens, é Cristo. E Cristo foi sinal de contradição.

Permitam-me aqui, meus caros, ser claro sobre o que poderia resumir todo nosso ministério sacerdotal, e isso que em uma expressão que certamente vai de encontro às ilusões do mundo bem como arrepia a mentalidade mundana. Certamente as pessoas do mundo considerar-me-iam severo demais, outros achariam-me importuno, outros ainda gostariam que fossemos mais mais moderno e adaptado aos novos tempos. Mas declaro que meu objetivo é levar todos os senhores para o céu, nem que seja puxando pelos cabelos!

Sim, pelos cabelos! Porque o amor verdadeiro não é sempre suave e agradável. Santo Agostinho, que conhecia bem o coração humano, advertia: “Quem vos poupa, não vos ama”. A caridade autêntica sabe repreender, sabe exortar, sabe até importunar quando se trata da salvação eterna. Prefiro mil vezes ser odiado por vossa salvação do que amado por vossa perdição.

Eis, portanto, meus caros, o que significa ser sacerdote na economia do Preciosíssimo Sangue. Significa ser canal deste Sangue para as almas, mesmo que isso nos custe nosso próprio sangue. Significa ser outro Cristo não para ser honrado como Cristo, mas para ser crucificado como Cristo. Significa amar até o fim, até o extremo, até a loucura da Cruz.

Neste aniversário de ordenação, renovo diante de vós e diante do Senhor meu propósito: gastar e desgastar-me pela salvação de vossas almas. Que o Sangue de Cristo não tenha sido derramado em vão por nenhum de vós! Que todos – repito, todos! – sejamos um dia reunidos no Céu, onde contemplaremos face a face Aquele cujo Sangue hoje veneramos sob os véus sacramentais.

Ó Maria, Mãe dos sacerdotes, Rainha dos mártires e Senhora das Dores, que permanecestes de pé junto à Cruz quando o Sangue de vosso Filho era derramado, sustentai vossos pobres sacerdotes em sua oblação quotidiana. Que sejamos dignos ministros deste Sangue que salva, dignos dispensadores destes mistérios que santificam, dignos pastores deste rebanho comprado a preço de Sangue.

E vós, meus caros conspícuos, rezai por nós. Orai para que perseveremos até o fim. Orai para que jamais traiamos o Sangue que consagramos. Orai para que, no dia tremendo do juízo, possamos apresentar-nos diante do Sumo e Eterno Sacerdote não de mãos vazias, mas levando conosco todas as almas que nos foram confiadas, lavadas e embranquecidas no Sangue do Cordeiro.

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O Antoniano