[Sermão] Prudentes como as serpentes, ou por que os mundanos parecem mais astutos que os cristãos

The shrewd steward what does this parable mean? | church blog


Sermão para o VIII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 03 de agosto de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Nossa santa Madre Igreja neste oitavo domingo depois de Pentecostes nos oferece hoje lições de profunda importância para nossa salvação. Na Coleta desta Missa, pedimos a Deus que ordene nossos dias em sua paz e nos conceda pensar e fazer sempre o que é reto. Esta oração, meus caros, contém em si mesma o programa de vida que as leituras de hoje desenvolvem: como viver segundo o Espírito Santo com a prudência dos verdadeiros filhos de Deus.

Santo Agostinho, o grande Doutor da Graça, ensina-nos que “dois amores fizeram duas cidades: o amor de si até o desprezo de Deus fez a cidade terrestre; o amor de Deus até o desprezo de si fez a cidade celeste.” Eis aqui, em poucas palavras, todo o drama da existência humana e o fundamento das lições deste domingo.

São Paulo, na Epístola de hoje, adverte-nos com firmeza: “irmãos, não somos devedores da carne para vivermos segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas se pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis.”

Que significa, meus caros, viver segundo a carne? Não pensemos apenas nos pecados mais grosseiros. Viver segundo a carne é orientar nossa existência exclusivamente pelos critérios mundanos: o prazer imediato, o lucro sem escrúpulos, a vaidade, o orgulho, a negligência das coisas eternas. É viver como se Deus não existisse, como se a morte fosse o fim de tudo, como se nossa alma imortal não tivesse destino eterno. É, apesar de termos aqui diante de nós Deus encarnado no sacrário, e o calvário renovado diante de nós no santo sacrifício do altar, esquecermo-nos praticamente de Deus e da eternidade ao longo da semana.

Em contraste luminoso, viver segundo o Espírito é deixar-se guiar pela graça divina, é subordinar o temporal ao eterno, é usar dos bens deste mundo como peregrinos que caminham para a pátria celeste. “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus”, continua o Apóstolo, “esses são filhos de Deus.”

O Evangelho de hoje apresenta-nos uma das parábolas mais intrigantes de Nosso Senhor: a do administrador infiel. Este homem, prestes a perder seu emprego, age com notável astúcia para garantir seu futuro. Reduz as dívidas dos devedores de seu senhor, conquistando assim amigos que o receberão quando perder seu cargo.

Por que Cristo elogia este administrador desonesto? São Tomás de Aquino esclarece-nos: “Os filhos deste mundo são mais prudentes em seu gênero porque põem maior empenho nos negócios temporais do que os bons nos espirituais.”

Eis o paradoxo doloroso, meus caros! Os mundanos demonstram mais zelo, mais engenhosidade, mais persistência em buscar os bens passageiros do que nós, cristãos, em buscar os bens eternos. O comerciante levanta-se antes da aurora para seu negócio; nós, muitas vezes, nem sequer encontramos tempo para a oração matinal. O ambicioso planeja meticulosamente sua carreira; nós improvisamos nossa vida espiritual. O avarento conta cada moeda; nós desperdiçamos as graças divinas.

Mas qual é então a prudência que Nosso Senhor nos recomenda? São Bernardo de Claraval nos instrui: “Sede prudentes como as serpentes para descobrir as ciladas do demônio, e simples como as pombas para não armar ciladas a ninguém.”

A prudência cristã, meus caros, não é a astúcia mundana que engana e prejudica o próximo. É a virtude que São Tomás chama de “auriga virtutum”, a cocheira, condutora das virtudes, aquela que dirige todas as outras para seu fim próprio. É a sabedoria prática que sabe usar dos meios temporais para alcançar os fins eternos.

São Jerônimo, comentando precisamente nosso Evangelho, exorta-nos: “Fazei do dinheiro injusto um amigo justo, dando-o aos pobres, para que eles te recebam nos tabernáculos eternos.” O dinheiro é chamado “injusto” não porque seja mau em si mesmo, mas porque frequentemente é ocasião de injustiça e porque pertence a este mundo marcado pelo pecado. Todavia, pela virtude divina da caridade, podemos transformar este metal vil em ouro celestial.

Como realizar esta síntese entre a vida no Espírito e a prudência sobrenatural? São Francisco de Sales oferece-nos a chave: “Devemos ter a simplicidade da pomba para com Deus e a prudência da serpente para com nós mesmos.”

Para com Deus, simplicidade total: abandono filial, confiança absoluta, obediência pronta. Recebemos, como diz São Paulo, “o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Abba, Pai!” Não mais escravos do pecado e do temor, mas filhos amados que confiam no cuidado paternal de Deus.

Para com nós mesmos e em relação ao mundo, prudência vigilante: conhecer nossas fraquezas, prever as tentações, fugir das ocasiões próximas de pecado, usar sabiamente do tempo e dos bens que Deus nos confia.

Permitam-me, meus caros, descer a algumas aplicações concretas desta doutrina.

Primeiro, no uso do dinheiro e dos bens materiais. São Leão Magno ensina que “a sabedoria cristã consiste em que o que é temporal não prejudique o eterno, e o eterno seja preferido ao temporal.” Examinemos nossa consciência: Somos mais diligentes em ganhar dinheiro do que em ganhar o Céu? Guardamos com mais cuidado nossos bens materiais do que nossa alma? A esmola que damos corresponde ao amor que professamos a Cristo presente nos pobres?

Segundo, na luta contra o pecado. Se o administrador infiel foi tão astuto para assegurar seu futuro temporal, quanto mais astutos devemos ser nós para assegurar nosso futuro eterno! Isso significa examinar diariamente nossa consciência, praticar com fidelidade a oração mental, que, amigos de Deus, estejamos sempre conversando com ele, frequentar os sacramentos, especialmente a Confissão, com regularidade, mortificar as paixões antes que se tornem hábitos viciosos, manter o estudo da doutrina e a leitura espiritual para mantermos a familiaridade com as coisas do céu.

Terceiro, no aproveitamento do tempo. Cada dia que passa é uma oportunidade irrepetível de crescer em santidade. Os santos foram prudentes administradores do tempo: Santa Teresa d’Ávila dizia que daria a vida por um Credo bem rezado; São Luís Gonzaga afirmava que, se a morte o surpreendesse brincando, continuaria brincando, porque fazia tudo para a glória de Deus.

Caríssimos fiéis, a lição deste domingo é clara, claríssima, porém exigente como o caminho estreito do Evangelho. Somos chamados a viver como filhos de Deus, guiados pelo Espírito Santo, usando da prudência sobrenatural que sabe ordenar todas as coisas para a vida eterna.

Que contraste entre os filhos deste século e os filhos da luz! Aqueles, toda sua astúcia para bens que a traça corrói e a ferrugem consome; nós, chamados a usar de santa astúcia para tesouros que nem a traça nem a ferrugem consomem. Aqueles, escravos da carne que perece; nós, filhos do Espírito que vivifica.

A Santíssima Virgem Maria, sedes sapientiae, sede da sabedoria, é o modelo perfeito desta prudência sobrenatural. Ela que “conservava todas estas coisas, meditando-as em seu coração”, ela que soube unir a mais alta contemplação com a mais perfeita ação, ela que viveu totalmente segundo o Espírito Santo, interceda por nós.

Que possamos, ao sair hoje desta nossa capela, levar conosco o firme propósito de sermos administradores prudentes da graça de Deus. Que cada decisão nossa seja tomada à luz da eternidade. Que usemos dos bens temporais como meios, jamais como fins. Que vivamos verdadeiramente como filhos de Deus, guiados pelo Espírito Santo, prudentes na luta contra o mal, simples no amor ao bem.

Assim, quando chegar o momento de prestarmos contas de nossa administração, ouviremos não a sentença terrível do administrador infiel, mas as palavras benditas: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”.

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