[Sermão] Por que podemos confiar em Deus? A bondade e onipotência

Bartolomé Esteban Perez Murillo Adoration of the Shepherds WGA16387


Sermão para o Natal do Senhor
(3ª missa, do dia)
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 25 de dezembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

“Puer natus est nobis, et Filius datus est nobis” (Is. IX, 6)

Caríssimos fiéis,

Nossa santa Romana Igreja, nesta terceira Missa do Natal, nos impele a entoar um cântico novo: “Cantate Domino canticum novum, quia mirabilia fecit.” Cantai ao Senhor um cântico novo, porque Ele fez maravilhas. Não é um convite vago à piedade; é uma ordem fundada na realidade concreta; como uma boa Mãe, a Igreja nos trata como crianças que estão aprendendo o nome das coisas, repetindo aquilo que a mãe mostra e nomeia. A igreja quer que constatemos a realidade do universo após a encarnação. Deus fez maravilhas, e a maior delas contemplamos hoje.

A alegria que nossa Santa Igreja nos pede não é a alegria efêmera do mundo, que nasce da distração e morre com ela. É alegria que brota do conhecimento da verdade. Conhecendo o que Deus fez por nós, a alma não pode deixar de alegrar-se. E desta alegria nasce a confiança. Perguntemo-nos, pois: que maravilha é esta que justifica o nosso júbilo? E por que podemos, a partir dela, confiar sem temor?

I. A servidão da qual fomos libertados

Para compreender a grandeza do dom, é necessário antes medir a profundidade da miséria. A Coleta desta Missa descreve com precisão a nossa condição antes de Cristo: “sub peccati jugo vetusta servitus”, uma servidão antiga sob o jugo do pecado. Não é metáfora piedosa, mas um verdadeiro diagnóstico.

Desde a queda de Adão, meus caros, a humanidade gemia sob este peso. O pecado original não foi apenas um ato passado; foi uma ferida que se transmitiu a toda a descendência. Éramos escravos, escravos do pecado, escravos da morte, escravos do medo. É que dizia Santo Agostinho: o homem pôde descer sozinho ao abismo, mas não podia subir sozinho. A queda foi obra nossa; a elevação só poderia ser obra de Deus.

É verdade que o Senhor não abandonou a humanidade nas trevas da ignorância do seu estado e da promessa de socorro. Falou muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, como nos recorda a Epístola: “Multifariam multisque modis olim Deus loquens patribus in prophetis.” Muitas vezes e de muitos modos Deus falou outrora a nossos pais pelos profetas. Foram luzes parciais, promessas, figuras do que havia de vir. Mas a Lei antiga, por si mesma, não podia salvar. Mostrava o pecado, porém não dava a força para vencê-lo. Éramos como doentes que conhecem o diagnóstico, mas não possuem o remédio.

II. Aquele que nos liberta

Eis, porém, que na plenitude dos tempos, Deus enviou não mais um profeta, não mais um anjo, mas o seu próprio Filho. “Novissime diebus istis locutus est nobis in Filio”, nestes últimos dias, falou-nos no Filho. A revelação agora é plena, definitiva, insuperável. Não mais a palavra de um mensageiro, mas a Palavra substancial do Pai feita carne.

Quem é este Menino que nasce em Belém? O Introito responde com os títulos proclamados pelo profeta Isaías: Admirabilis, Consiliarius, Deus Fortis, Pater futuri saeculi, Princeps pacis. Admirável, Conselheiro, Deus Forte, Pai do século futuro, Príncipe da paz. Não são hipérboles; são atributos divinos. A Epístola confirma: Ele é “splendor gloriae et figura substantiae” do Pai, o resplendor da glória divina, a imagem perfeita da substância do Pai. Por Ele foram criados os séculos; Ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. Os anjos, criaturas tão superiores a nós, prostram-se diante d’Ele em adoração: “Et adorent eum omnes Angeli Dei.”

Meus caros, por que foi necessário que o próprio Deus viesse? Por que não bastou um anjo, um profeta, um santo? A razão é teológica e precisa. A dívida contraída pelo pecado era infinita, porque ofendia a Majestade infinita de Deus. Ora, nenhuma criatura finita poderia pagar dívida infinita. Era necessário que o Redentor fosse Deus. Ao mesmo tempo, a dívida fora contraída pelo homem, e devia ela ser paga pelo homem. Era necessário que o Redentor fosse homem. Logo, somente o Deus-Homem podia redimir-nos. Eis a razão do Natal: não há outra.

III. Bondade e onipotência: os fundamentos da nossa confiança

Consideremos agora, meus caros, os dois atributos divinos que resplandecem de modo particular neste mistério: a bondade e a onipotência.

A bondade move a Encarnação. Deus não foi forçado por necessidade alguma. Nenhuma lei exterior O obrigava; nenhuma força O constrangia. Foi pura bondade, amor que transborda, misericórdia que se inclina sobre a miséria. “Puer natus est nobis, Filius datus est nobis”, nasceu para nós, foi dado a nós. O pronome é decisivo: não nasceu para Si, mas para nós. São Leão Magno exclama: “Agnosce, o christiane, dignitatem tuam!”; Reconhece, ó cristão, a tua dignidade! O Filho de Deus quis unir-se à tua natureza.

A onipotência garante a eficácia. Aquele que nasce no presépio não é um deus fraco, limitado, incapaz. É o Deus Fortis de Isaías, aquele que “portat omnia verbo virtutis suae, aquele que sustenta o universo pela palavra do seu poder. Se Ele sustenta os céus e a terra, como não poderá sustentar a nossa fraqueza?

Eis, meus caros, o fundamento inabalável da nossa confiança. Não bastaria a bondade sem o poder: Deus quereria salvar-nos, mas não poderia. Não bastaria o poder sem a bondade: Deus poderia salvar-nos, mas não quereria. Em Cristo, porém, temos ambos em grau infinito. Ele quer salvar-nos e pode salvar-nos. Santo Tomás ensina que a esperança cristã se apoia precisamente nestes dois pilares: a onipotência e a misericórdia de Deus. Quem confia em tal fundamento não será confundido.

IV. A alegria como resposta

Desta verdade, meus caros, nasce a alegria do Natal. Não é uma fuga da realidade, mas encontro com a Realidade suprema. Não é ilusão que anestesia, mas conhecimento que liberta. Sabemos quem nasceu; sabemos por que nasceu. A alma que compreende isto não pode deixar de cantar um novo cântico de júbilo, um cântico que nos eleva a Deus pela vida da graça em nós, um cântico que foi entoado pelo Menino Deus e ao qual nos unimos pela oração, pelos sacramentos, pela sagrada liturgia.

Esta alegria expulsa o medo. “Nolite timere”, não temais, disseram os anjos aos pastores. Se Deus está conosco, quem estará contra nós? O pecado foi vencido pelo Cordeiro que tira os pecados do mundo. A morte foi vencida por Aquele que é a Ressurreição e a Vida. O demônio foi vencido pelo Deus Forte. Que nos resta temer? Por isso que são Bernardo consola-nos: o Menino de Belém não vem para aterrorizar, mas para salvar; não vem para condenar, mas para redimir.

Conclusão

Neste Natal, meus caros, renovemos a nossa confiança. Não olhemos para a grandeza dos nossos pecados, mas para a grandeza do nosso Salvador. Aquele Menino que jaz nas palhas é o resplendor da glória do Pai, o Criador dos séculos, o Deus Forte que sustenta o universo. E nasceu por nós. Afastemos a tristeza que vem do demônio; abracemos a alegria que vem da fé. Aproximemo-nos do presépio com a Santíssima Virgem e São José, com os pastores e os Magos, com os coros angélicos que cantam glória a Deus nas alturas. E digamos com nossa Santa Madre Igreja e com todo o coração: “Puer natus est nobis, et Filius datus est nobis!” Um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Antoniano