“Spiritus Domini super me, propter quod unxit me evangelizare pauperibus misit me”
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc. IV, 18).
EXÓRDIO
Caríssimos fiéis,
Estas palavras que Nosso Senhor Jesus Cristo proclamou na sinagoga de Nazaré ecoam hoje com particular ressonância nesta festa de Santo Antônio de Pádua, que a Providência divina quis fazer coincidir com a sexta-feira das Quatro-Têmporas de Pentecostes. Não é, meus caros, mera coincidência litúrgica, mas sim uma oportunidade que a Providência nos dá para tratarmos mais uma vez da obra de santificação do Espírito Santo, pois neste santo franciscano vemos resplandecer com singular fulgor os mesmos dons do Espírito Santo que desceram sobre os apóstolos e Nossa Senhora no Cenáculo.
Ensina Santo Tomás que “Dona Spiritus Sancti sunt quaedam habitus perfectivi hominis ad bene sequendum instinctum Spiritus Sancti”, “Os dons do Espírito Santo são certos hábitos que aperfeiçoam o homem para seguir bem o instinto do Espírito Santo”. E São Boaventura, contemporâneo de glorioso santo liboeta, declarava que “Septem dona Spiritus Sancti sunt septem scalae Jacob, per quas anima ascendit de virtute in virtutem”, “Os sete dons do Espírito Santo são os sete degraus da escada de Jacó, pelos quais a alma ascende de virtude em virtude”.
Santo Antônio, que nossa Santa Romana Igreja venera como “Arca do Testamento” e “Martelo dos Hereges”, foi verdadeiramente ungido pelo Divino Espírito Santa para uma missão extraordinária: combater o erro e proclamar a verdade numa época de trevas doutrinárias. Como testemunha seu contemporâneo São Boaventura: “Arca Testamenti vocatus est, quia in eo reconditae erant gemmae scientiae divinae”, “Foi chamado Arca do Testamento porque nele estavam guardadas as gemas da ciência divina”. Se os apóstolos receberam línguas de fogo para converter o mundo pagão, Santo Antônio recebeu eloquência celestial para confundir os hereges e reconverter a cristandade corrompida.
Hoje, meus caros, ao contemplarmos este astro luminoso no firmamento da Igreja, consideremos como foi ele inflamando da divina caridade e como em sua vida resplandeceram os sete dons do Espírito Santo, e isso segundo o ensinamento de São Tomás de Aquino sobre o sagrado septenário. Veremos como estes dons, que são habitus sobrenaturais dados para aperfeiçoar as potências da alma, manifestaram-se de modo heroico neste seráfico pregador.
I. OS DONS INTELECTUAIS QUE APERFEIÇOAM O INTELECTO
A sabedoria: o dom supremo
O primeiro e mais excelso dos dons é a sabedoria, que segundo São Tomás, é o conhecimento das causas altíssimas pelo modo da inclinação. Ora, meus caros, em Santo Antônio este dom manifestou-se de maneira verdadeiramente admirável.
Quando ainda jovem cônego regular em Coimbra, nosso santo já demonstrava uma sede insaciável das Escrituras Sagradas. Mas não era mera erudição ou curiosidade — era uma contemplação amorosa que o elevava às alturas da união mística. Como dizia Santo Agostinho: “Fecisti nos ad te, Domine, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te”, “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto está nosso coração até que repouse em ti”. Seus contemporâneos testemunham que, ao meditar sobre os mistérios divinos, seu rosto se transfigurava como o de Moisés no Sinai. Eis aqui, meus caros, não o conhecimento frio meramente intelectual, mas a sabedoria quente do contemplativo, que vive unido a Deus e tem um conhecimento experimental, experimenta Deus mais do que o compreende.
Nas suas pregações, esta sabedoria brilhava de tal modo que até os mais simples pescadores de Rimini compreendiam os mais sublimes mistérios. Como os peixes que acorreram para ouvi-lo quando os homens se fizeram surdos, a natureza inteira parecia reconhecer nele aquela sabedoria primordial que ordena todas as criaturas ao seu fim último.
Que contraste, meus caros, entre a sabedoria mundana dos pretensos mestres albigenses — toda feita de soberba e negação — e esta sabedoria celeste de Antônio, toda tecida de humildade e afirmação! Aquela destrói, esta edifica; aquela semeia dúvidas, esta planta certezas; aquela conduz às trevas, esta eleva à luz.
O entendimento: a penetração dos mistérios
O dom do Entendimento, que nos faz penetrar na essência íntima das verdades reveladas, resplandeceu em Santo Antônio de modo extraordinário. Enquanto os hereges cátaros se perdiam em interpretações fantasiosas das Escrituras, ele possuía aquela luz sobrenatural que lhe descortinava os sentidos mais profundos da Palavra divina.
Conta-se que em Paris, diante dos mais doutos teólogos, expôs com tal clareza e profundidade os mistérios da Encarnação e da Eucaristia, que até os mestres se admiravam. Não era, meus caros, sutileza escolástica vazia, mas penetração real e viva dos mistérios divinos. Recordemos as palavras que o próprio São Francisco lhe dirigiu: “Placet mihi quod tu legas theologiam fratribus, dummodo super hujusmodi studio spiritum orationis et devotionis non extinguas”, “Agrada-me que ensines teologia aos irmãos, contanto que sobre tal estudo não extingas o espírito de oração e devoção”. Onde outros viam apenas letras mortas, ele contemplava a Verdade viva que se escondia sob o véu das doutrinas teológicas.
Este dom manifestava-se especialmente quando refutava os erros dos hereges cátaros. Com que luz celestial desmascarava suas contradições. Como desvendava, sob as aparências de piedade, o veneno mortal que corrompia as almas! Era o Espírito Santo mesmo que falava por seus lábios, confundindo a malícia com a simplicidade, vencendo a astúcia com a candura.
A ciência: o conhecimento ordenado a Deus
O dom da Ciência, que nos ensina a julgar retamente das coisas criadas em ordem ao fim sobrenatural, teve em Santo Antônio uma manifestação verdadeiramente prodigiosa. Possuía ele a ciência sobrenatural que lê nas criaturas como em um livro aberto as perfeições do Criador.
Quando dirigiu sua palavra aos peixes de Rimini, não se limitou a um simples milagre, mas pronunciou palavras de admirável ciência teológica: “Vós, peixes do mar e dos rios, que obedeceis prontamente ao vosso Criador melhor que os hereges, sede benditos! Contemplai como vossa beleza silenciosa proclama a glória dAquele que vos criou: vossas escamas brilham como estrelas, vossas nadadeiras se movem em perfeita harmonia, vossa docilidade ensina aos homens rebeldes a obediência devida ao Altíssimo. Em vossa simplicidade de criaturas irracionais, sois mais sábios que os doutos orgulhosos que negam seu Criador”.
Nestas palavras, meus caros, vemos como a ciência penetrava nos mistérios da criação. Não era mera observação natural, mas contemplação sobrenatural que descobria nas criaturas mais humildes os vestígios da Trindade Santíssima. A beleza dos peixes não era para ele simples fenômeno estético, mas teofania real, manifestação das perfeições invisíveis de Deus. Sua ciência sobrenatural lia na ordem, na harmonia e na docilidade daqueles seres mudos uma eloquente lição sobre a sabedoria, a beleza e a providência divinas que deveria confundir a soberba dos hereges.
Recordemos, meus caros, como nas suas pregações usava as mais simples comparações tiradas da natureza para elevar as almas às mais altas contemplações. As abelhas, as flores, os peixes, os pássaros — tudo se tornava em seus lábios uma teofania, uma revelação de Deus. Não era vã poesia sentimental, muito menos uma ecolatria ecologista, mas ciência verdadeiramente divina que penetrava a ordem estabelecida pelo Criador e nela descobria vestígios do divino criador.
Quando pregava aos peixes de Rimini, não era apenas mais um milagre de nosso glorioso taumaturgo, mas a manifestação visível desta ciência infusa que reconhecia em todas as criaturas a obediência devida ao Verbo eterno. Se os homens, dotados de razão, se recusavam a ouvir a verdade, as criaturas irracionais dariam testemunho da sabedoria divina.
II. OS DONS PRÁTICOS QUE DIRIGEM A AÇÃO
O conselho: a prudência sobrenatural
Passemos agora, meus caros, aos dons que dirigem nossa ação segundo a luz divina. O dom do Conselho é aquela prudência infusa que nos faz discernir, em cada circunstância particular, qual a vontade de Deus.
Em Santo Antônio, este dom manifestou-se de modo insigne no ministério da confissão e da direção espiritual. Multidões acorriam de toda parte para receber seus conselhos, desde simples camponeses até os poderosos. Com que penetração sobrenatural lia nos corações! Com que sabedoria aplicava os princípios eternos às situações mais complexas! Realizava perfeitamente o ideal traçado por São Tomás: “Contemplata aliis tradere”, “Transmitir aos outros o que se contemplou”.
Sabia bem que, como ensina São Gregório Magno, “ars est artium regimen animarum”, “A arte das artes é o governo das almas”. Jamais foi um daqueles de quem se lamenta São João Crisóstomo: “Nihil frigidius est doctore qui de animabus non curat”, “Nada há mais frio que um doutor que não se importa com as almas”. Bem ao contrário, conforme a doutrina agostiniana, sabia que “in ipsa doctrina, res plus movent quam verba”, “na própria doutrina, as realidades movem mais que as palavras”.
Recordemos sua intervenção nos conflitos entre as cidades italianas. Onde os políticos só viam interesses partidários, ele discernia os desígnios da Providência. Onde os juristas se perdiam em casuísticas intermináveis, ele encontrava a solução justa que pacificava os ânimos e restaurava a ordem cristã.
Que diferença, meus caros, entre o conselho humano, sempre misturado de paixões e interesses, e este conselho divino, puro e forte como o diamante! Aquele vacila conforme as circunstâncias, este permanece firme na verdade eterna; aquele busca o útil passageiro, este procura o bem definitivo das almas.
A fortaleza: a virtude heroica
O dom da Fortaleza confere à alma uma energia e resistência sobrenatural para enfrentar os maiores perigos na defesa da verdade. Santo Antônio foi verdadeiramente um herói da fortaleza católica, não com uma espada material, mas com as armas espirituais da palavra e do exemplo.
Contemplemos, meus caros, sua coragem ao enfrentar os hereges albigenses no sul da França. Sozinho contra multidões hostis, expunha-se a todos os perigos para arrancar as almas das garras do erro. Não o detinham ameaças, não o intimidavam violências. Como os mártires antigos, preferia morrer a calar a verdade.
Esta fortaleza manifestava-se também em sua vida ascética. As penitências franciscanas, os jejuns prolongados, as vigílias, as disciplinas — tudo suportava com alegria sobrenatural, vendo nestes sofrimentos uma participação na Paixão de Cristo. Seu corpo franzino escondia uma alma de titã, temperada no fogo do amor divino.
Que contraste admirável entre a falsa fortaleza dos ímpios — toda feita de orgulho e teimosia — e esta verdadeira fortaleza dos santos, toda fundada na humildade e na confiança em Deus! Aquela é frágil como vidro, esta é sólida como rocha; aquela desmorona na primeira provação séria, esta se fortalece com as tribulações.
III. O DOM AFETIVOS QUE ORDENAM O APETITE A DEUS
A piedade: a devoção filial
O dom da Piedade inclina nosso coração a um amor filial para com Deus como Pai e para com todas as criaturas como irmãos em Cristo. Em Santo Antônio, este dom atingiu uma perfeição verdadeiramente angélica.
Sua devoção ao Menino Jesus tornou-se sua marca. Não era sentimentalismo devoto, meus caros, mas adoração profunda ao Verbo Encarnado. Quando o Menino divino lhe aparecia nos braços, era o coração do seráfico doutor que se dilatava em êxtases de amor filial. Via naquele Infante não apenas a humanidade de Cristo, mas a misericórdia por antonomásia, o amor do Verbo eterno que se fez pequeno por nosso amor.
Esta piedade estendia-se a todos os necessitados. Para os pobres, era pai; para os aflitos, consolador; para os pecadores, médico misericordioso; para os obstinados, flagelo divino. Como São Francisco, via em cada criatura humana um irmão remido pelo sangue de Cristo. Daí sua caridade incansável, que não conhecia distinção de pessoas nem cansaço nas obras de misericórdia.
O temor de Deus: a reverência suprema
Finalmente, meus caros, o dom do Temor de Deus, que é princípio da sabedoria, coroava todas as virtudes de Santo Antônio. Não era o temor servil do escravo, mas o temor filial do filho que teme mais ofender o pai amado que sofrer qualquer castigo.
Este temor manifestava-se em seu horror absoluto ao pecado, especialmente àqueles vícios que mais desonram a Deus: a heresia, que atenta contra a verdade divina, e a usura, que perverte a ordem da caridade. Com que veemência fustigava estes vícios! Com que zelo combatia tudo quanto podia manchar a pureza da fé ou corromper a simplicidade dos costumes! Sabia bem, com Santo Agostinho, que “Errare humanum est, perseverare diabolicum”, “Errar é humano, perseverar [no erro] é diabólico”. Por isso defendia com tanto ardor aquilo que São Vicente de Lérins definiu como regra infalível da fé: “Quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est”, “O que foi crido em toda parte, sempre e por todos”.
Era este temor santo que o mantinha sempre vigilante sobre si mesmo. Apesar de suas virtudes heroicas, considerava-se o menor dos pecadores. Apesar de seus dons extraordinários, atribuía tudo à pura misericórdia divina. Como ensina São Bento, “Primus humilitatis gradus est timor Domini”, “O primeiro grau da humildade é o temor de Deus”. Eis, meus caros, a verdadeira grandeza: quanto mais alto se eleva um santo, tanto mais profundamente se humilha.
PERORAÇÃO
Caríssimos fiéis,
Eis os sete dons do Espírito Santo resplandecendo como sete estrelas no firmamento da santidade antoniana. Que exemplo para nossos tempos de confusão doutrinária e tibieza espiritual!
Hoje, quando os erros modernos — filhos legítimos das antigas heresias — novamente obscurecem a verdade católica; quando a falsa ciência pretende destronar a fé; quando a corrupção dos costumes envergonha a cristandade; quando os próprios pastores às vezes titubeiam na defesa da ortodoxia — hoje mais que nunca precisamos da intercessão deste martelo dos hereges, desta arca do testamento, deste doutor evangélico.
Meus caros, peçamos a Santo Antônio que interceda junto ao Espírito Santo para que também em nós se manifestem, segundo nossa vocação e estado, estes mesmos dons celestiais. Pedindo-lhe:
- A Sabedoria para conhecer e amar as coisas eternas acima das temporais;
- O Entendimento para penetrar nos mistérios da fé e resistir aos sofismas do erro;
- A Ciência para ordenar retamente todas as coisas ao nosso fim último;
- O Conselho para discernir em cada momento a vontade divina;
- A Fortaleza para perseverar na verdade apesar de todas as oposições;
- A Piedade para amar a Deus como Pai e servir ao próximo como irmão;
- O Temor de Deus para evitar todo pecado e crescer na santidade.
Que este grande santo, que soube unir a mais alta contemplação com a mais ardente ação apostólica, nos ensine a viver como verdadeiros filhos da luz nestes tempos de trevas.
Ó glorioso Santo Antônio, em quem resplandeceram de modo tão sublime os dons do Espírito Santo, contemplamos hoje vossa grandeza e nos humilhamos diante de tanta santidade! Vós que fostes doutor dos simples e martelo dos soberbos, luz dos ignorantes e terror dos hereges, intercedei por nós junto ao trono do Altíssimo. Alcançai-nos do Divino Paráclito aquela graça santificante para que nos transforme cada dia mais na imagem de Cristo, vosso e nosso divino Mestre. Fazei que, crescendo de virtude em virtude pela escada dos sete dons sagrados, possamos um dia contemplar convosco, na pátria celeste, aquela Verdade suprema que vós anunciastes com tanta eloquência na terra. Que vossa intercessão poderosa nos preserve dos erros do século, nos fortaleça nas tentações e nos conduza seguramente pelos caminhos da vida da graça até a glória eterna.



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