[Sermão] Os grilhões que cegam

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Sermão para o Domingo da Quinqüagésima
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 15 de fevereiro de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Nossa santa Romana Igreja neste último domingo antes da Quaresma nos apresenta um paradoxo impressionante. O Evangelho mostra um cego que enxerga e videntes que permanecem cegos. Um mendigo sentado à beira do caminho de Jericó reconhece Jesus como Filho de Davi, grita por misericórdia e recebe a vista. Os Apóstolos, que caminham com o Senhor há anos, que o veem diariamente, que O ouvem ensinar, “não compreendem nada” quando Cristo lhes anuncia Sua Paixão próxima.

Meus caros, este paradoxo não está ali por acaso. A Providência divina o colocou precisamente às vésperas da Quaresma para que nos perguntemos: qual é a nossa cegueira? Estamos entre aqueles que veem ou entre aqueles que, vendo, não veem?

I. Os vínculos que cegam

A Coleta que nossa santa Madre Igreja nos faz rezar nesta Missa nos oferece a resposta. Suplicamos ao Senhor que nos livre “dos vínculos do pecado”, a peccatorum vinculis. Notemos bem: não se trata apenas dos pecados, mas dos vínculos, das cadeias, dos grilhões. O pecado não é mero ato que passa. É uma cadeia que prende, que imobiliza, que acorrenta.

E, sobretudo, o pecado é uma cadeia que cega.

Vejamos o cego do Evangelho: está sentado. Não caminha. A cegueira o fixou à beira do caminho enquanto todos passam. Assim é o pecado habitual, meus caros. Imobiliza a alma, deixa-a sentada na miséria enquanto a vida passa, enquanto as graças passam, enquanto Deus passa.

Mas há algo ainda mais grave. Os Apóstolos não estão sentados, eles caminham com Jesus. Veem Seus milagres, ouvem Suas palavras. Contudo, quando Cristo lhes revela o mistério central da Redenção, “não compreenderam nada disso”. A palavra estava oculta para eles. Por quê? Porque o pecado não cega apenas os olhos do corpo, cega sobretudo a inteligência espiritual. Obscurece a mente. Endurece o coração.

Quantos há que, como os Apóstolos naquele momento, vivem próximos de Deus mas permanecem cegos aos grandes mistérios! Frequentam os sacramentos mas não penetram seu sentido. Ouvem sermões mas não se convertem. Rezam mas não amam. Veem mas não veem. Esta é a cegueira mais perigosa, meus caros, porque aquele que a sofre não sabe que é cego.

II. O grito da consciência

O cego de Jericó tinha ao menos esta graça: sabia que era cego. Reconhecia sua miséria. E por isso gritou. Não murmurou. Não sussurrou uma prece educada. Gritou com todas as forças: “Filho de Davi, tem piedade de mim!”

A multidão o repreendeu para que se calasse. Meus caros, aqui está um retrato da tentação perpétua que enfrentamos. Há sempre vozes que nos dizem para calar, para não gritar nossa miséria, para não incomodar com nossa necessidade de Deus. São as vozes do respeito humano, da tibieza espiritual, da vergonha mal colocada. “Não faça escândalo. Não sejas exagerado. Não perturbes os outros com tua religiosidade. Não incomode o Padre. Não vá preocupar o padre com algo que você pode resolver”.

Mas o cego não se calou. “Gritava ainda mais forte.” Aqui está a perseverança que a Quaresma exige de nós. A consciência da própria cegueira não pode ser silenciada. O reconhecimento da própria miséria não admite meias medidas.

E notemos como a Coleta é precisamente este grito. “Ouvi clementemente nossas preces, Senhor!” A Igreja inteira assume nesta oração a voz do cego. A liturgia nos ensina a gritar. Não a murmurar frouxamente, mas a suplicar com intensidade: livra-nos dos vínculos do pecado!

Esta é a primeira atitude quaresmal, meus caros: reconhecer que estamos acorrentados, que estamos cegos, e gritar por libertação. Sem este grito, não há Quaresma verdadeira. Há apenas uma simulação piedosa, um jejum farisaico, uma penitência de aparência.

III. A libertação quaresmal

Jesus pergunta ao cego: “Que queres que Eu te faça?” Pergunta desconcertante. O Senhor não vê que está diante de um cego? Não conhece nossas necessidades antes mesmo que as expressemos?

Certamente. Mas Deus quer ouvir nosso pedido. Quer que articulemos nossa súplica. Quer que reconheçamos, pela boca, o que precisamos. “Senhor, que eu veja!”, eis a oração essencial, a oração quaresmal por excelência.

Que eu veja o pecado em sua verdadeira malícia. Que eu veja a Cruz em seu verdadeiro amor. Que eu veja a mim mesmo em verdade, sem ilusões, sem mentiras consoladoras.

A Coleta pede esta mesma libertação com outra palavra: “absolutos”, soltos, desatados, libertados das cadeias. Meus caros, este é o trabalho da Quaresma. Não se trata apenas de jejuar ou de guardar abstinência. Trata-se de romper as cadeias que nos prendem ao pecado. E a primeira cadeia a romper é a da cegueira.

Como se rompem estas cadeias? Pela confissão sacramental, pela penitência sincera, pela oração perseverante. O cego gritou e foi ouvido. Nós gritaremos durante quarenta dias e seremos ouvidos. Mas é preciso gritar de verdade, não apenas mover os lábios.

IV. O cuidado contra a recaída

O Evangelho termina com uma cena consoladora: o cego curado “seguia Jesus, glorificando a Deus”. Não voltou para sua beira de caminho. Não retornou à sua antiga miséria. Seguiu a Cristo.

A Coleta termina com um pedido semelhante: “guardai-nos de toda adversidade”, ab omni adversitate custodi. Meus caros, aqui está uma sabedoria profunda. Não basta ser curado da cegueira. É necessário ser guardado contra o retorno às trevas. Não basta confessar os pecados. É necessário vigiar para não recair neles.

A adversidade de que fala a Coleta inclui precisamente isto: a tentação de voltar atrás, de retornar à cegueira, de sentar-se novamente à beira do caminho enquanto Cristo passa. Quantas vezes fazemos boas confissões quaresmais e depois, na Páscoa, já estamos de volta aos mesmos vínculos!

O remédio está no exemplo do cego: seguir Jesus. Não parar. Não voltar. Caminhar com Ele, mesmo quando o caminho conduz ao Calvário. Porque é precisamente ali, na Cruz, que nossas cadeias serão definitivamente quebradas. É ali que nossos olhos serão definitivamente abertos.

Peroração

Caríssimos fiéis, estamos hoje como aquele cego à beira do caminho de Jericó. Jesus está passando, é a santa Quaresma que se aproxima. Esta é a hora da misericórdia, o tempo favorável, o dia da salvação.

Mas será que sabemos que somos cegos? Será que reconhecemos nossos vínculos? Ou estaremos como os Apóstolos, caminhando próximos de Deus mas sem compreender nada, vendo sem ver, ouvindo sem ouvir?

Meus caros, façamos como o mendigo de Jericó. Primeiro: reconheçamos nossa miséria, sem subterfúgios. Estamos acorrentados ao pecado. Estamos cegos espiritualmente. Não tenhamos vergonha desta verdade.

Segundo: gritemos por libertação. Não deixemos que a multidão nos silencie. Não permitamos que o respeito humano amordace nossa súplica. Não deixemos que o demônio nos engane com falsos raciocínios. Gritemos durante toda a Quaresma: “Senhor, livrai-nos dos vínculos do pecado! Senhor, que vejamos!”

Terceiro: recebamos a graça da libertação nos sacramentos, especialmente na confissão. Ali Jesus nos pergunta: “Que queres que Eu te faça?” Respondamos com sinceridade: “Senhor, que eu veja!” Que vejamos a nossa iniquidade e a Misericórdia de Cristo, a nossa miséria e o seu poder.

Quarto: sigamos Cristo sem olhar para trás. Não voltemos à beira do caminho. Não retornemos às antigas cadeias. Avancemos com Ele, glorificando a Deus, mesmo quando o caminho se faz duro.

Que a Virgem Santíssima, nossa tão boa Mãe das Dores, que permaneceu fiel aos pés da Cruz quando os Apóstolos ainda estavam cegos, nos obtenha a graça da perseverança. Que possamos dizer na Páscoa, com olhos finalmente abertos: “Eu era cego, mas agora vejo. Estava acorrentado, mas agora estou livre. Estava sentado, mas agora sigo a Cristo.”

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