[Sermão] O Rei que venceu morrendo: o paradoxo supremo do cristianismo

Affresco dell'viii secolo, basilica dei santi cosma e damiano, roma

Sermão para a Festa da Exaltação da Santa Cruz
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Recife-PE, 14 de setembro de 2025 A.D.
Oratório Nossa Senhora do Rosário da Boa Vista

Caríssimos fiéis,

Celebramos hoje a Festa da Exaltação da Santa Cruz, mistério que nos coloca diante do paradoxo supremo da nossa santa religião. Como pode um rei reinar desde um patíbulo? Como pode a suprema derrota ser a maior vitória? Como pode a morte gerar a vida?

Eis as questões que o mundo não compreende e jamais compreenderá sem a luz da graça. Pois como proclama o antigo hino Vexilla Regis, cantado há quinze séculos pela Igreja: “Regnavit a ligno Deus”, “Deus reinou desde o madeiro”. Não reinará em um futuro indeterminado, ao fim dos tempos – mas reinou, precisamente ali, naquele madeiro infame, estabeleceu seu Reino eterno, e por esse madeiro reina sobre todas as almas, todas as criaturas e todas as nações, sendo o Rei dos Reis.

I. O escândalo da cruz para o mundo

Meus caros, contemplemos primeiro como a Cruz constitui verdadeiro escândalo para a sabedoria mundana. São Paulo já advertia os coríntios de que a pregação da Cruz era “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”.

Para os judeus, que esperavam um Messias mundanamente esplendoroso, político, conquistador à maneira de David, como aceitar que o Ungido do Senhor morresse na Cruz? A própria Lei declarava: “Maldito todo aquele que pende do madeiro”. Como poderia o Bendito de Deus tornar-se maldição? Para a mentalidade judaica, isto não era apenas incompreensível – era blasfêmia.

Para os gentios, educados na filosofia greco-romana, a situação não era melhor. Como poderia o Logos divino, a Razão eterna, o Princípio imutável de todas as coisas, sofrer e morrer? Para mentes formadas em Platão e Aristóteles, atribuir sofrimento à divindade era absurdo filosófico, contradição nos próprios termos.

São João Crisóstomo exprime magnificamente este paradoxo que ainda hoje escandaliza o mundo: “O juiz é julgado, a vida morre, o imortal é sepultado”. Notai bem, meus caros: o juiz dos vivos e dos mortos permite-se ser julgado por Pilatos; a própria Vida desce ao sepulcro; Aquele que é por natureza imortal experimenta a morte.

O mundo – e quando dizemos “mundo” referimo-nos ao conjunto dos que julgam segundo a carne e não segundo o espírito – o mundo vê na Cruz apenas derrota, humilhação, fracasso. Pilatos, representante do poder temporal, zomba com sua inscrição: “Jesus Nazarenus Rex Iudaeorum”. Os soldados, em sua brutalidade, tecem uma coroa de espinhos para escarnecer da realeza de Cristo. Os transeuntes, cegos em sua malícia, blasfemam: “Se és o rei de Israel, desce agora da cruz!”

Mas atenção ao que nos ensina São Leão Magno, o grande Papa que defendeu Roma dos bárbaros: “Crux Christi, quae salvandis est vita, perdendis est mors” – “A Cruz de Cristo, que para os salvos é vida, para os que perecem é morte”. A mesma Cruz – notai bem – a mesmíssima Cruz divide a humanidade em dois campos: para uns é vida eterna, para outros, morte eterna. Não há posição neutra diante da Cruz.

II. A sabedoria oculta no trono da Cruz

Mas elevemos agora nosso olhar, meus caros. Contemplemos com os olhos da fé o que os olhos da carne não podem ver. É precisamente nesta aparente derrota que Cristo manifesta sua realeza suprema.

São Bernardo de Claraval proclama com santa audácia: “Rex noster nudus pugnat et pendens triumphat”, “nosso Rei luta nu e triunfa pendente”. Que general jamais venceu batalha despojado de suas armas? Que rei conquistou império pendente de um patíbulo? E, no entanto, é exatamente assim que nosso Rei divino obtém sua maior vitória.

Como isto é possível? Santo Agostinho nos explica o segredo: “Humilis venisti, exaltatus redisti; sed etiam in ipsa humilitate exaltatus es”, “vieste humilde, voltaste exaltado; mas mesmo na humilhação foste exaltado”. Não apenas depois, não apenas na ressurreição, mas ali mesmo, naquele momento de suprema humilhação, Cristo era exaltado.

São Tomás de Aquino mostra a razão profunda desta realeza paradoxal: “Christus in cruce regnavit, quia ibi maxime apparuit ejus caritas”, “Cristo reinou na Cruz porque ali apareceu maximamente sua caridade”. E acrescenta o santo Doutor: “A Cruz foi a cátedra de onde Cristo ensinou a ciência do amor”.

Consideremos, meus caros, as dimensões deste reinado:

Primeiro, Cristo reina sobre o pecado. Como ensina Santo Irineu, bispo e mártir: “Por sua obediência no madeiro, Cristo curou a desobediência cometida no madeiro”. Adão pecou junto à árvore do paraíso; Cristo redime junto à árvore da Cruz. Adão estendeu a mão para roubar a divindade; Cristo estende os braços para restituir-nos a filiação divina.

Segundo, Cristo reina sobre os corações. Ele mesmo prometera: “Quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Os braços estendidos na Cruz não são gesto de derrota, mas um verdadeiro chamado à amizade, um abraço universal que convida toda a humanidade à unir-se ao mistério da redenção. Quantos corações empedernidos não se converteram contemplando o Crucifixo! Quantos santos não encontraram sua vocação aos pés da Cruz!

Terceiro, Cristo reina sobre o universo inteiro. São Leão Magno afirma categoricamente: “In cruce pendens, Christus totum mundum regit”, “pendente na Cruz, Cristo rege todo o mundo”. Naquele momento em que parecia mais impotente, Cristo exercia o supremo poder, refazendo a aliança entre o céu e a terra, reconciliando o divino e o humano.

III. A lógica divina que confunde a lógica humana

Meus caros, encontramo-nos aqui diante de uma lógica que transcende toda lógica humana. São João Crisóstomo maravilha-se: “Vês como a Cruz, que parecia ser maldição, tornou-se fonte de inumeráveis bênçãos?” O que era instrumento de suplício torna-se fonte de graça; o que era sinal de infâmia torna-se glória suprema.

São Boaventura contempla Cristo na Cruz como “lampas ardens et lucens, ardens amore, lucens cognitione”, “uma lâmpada ardente e luminosa, ardente de amor, luminosa de conhecimento”. Eis o paradoxo supremo: no momento das trevas do Calvário, quando o sol se escureceu ao meio-dia, brilhava a luz mais resplandecente que jamais iluminou o mundo!

Por que este caminho? Por que a sabedoria divina escolheu um meio tão contrário a toda expectativa humana? Santo Anselmo de Cantuária responde-nos: “Non decebat Deum aliter mundum restaurare nisi per mortem Filii”, “não convinha a Deus restaurar o mundo senão pela morte do Filho”. Não que Deus não pudesse escolher outro meio, ele que é onipotente poderia redimir-nos com um simples ato de vontade. Mas convinha, era apropriado, era perfeito que assim fosse.

Por quê? Porque somente assim se manifesta plenamente a justiça divina: o pecado é realmente punido, a dívida é verdadeiramente paga. Somente assim resplandece totalmente a misericórdia: Deus mesmo paga a dívida que nós devíamos. Somente assim se revela perfeitamente o amor divino – “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”.

IV. O reino da cruz em nossas vidas

Mas o que significa tudo isto para nós, caríssimos fiéis? Como devemos viver à luz deste mistério?

São Francisco de Sales recorda-nos: “O Calvário é a montanha dos amantes”. E acrescenta: “A medida do amor é amar sem medida, e Cristo na Cruz mostra esta desmesura divina”. Se queremos aprender a amar, devemos subir ao Calvário. Se queremos compreender o amor, devemos contemplar a Cruz.

Primeiro, devemos abraçar o escândalo da Cruz sem vergonha nem respeito humano. São Luís Maria Grignion de Montfort exorta-nos: “Per Crucem ad Lucem”, “pela Cruz à Luz”. Não há outro caminho. O apóstolo do verdadeiro devoção proclama ainda: “A Sabedoria eterna escolheu a Cruz desde toda eternidade como seu trono de glória”. Se a Sabedoria eterna não se envergonhou da Cruz, por que nos envergonharíamos nós?

Quantos católicos hoje escondem sua fé! Quantos têm vergonha de fazer o sinal da Cruz em público! Quantos se calam, deixam de lado suas práticas, consentem pelo silêncio com ofensas à fé, à moral, só para não “ofender” os interlocutores! Quantos buscam esconder sua fé o máximo possível com medo de serem notados? Meus caros, isto é trair aquele que não se envergonhou de morrer publicamente por nós.

Segundo, devemos viver a realeza paradoxal da Cruz. Santo Afonso de Ligório adverte-nos com santa severidade: “Toda a vida de Cristo foi Cruz e martírio, e tu buscas descanso e alegria?” Não podemos ser discípulos de um Rei coroado de espinhos enquanto buscamos apenas coroas de rosas.

Reinar com Cristo significa reinar sobre nossas paixões através da mortificação. Significa vencer o orgulho pela humildade, a avareza pela generosidade, a luxúria pela castidade. Significa aceitar as cruzes quotidianas – as doenças, as contrariedades, as humilhações – não como castigos, mas como participação no reinado de Cristo.

Terceiro, devemos aprender a julgar todas as coisas segundo a sabedoria da Cruz. O Santo Cura d’Ars, modelo dos sacerdotes, ensinava: “A Cruz é a escada do Céu”. O que o mundo considera sucesso pode ser fracasso aos olhos de Deus. O que o mundo julga derrota pode ser vitória eterna.

Peroração: o triunfo eterno da cruz

Caríssimos fiéis, São Bernardo assegura-nos: “O bom Jesus fez-se desprezível para ser mais amável”. O que o mundo despreza, nós abraçamos com amor. O que o mundo rejeita como loucura, nós aceitamos como suprema sabedoria.

Santo Agostinho revela-nos ainda um derradeiro mistério: “Dormiens in cruce, de latere suo formavit sibi Ecclesiam”, “dormindo na Cruz, do seu lado formou para si a Igreja”. Como do lado de Adão adormecido Deus formou Eva, assim do lado de Cristo dormindo o sono da morte na Cruz, nasceu nossa Santa Madre Igreja, sua Esposa Imaculada. Nós somos fruto da Cruz!

Um dia, meus caros – e esse dia não tardará, pois nossa vida é breve como a relva que pela manhã floresce e à tarde fenece – um dia o sinal da Cruz aparecerá glorioso no céu. Então, aqueles que abraçaram o “escândalo” reinarão eternamente com Cristo. Aqueles que rejeitaram a “loucura” da Cruz reconhecerão, tarde demais, que era a suprema sabedoria.

Como canta a Santa Romana Igreja no hino Pange Lingua: “Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis”, ”Cruz fiel, entre todas, árvore única e nobre”. Esta árvore, regada com o Sangue preciosíssimo de Cristo, produz frutos de vida eterna.

“O Crux ave, spes unica!”, “Salve, ó Cruz, esperança única!” Adoremos, pois, a Santa Cruz não apenas como instrumento de tortura transformado em símbolo de salvação, mas como o verdadeiro trono onde Cristo estabeleceu seu Reino eterno. Reino que começa no escândalo e termina na glória. Reino que passa pela morte e desemboca na vida. Reino que desce ao abismo da humilhação e sobe ao cume da exaltação.

Que a Santa Cruz seja nossa glória, nossa sabedoria, nossa esperança. Que possamos dizer com São Paulo: “Quanto a mim, não quero gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. E assim, desprezados pelo mundo mas amados por Deus, loucos aos olhos dos homens mas sábios diante do Eterno, derrotados no tempo mas vitoriosos na eternidade, reinemos com Cristo, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

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